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O argumento do cidadão Weston baseia-se, na
realidade, em duas premissas:
1ª) que o volume da produção nacional é
algo de fixo, uma quantidade ou grandeza
constante, como diriam os matemáticos;
2ª) que o montante dos salários reais, isto
é, dos salários medidos pelo volume de mercadorias
que permitem adquirir é também uma soma fixa, uma
grandeza constante.
Pois bem a sua primeira asserção é
manifestamente falsa. Podeis ver que o valor e o
volume da produção aumentam de ano para ano, que
as forças produtivas do trabalho nacional crescem
e que a quantidade de dinheiro necessário para pôr
em circulação esta crescente produção varia sem
cessar. O que é exato no fim de cada ano e para
diferentes anos comparados entre si, também o é
com respeito a cada dia médio do ano.
O volume ou grandeza da produção nacional
varia continuamente. Não é uma grandeza constante,
mas variável, e assim tem que ser, mesmo sem levar
em conta as flutuações da população, devido às
contínuas mudanças que se operam na acumulação de
capital e nas forças produtivas do trabalho. É
inteiramente certo que se hoje houvesse um aumento
da taxa geral de salários, este aumento por si só,
quaisquer que fossem os seus resultados
ulteriores, não alteraria imediatamente o volume
da produção. Em primeiro lugar, teria que brotar
do estado de coisas existente. E se a produção
nacional, antes da elevação dos salários era
variável, e não fixa, ela continuaria a sê-lo,
também, depois da alta.
Admitamos, porém, que o volume da produção
nacional fosse constante em vez de variável. Ainda
neste caso, aquilo que o nosso amigo Weston
considera uma conclusão lógica permaneceria como
uma afirmação gratuita. Se tomo um determinado
número, digamos 8, os limites absolutos deste
algarismo não impedem que variem os limites
relativos de seus componentes. Por exemplo: se o
lucro fosse igual a 6 e os salários a 2, estes
poderiam aumentar até 6 e o lucro baixar a 2, que
o número resultante não deixaria por isso de ser
8. Desta maneira, o volume fixo da produção jamais
conseguirá provar que seja fixo o montante dos
salários. Como, então, nosso amigo Weston
demonstra essa fixidez? Simplesmente, afirmando-a.
Mas mesmo dando como boa a sua afirmativa,
ela teria efeito em dois sentidos, ao passo que
ele quer faze-la vigorar apenas em um. Se o volume
dos salários representa uma quantidade constante,
não poderá aumentar, nem diminuir. Portanto, se os
operários agem como tolos, ao arrancarem um
aumento temporário de salários, não menos
tolamente estariam agindo os capitalistas, ao
impor uma baixa temporária dos salários. Nosso
amigo Weston não nega que, em certas
circunstâncias, os operários podem arrancar
aumentos de salários, mas, segundo ele, como por
lei natural a soma dos salários é fixa, este
aumento provocará, necessariamente, uma reação.
Por outro lado, ele sabe também que os
capitalistas podem, do mesmo modo, impor uma baixa
de salários, e tanto assim que o estão tentando
continuamente. De acordo com o princípio do nível
constante dos salários, neste caso deveria ter
lugar uma reação, exatamente como no anterior. Por
conseguinte, os operários agiriam com acerto
reagindo contra as baixas de salários ou contra as
tentativas em ta1 sentido. Procederiam, portanto,
acertadamente, ao arrancar aumentos de salários,
pois toda reação contra uma baixa de salários é
uma ação a favor do seu aumento. Logo, mesmo que
aceitássemos o princípio do nível constante dos
salários, como sustenta o cidadão Weston, vemos
que os operários devem, em certas circunstâncias,
unir-se e lutar pelo aumento de salários.
Para negar esta conclusão ele teria que
renunciar à premissa em que se baseia. Não deveria
dizer que o volume dos salários é uma grandeza
constante, mas, sim, que embora não possa, nem
deva aumentar, pode e deve baixar todas as vezes
que o capital sinta vontade de diminuí-lo.
Se o capitalista quer vos alimentar com
batatas, em vez de carne, ou com aveia em vez de
trigo, deveis acatar a sua vontade como uma lei da
economia política e vos submeter a ela. Se num
país, por exemplo, nos Estados Unidos, as taxas de
salários são mais altas do que em outro, por
exemplo na Inglaterra, deveis; explicar esta
diferença no nível dos salários como uma diferença
entre a vontade do capitalista norte-americano e a
do capitalista inglês; método este que, sem
dúvida, simplificaria Imenso não já apenas o
estudo dos fenômenos econômicos, como também o de
todos os demais fenômenos.
Ainda assim caberia perguntar: Por que a
vontade do capitalista norte-americano difere da
do capitalista inglês? E para responder a esta
questão, não teriam outro remédio senão Ir além
dos domínios da vontade. É possível que venha um
padre dizer-me que Deus quer na França uma coisa e
na Inglaterra outra. E se o convido a explicar
esta dualidade de vontade, ele poderá ter a
impudência de responder que está nos desígnios de
Deus ter uma vontade em França e outra na
Inglaterra. Mas nosso amigo Weston será, com
certeza, a última pessoa a converter em argumento
esta negação completa de todo raciocínio.
Sem sombra de dúvida, a vontade do
capitalista consiste em encher os bolsos o mais
que possa. E o que temos a fazer não é divagar
acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder,
os limites desse poder e o caráter desses limites.
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A conferência proferida pelo cidadão Weston
poderia ser condensada a ponto de caber numa casca
de noz.
Toda a sua argumentação reduz-se ao
seguinte: se a classe operária obriga a classe
capitalista a pagar-lhe, sob a forma de salário em
dinheiro, 5 xelins em vez de 4, o capitalista
devolver-lhe-á, sob a forma de mercadorias, o
valor de 4 xelins em vez do valor de 5. Então a
classe operária terá que pagar 5 xelins pelo que
antes da alta de salários lhe custava apenas 4. E
por que ocorre isto? Por que o capitalista só
entrega o valor de 4 xelins por 5? Porque o
montante dos salários é fixo. Mas por que fixo
precisamente no valor de 4 xelins em mercadorias?
Por que não, em 3, em 2, ou outra qualquer
quantia? Se o limite do montante dos salários está
fixado por uma lei econômica, independente tanto
da vontade do capitalista como da do operário, a
primeira coisa que deveria ter feito o cidadão
Weston era expor e demonstrar essa lei. Deveria
provar, além disso, que a soma de salários
efetivamente pagos em cada momento dado,
corresponde sempre, exatamente, à soma necessária
dos salários, e nunca se desvia dela. Em
compensação, se o limite dado da soma de salários
depende da simples vontade do capitalista, ou das
proporções da sua avareza, trata-se de um limite
arbitrário, que nada tem em si de necessário.
Tanto pode ser modificado pela vontade do
capitalista, como também se pode fazê-lo variar
contra a sua vontade.
O cidadão Weston ilustrou a sua teoria
dizendo-nos que se uma terrina contém determinada
quantidade de sopa, destinada a determinado número
de pessoas, a quantidade de sopa não aumentará se
se aumentar o tamanho das colheres. Seja-me
permitido considerar este exemplo pouco
substancioso. Ele me faz lembrar um pouco aquele
apólogo de que se valeu Menênio Agripa . Quando a
plebe romana entrou em luta contra os patrícios, o
patrício Agripa disse-lhes que a panca patrícia é
que alimentava os membros plebeus do organismo
político. Mas Agripa não conseguiu demonstrar como
se alimentam os membros de um homem quando se
enche a barriga de outro. O cidadão Weston, por
sua vez, se esquece de que a terrina da qual comem
os operários, contém todo o produto do trabalho
nacional, e o que os impede de tirar dela uma
ração maior não é nem o tamanho reduzido da
terrina, nem a escassez do seu conteúdo, mas
unicamente a pequena dimensão de suas colheres.
Graças a que artifício consegue o
capitalista devolver um valor de 4 xelins por
aquilo que vale 5? A alta dos preços das
mercadorias que vende. Mas então, a alta dos
preços, ou falando em termos mais gerais, as
variações nos preços das mercadorias, os próprios
preços destas, porventura dependem da simples
vontade do capitalista? Ou, ao contrário, são
necessárias determinadas circunstâncias para que
prevaleça essa vontade? Se não fosse assim, as
altas e baixas, as incessantes oscilações dos
preços no mercado seriam um enigma indecifrável.
Se admitimos que não se operou em absoluto
alteração alguma, nem nas forças produtivas do
trabalho, nem no volume do capital e do trabalho
empregados, ou no valor do dinheiro em que se
expressam os valores dos produtos, mas que se
alteraram tão somente as taxas de salários, de que
maneira poderia esta alta de salários influir nos
preços das mercadorias? Somente influindo na
proporção real entre a oferta e a procura dessas
mercadorias.
É inteiramente certo que a classe operária,
considerada em. conjunto, gasta e será
forçosamente obrigada a gastar a tua receita em
artigos de primeira necessidade. Uma alta geral na
taxa de salários provocaria, portanto, um aumento
da procura de artigos de primeira necessidade e,
consequentemente, um aumento de seus preços no
mercado. Os capitalistas que produzem estes
artigos de primeira necessidade compensariam o
aumento de salários por meio da alta dos preços
dessas mercadorias. Mas que sucederia com os
demais capitalistas que não produzem artigos de
primeira necessidade? E podeis estar certos que o
seu número não é pequeno. Se levardes em conta que
duas terças partes da produção nacional são
consumidas por um quinto da população - um
deputado da Câmara dos Comuns declarou,
recentemente, que tais consumidores constituem
apenas a sétima parte da população -, podereis
imaginar que enorme parcela da produção nacional
se destina a objetos de luxo, ou a ser trocada por
objetos de luxo, e que imensa quantidade de
artigos de primeira necessidade se desperdiça em
criadagem, cavalos, gaios, etc., esbanjamento esse
que, como nos ensina a experiência, diminui cada
vez mais, com a elevação dos preços dos artigos de
primeira necessidade.
Pois bem, qual seria a situação desses
capitalistas que não produzem artigos de primeira
necessidade? Não poderiam compensar a queda na
taxa de lucro, após a alta geral de salários,
elevando os preços de suas mercadorias, visto que
a procura destas não teria aumentado. A sua renda
diminuiria; e com esta renda diminuída teriam de
pagar mais pela mesma quantidade de artigos de
primeira necessidade. que subiriam de preço. Mas a
coisa não pararia ai. Diminuída a sua renda, menos
teriam para gastar em artigos de luxo, com o que
também se reduziria a procura recíproca de suas
respectivas mercadorias. E como conseqüência desta
diminuição da procura, cairiam os preços das suas
mercadorias. Portanto, nestes ramos da indústria,
a taxa de lucros cairia, não sã em proporção
simplesmente ao aumento geral da taxa de salários,
como, também, essa queda seria proporcional à ação
conjunta da alta geral de salários, do aumento de
preços dos artigos de primeira necessidade e da
baixa de preços dos artigos de luxo.
Qual seria a conseqüência desta diferença
entre as taxas de lucro dos capitais colocados nos
diversos ramos da indústria? Ora, a mesma que se
produz sempre que, seja qual for a causa, se
verificam diferenças nas taxas médias de lucro dos
diversos ramos da produção. O capital e o trabalho
se deslocariam dos ramos menos remunerativos para
os que o fossem. mais; e este processo de
deslocamento iria durar até que a oferta em um
ramo industrial aumentasse a ponto de se nivelar
com a maior procura e nos demais ramos industrial
diminuísse proporcionalmente à menor procura. Uma
vez operada esta mudança, a taxa geral de lucro
voltaria a igualar-se nos diferentes ramos da
indústria. Como todo esse desarranjo obedecia
originalmente a uma simples mudança na relação
entre a oferta e a procura de diversas
mercadorias, cessando a causa, cessariam também os
efeitos, e os preços voltariam ao seu antigo nível
e ao antigo equilíbrio. A redução da taxa de
lucro, por efeito dos aumentos de salários, em vez
de limitar-se a uns quantos ramos da indústria,
tornar-se-ia geral. Segundo a suposição de que
partimos, nenhuma alteração ocorreria nas forças
produtivas do trabalho, nem no volume global da
produção, sendo que aquele volume dado de produção
apenas teria mudado de forma. Uma maior parte do
volume de produção estaria representada por
artigos de primeira necessidade, ao passo que
diminuiria a parte dos artigos de luxo, ou, o que
vem a ser o mesmo, diminuiria a parte destinada à
troca por artigos de luxo importados do
estrangeiro e consumida desta forma; ou, o que
ainda é o mesmo, em outros termos, uma parte maior
da produção nacional seria trocada por artigos
importados de primeira necessidade, em lugar de
ser trocada por artigos de luxo. Isto quer dizer
que, depois de transtornar temporariamente os
preços do mercado, a alta geral da taxa de
salários só conduziria a uma baixa geral da taxa
de lucro, sem introduzir nenhuma alteração
permanente nos preços das mercadorias.
Se me disserem que, na anterior
argumentação, dou por estabelecido que todo o
aumento de salários se gasta em artigos de
primeira necessidade, replicarei que fiz a
suposição mais favorável ao ponto de vista do
cidadão Weston. Se o aumento dos salários fosse
aplicado em objetos que antes não entravam no
consumo dos trabalhadores, seria inútil que nos
detivéssemos a demonstrar que seu poder aquisitivo
havia experimentado um aumento real. Sendo porém,
mera conseqüência da elevação de salários, este
aumento do poder aquisitivo dos operários terá de
corresponder, exatamente, à diminuição do poder
aquisitivo dos capitalistas. Vale dizer, portanto,
que a procura global de mercadorias não
aumentaria, e apenas mudariam os elementos
integrantes dessa procura. O incremento da procura
de um lado seria contrabalançado pela diminuição
da procura do outro lado. Deste modo, como a
procura global permaneceria invariável, não se
operaria mudança de cunho algum nos preços das
mercadorias.
Chegamos, assim, a um dilema: ou o
incremento dos salários se gasta por igual em
todos os artigos de consumo, caso em que o aumento
da procura por parte da classe operária tem que
ser compensado pela diminuição da procura por
parte da classe capitalista; ou o incremento dos
salários só se gasta em determinados artigos cujos
preços no mercado aumentarão temporariamente.
Neste caso, a conseqüente elevação da taxa de
lucro em alguns ramos da indústria e a conseqüente
baixa da taxa de lucro em outros provocarão uma
mudança na distribuição do capital e do trabalho,
que persiste até que a oferta se tenha ajustado à
maior procura em alguns ramos da indústria e à
menor procura nos outros. Na primeira hipótese não
se produzirá nenhuma mudança nos preços das
mercadorias. Na outra hipótese, após algumas
oscilações dos preços do mercado, os valores de
troca das mercadorias baixarão ao nível anterior.
Em ambos os casos, chegaremos à conclusão de que a
alta geral da taxa de salários conduzirá, afinal
de contas, a nada menos que uma baixa geral da
taxa de lucro.
Para espicaçar o vosso poder de imaginação,
o cidadão Weston vos convidava a pensar nas
dificuldades que acarretaria à Inglaterra uma alta
geral de 9 para 18 xelins nas jornadas dos
trabalhadores agrícolas. Meditai, exclamou ele, no
enorme acréscimo da procura de artigos de primeira
necessidade em que isso Implicaria e, como
conseqüência, na terrível ascensão dos preços, a
que daria lugar! Pois bem, todos sabeis que os
salários médios dos trabalhadores agrícolas da
América do Norte são mais do dobro dos
trabalhadores agrícolas ingleses, apesar de os
preços dos produtos da lavoura serem mais baixos
nos Estados Unidos do que na Grã-Bretanha, apesar
de reinarem nos Estados Unidos as mesmas relações
gerais entre o capital e o trabalho que na
Inglaterra e apesar de que o volume anual da
produção norte-americana é muito mais reduzido que
o da inglesa. Por que, então, o nosso amigo toca
com tanto vigor este sino? Simplesmente para
desviar a nossa atenção do verdadeiro problema. Um
aumento repentino de 9 para 18 xelins nos salários
representaria um acréscimo repentino de 100 por
cento. Ora, não estamos discutindo aqui se seria
possível duplicar na Inglaterra, de súbito, a taxa
dos salários. Não nos interessa em nada a grandeza
do aumento, que em cada caso concreto depende de
determinadas circunstâncias e tem que se adaptar a
elas. Apenas nos interessa investigar quais os
efeitos em que se traduziria uma alta geral da
taxa dos salários, mesmo que não fosse além de um
por cento.
Pondo de lado este aumento imaginário de
100 por cento do amigo Weston, desejo chamar a
vossa atenção para o aumento efetivo de salários
operado na Grã-Bretanha de 1849 a 1859.
Todos vós conheceis; a Lei das Dez Horas2 ,
ou, mais precisamente, das Dez Horas e Meia,
promulgada em 1848. Foi uma das maiores
modificações econômicas que já presenciamos.
Representou um aumento súbito e obrigatório de
salários não em umas quantas indústrias locais,
porém nos ramos industriais mais eminentes, por
meio dos quais a Inglaterra domina os mercados do
mundo. Foi uma alta de salários em circunstâncias
singularmente desfavoráveis. O Dr. Ure, o prof.
Senior e todos os demais porta-vozes oficiais da
burguesia no campo da economia demonstraram, e
devo dizer, com razões muito mais sólidas do que
as do nosso amigo Weston, que aquilo era o dobre
de finados da indústria inglesa. Demonstraram que
não se tratava de um simples aumento de salário,
mas de um aumento de salários provocado pela
redução da quantidade de trabalho empregado, e
nela fundamentado. Afirmaram que a duodécima hora
que se queria arrebatar ao capitalista era
justamente aquela em que este obtinha o seu lucro.
Ameaçaram com o decréscimo da acumulação, a alta
dos preços, a perda dos mercados, a redução da
produção, a conseqüente reação sobre os salários
e, enfim, a ruína. Sustentavam que a lei de
Maximíliano Robespierre sobre os limites máximos2
era uma ninharia comparada com esta outra; e, até
certo ponto, tinham razão. Mas qual foi, na
realidade, o resultado? Os salários em dinheiro
dos operários fabris aumentaram, apesar de se
haver reduzido a jornada de trabalho; cresceu
consideravelmente o número de operários em
atividade nas fábricas; baixaram constantemente os
preços dos seus produtos; desenvolveram-se às mil
maravilhas as forças produtivas do seu trabalho e
se expandiram progressivamente, em proporções
nunca vistas, os mercados para os seus artigos. Em
Manchester, na assembléia da Sociedade Pelo
Progresso da Ciência, em 1860, eu próprio ouvi o
Sr. Newman confessar que ele, o Dr. Ure, Senior e
todos os demais representantes oficiais da ciência
econômica se haviam equivocado, ao passo que o
instinto do povo não falhara. Cito neste passo o
Sr. W. Newman3 e não o prof. Francis Newman,
porque ele ocupa na ciência econômica um lugar
proeminente, como colaborador e editor da History
of Price ["História dos Preços”) da autoria do sr.
Thomas Tooke, essa obra magnífica, que traça a
história dos preços desde 1793 a 1856. Se a idéia
fixa de nosso amigo Weston acerca do volume fixo
dos salários de um volume de produção fixo, de um
grau fixo de produtividade do trabalho, de uma
vontade fixa e constante dos capitalistas e tudo o
mais que há de fixo e imutável em Weston, fossem
exatos, o prof. Senior teria acertado em seus
sombrios presságios, e Robert Owen ter-se-ia
equivocado, ele que, já em 1816, pedia uma
limitação geral da jornada de trabalho como
primeiro passo preparatório para a emancipação da
classe operária, Implantando-a efetivamente, por
conta e risco próprios, na sua fábrica têxtil de
New Kanark, contra o preconceito generalizado. 4
Na mesmíssima época em que entrava em vigor
a Lei das Dez Horas e se produzia o subseqüente
aumento dos salários, ocorreu na Grã-Bretanha, por
motivo que não vem ao caso relatar, uma elevação
geral dos salários dos trabalhadores agrícolas.
Conquanto Isto não seja indispensável ao
meu objetivo imediato, desejo fazer algumas
observações preliminares, para vos colocar melhor
no assunto.
Se um homem percebe 2 xelins de salário por
semana e seu salário aumenta para 4 xelins, a taxa
do salário aumentará 100 por cento. Isto, expresso
como aumento da taxa de salário, pareceria algo
maravilhoso, ainda que na realidade a quantia
efetiva do salário, ou sejam, os 4 xelins por
semana. continue a ser um ínfimo, um mísero
salário de fome. Portanto, não vos deveis fascinar
pelas altissonantes percentagens da taxa de
salário. Deveis perguntar sempre: qual era a
quantia original?
Outra coisa que também compreendereis é que, se há
dez operários que ganham cada um 2 xelins por
semana, 5 ganhando 5 xelins cada um e outros 5 que
ganhem 11, eles, os 20, ganharão 100 xelins, ou 5
libras esterlinas por semana. Logo, se a soma
global destes salários semanais aumenta, digamos
de uns 20 por cento, haverá uma melhora de 5 para
6 libras. Tomando a média, poderíamos dizer que a
taxa geral de salários aumentou de 20 por cento,
embora na realidade os salários de dez dos
operários variassem, os salários de um dos dois
grupos de cinco operários só aumentassem de 5 para
6 xelins por cabeça e os do outro grupo de 5
operários se elevassem, ao todo, de 55 para 70
xelins6. Metade dos operários não melhoraria
absolutamente nada de situação, a quarta parte
deles teria uma melhoria insignificante e somente
a quarta parte restante obteria um benefício
sensível. Calculando, porém, a média, a soma
global dos salários destes 20 operários aumentaria
de 20 por cento e no que se refere ao capital
global, para o qual trabalham, bem como no
concernente aos preços das mercadorias que
produzem, seria exatamente o mesmo como se todos
participassem por igual na elevação média dos
salários. No caso dos trabalhadores agrícolas,
como os salários médios pagos nos diversos
condados da Inglaterra e Escócia diferem
consideravelmente, o aumento foi muito desigual.
Enfim, durante a época em que se processou
aquele aumento de salários, manifestaram-se,
também, Influências que o contrabalançavam, tais
como os novos impostos lançados no cortejo da
Guerra da Criméia7, a demolição extensiva das
habitações dos trabalhadores agrícolas, etc.
Feitas estas reservas, vou agora prosseguir, para
constatar que de 1849 a 1859 a taxa média dos
salários agrícolas na Grã-Bretanha registrou um
aumento de cerca de 40 por cento. Poderia dar-vos
amplos detalhes em apoio da minha afirmação, mas
para o objetivo em mira creio que bastará
indicar-vos a obra de crítica, tão conscienciosa,
lida em 1860 pelo finado sr. John C. Morton, na
Sociedade de Artes e Ofícios de Londres, Sobre as
Forças Empregadas na Agricultura. O sr. Morton
expõe os dados estatísticos colhidos nas contas e
outros documentos autênticos de uns cem
agricultores, aproximadamente, em doze condados da
Escócia e trinta e cinco da Inglaterra.
Segundo o ponto de vista do nosso amigo
Weston, e em harmonia com a alta simultânea
operada nos salários dos operários de fábrica,
durante o período 1849-1859, os preços dos
produtos agrícolas deveriam ter registrado um
aumento enorme. Mas o que aconteceu realmente?
Apesar da Guerra da Criméia e das péssimas
colheitas consecutivas de 1854 a 1856, os preços
médios do trigo, o produto agrícola mais
importante da Inglaterra, baixaram de cerca de 3
libras esterlinas por quarter8, como eram cotados
de 1838 a 1848, para cerca de 2 libras e 10 xelins
por quarter, nas cotações do período de 1849 a
1859. Representa isto uma baixa de mais de 16 por
cento no preço do trigo, em simultaneidade com um
aumento médio de 40 por cento nos salários
agrícolas. Durante a mesma época, se compararmos o
seu final com o começo, quer dizer, o ano de 1859
com o de 1849, a cifra do pauperismo oficial desce
de 934419 a 860470, o que supõe uma diferença de
73949 pobres; reconheço que é um decréscimo muito
pequeno, e que se voltou a perder nos anos
seguintes, mas, em todo caso, é sempre uma
diminuição.
Pode-se objetar que, em conseqüência da anulação
das leis sobre os cereais9, a importação de trigo
estrangeiro mais que duplicou, no período de
1849-1859, comparada à de 1838-1848. E que
significa isso? Do ponto de vista do cidadão
Weston, dever-se-ia supor que esta enorme procura,
repentina e sem cessar crescente, sobre os
mercados estrangeiros tivesse `eito subir a uma
altura espantosa os preços dos produtos agrícolas,
posto que os efeitos de uma crescente procura são
os mesmos, quer venham de fora ou de dentro do
país. Mas o que ocorreu na realidade? Afora alguns
anos de colheitas decepcionantes, durante todo
este período a ruinosa baixa no preço do trigo
constituiu um motivo permanente de queixas, na
França; os norte-americanos viram-se várias vezes
obrigados a queimar excedentes da produção; e a
Rússia, se acreditarmos no sr. Urquhart, atiçou a
guerra civil nos Estados Unidos, porque a
concorrência ianque nos mercados da Europa
paralisava a sua exportação de produtos agrícolas.
Reduzido à sua forma abstrata, o argumento
do cidadão Weston traduzir-se-ia no seguinte: todo
aumento da procura se opera sempre à base de um
dado volume de produção. Portanto, não pode fazer
aumentar nunca a oferta dos artigos procurados,
mas unicamente fazer subir o seu preço em
dinheiro. Ora, a mais comum observação demonstra
que, em alguns casos, o aumento da procura deixa
inalterados os preços das mercadorias e provoca,
em outros casos, uma alta passageira dos preços do
mercado, à qual se segue um aumento da oferta, por
sua vez seguido pela queda dos preços até o nível
anterior e, em muitos casos, abaixo dele. Que o
aumento da procura obedeça à alta dos salários, ou
a outra causa qualquer, isto em nada modifica os
dados do problema. Do ponto de vista do cidadão
Weston, tão difícil é explicar o fenômeno geral
como o que se revela sob as circunstâncias
excepcionais de um aumento de salários. Portanto,
a sua argumentação não tem nenhum valor para o
assunto de que tratamos. Apenas exprimiu a sua
perplexidade ante as leis em virtude das quais um
acréscimo da procura engendra um acréscimo da
oferta, em vez de um aumento definitivo dos preços
no mercado.
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Menénio Agripa, cônsul romano em 502 A.C., que ao
Intervir numa revolta da plebe, fez um apelo à
concórdia baseado no ardiloso apólogo de “Os
membros e o estômago”. (N. da Ed. Bras.)
2 A Lei das Dez Horas, que reduziu e
regulamentou a duração da jornada de trabalho,
representou, na época, uma vitória da classe
operária inglesa. (N. da Ed. Bras.)
3 A lei sobre os limites máximos, dita Lei
do Máximo, foi promulgada pela Convenção Jacobina
de 1793, durante a revolução burguesa da França.
Fixava, rigidamente, os limites dos preços das
mercadorias e dos salários. (N. da R.)
4 Marx se equivocou no nome do editor da
obra de Thomas Tooke, que foi W. Newrnarch, e não
W. Newman. (N. da R.)
5 Robert Owen (1771/1858) foi um industrial
britânico que se tornou socialista utópico.
Introduziu em sua fábrica a jornada de dez horas
de trabalho e organizou um seguro por doença,
sociedades cooperativas de produtores, etc.
Veja-se a obra de Engels. Do Socialismo Utópico no
Socialismo Científico, ed. bras., Ed. Horizonte,
pgs. 61-63, Rio de Janeiro, 1945. (N. da Ed. Bras.)
6 O salário de 25+55 xelins teria subido
para 30+70, Isto é, ao todo de 80 para 100, ou
25%. É verdade que os salário de 2 xelins. que
ficaram na mesma para as dez pessoas do primeiro
grupo, não foram contados. Senão seria preciso,
para obter um aumento médio de salários de 255c.
elevar os salários do último grupo de 55 a 75
xelins, ou fazer passar o salário de cinco
operários de 11 a 15 xelins cada um. (N. da Ed.
Francesa)
7 A Guerra da Criméia durou de 1854 a 1856 e teve
a participação de tropas britânicas. francesas.
turcas e sardas, contra os exércitos do czar
Nicolau I. com esta guerra, a Grã-Bretanha
procurou conter as arremetidas expansionistas do
czar, em direção ao estreito de Bósforo, que eram
tidas como uma ameaça ao Imperialismo britânico no
Mediterrâneo. (N. da Ed. Bras.)
8 Quarter, medida inglesa de capacidade,
que eqüivale a 8 bushels, ou seja, cerca de 290
litros. (N. da Ed. Bras.)
9 As leis sobre o comércio de cereais,
ditas em inglês Com Laws, foram abolidas pelo
primeiro-ministro Robert Peel, em 1846. Os cereais
importados do estrangeiro passaram a pagar uma
taxa aduaneira reduzida, em 1849, apenas a 1 xelim
por quarter. A revogação das Corn Laws abriu. de
fato, as alfândegas inglesas aos cereais
importados. (N. da Ed. Bras.)
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