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Índice

Índice
.
Apresentação
.Prefácio
.I - Dogmátismo e liberdade de crítica
.II - A espontaneidade das massas e o espírito da consciência da social-democracia
.III - Politica sindical e polítca socail-democrata
.IV - Os métodos artesanais dos "economistas" e a organização dos revolucionários
.V - "Plano" de um jornal político para toda a Rússia
.Conclusão

 
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Formação marxista

 Biblioteca marxista
 
Que Fazer?
As questões palpitantes do nosso movimento


V.I. LÊNIN
Editora Hucitec - São Paulo, 1979


A luta interior dá força e vitalidade ao partido; a melhor prova da fraqueza de um partido é sua posição difusa e a extinção de fronteiras nitidamente traçadas; o Partido reforça-se depurando-se...

(trecho de uma carta de Lassalle a Marx, de 24 de junho de 1852)
 

Apresentação

 

O A publicação de Que Fazer? no Brasil constitui um acontecimento de grande significação política, malgrado as presentes condições nas quais vivemos e a debilidade crônica do nosso movimento socialista. Está fora de dúvida que essa não é a maior obra de Lênin. Contudo, ela caracteriza o momento no qual o leninismo se revela em seus componentes essenciais: em nove anos de experiência, de lutas constantes, de perseguições e de enorme fermentação criadora, um jovem publicista da ala esquerda da social-democracia russa punha-se à frente da vanguarda teórica desse partido. Apenas nove anos? O que se pode realizar quando a história se move para a frente e o pensamento revolucionário é exposto a todas as tensões de forças contrárias, da mais odiosa opressão de um regime autocrático cruel e de sua terrível repressão policial às inquietações da intelligentsia, dos estudantes, dos radicais de uma burguesia impotente e, em particular, das pressões crescentes das massas populares, do campo e da cidade! Em suma, quando o pensamento revolucionário aceita suas tarefas, as enfrenta com tenacidade, esclarecimento e coragem, procurando avançar sempre para a frente, relacionando meios e fins que podem transformar a “oportunidade histórica" em história real.

Haveria muito que debater sobre este pequeno livro e seu significado no movimento socialista revolucionário. Não obstante, seria fora de propósito ornamentar Que Fazer? com qualquer pretenso comentário erudito. Os seus leitores podem ressentir-se da precisão de Marx, por exemplo, nos comentários rigorosos à Crítica do Programa de Gotha. No entanto, Que Fazer? introduz no marxismo uma nova dimensão política. Na verdade, ele é uma resultante de um acidentado, heróico e construtivo labor coletivo: o que várias tendências do populismo, do radicalismo e do socialismo criaram na Rússia dos meados do século XIX à sua última década. Uma experiência filtrada por Lênin e amadurecida por sua penetrante acuidade à contribuição do movimento socialista europeu, especialmente na Alemanha, França e Inglaterra. Não se pode ignorar figuras como Plekhânov, Axerold e Zasulítich (além de outros companheiros do ISKRA e da ala esquerda do RO.S.D.R.), cuja produção teórica e visão dos problemas práticos do marxismo na Rússia alimentaram a aprendizagem e os primeiros tirocínios de Lênin. Todavia, ele os suplanta com uma rapidez incrível. Que Fazer? marca uma nova etapa, que deixa tudo para trás. De sua edição em diante, a Rússia não seria o cenário da transmutação pura e simples do marxismo em movimento revolucionário triunfante. Nascia o marxismo-leninismo como teoria revolucionária e como prática revolucionária organizada. A própria Europa ficava para trás, apesar da importância da II Internacional e dos seus grandes teóricos, e da densidade do movimento operário europeu.

Neste breve comentário, gostaria de concentrar-me em três questões mais importantes para os leitores brasileiros no momento atual. A primeira, diz respeito ao próprio Lênin: porque ele já estava politicamente qualificado para escrever uma obra tão simples mas de conseqüências tão profundas e permanentes? A segunda, impõe-se como decorrência: o que representa a concepção do marxismo que Que Fazer? propõe? A terceira, vincula-se ao aqui e ao agora: o que um livro como esse testemunha quanto à nossa própria imaturidade e impotência políticas no Brasil e na América Latina?

Quanto ao primeiro tema, se Lênin era um "cérebro político" privilegiado (descrito por Trotsky como o único estrategista da revolução bolchevique), ele também recebe uma herança política privilegiada e viveu em um momento histórico privilegiado. Não penso em simplificar as coisas, para chegar a uma redução determinista do papel do herói na História. Isso seria indigno de qualquer comentário mais ou menos lúcido do significado de Que Fazer?; e, em particular, entraria em conflito com o modo pelo qual Lênin se via como um "publicista de partido". Um livro escrito entre o outono de 1901 e fevereiro de 1902, publicado em março de 1902 - mas que se propunha os problemas centrais da teoria e da prática revolucionárias na Rússia e na Europa - transcende a uma datação localizada. Ele responde a muitas questões contraditórias e a grandeza criadora de Lênin aparece na propriedade das perguntas, que formula, e na qualidade das respostas (ou das soluções), que apresenta (numa linguagem que é sempre simples, direta, embora marcadamente irônica e mordaz: Lênin não se propunha uma "leitura" de Marx - o que ele queria era descobrir os meios mais eficazes de converter uma, revolução potencial, bastante forte para deixar a vanguarda teórica deslocada pelas exigências e alguns avanços das massas populares, no ponto de partida da desagregação do regime tzarista e de uma revolução permanente na qual o marxismo se impusesse como uma cunha irremovível, capaz de suplantar o liberalismo e o radicalismo burgueses, o populismo, o socialismo moderado ou reformista, o terrorismo etc., e de gerar uma revolução proletária vitoriosa).Quantos revolucionários afirmaram (ou afirmam) que precisam sonhar e exigem a liberdade de sonhar? 0 importante é que o sonho, não estava longe da realidade. Ao contrário, respondia diretamente ao que era preciso fazer para passar-se de um "sonho” à sua concretização. Ora, aí temos uma complexa situação histórica. A simplificação e o reducionismo determinista existiram se se ignorasse a convergência de várias condições e de diversos fatores, imediatos ou remotos, e a função catalisadora de uma personalidade invulgar.

Ao iniciar a redação desse livro, Lênin já era uma figura de relevo no marxismo russo. Ainda não rompera com os principais teóricos contemporâneos e mal começara a experimentar suas limitações no campo da ação revolucionária. De outro lado, através da II Internacional, de sua participação interna e externa na reelaboração da teoria socialista e na crítica do reformismo ou do oportunismo, infundira à sua própria posição uma intransigência marcante, um radicalismo maduro e um espírito prático à toda a prova. Não era um “publicista", apenas, era um político experiente e um revolucionário que sonhava com a revolução procurando como encravá-la no seio de um regime odiado e destrutivo.

Como ativista, já tinha demonstrado seu potencial como agitador e sua firmeza diante da repressão (uma, repressão desconhecida na Europa, mesmo nas piores circunstâncias). Como teórico, já havia comprovado que ultrapassara o período da aprendizagem: O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia (publicado em 1899) dissocia a teoria da análise, mas atesta, por isso mesmo, o quanto Lênin dominava as doutrinas econômicas de Marx e o quanto, por sua vez, era capaz de interpretar segundo critérios marxistas rigorosos uma realidade histórica diferente, de modo original, independente e construtivo. Na verdade, ele irradiara o seu talento crítico na direção dos múltiplos temas do debate político socialista, imperante dentro da Rússia, e evidenciara um avanço teórico relativo comparável ao nível que prevalecia no Exterior, no movimento socialista mundial. No sentido em que os franceses usam a expressão, ele era uma "personalidade política" reconhecida e impunha-se como uma influência pessoal com a qual se devia contar - e que deveria crescer. A criação da revista Iskra, destinada à discussão política e científica, e do jornal operário Zaria, que se voltava para toda a Rússia, sugere que essa personalidade marcante encontrara um quadro histórico e outros companheiros - em suma, que o movimento socialista na Rússia, apesar das aparências, estava saltando acima do movimento socialista na Europa, especialmente na esfera da ação política direta, de levar a revolução socialista do plano das idéias e das aspirações para o plano prático.

As reflexões contidas em Que Fazer? correspondiam às, "exigências da situação histórica", não eram fruto de uma especulação “genial" e tampouco uma ousadia "isolada". Lênin abordara antes os mesmos temas, em especial ao elaborar uma versão do programa da social-democracia russa, ao redigir o projeto de declaração da Iskra e do Zaria, e de maneira mais concentrada no artigo "Por onde começar?" (de maio de 1901). Naquele projeto já se colocara contra "o praticismo estreito", a dispersão e o caráter artesanal do movimento socialista, batendo-se por uma forma superior, mais unificada e, melhor organizada de luta política.

No artigo, por sua vez, antecipa a substância do livro. Pretende um sistema e um plano de atividade prática, o que o coloca contra o economismo (o sindicalismo reformista: estreito), que desemboca na impotência política, e contra o terror, que, não condena em princípio, mas caracteriza como uma arma inoportuna, inoperante, que afasta os combatentes mais ativos de sua verdadeira tarefa" e que "desorganiza não as forças governamentais, mas as forças revolucionárias". Temos aí toda uma equação política revolucionária, que não foi inventada por Lênin. Ela nascia de uma situação histórica "madura", na qual os.

problemas de agitação, propaganda e organização impunham a reestruturação do movimento socialista. O fato de Lênin se defrontar sem nenhuma timidez com essa equação e soltar suas pontas, decifrando o caminho a seguir, diz por si mesmo o quanto ele era a personalidade para desempenhar tal papel. Um "produto da história" que era, também, um fator humano de sua transformação.

Quanto ao segundo tema, está na moda uma visão crítica negativista do leninismo". O leitor verá que uma boa parte desse ataque grosseiro (como certa parte das condenações refinadas), eclodiu contemporaneamente: Que Fazer? aparece como uma necessidade de desvencilhar o socialismo revolucionário desse terrível cipoal, continuamente reconstituído por tantas forças contraditórias. Não pretendo travar um combate de cavaleiro andante contra a falta de imaginação. Contudo, convém que o leitor fique atento e compare: como Lênin ridiculariza seus críticos (e os críticos do marxismo); e como ele refuta ou afasta tantas suspeitas com referência à "profissionalização" da atividade revolucionária e à organização do movimento socialista revolucionário. De um lado, temos forças contra-revolucionárias ou conservadoras não só organizadas econômica e, socialmente - contando também com a centralização política, proveniente da existência e do controle do Estado.

De outro, a "anti-ordem" desordenada, fiel a fórmulas ideais e abstratas que não são, bastante fortes, por si mesmas, para levar de vencida o tzarismo. Se avançarmos diretamente na linha profunda do pensamento de Lênin: ele propõe nada mais nada menos que a alternativa do anti-Estado, a organização de um Estado dentro de outro Estado, ou seja, a organização da revolução. De um golpe, ele supera as várias soluções do radicalismo burguês e do socialismo reformista e os imponderáveis do terrorismo. Para muitos, aí não haveria novidade. A novidade, estaria apenas na russificação do marxismo, na "bolchevização", que eliminaria do marxismo a sua vinculação espontânea com as massas e seu teor democrático. Ora, chegar a essas conclusões por efeito da propaganda conservadora e contra-revolucionária é explicável. Mantê-las, depois de ler Que Fazer?, significa uma obliteração da razão socialista (se esta existe, de fato). O que Lênin faz com o marxismo só pode ser definido de uma maneira: ele converte o marxismo em processo revolucionário real. Se o faz tendo em vista as condições políticas do tzarismo e da sociedade russa, disso ele não se poderia livrar...

Portanto, Lênin inaugura uma concepção do marxismo: a que rompe frontalmente com o elemento burguês em todos os sentidos, ainda dentro e contra a sociedade capitalista. Os grande teóricos do socialismo revolucionário europeu esperavam a vitória da revolução para extirpar a condição burguesa que impregnasse a todos os revolucionários, dos militantes de base ao tope da vanguarda, o que significa que a massa de seguidores poderia oscilar livremente, das opções socialistas às opções democrático-burguesas. O combate dos "métodos artesanais” significa acabar com isso na medida do possível. O que fica de “entranhadamente burguês” em um militante submetido a um treinamento profissional e para atuar clandestinamente? Depois que um partido revolucionário aceita tal evolução, ele tem condições para dar uma volta atrás, procedendo como os socialistas alemães, franceses ou ingleses que traíram o socialismo para não traírem seus governos nacionais? De outro lado, um partido revolucionário que organiza a revolução deixa de vincular-se à oscilação das, massas populares, de aproveitar produtivamente sua espontaneidade? Ele perde, por isso, seu caráter democrático? De onde vem a estrutura revolucionária e democrática de um partido socialista e da revolução socialista: da ordem que ambos combatem e devem destruir ou dos princípios fundamentais do socialismo? Por aí se verifica que Lênin converteu o marxismo em uma realidade política antes mesmo que o regime tzarista se desagregasse e ocorresse a revolução proletária. Os que se apegaram demais às condições "democráticas" da ordem existente e pretendiam avançar suavemente, cultivando o oportunismo, o reformismo, o gradualismo, o obreirismo, o populismo ou, no outro extremo, a violência episódica sem uma estrutura e continuidade políticas não podiam entender a sua linguagem. Pareciam-lhes que a passagem para o socialismo perdia, desse modo, todo o encanto pequeno-burguês e toda a atração heróica. Uma revolução que se organiza politicamente, que centraliza suas forças, surge, como um anti-Estado, sob a aparência de uma "militarização", de um despotismo dissimulado sob o centralismo democrático.

Essa "leitura" dê Lênin é a de todos os que se identificam com o socialismo como uma fonte de compensação psicológica ou moral. Depois que a burguesia se converteu em classe dominante reacionária ou contra-revolucionária, na Europa e nos Estados Unidos, que utilizou exemplarmente o que Engels descreveu como o "terrorismo burguês", não existia outro caminho para chegar não “ao poder", mas à construção de uma sociedade socialista. O que dizer da Rússia? Lênin aponta com sagacidade as diferenças: o que um regime ultra-opressivo deixa como espaço político "democrático" para as reivindicações do Povo, das classes trabalhadoras, dos movimentos radical-democráticos ou socialistas. Um espaço zero. O teórico socialista se defronta com a necessidade de partir desse espaço zero: criar a revolução a partir de dentro da contra-revolução. Ou seja, o combate organizado à contra-revolução institucionalizada e estabilizada politicamente deve ser, desde o inicio, um processo revolucionário. Daí as frases famosas deste livro: “Sem teoria revolucionária, não existe movimento revolucionário”; "toda a vida política é uma cadeia sem fim composta de um número infinito de elos”; “é preciso sonhar" etc. A contraparte dessas frases famosas: sem organização não se mede a força de um movimento revolucionário e sem movimento revolucionário não se testa a teoria revolucionária. Lênin completa o marxismo. Introduz a dialética na esfera da ação política direta e do movimento de massas pelo socialismo.

Quanto ao terceiro ponto, Que Fazer? é um divisor de águas. Escrito e publicado no alvor do século XX, ele sintetiza os avanços do socialismo e do marxismo na Rússia no século anterior e assinala as promessas revolucionárias realmente fundadas. O livro todo constitui uma polêmica com o passado, com os contemporâneos, com os que se voltavam para a construção de uma Rússia democrática ou socialista. Onde se escreve um livro como esse, no momento em que um livro como esse pode ser publicado, a partir do combate ou da aceitação das idéias contidas em um livro como esse, pode-se constatar a existência de um movimento revolucionário denso, inquieto, maduro e indomável. A vitalidade do movimento socialista não nasce de si mesmo, apenas,. nasce da sociedade em que se constitui e na qual se expande. O requisito histórico e o patamar de um movimento dessa envergadura é a existência de uma sociedade que caminha inexoravelmente, pelas pressões de baixo para cima, pela insatisfação das massas e pelo inconformismo das classes trabalhadoras, na direção da desagregação da ordem existente e da revolução social. Nesses quadros históricos há um socialismo potencial (diria, mesmo, um socialismo revolucionário potencial). O marxismo como teoria e como praxis pode ser facilmente irradiado nas várias direções da sociedade: as tarefas dos militantes, dos "teóricos" e "publicistas" nem por isso é mais fácil. Porque essa potencialidade traz consigo uma repressão feroz, uma autodefesa cega e impiedosa. Contudo, a violência institucional da contra-revolução não consolida a si própria. Ela fortalece as forças antagônicas, os inimigos da opressão e da contra- revolução, ou seja, em um primeiro momento, a revolução democrática de base popular, em outro momento seguinte, o controle do Estado pelas forças da revolução democrática, e a transição para o socialismo. Em resumo, se não existissem peixes nos rios e no mar seria impossível pescar. O movimento socialista exige um mínimo de condições “objetivas" e “subjetivas" (e o mesmo se pode dizer da revolução socialista).

Dadas certas dessas condições, o que depende dos próprios socialistas para que o seu movimento se consolide, se irradie e, através das massas populares e das classes trabalhadoras, se converta em força política revolucionária? Excluindo-se Cuba, a experiência chilena e algumas manifestações verdadeiramente políticas da guerrilha, a América Latina foi o paraíso da contra-revolução (da contra-revolução mais elementar e odiosa, a que impede até a implantação de uma democracia-burguesa autêntica). Hoje, mais do que nunca, ela continua a ser o paraíso da contra-revolução, só que, agora, conjugando o "terrorismo burguês interno" com o "terrorismo burguês externo”, Os partidos que deveriam ser revolucionários (anarquistas, socialistas ou comunistas), devotaram-se à causa da consolidação da ordem, na esperança de que, dado o primeiro passo democrático, ter-se-ia uma situação histórica distinta. Em suma, bateram-se pela democracia-burguesa, como se fossem os campeões da liberdade. Trata-se de uma avaliação dura? Quanto tempo as burguesias nacionais ter-se-iam agüentado no poder se fossem atacadas de modo direto, organizado e eficiente? Ou estamos sujeitos a uma "fatalidade histórica", que prolonga o período colonial e a tirania colonizadora depois da independência e da expansão do Estado nacional?

O diagnóstico correto, embora terrível para todos nós, é que nunca fizemos o que deveríamos ter feito. Os “revolucionários" quiseram manter seus privilégios, ou os seus meio-privilégios, sintonizando-se com as elites no poder e com as classes dominantes. Formaram a sua ala radical, sempre pronta a esclarecer os donos do poder sobre o que certas reformas implicariam, para evitar uma aceleração da desagregação da ordem e os seus efeitos imprevisíveis...

Não estou inventando. Voltamos as costas à organização da revolução e auxiliamos a contra-revolução, uns mais outros menos, uns conscientemente, outros sem ter consciência disso. E a "massa" da esquerda tem os olhos fitos no desfrute das vantagens do status de classe média. O que ameaça esse status entra em conflito com o socialismo democrático...

Todas essas reflexões pungentes precisam ser feitas e refeitas. Que Fazer? desvenda essa realidade incômoda. Não fomos fascinados pelo “espontaneísmo" das massas: estas exerceram pouca atração sobre o pensamento político propriamente revolucionário, sempre preso a fórmulas importadas de fora, com freqüência fórmulas com alta infeção burguesa (para usar outra expressão de Lênin). Fomos paralisados pela idéia do gradualismo democrático-burguês e pelo poder de coação da ordem. O que quer dizer que, na era da polivalência no "campo socialista", ainda não sabemos quais são os caminhos que nos levarão à desagregação do nosso capitalismo selvagem e a soluções socialistas apropriadas à presente situação histórica. Um atraso monumental. O que Lênin fez, por exemplo, em O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia só tentamos no plano da erudição. Por conseguinte, fora de Cuba não se criou um pensamento socialista revolucionário original. A principal tarefa, teórica foi negligenciada até hoje, porque líderes, vanguardas e partidos da esquerda ou vivem a sua integridade socialista com extremo purismo ascético - e bem longe da atividade prática concreta - ou se concentram no "economismo" e, pior que isso, em táticas imediatistas, de composição dentro da ordem, como se o socialismo pudesse ser o último estágio, a Quinta essência da "democracia" burguesa. O reformismo pequeno-burguês como estilo de prática política. Ora, tudo isso está ocorrendo numa época em que a transição para o socialismo ficou mais difícil. Depois das grandes revoluções - da Rússia, da China, do Vietnã da Iugoslávia e de Cuba - o cerco capitalista ao socialismo se aperta a partir de dentro e a partir de fora. A contra-revolução deixa de ser o produto de uma autocracia secular: a autocracia é organizada deliberadamente, como a barreira, o bastião de defesa e a base política de contra-ataque militar e policial do chamado "capitalismo tardio". De outro lado, essa contra-revolução corrompe tudo, pelos meios de educação, comunicação de massa, consumo de massa, cooptação etc. Depois de setenta e seis anos, Que Fazer? Continua válido. Todavia, a teoria revolucionária e a organização do movimento revolucionário precisam ser adaptadas a uma situação política muito diversa. Os que esperam que o "campo socialista" resolverá todos os problemas e dificuldades cometem um equívoco. A cooperação e o auxílio efetivo só poderão amparar os movimentos revolucionários viáveis, que comprovarem sua vitalidade e a sua eficácia.

Em outras palavras, é urgente superar a nossa circularidade e a nossa fraqueza inventiva. Os que são socialistas precisam devotar-se à tarefa de construir a teoria revolucionária exigida pela situação atual da América Latina.

Essas ponderações podem parecer exageradas. A partir do Brasil? O país que ficou no maior atraso dentro do movimento sindical, socialista e revolucionário na América Latina? Na época em que Lênin escreveu e publicou Que Fazer? quem pensaria que a Rússia, e não alguma nação avançada da Europa, se colocaria na vanguarda da história? Não penso que poderemos "queimar etapas". O avanço real só pode ser conquistado graças e através das massas populares e das classes trabalhadoras. A nossa tarefa urgente consiste em propagar o socialismo revolucionário nesses setores da sociedade e, com o amadurecimento da sua experiência política, tentar-se o equacionamento de "por onde começar,?"

Nem uma coisa nem outra será possível se se mantiver a tática “economista", o falso obreirismo e o populismo das classes dominantes, a submissão a burguesias pró-imperialistas e entranhadamente antidemocráticas e contra-revolucionárias. Parece claro que voltamos, no momento que corre, a erros crônicos do passado, lançando as forças vivas de uma revolução democrática na maior confusão, abandono e impotência. Oitenta e nove anos de "regime republicano" já nos ensinaram o bastante. Não serão as classes possuidoras, especialmente os seus setores privilegiados nacionais e estrangeiros, que irão favorecer e levar a cabo a revolução democrática. E esta não pode ser pensada, por um socialista, como um desdobramento de etapas. Onde as massas populares e as classes trabalhadoras se afirmam como as únicas alavancas da revolução democrática, esta só poderá conter uma transição burguesa extremamente curta. Cabe aos socialistas dinamizar a "revolução dentro da revolução". Hoje, mais que no passado, a civilização de consumo de massas constitui um ópio do Povo. As massas populares e as classes trabalhadoras só podem ser educadas para o socialismo através de um forte movimento socialista, dentro do qual elas forneçam as bases, os quadros e as vanguardas, e através do qual elas disputem o poder das classes dominantes, deslocando-as do controle do Estado e do sistema de opressão institucional "democrático”. O que assinala que, se os caminhos são diversos, várias lições de Que Fazer? preservam toda a atualidade, sob a condição de que a opção pelo socialismo seja tomada para valer.

São Paulo, 19-20 de março de 1978

Florestan Fernandes
 

Prefácio


De acordo com a intenção original do autor, este trabalho que apresentamos ao leitor devia ser dedicado ao desenvolvimento detalhado das idéias expostas no artigo "Por Onde Começar?" (Iskra, n.º 4, maio de 1901). Antes de tudo, devemos desculpar-nos perante o leitor pelo atraso verificado no cumprimento da promessa feita nesse artigo (e repetida em resposta a numerosas perguntas e cartas particulares). Uma das razões desse atraso foi a tentativa de unificação de todas as organizações sociais-democratas no estrangeiro, empreendida em junho do ano passado (1901). Seria natural que se aguardasse os resultados dessa tentativa, pois, se tivesse êxito, talvez fosse preciso expor sob um ângulo um pouco diferente os pontos de vista do Iskra em matéria de organização; em todo o caso, o êxito de tal tentativa teria permitido pôr termo, de modo bastante rápido, à existência de duas tendências na social-democracia russa. Como o leitor não ignora, essa tentativa fracassou e, como procuraremos demonstrar mais adiante, não poderia ter outro fim após a mudança inesperada do Rabótcheie Dielo, em seu número 10, em direção ao “economismo”. Tornou-se absolutamente necessário empreender uma luta decisiva contra esta tendência vaga e pouco determinada, porém tanto mais persistente e suscetível de renascer sob as mais variadas formas. Desse modo, o plano inicial deste trabalho foi modificado e consideravelmente ampliado.

O tema principal deveria abranger as três questões propostas no artigo "Por Onde Começar?", ou seja: o caráter e o conteúdo essencial de nossa agitação política; nossas tarefas de organização, o plano para a construção de uma organização de combate para toda a Rússia dirigido simultaneamente para diversos fins. Desde há muito tais problemas vêm interessando ao autor, que já procurou abordá-los na Rabótchaia Gazeta, em uma das tentativas malogradas de se renovar essa publicação (ver cap. V). Contudo, minha intenção inicial de me limitar, neste trabalho, somente à análise dessas três questões e de expor meus pontos de vista, sempre que possível, de forma positiva evitando recorrer à polêmica, tornou-se completamente impraticável por duas razões. Por um lado, o "economismo" revelou-se muito mais forte do que os supúnhamos (empregamos o termo "economismo” em sentido amplo, como foi explicado no artigo do, Iskra, n.º. 12, dezembro de 1901: “Uma Conversa com os Defensores do Economismo”, artigo que traça por assim dizer, o esboço do trabalho que apresentamos ao leitor). Hoje é inegável que as diferentes opiniões a respeito desses três problemas explicam-se muito mais pela oposição radical das duas tendências na social-democracia russa, do, que pelas divergências quanto a detalhes. Por outro lado, a perplexidade suscitada entre os “economistas" pela exposição metódica de nossos pontos de vista no Iskra evidenciou que, freqüentemente, falamos línguas literalmente diferentes: que, por conseguinte, não podemos chegar a qualquer acordo se não começarmos ab ovo; que é necessário tentar .Uma explicação metódica tão popular quanto possível, ilustrada com exemplos concretos muito numerosos, com todos os "economistas", sobre todos os pontos capitais de nossas divergências. E resolvi tentar tal "explicação”, compreendendo perfeitamente que ela aumentaria consideravelmente as dimensões deste trabalho e retardaria seu aparecimento, mas não encontrei outro meio de cumprir a promessa feita no artigo “Por Onde Começar?". As desculpas por esse atraso, é necessário acrescentar outras quanto à extrema insuficiência da forma literária deste trabalho: tive de trabalhar com a maior das pressas e, ademais, foi interrompido freqüentemente por toda a sorte de outros trabalhos.

A análise das três questões indicadas anteriormente continua a ser o objeto deste trabalho, mas tive de começar por duas outras questões de ordem mais geral: por que uma palavra de ordem tão "inofensiva" e “natural" como "liberdade de crítica” constitui para nós um verdadeiro grito de guerra? Por que, não podemos chegar a um acordo nem sequer sobre a questão fundamental do papel da social-democracia, em relação ao movimento espontâneo das massas? Além disso, a exposição dos meus pontos de vista sobre o caráter e o conteúdo da agitação política visa a explicar a diferença entre a política sindical e a política social-democrata, e a exposição dos meus pontos de vista sobre as tarefas de organização visa a explicar a diferença entre os métodos artesanais de trabalho, que satisfazem os "economistas", e a organização dos revolucionários que consideramos indispensável. Em seguida, insisto mais uma vez sobre o "plano" de um jornal político para toda a Rússia, pois as objeções que têm sido feitas a esse respeito são inconsistentes e não respondem à natureza da questão proposta no artigo "Por Onde Começar?": como poderemos empreender, simultaneamente e por todos os lados, a formação da organização de que necessitamos? Enfim, na última parte do trabalho espero demonstrar que fizemos tudo o que dependia de nós para evitar a ruptura definitiva com os "economistas", ruptura que, entretanto, tornou-se inevitável; que o Robótcheie Dielo adquiriu uma importância especial, "histórica", se quiserem, porque exprimiu da maneira mais completa e com maior relevo, não o "economismo" conseqüente,. mas a dispersão e as incertezas que constituíram o traço peculiar de todo um período da história da social-democracia russa; que, por conseguinte, apesar de parecer bastante desenvolvida à primeira vista, a polêmica com o Rabótcheie Dielo tem sua razão de ser, pois não podemos seguir adiante sem, liquidar definitivamente esse período.

fevereiro de 1902. N. Lênin
 

I - Dogmátismo e liberdade de crítica


a) Que significa a "liberdade de crítica"?

"Liberdade de crítica” é, sem dúvida alguma, a palavra de ordem, mais em voga atualmente, aquela que aparece com mais freqüência nas discussões entre socialistas e democratas de todos os países. A primeira vista, nada parece mais estranho do que ver um dos contraditores exigir solenemente a liberdade de crítica. Acaso nos partidos avançados ergueram-se vozes contra a lei constitucional que. na maioria dos países europeus, garante a liberdade da ciência e da investigação científica? “Há algo escondido” dirá necessariamente todo homem imparcial que ouviu essa palavra de ordem em moda, repetida em todos os cantos, porém ainda não aprendeu o sentido do desacordo. ”Essa palavra de ordem é, evidentemente. uma daquelas pequenas palavras convencionais que, como os apelidos são consagrados pelo uso e tornam-se quase nomes comuns”. De fato, não constitui mistério para ninguém que, na social-democracia internacional de hoje, se tenham formado duas tendências, cuja luta ora “se anima e se inflama, ora se extingue sob as cinzas das grandiosas resoluções de tréguas”. Em que consiste a “nova tendência que "critica” o "velho” marxismo "dogmático", disse-o Bernstein, e demonstrou-o Millerand com suficiente clareza.

A social-democracia deve transformar-se de partido da revolução social em partido democrático de reformas sociais. Essa reivindicação política, foi cercada por Bernstein com toda uma bateria de "novos" argumentos e considerações muito harmoniosamente orquestrados. Nega ele a possibilidade de se conferir fundamento científico ao socialismo e de se provar, do ponto de vista da concepção materialista da história, sua necessidade e sua inevitabilidade, nega a miséria crescente, a proletarização e o agravamento das contradições capitalistas; declara inconsistente a própria concepção do "objetivo final", e rejeita categoricamente a idéia da ditadura do proletariado; nega a oposição de princípios entre o liberalismo e o socialismo, nega a teoria da luta de classes, considerando-a inaplicável a uma sociedade estritamente democrática, administrada segundo a vontade da maioria etc.

Assim, a exigência de uma mudança decisiva - da social-democracia revolucionária para o reformismo social burguês - foi acompanhada de reviravolta não menos decisiva em direção à crítica burguesa de todas as idéias fundamentais do marxismo. E como essa crítica, de há muito, era dirigida contra o marxismo do alto da tribuna política e da cátedra universitária, em uma quantidade de publicações e em uma série de tratados científicos: como, há dezenas de anos, era inculcada sistematicamente à jovem geração das classes instruídas, não é de se surpreender que a "nova” tendência "crítica” na social-democracia tenha surgido repentinamente sob sua forma definitiva, tal como Minerva da cabeça de Júpiter. Em seu conteúdo, essa tendência não teve de se desenvolver e de se formar; foi transplantada diretamente da literatura burguesa para a literatura socialista.

Prossigamos. Se a crítica teórica de Bernstein e suas ambições políticas permaneciam ainda obscuras para alguns, os franceses tiveram o cuidado de fazer uma demonstração prática, do "novo método". Ainda desta vez a França justificou sua velha reputação de "país em cuja história a luta de classes, mais do que em qualquer outro, foi resolutamente conduzida até o fim" (Engels, trecho do prefácio ao Der 18 Brumaire de Marx). Ao invés de teorizar, os socialistas franceses agiram deliberadamente; as condições políticas da França, mais desenvolvidas no sentido democrático, permitiram-lhes passar imediatamente ao "bernsteinismo prático” com todas as suas conseqüências. Millerand deu um exemplo brilhante desse bernsteinismo prático; também, com que empenho Bernstein e Volimar apressaram-se em defender e louvar Millerand! De fato, se a social-democracia não constitui, no fundo, senão um partido de reformas e deve ter a coragem de reconhecê-lo abertamente, o socialismo não somente tem o direito de entrar em um ministério burguês, como também deve mesmo aspirar sempre a isso. Se a democracia significa, no fundo, a supressão da dominação de classe, por que um ministro socialista não seduziria o mundo burguês com discursos sobre a colaboração das classes? Por que não conservaria ele sua pasta, mesmo após os assassínios de operários por policiais terem demonstrado pela centésima e pela milésima vez o verdadeiro caráter da colaboração democrática das classes? Por que não facilitaria pessoalmente o czar a quem os socialistas franceses não chamavam senão de knouteur, pendeur et déportateur? E para contrabalançar esse interminável aviltamento e autoflagelação do socialismo perante o mundo inteiro, essa perversão da consciência socialista das massas operárias - única base que nos pode assegurar a vitória -, são nos oferecidos os projetos grandiloqüentes de reformas insignificantes, insignificantes ao ponto de se poder ter obtido mais dos governos burgueses!

Aqueles que não fecham os olhos, deliberadamente, não podem deixar de ver que a nova tendência “crítica” no socialismo nada mais é que uma nova variedade do oportunismo. E se tais pessoas forem julgadas, não a partir do brilhante uniforme que vestiram, nem tampouco do título pomposo que se atribuíram, mas a partir de sua maneira de agir e das idéias que realmente divulgam, tornar-se-á claro que “a liberdade de crítica" é a liberdade da tendência oportunista na social-democracia, a liberdade de transformar esta em um partido democrático de reformas, a liberdade de implantar no socialismo as idéias burguesas e os elementos burgueses.

A liberdade é uma grande palavra, mas foi sob a bandeira da liberdade da indústria que foram empreendidas as piores guerras de pilhagem, foi sob a bandeira da liberdade do trabalho, que os trabalhadores foram espoliados. A expressão “liberdade de crítica”, tal como se emprega hoje, encerra a mesma falsidade. As pessoas verdadeiramente convencidas de terem feito progredir a ciência não reclamariam, para as novas concepções, a liberdade de existir ao lado das antigas, mas a substituição destas por aquelas. Portanto, os gritos atuais de "Viva a liberdade de crítica!” lembram muito a fábula do tonel vazio.

Pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte, e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: Como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um caminho melhor! Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que seu lugar verdadeiro é precisamente no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque também nós somos “livres” para ir aonde nos aprouver, livres para combater não só