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O A publicação de Que Fazer? no Brasil
constitui um acontecimento de grande significação
política, malgrado as presentes condições nas
quais vivemos e a debilidade crônica do nosso
movimento socialista. Está fora de dúvida que essa
não é a maior obra de Lênin. Contudo, ela
caracteriza o momento no qual o leninismo se
revela em seus componentes essenciais: em nove
anos de experiência, de lutas constantes, de
perseguições e de enorme fermentação criadora, um
jovem publicista da ala esquerda da
social-democracia russa punha-se à frente da
vanguarda teórica desse partido. Apenas nove anos?
O que se pode realizar quando a história se move
para a frente e o pensamento revolucionário é
exposto a todas as tensões de forças contrárias,
da mais odiosa opressão de um regime autocrático
cruel e de sua terrível repressão policial às
inquietações da intelligentsia, dos estudantes,
dos radicais de uma burguesia impotente e, em
particular, das pressões crescentes das massas
populares, do campo e da cidade! Em suma, quando o
pensamento revolucionário aceita suas tarefas, as
enfrenta com tenacidade, esclarecimento e coragem,
procurando avançar sempre para a frente,
relacionando meios e fins que podem transformar a
“oportunidade histórica" em história real.
Haveria muito que debater sobre este
pequeno livro e seu significado no movimento
socialista revolucionário. Não obstante, seria
fora de propósito ornamentar Que Fazer? com
qualquer pretenso comentário erudito. Os seus
leitores podem ressentir-se da precisão de Marx,
por exemplo, nos comentários rigorosos à Crítica
do Programa de Gotha. No entanto, Que Fazer?
introduz no marxismo uma nova dimensão política.
Na verdade, ele é uma resultante de um acidentado,
heróico e construtivo labor coletivo: o que várias
tendências do populismo, do radicalismo e do
socialismo criaram na Rússia dos meados do século
XIX à sua última década. Uma experiência filtrada
por Lênin e amadurecida por sua penetrante
acuidade à contribuição do movimento socialista
europeu, especialmente na Alemanha, França e
Inglaterra. Não se pode ignorar figuras como
Plekhânov, Axerold e Zasulítich (além de outros
companheiros do ISKRA e da ala esquerda do
RO.S.D.R.), cuja produção teórica e visão dos
problemas práticos do marxismo na Rússia
alimentaram a aprendizagem e os primeiros
tirocínios de Lênin. Todavia, ele os suplanta com
uma rapidez incrível. Que Fazer? marca uma nova
etapa, que deixa tudo para trás. De sua edição em
diante, a Rússia não seria o cenário da
transmutação pura e simples do marxismo em
movimento revolucionário triunfante. Nascia o
marxismo-leninismo como teoria revolucionária e
como prática revolucionária organizada. A própria
Europa ficava para trás, apesar da importância da
II Internacional e dos seus grandes teóricos, e da
densidade do movimento operário europeu.
Neste breve comentário, gostaria de
concentrar-me em três questões mais importantes
para os leitores brasileiros no momento atual. A
primeira, diz respeito ao próprio Lênin: porque
ele já estava politicamente qualificado para
escrever uma obra tão simples mas de conseqüências
tão profundas e permanentes? A segunda, impõe-se
como decorrência: o que representa a concepção do
marxismo que Que Fazer? propõe? A terceira,
vincula-se ao aqui e ao agora: o que um livro como
esse testemunha quanto à nossa própria imaturidade
e impotência políticas no Brasil e na América
Latina?
Quanto ao primeiro tema, se Lênin era um
"cérebro político" privilegiado (descrito por
Trotsky como o único estrategista da revolução
bolchevique), ele também recebe uma herança
política privilegiada e viveu em um momento
histórico privilegiado. Não penso em simplificar
as coisas, para chegar a uma redução determinista
do papel do herói na História. Isso seria indigno
de qualquer comentário mais ou menos lúcido do
significado de Que Fazer?; e, em particular,
entraria em conflito com o modo pelo qual Lênin se
via como um "publicista de partido". Um livro
escrito entre o outono de 1901 e fevereiro de
1902, publicado em março de 1902 - mas que se
propunha os problemas centrais da teoria e da
prática revolucionárias na Rússia e na Europa -
transcende a uma datação localizada. Ele responde
a muitas questões contraditórias e a grandeza
criadora de Lênin aparece na propriedade das
perguntas, que formula, e na qualidade das
respostas (ou das soluções), que apresenta (numa
linguagem que é sempre simples, direta, embora
marcadamente irônica e mordaz: Lênin não se
propunha uma "leitura" de Marx - o que ele queria
era descobrir os meios mais eficazes de converter
uma, revolução potencial, bastante forte para
deixar a vanguarda teórica deslocada pelas
exigências e alguns avanços das massas populares,
no ponto de partida da desagregação do regime
tzarista e de uma revolução permanente na qual o
marxismo se impusesse como uma cunha irremovível,
capaz de suplantar o liberalismo e o radicalismo
burgueses, o populismo, o socialismo moderado ou
reformista, o terrorismo etc., e de gerar uma
revolução proletária vitoriosa).Quantos
revolucionários afirmaram (ou afirmam) que
precisam sonhar e exigem a liberdade de sonhar? 0
importante é que o sonho, não estava longe da
realidade. Ao contrário, respondia diretamente ao
que era preciso fazer para passar-se de um "sonho”
à sua concretização. Ora, aí temos uma complexa
situação histórica. A simplificação e o
reducionismo determinista existiram se se
ignorasse a convergência de várias condições e de
diversos fatores, imediatos ou remotos, e a função
catalisadora de uma personalidade invulgar.
Ao iniciar a redação desse livro, Lênin já
era uma figura de relevo no marxismo russo. Ainda
não rompera com os principais teóricos
contemporâneos e mal começara a experimentar suas
limitações no campo da ação revolucionária. De
outro lado, através da II Internacional, de sua
participação interna e externa na reelaboração da
teoria socialista e na crítica do reformismo ou do
oportunismo, infundira à sua própria posição uma
intransigência marcante, um radicalismo maduro e
um espírito prático à toda a prova. Não era um “publicista",
apenas, era um político experiente e um
revolucionário que sonhava com a revolução
procurando como encravá-la no seio de um regime
odiado e destrutivo.
Como ativista, já tinha demonstrado seu
potencial como agitador e sua firmeza diante da
repressão (uma, repressão desconhecida na Europa,
mesmo nas piores circunstâncias). Como teórico, já
havia comprovado que ultrapassara o período da
aprendizagem: O Desenvolvimento do Capitalismo na
Rússia (publicado em 1899) dissocia a teoria da
análise, mas atesta, por isso mesmo, o quanto
Lênin dominava as doutrinas econômicas de Marx e o
quanto, por sua vez, era capaz de interpretar
segundo critérios marxistas rigorosos uma
realidade histórica diferente, de modo original,
independente e construtivo. Na verdade, ele
irradiara o seu talento crítico na direção dos
múltiplos temas do debate político socialista,
imperante dentro da Rússia, e evidenciara um
avanço teórico relativo comparável ao nível que
prevalecia no Exterior, no movimento socialista
mundial. No sentido em que os franceses usam a
expressão, ele era uma "personalidade política"
reconhecida e impunha-se como uma influência
pessoal com a qual se devia contar - e que deveria
crescer. A criação da revista Iskra, destinada à
discussão política e científica, e do jornal
operário Zaria, que se voltava para toda a Rússia,
sugere que essa personalidade marcante encontrara
um quadro histórico e outros companheiros - em
suma, que o movimento socialista na Rússia, apesar
das aparências, estava saltando acima do movimento
socialista na Europa, especialmente na esfera da
ação política direta, de levar a revolução
socialista do plano das idéias e das aspirações
para o plano prático.
As reflexões contidas em Que Fazer?
correspondiam às, "exigências da situação
histórica", não eram fruto de uma especulação
“genial" e tampouco uma ousadia "isolada". Lênin
abordara antes os mesmos temas, em especial ao
elaborar uma versão do programa da
social-democracia russa, ao redigir o projeto de
declaração da Iskra e do Zaria, e de maneira mais
concentrada no artigo "Por onde começar?" (de maio
de 1901). Naquele projeto já se colocara contra "o
praticismo estreito", a dispersão e o caráter
artesanal do movimento socialista, batendo-se por
uma forma superior, mais unificada e, melhor
organizada de luta política.
No artigo, por sua vez, antecipa a
substância do livro. Pretende um sistema e um
plano de atividade prática, o que o coloca contra
o economismo (o sindicalismo reformista:
estreito), que desemboca na impotência política, e
contra o terror, que, não condena em princípio,
mas caracteriza como uma arma inoportuna,
inoperante, que afasta os combatentes mais ativos
de sua verdadeira tarefa" e que "desorganiza não
as forças governamentais, mas as forças
revolucionárias". Temos aí toda uma equação
política revolucionária, que não foi inventada por
Lênin. Ela nascia de uma situação histórica
"madura", na qual os.
problemas de agitação, propaganda e
organização impunham a reestruturação do movimento
socialista. O fato de Lênin se defrontar sem
nenhuma timidez com essa equação e soltar suas
pontas, decifrando o caminho a seguir, diz por si
mesmo o quanto ele era a personalidade para
desempenhar tal papel. Um "produto da história"
que era, também, um fator humano de sua
transformação.
Quanto ao segundo tema, está na moda uma
visão crítica negativista do leninismo". O leitor
verá que uma boa parte desse ataque grosseiro
(como certa parte das condenações refinadas),
eclodiu contemporaneamente: Que Fazer? aparece
como uma necessidade de desvencilhar o socialismo
revolucionário desse terrível cipoal,
continuamente reconstituído por tantas forças
contraditórias. Não pretendo travar um combate de
cavaleiro andante contra a falta de imaginação.
Contudo, convém que o leitor fique atento e
compare: como Lênin ridiculariza seus críticos (e
os críticos do marxismo); e como ele refuta ou
afasta tantas suspeitas com referência à
"profissionalização" da atividade revolucionária e
à organização do movimento socialista
revolucionário. De um lado, temos forças
contra-revolucionárias ou conservadoras não só
organizadas econômica e, socialmente - contando
também com a centralização política, proveniente
da existência e do controle do Estado.
De outro, a "anti-ordem" desordenada, fiel
a fórmulas ideais e abstratas que não são,
bastante fortes, por si mesmas, para levar de
vencida o tzarismo. Se avançarmos diretamente na
linha profunda do pensamento de Lênin: ele propõe
nada mais nada menos que a alternativa do
anti-Estado, a organização de um Estado dentro de
outro Estado, ou seja, a organização da revolução.
De um golpe, ele supera as várias soluções do
radicalismo burguês e do socialismo reformista e
os imponderáveis do terrorismo. Para muitos, aí
não haveria novidade. A novidade, estaria apenas
na russificação do marxismo, na "bolchevização",
que eliminaria do marxismo a sua vinculação
espontânea com as massas e seu teor democrático.
Ora, chegar a essas conclusões por efeito da
propaganda conservadora e contra-revolucionária é
explicável. Mantê-las, depois de ler Que Fazer?,
significa uma obliteração da razão socialista (se
esta existe, de fato). O que Lênin faz com o
marxismo só pode ser definido de uma maneira: ele
converte o marxismo em processo revolucionário
real. Se o faz tendo em vista as condições
políticas do tzarismo e da sociedade russa, disso
ele não se poderia livrar...
Portanto, Lênin inaugura uma concepção do
marxismo: a que rompe frontalmente com o elemento
burguês em todos os sentidos, ainda dentro e
contra a sociedade capitalista. Os grande teóricos
do socialismo revolucionário europeu esperavam a
vitória da revolução para extirpar a condição
burguesa que impregnasse a todos os
revolucionários, dos militantes de base ao tope da
vanguarda, o que significa que a massa de
seguidores poderia oscilar livremente, das opções
socialistas às opções democrático-burguesas. O
combate dos "métodos artesanais” significa acabar
com isso na medida do possível. O que fica de
“entranhadamente burguês” em um militante
submetido a um treinamento profissional e para
atuar clandestinamente? Depois que um partido
revolucionário aceita tal evolução, ele tem
condições para dar uma volta atrás, procedendo
como os socialistas alemães, franceses ou ingleses
que traíram o socialismo para não traírem seus
governos nacionais? De outro lado, um partido
revolucionário que organiza a revolução deixa de
vincular-se à oscilação das, massas populares, de
aproveitar produtivamente sua espontaneidade? Ele
perde, por isso, seu caráter democrático? De onde
vem a estrutura revolucionária e democrática de um
partido socialista e da revolução socialista: da
ordem que ambos combatem e devem destruir ou dos
princípios fundamentais do socialismo? Por aí se
verifica que Lênin converteu o marxismo em uma
realidade política antes mesmo que o regime
tzarista se desagregasse e ocorresse a revolução
proletária. Os que se apegaram demais às condições
"democráticas" da ordem existente e pretendiam
avançar suavemente, cultivando o oportunismo, o
reformismo, o gradualismo, o obreirismo, o
populismo ou, no outro extremo, a violência
episódica sem uma estrutura e continuidade
políticas não podiam entender a sua linguagem.
Pareciam-lhes que a passagem para o socialismo
perdia, desse modo, todo o encanto pequeno-burguês
e toda a atração heróica. Uma revolução que se
organiza politicamente, que centraliza suas
forças, surge, como um anti-Estado, sob a
aparência de uma "militarização", de um despotismo
dissimulado sob o centralismo democrático.
Essa "leitura" dê Lênin é a de todos os que
se identificam com o socialismo como uma fonte de
compensação psicológica ou moral. Depois que a
burguesia se converteu em classe dominante
reacionária ou contra-revolucionária, na Europa e
nos Estados Unidos, que utilizou exemplarmente o
que Engels descreveu como o "terrorismo burguês",
não existia outro caminho para chegar não “ao
poder", mas à construção de uma sociedade
socialista. O que dizer da Rússia? Lênin aponta
com sagacidade as diferenças: o que um regime
ultra-opressivo deixa como espaço político
"democrático" para as reivindicações do Povo, das
classes trabalhadoras, dos movimentos
radical-democráticos ou socialistas. Um espaço
zero. O teórico socialista se defronta com a
necessidade de partir desse espaço zero: criar a
revolução a partir de dentro da contra-revolução.
Ou seja, o combate organizado à contra-revolução
institucionalizada e estabilizada politicamente
deve ser, desde o inicio, um processo
revolucionário. Daí as frases famosas deste livro:
“Sem teoria revolucionária, não existe movimento
revolucionário”; "toda a vida política é uma
cadeia sem fim composta de um número infinito de
elos”; “é preciso sonhar" etc. A contraparte
dessas frases famosas: sem organização não se mede
a força de um movimento revolucionário e sem
movimento revolucionário não se testa a teoria
revolucionária. Lênin completa o marxismo.
Introduz a dialética na esfera da ação política
direta e do movimento de massas pelo socialismo.
Quanto ao terceiro ponto, Que Fazer? é um
divisor de águas. Escrito e publicado no alvor do
século XX, ele sintetiza os avanços do socialismo
e do marxismo na Rússia no século anterior e
assinala as promessas revolucionárias realmente
fundadas. O livro todo constitui uma polêmica com
o passado, com os contemporâneos, com os que se
voltavam para a construção de uma Rússia
democrática ou socialista. Onde se escreve um
livro como esse, no momento em que um livro como
esse pode ser publicado, a partir do combate ou da
aceitação das idéias contidas em um livro como
esse, pode-se constatar a existência de um
movimento revolucionário denso, inquieto, maduro e
indomável. A vitalidade do movimento socialista
não nasce de si mesmo, apenas,. nasce da sociedade
em que se constitui e na qual se expande. O
requisito histórico e o patamar de um movimento
dessa envergadura é a existência de uma sociedade
que caminha inexoravelmente, pelas pressões de
baixo para cima, pela insatisfação das massas e
pelo inconformismo das classes trabalhadoras, na
direção da desagregação da ordem existente e da
revolução social. Nesses quadros históricos há um
socialismo potencial (diria, mesmo, um socialismo
revolucionário potencial). O marxismo como teoria
e como praxis pode ser facilmente irradiado nas
várias direções da sociedade: as tarefas dos
militantes, dos "teóricos" e "publicistas" nem por
isso é mais fácil. Porque essa potencialidade traz
consigo uma repressão feroz, uma autodefesa cega e
impiedosa. Contudo, a violência institucional da
contra-revolução não consolida a si própria. Ela
fortalece as forças antagônicas, os inimigos da
opressão e da contra- revolução, ou seja, em um
primeiro momento, a revolução democrática de base
popular, em outro momento seguinte, o controle do
Estado pelas forças da revolução democrática, e a
transição para o socialismo. Em resumo, se não
existissem peixes nos rios e no mar seria
impossível pescar. O movimento socialista exige um
mínimo de condições “objetivas" e “subjetivas" (e
o mesmo se pode dizer da revolução socialista).
Dadas certas dessas condições, o que
depende dos próprios socialistas para que o seu
movimento se consolide, se irradie e, através das
massas populares e das classes trabalhadoras, se
converta em força política revolucionária?
Excluindo-se Cuba, a experiência chilena e algumas
manifestações verdadeiramente políticas da
guerrilha, a América Latina foi o paraíso da
contra-revolução (da contra-revolução mais
elementar e odiosa, a que impede até a implantação
de uma democracia-burguesa autêntica). Hoje, mais
do que nunca, ela continua a ser o paraíso da
contra-revolução, só que, agora, conjugando o
"terrorismo burguês interno" com o "terrorismo
burguês externo”, Os partidos que deveriam ser
revolucionários (anarquistas, socialistas ou
comunistas), devotaram-se à causa da consolidação
da ordem, na esperança de que, dado o primeiro
passo democrático, ter-se-ia uma situação
histórica distinta. Em suma, bateram-se pela
democracia-burguesa, como se fossem os campeões da
liberdade. Trata-se de uma avaliação dura? Quanto
tempo as burguesias nacionais ter-se-iam agüentado
no poder se fossem atacadas de modo direto,
organizado e eficiente? Ou estamos sujeitos a uma
"fatalidade histórica", que prolonga o período
colonial e a tirania colonizadora depois da
independência e da expansão do Estado nacional?
O diagnóstico correto, embora terrível para
todos nós, é que nunca fizemos o que deveríamos
ter feito. Os “revolucionários" quiseram manter
seus privilégios, ou os seus meio-privilégios,
sintonizando-se com as elites no poder e com as
classes dominantes. Formaram a sua ala radical,
sempre pronta a esclarecer os donos do poder sobre
o que certas reformas implicariam, para evitar uma
aceleração da desagregação da ordem e os seus
efeitos imprevisíveis...
Não estou inventando. Voltamos as costas à
organização da revolução e auxiliamos a
contra-revolução, uns mais outros menos, uns
conscientemente, outros sem ter consciência disso.
E a "massa" da esquerda tem os olhos fitos no
desfrute das vantagens do status de classe média.
O que ameaça esse status entra em conflito com o
socialismo democrático...
Todas essas reflexões pungentes precisam
ser feitas e refeitas. Que Fazer? desvenda essa
realidade incômoda. Não fomos fascinados pelo
“espontaneísmo" das massas: estas exerceram pouca
atração sobre o pensamento político propriamente
revolucionário, sempre preso a fórmulas importadas
de fora, com freqüência fórmulas com alta infeção
burguesa (para usar outra expressão de Lênin).
Fomos paralisados pela idéia do gradualismo
democrático-burguês e pelo poder de coação da
ordem. O que quer dizer que, na era da
polivalência no "campo socialista", ainda não
sabemos quais são os caminhos que nos levarão à
desagregação do nosso capitalismo selvagem e a
soluções socialistas apropriadas à presente
situação histórica. Um atraso monumental. O que
Lênin fez, por exemplo, em O Desenvolvimento do
Capitalismo na Rússia só tentamos no plano da
erudição. Por conseguinte, fora de Cuba não se
criou um pensamento socialista revolucionário
original. A principal tarefa, teórica foi
negligenciada até hoje, porque líderes, vanguardas
e partidos da esquerda ou vivem a sua integridade
socialista com extremo purismo ascético - e bem
longe da atividade prática concreta - ou se
concentram no "economismo" e, pior que isso, em
táticas imediatistas, de composição dentro da
ordem, como se o socialismo pudesse ser o último
estágio, a Quinta essência da "democracia"
burguesa. O reformismo pequeno-burguês como estilo
de prática política. Ora, tudo isso está ocorrendo
numa época em que a transição para o socialismo
ficou mais difícil. Depois das grandes revoluções
- da Rússia, da China, do Vietnã da Iugoslávia e
de Cuba - o cerco capitalista ao socialismo se
aperta a partir de dentro e a partir de fora. A
contra-revolução deixa de ser o produto de uma
autocracia secular: a autocracia é organizada
deliberadamente, como a barreira, o bastião de
defesa e a base política de contra-ataque militar
e policial do chamado "capitalismo tardio". De
outro lado, essa contra-revolução corrompe tudo,
pelos meios de educação, comunicação de massa,
consumo de massa, cooptação etc. Depois de setenta
e seis anos, Que Fazer? Continua válido. Todavia,
a teoria revolucionária e a organização do
movimento revolucionário precisam ser adaptadas a
uma situação política muito diversa. Os que
esperam que o "campo socialista" resolverá todos
os problemas e dificuldades cometem um equívoco. A
cooperação e o auxílio efetivo só poderão amparar
os movimentos revolucionários viáveis, que
comprovarem sua vitalidade e a sua eficácia.
Em outras palavras, é urgente superar a
nossa circularidade e a nossa fraqueza inventiva.
Os que são socialistas precisam devotar-se à
tarefa de construir a teoria revolucionária
exigida pela situação atual da América Latina.
Essas ponderações podem parecer exageradas.
A partir do Brasil? O país que ficou no maior
atraso dentro do movimento sindical, socialista e
revolucionário na América Latina? Na época em que
Lênin escreveu e publicou Que Fazer? quem pensaria
que a Rússia, e não alguma nação avançada da
Europa, se colocaria na vanguarda da história? Não
penso que poderemos "queimar etapas". O avanço
real só pode ser conquistado graças e através das
massas populares e das classes trabalhadoras. A
nossa tarefa urgente consiste em propagar o
socialismo revolucionário nesses setores da
sociedade e, com o amadurecimento da sua
experiência política, tentar-se o equacionamento
de "por onde começar,?"
Nem uma coisa nem outra será possível se se
mantiver a tática “economista", o falso obreirismo
e o populismo das classes dominantes, a submissão
a burguesias pró-imperialistas e entranhadamente
antidemocráticas e contra-revolucionárias. Parece
claro que voltamos, no momento que corre, a erros
crônicos do passado, lançando as forças vivas de
uma revolução democrática na maior confusão,
abandono e impotência. Oitenta e nove anos de
"regime republicano" já nos ensinaram o bastante.
Não serão as classes possuidoras, especialmente os
seus setores privilegiados nacionais e
estrangeiros, que irão favorecer e levar a cabo a
revolução democrática. E esta não pode ser
pensada, por um socialista, como um desdobramento
de etapas. Onde as massas populares e as classes
trabalhadoras se afirmam como as únicas alavancas
da revolução democrática, esta só poderá conter
uma transição burguesa extremamente curta. Cabe
aos socialistas dinamizar a "revolução dentro da
revolução". Hoje, mais que no passado, a
civilização de consumo de massas constitui um ópio
do Povo. As massas populares e as classes
trabalhadoras só podem ser educadas para o
socialismo através de um forte movimento
socialista, dentro do qual elas forneçam as bases,
os quadros e as vanguardas, e através do qual elas
disputem o poder das classes dominantes,
deslocando-as do controle do Estado e do sistema
de opressão institucional "democrático”. O que
assinala que, se os caminhos são diversos, várias
lições de Que Fazer? preservam toda a atualidade,
sob a condição de que a opção pelo socialismo seja
tomada para valer.
São Paulo, 19-20 de março de 1978
Florestan Fernandes
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De acordo com a intenção
original do autor, este trabalho que apresentamos
ao leitor devia ser dedicado ao desenvolvimento
detalhado das idéias expostas no artigo "Por Onde
Começar?" (Iskra, n.º 4, maio de 1901). Antes de
tudo, devemos desculpar-nos perante o leitor pelo
atraso verificado no cumprimento da promessa feita
nesse artigo (e repetida em resposta a numerosas
perguntas e cartas particulares). Uma das razões
desse atraso foi a tentativa de unificação de
todas as organizações sociais-democratas no
estrangeiro, empreendida em junho do ano passado
(1901). Seria natural que se aguardasse os
resultados dessa tentativa, pois, se tivesse
êxito, talvez fosse preciso expor sob um ângulo um
pouco diferente os pontos de vista do Iskra em
matéria de organização; em todo o caso, o êxito de
tal tentativa teria permitido pôr termo, de modo
bastante rápido, à existência de duas tendências
na social-democracia russa. Como o leitor não
ignora, essa tentativa fracassou e, como
procuraremos demonstrar mais adiante, não poderia
ter outro fim após a mudança inesperada do
Rabótcheie Dielo, em seu número 10, em direção ao
“economismo”. Tornou-se absolutamente necessário
empreender uma luta decisiva contra esta tendência
vaga e pouco determinada, porém tanto mais
persistente e suscetível de renascer sob as mais
variadas formas. Desse modo, o plano inicial deste
trabalho foi modificado e consideravelmente
ampliado.
O tema principal deveria
abranger as três questões propostas no artigo "Por
Onde Começar?", ou seja: o caráter e o conteúdo
essencial de nossa agitação política; nossas
tarefas de organização, o plano para a construção
de uma organização de combate para toda a Rússia
dirigido simultaneamente para diversos fins. Desde
há muito tais problemas vêm interessando ao autor,
que já procurou abordá-los na Rabótchaia Gazeta,
em uma das tentativas malogradas de se renovar
essa publicação (ver cap. V). Contudo, minha
intenção inicial de me limitar, neste trabalho,
somente à análise dessas três questões e de expor
meus pontos de vista, sempre que possível, de
forma positiva evitando recorrer à polêmica,
tornou-se completamente impraticável por duas
razões. Por um lado, o "economismo" revelou-se
muito mais forte do que os supúnhamos (empregamos
o termo "economismo” em sentido amplo, como foi
explicado no artigo do, Iskra, n.º. 12, dezembro
de 1901: “Uma Conversa com os Defensores do
Economismo”, artigo que traça por assim dizer, o
esboço do trabalho que apresentamos ao leitor).
Hoje é inegável que as diferentes opiniões a
respeito desses três problemas explicam-se muito
mais pela oposição radical das duas tendências na
social-democracia russa, do, que pelas
divergências quanto a detalhes. Por outro lado, a
perplexidade suscitada entre os “economistas" pela
exposição metódica de nossos pontos de vista no
Iskra evidenciou que, freqüentemente, falamos
línguas literalmente diferentes: que, por
conseguinte, não podemos chegar a qualquer acordo
se não começarmos ab ovo; que é necessário tentar
.Uma explicação metódica tão popular quanto
possível, ilustrada com exemplos concretos muito
numerosos, com todos os "economistas", sobre todos
os pontos capitais de nossas divergências. E
resolvi tentar tal "explicação”, compreendendo
perfeitamente que ela aumentaria consideravelmente
as dimensões deste trabalho e retardaria seu
aparecimento, mas não encontrei outro meio de
cumprir a promessa feita no artigo “Por Onde
Começar?". As desculpas por esse atraso, é
necessário acrescentar outras quanto à extrema
insuficiência da forma literária deste trabalho:
tive de trabalhar com a maior das pressas e,
ademais, foi interrompido freqüentemente por toda
a sorte de outros trabalhos.
A análise das três questões
indicadas anteriormente continua a ser o objeto
deste trabalho, mas tive de começar por duas
outras questões de ordem mais geral: por que uma
palavra de ordem tão "inofensiva" e “natural" como
"liberdade de crítica” constitui para nós um
verdadeiro grito de guerra? Por que, não podemos
chegar a um acordo nem sequer sobre a questão
fundamental do papel da social-democracia, em
relação ao movimento espontâneo das massas? Além
disso, a exposição dos meus pontos de vista sobre
o caráter e o conteúdo da agitação política visa a
explicar a diferença entre a política sindical e a
política social-democrata, e a exposição dos meus
pontos de vista sobre as tarefas de organização
visa a explicar a diferença entre os métodos
artesanais de trabalho, que satisfazem os
"economistas", e a organização dos revolucionários
que consideramos indispensável. Em seguida,
insisto mais uma vez sobre o "plano" de um jornal
político para toda a Rússia, pois as objeções que
têm sido feitas a esse respeito são inconsistentes
e não respondem à natureza da questão proposta no
artigo "Por Onde Começar?": como poderemos
empreender, simultaneamente e por todos os lados,
a formação da organização de que necessitamos?
Enfim, na última parte do trabalho espero
demonstrar que fizemos tudo o que dependia de nós
para evitar a ruptura definitiva com os
"economistas", ruptura que, entretanto, tornou-se
inevitável; que o Robótcheie Dielo adquiriu uma
importância especial, "histórica", se quiserem,
porque exprimiu da maneira mais completa e com
maior relevo, não o "economismo" conseqüente,. mas
a dispersão e as incertezas que constituíram o
traço peculiar de todo um período da história da
social-democracia russa; que, por conseguinte,
apesar de parecer bastante desenvolvida à primeira
vista, a polêmica com o Rabótcheie Dielo tem sua
razão de ser, pois não podemos seguir adiante sem,
liquidar definitivamente esse período.
fevereiro de 1902. N. Lênin
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a) Que significa a
"liberdade de crítica"?
"Liberdade de crítica” é, sem dúvida alguma, a
palavra de ordem, mais em voga atualmente, aquela
que aparece com mais freqüência nas discussões
entre socialistas e democratas de todos os países.
A primeira vista, nada parece mais estranho do que
ver um dos contraditores exigir solenemente a
liberdade de crítica. Acaso nos partidos avançados
ergueram-se vozes contra a lei constitucional que.
na maioria dos países europeus, garante a
liberdade da ciência e da investigação científica?
“Há algo escondido” dirá necessariamente todo
homem imparcial que ouviu essa palavra de ordem em
moda, repetida em todos os cantos, porém ainda não
aprendeu o sentido do desacordo. ”Essa palavra de
ordem é, evidentemente. uma daquelas pequenas
palavras convencionais que, como os apelidos são
consagrados pelo uso e tornam-se quase nomes
comuns”. De fato, não constitui mistério para
ninguém que, na social-democracia internacional de
hoje, se tenham formado duas tendências, cuja luta
ora “se anima e se inflama, ora se extingue sob as
cinzas das grandiosas resoluções de tréguas”. Em
que consiste a “nova tendência que "critica” o
"velho” marxismo "dogmático", disse-o Bernstein, e
demonstrou-o Millerand com suficiente clareza.
A social-democracia deve
transformar-se de partido da revolução social em
partido democrático de reformas sociais. Essa
reivindicação política, foi cercada por Bernstein
com toda uma bateria de "novos" argumentos e
considerações muito harmoniosamente orquestrados.
Nega ele a possibilidade de se conferir fundamento
científico ao socialismo e de se provar, do ponto
de vista da concepção materialista da história,
sua necessidade e sua inevitabilidade, nega a
miséria crescente, a proletarização e o
agravamento das contradições capitalistas; declara
inconsistente a própria concepção do "objetivo
final", e rejeita categoricamente a idéia da
ditadura do proletariado; nega a oposição de
princípios entre o liberalismo e o socialismo,
nega a teoria da luta de classes, considerando-a
inaplicável a uma sociedade estritamente
democrática, administrada segundo a vontade da
maioria etc.
Assim, a exigência de uma
mudança decisiva - da social-democracia
revolucionária para o reformismo social burguês -
foi acompanhada de reviravolta não menos decisiva
em direção à crítica burguesa de todas as idéias
fundamentais do marxismo. E como essa crítica, de
há muito, era dirigida contra o marxismo do alto
da tribuna política e da cátedra universitária, em
uma quantidade de publicações e em uma série de
tratados científicos: como, há dezenas de anos,
era inculcada sistematicamente à jovem geração das
classes instruídas, não é de se surpreender que a
"nova” tendência "crítica” na social-democracia
tenha surgido repentinamente sob sua forma
definitiva, tal como Minerva da cabeça de Júpiter.
Em seu conteúdo, essa tendência não teve de se
desenvolver e de se formar; foi transplantada
diretamente da literatura burguesa para a
literatura socialista.
Prossigamos. Se a crítica
teórica de Bernstein e suas ambições políticas
permaneciam ainda obscuras para alguns, os
franceses tiveram o cuidado de fazer uma
demonstração prática, do "novo método". Ainda
desta vez a França justificou sua velha reputação
de "país em cuja história a luta de classes, mais
do que em qualquer outro, foi resolutamente
conduzida até o fim" (Engels, trecho do prefácio
ao Der 18 Brumaire de Marx). Ao invés de teorizar,
os socialistas franceses agiram deliberadamente;
as condições políticas da França, mais
desenvolvidas no sentido democrático,
permitiram-lhes passar imediatamente ao "bernsteinismo
prático” com todas as suas conseqüências.
Millerand deu um exemplo brilhante desse
bernsteinismo prático; também, com que empenho
Bernstein e Volimar apressaram-se em defender e
louvar Millerand! De fato, se a social-democracia
não constitui, no fundo, senão um partido de
reformas e deve ter a coragem de reconhecê-lo
abertamente, o socialismo não somente tem o
direito de entrar em um ministério burguês, como
também deve mesmo aspirar sempre a isso. Se a
democracia significa, no fundo, a supressão da
dominação de classe, por que um ministro
socialista não seduziria o mundo burguês com
discursos sobre a colaboração das classes? Por que
não conservaria ele sua pasta, mesmo após os
assassínios de operários por policiais terem
demonstrado pela centésima e pela milésima vez o
verdadeiro caráter da colaboração democrática das
classes? Por que não facilitaria pessoalmente o
czar a quem os socialistas franceses não chamavam
senão de knouteur, pendeur et déportateur? E para
contrabalançar esse interminável aviltamento e
autoflagelação do socialismo perante o mundo
inteiro, essa perversão da consciência socialista
das massas operárias - única base que nos pode
assegurar a vitória -, são nos oferecidos os
projetos grandiloqüentes de reformas
insignificantes, insignificantes ao ponto de se
poder ter obtido mais dos governos burgueses!
Aqueles que não fecham os olhos,
deliberadamente, não podem deixar de ver que a
nova tendência “crítica” no socialismo nada mais é
que uma nova variedade do oportunismo. E se tais
pessoas forem julgadas, não a partir do brilhante
uniforme que vestiram, nem tampouco do título
pomposo que se atribuíram, mas a partir de sua
maneira de agir e das idéias que realmente
divulgam, tornar-se-á claro que “a liberdade de
crítica" é a liberdade da tendência oportunista na
social-democracia, a liberdade de transformar esta
em um partido democrático de reformas, a liberdade
de implantar no socialismo as idéias burguesas e
os elementos burgueses.
A liberdade é uma grande
palavra, mas foi sob a bandeira da liberdade da
indústria que foram empreendidas as piores guerras
de pilhagem, foi sob a bandeira da liberdade do
trabalho, que os trabalhadores foram espoliados. A
expressão “liberdade de crítica”, tal como se
emprega hoje, encerra a mesma falsidade. As
pessoas verdadeiramente convencidas de terem feito
progredir a ciência não reclamariam, para as novas
concepções, a liberdade de existir ao lado das
antigas, mas a substituição destas por aquelas.
Portanto, os gritos atuais de "Viva a liberdade de
crítica!” lembram muito a fábula do tonel vazio.
Pequeno grupo compacto, seguimos
por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos
fortemente pela mão. De todos os lados, estamos
cercados de inimigos, e é preciso marchar quase
constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por
uma decisão livremente tomada, precisamente a fim
de combater o inimigo e não cair no pântano ao
lado, cujos habitantes desde o início nos culpam
de termos formado um grupo à parte, e preferido o
caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns
dos nossos gritam: Vamos para o pântano! E quando
lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam:
Como vocês são atrasados! Não se envergonham de
nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um
caminho melhor! Sim, senhores, são livres não
somente para convidar, mas de ir para onde bem
lhes aprouver, até para o pântano; achamos,
inclusive, que seu lugar verdadeiro é precisamente
no pântano, e, na medida de nossas forças, estamos
prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus
lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não
nos agarrem e não manchem a grande palavra
liberdade, porque também nós somos “livres” para
ir aonde nos aprouver, livres para combater não só
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