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Biblioteca marxista |
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Produtividade do capital.
Trabalho produtivo e improdutivo
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Karl Marx
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a) Produtividade do capital - expressão
capitalista da produtividade do trabalho social |
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VIMOS como o capital produz, como ele mesmo
é produzido, e como, na qualidade de relação
transmutada na essência, resulta do processo de
produção, nele se desenvolve.121 De um lado,
transforma o modo de produção; do outro, essa
forma transmutada do modo de produção e estádio
particular do desenvolvimento das forças
produtivas materiais são o fundamento e condição —
o pressuposto da própria formação do capital.
Uma vez que o trabalho vivo — com a troca
entre capital e trabalhador — se incorpora ao
capital e aparece como atividade a este
pertencente desde o início do processo de
trabalho, todas as forças produtivas do trabalho
social passam a desempenhar o papel de forças
produtivas do capital, do mesmo modo que a forma
social geral do trabalho aparece no dinheiro como
propriedade de uma coisa. Assim, a força produtiva
do trabalho social e suas formas particulares se
apresentam então na qualidade de forças produtivas
e formas do capital, do trabalho materializado,
das condições materiais (objetivas) do trabalho —
as quais, nessa forma independente, em face do
trabalho vivo, se personificam no capitalista. Eis
aí, mais uma vez, a relação pervertida, que, ao
tratar do dinheiro, chamamos de fetichismo122.
O próprio capitalista só detém o poder por
personificar o capital (Na contabilidade italiana,
esse papel de capitalista, de capital
personificado, sempre se contrapõe a ele como
simples pessoa, e nessa qualidade o capitalista
apenas se revela consumidor particular e devedor
do próprio capital.)
A produtividade do capital, antes de mais
nada consiste, mesmo considerando-se apenas a
subsunção formal do trabalho ao capital123, na
coerção para se obter trabalho excedente trabalho
acima da necessidade imediata, coerção que o modo
capitalista de produção partilha com modos de
produção anteriores, mas que exerce e efetiva de
maneira mais favorável à produção.
Mesmo do ângulo dessa relação meramente
formal — na forma geral da produção capitalista, a
qual o modo menos desenvolvido dessa produção tem
em comum com o mais desenvolvido —, os meios de
produção, as condições objetivas de trabalho, a
saber, material de trabalho meios de trabalho (e
meios de subsistência), não se apresentam
subsumidos ao trabalhador; este é que aparece a
eles subsumido. Não é o trabalhador que os usa,
mas eles que o usam. E são, por esse meio,
capital. Capital emprega trabalho. Não são meios
para o trabalhador gerar produtos, seja na forma
de meios de subsistência imediatos seja na de
meios de troca, na de mercadorias. Ao contrario, o
trabalhador é para eles meio tanto de lhes
conservar o valor, quanto de criar mais-valia,
isto é, serve-lhes para o acrescer, para sugar
trabalho excedente.
Em sua simplicidade, essa relação já é uma
perversão, personificação da coisa, e coisificação
da pessoa; pois o que distingue essa forma de
todas as anteriores é que o capitalista domina o
trabalhador não por força de um atributo pessoal,
mas apenas enquanto é “capital"; esse poderio é
tão-só o do trabalho materializado sobre o vivo,
do produto do trabalhador sobre o próprio
trabalhador.
Mas a relação se torna ainda mais
complicada e de aparência mais enigmática porque,
com o desenvolvimento do modo de produção
especificamente capitalista, opõem-se ao
trabalhador e o confrontam no papel de “capital”,
além dessas coisas imediatamente materiais — todas
elas produtos do trabalho; condições objetivas e
produtos do trabalho, segundo o valor de uso, e
tempo de trabalho geral materializado ou dinheiro
segundo o valor de troca — as formas de trabalho
socialmente desenvolvido, cooperação, manufatura
(forma de divisão do trabalho), fábrica (forma do
trabalho social organizado com base material na
maquinaria), representando formas de
desenvolvimento do capital, e por isso as forças
produtivas do trabalho desenvolvidas a partir
dessas formas do trabalho social, em conseqüência
também à ciência e as forças naturais aparecem
como forças produtivas do capital. De fato, a
unidade na cooperação, a combinação na divisão do
trabalho, o emprego, na maquinaria para fins
produtivos, das forças naturais e da ciência junto
com os produtos do trabalho, tudo isso se opõe aos
próprios trabalhadores individuais como algo
estranho e coisificado, como simples forma de
existência dos meios de trabalho deles
independentes e que os dominam, e do mesmo modo
esses meios os enfrentam na forma visível,
simples, de material, instrumento etc., nas
funções de capital e, portanto de capitalista.
Quanto aos trabalhadores individuais, as
formas sociais de seu próprio trabalho ou as
formas de seu próprio trabalho social são relações
constituídas de maneira que deles em nada depende;
os trabalhadores, subsumidos ao capital, tornam-se
elementos dessas formações sociais, mas essas
formações sociais não lhes pertencem.
Enfrentam-nos, portanto como estruturas do próprio
capital, como combinações pertencentes ao capital,
distintas da força de trabalho individual,
oriundas do capital e nele incorporadas. E isto
assume feição tanto mais real quanto mais essas
formas modificam a própria força de trabalho —
tornando-a impotente para a ação autônoma, isto é,
fora do relacionamento capitalista, e
destruindo-lhe a capacidade autônoma de produzir -
e quanto mais as condições de trabalho, com o
desenvolvimento da maquinaria se patenteiam, no
plano tecnológico, dominantes do trabalho e ao
mesmo tempo o substituem, subjugam e o tornam
supérfluo nas formas independentes.
Nesse processo, onde as características
sociais de seu trabalho a eles se contrapõem, por
assim dizer, capitalizadas (na maquinaria, por
exemplo, os produtos visíveis do trabalho se
revelam dominadores do trabalho), o mesmo se dá
naturalmente com as forças naturais e com a
ciência, o produto do desenvolvimento histórico
geral em sua quinta-essência abstrata — elas os
enfrentam como forças do capital. Na realidade
separam-se da habilidade e do conhecimento do
trabalhador individual e, embora na origem também
sejam produto do trabalho, onde quer que entrem no
processo de trabalho, apresentam-se incorporadas
ao capital. O capitalista que emprega uma máquina
não precisa ter o conhecimento de seu mecanismo
(ver Ure). Mas, em relação aos trabalhadores, a
ciência realizada na máquina se revela capital. E
na realidade todo esse emprego, fundado no
trabalho social e em grande escala, da ciência,
das forças naturais e dos produtos do trabalho só
aparece mesmo como meio de explorar trabalho, de
apropriação de trabalho excedente, portanto, para
o trabalhador, como aplicação das forças
pertencentes ao capital. O capital emprega
naturalmente todos esses meios apenas para
explorar o trabalho, mas, para explorá-lo, tem de
os empregar na produção. E assim o desenvolvimento
das forças produtivas sociais do trabalho e as
condições desse desenvolvimento aparecem como ação
do capital, em relação à qual o trabalhador
individual tem mero comportamento passivo, e que
em oposição a ele se exerce.
O próprio capital, por consistir em
mercadorias, tem duplo caráter.
1. Valor de troca (dinheiro); mas valor que
se expande, valor que, por ser valor, cria valor,
como valor aumenta, obtém acréscimo. Isto se reduz
a troca de dada quantidade de trabalho
materializado contra quantidade maior de trabalho
vivo.
2. Valor de uso; então, o capital aparece
no processo de trabalho de acordo com suas
relações específicas. Mas justamente aí não é mais
apenas (matéria-prima) material de trabalho, meio
de trabalho, aos quais pertence o trabalho e os
quais incorporam a si o trabalho; junto com o
trabalho, o capital absorve também as combinações
sociais do trabalho e o desenvolvimento dos meios
de trabalho, correspondente a essas combinações
sociais. A produção capitalista desenvolve
primeiro em grande escala — arranca do trabalhador
individual independente — as condições do processo
de trabalho tanto objetivas quanto subjetivas, mas
as desenvolve como forças que dominam o
trabalhador individual e lhe são estranhas.
O capital se torna assim um ser prenhe de
mistérios.
O capital e, portanto produtivo:
1. ao forçar a execução de trabalho excedente;
2. ao absorver as forças produtivas do trabalho
social e as forças produtivas sociais gerais, como
a ciência, e delas se apropriar
(personificando-as).
Pergunta-se como ou por que meio o trabalho
se revela produtivo ao trabalho produtivo em face
do capital, uma vez que as forças produtivas do
trabalho se transpõem para o capital? E a mesma
força produtiva não pode ser contada duas vezes,
uma como força produtiva do trabalho, e outra como
força produtiva do capital? (Força produtiva do
trabalho - força produtiva do capital. Mas a força
de trabalho é produtiva pela diferença entre seu
valor e o valor que gera.)
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b) Trabalho produtivo no sistema de
produção capitalista |
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Só o tamanho espírito burguês, que
considera absolutas e, portanto formas naturais
eternas as formas capitalistas de produção, pode
confundir estas duas perguntas — que é trabalho
produtivo do ponto de vista do capital, e que
trabalho é em geral produtivo ou que é trabalho
produtivo em geral — e assim ter-se na conta de
muito sábio, ao responder que todo trabalho que
produza alguma coisa, um resultado qualquer, por
isso mesmo, é trabalho produtivo.
Primeiro: Só o trabalho que se transforma
diretamente em capital é produtivo; portanto, só
trabalho que faz do capital variável magnitude
variável e, em conseqüência, torna o capital total
C = C + ∆ 124. Se o capital variável, antes de se
trocar por trabalho, for igual a x, de modo a se
estabelecer à equação y = x, é produtivo o
trabalho que converte x a x + h e, por conseguinte
faz y = x, y’ = x + h. Este, o primeiro ponto a
elucidar: trabalho que produz mais-valia ou que é
força que permite ao capital criar mais-valia,
assumir a figura de capital, de valor que cresce
por si mesmo.
Segundo: As forças produtivas sociais e
gerais do trabalho são forças produtivas do
capital. Mas essas forças produtivas só concernem
ao processo de trabalho ou só dizem respeito ao
valor de uso. Representam propriedades inerentes
ao capital como coisa, seu valor de uso. Não
influenciam diretamente o valor de troca.
Trabalhem 100 pessoas em conjunto ou cada uma
delas de per si, o valor de seu produto é igual a
100 jornadas de trabalho, seja qual for à
quantidade de produtos em que se represente; isto
é, não importa a produtividade do trabalho. De
modo apenas, a variação na produtividade do
trabalho influi no valor de troca:
Se a produtividade do trabalho, por
exemplo, se desenvolve num ramo particular de
atividade, digamos, não constitui mais exceção na
tecelagem substituir os teares manuais pelos
mecânicos, exigindo a produção de uma jarda de
tecido por tear mecânico metade apenas do tempo
requerido pelo manual, então 12 horas de um
tecelão manual não representam mais um valor de 12
horas e sim de 6, pois agora o tempo de trabalho
necessário se reduziu para 6 horas. Às 12 horas do
tecelão manual só configuram 6 horas de tempo de
trabalho social, embora ele trabalhe 12 como
dantes.
Mas não é desse assunto que se trata aqui.
Tome-se, ao contrário, outro ramo de produção, por
exemplo, tipografia, onde ainda não se emprega
maquinaria. Nesse ramo, 12 horas produzem tanto
valor quanto 12 horas em ramos de produção em que
a maquinaria tem desenvolvimento máximo. Por
conseguinte, o trabalho que produz valor continua
sempre a ser trabalho do indivíduo, mas se
expressa na forma de trabalho geral. O trabalho
produtivo — como trabalho que produz valor —
confronta, por isso, o capital sempre na forma de
trabalho da força de trabalho individual, do
trabalhador isolado, sejam quais forem às
combinações sociais de que participem esses
trabalhadores no processo de produção.
Assim, enquanto o capital representa
perante o trabalhador a força produtiva social do
trabalho, o trabalho produtivo representa sempre
perante o capital nada mais que o trabalho do
trabalhador isolado.
Terceiro: Se parecem ser propriedade
natural do capital, oriunda, portanto de seu valor
de uso, extorquir trabalho excedente e
apropriar-se das forças produtivas sociais do
trabalho, ao revés, parece ser propriedade natural
do trabalho gerar as próprias forças produtivas
sociais como forças produtivas do capital, e o
próprio produto excedente, como mais-valia,
autovalorização do capital.
É mister desenvolver agora esses três
pontos e daí inferir a diferença entre trabalho
produtivo e improdutivo.
Quanto ao primeiro ponto, a produtividade
do capital consiste em contrapor-se ele ao
trabalho convertido em trabalho assalariado, e a
do trabalho, em contrapor-se aos meios de trabalho
convertidos em capital.
Vimos que dinheiro se torna capital, isto
é, dado valor de troca se converte em valor de
troca que acresce a si mesmo, em valor adicionado
de mais-valia, em virtude de parte dele
transformar-se em mercadorias que servem de meios
de trabalho para o trabalho (matérias-primas,
instrumentos, em suma, as condições materiais de
trabalho), e parte aplicar-se na compra de força
de trabalho. Entretanto, não é essa primeira troca
entre o dinheiro e a força de trabalho, ou a mera
compra desta, que transforma o dinheiro em
capital. Essa compra incorpora ao capital o uso da
força de trabalho por determinado tempo ou torna
determinada quantidade de trabalho vivo um dos
modos de existência, a enteléquia, por assim
dizer, do próprio capital.
No processo de produção efetivo, o trabalho
vivo se transforma em capital, ao reproduzir o
salário — portanto, o valor do capital variável —
e ainda gerar mais-valia; e por meio desse
processo de transformação, a soma toda em dinheiro
se converte em capital, embora à parte que varia
diretamente seja apenas a desembolsada em salário.
O valor se era igual a c + v, é igual agora a c +
(v + x), o mesmo que (c + v) + x 125; quer dizer,
a soma original de dinheiro, a magnitude de valor,
expandiu-se, revelou-se valor que ao mesmo tempo
se conserva e acresce.
(Cabe observar aqui: a circunstância de só
a parte variável do capital produzir acréscimo, em
nada altera o fato de aparecer expandida, por meio
desse processo, a totalidade do valor original, de
ficar ela acrescida de mais-valia, de se
transformar, portanto em capital toda a soma
original de dinheiro. É que o valor original = c +
v (capital constante e capital variável). No
processo torna-se c + (v + x); o último termo é a
parte reproduzida que surgiu pela transformação do
trabalho vivo em trabalho materializado,
transformação que é motivada e introduzida pela
troca de v por força de trabalho ou por sua
conversão em salário. Mas, c + (v + x) = c + v (o
capital original) + x. Ademais, a conversão de v
em v + x e, portanto, de (c + v) em (c + v) + x só
pode ocorrer quando parte do dinheiro se
transforma em c. Uma parte só pode transformar-se
em capital variável, quando a outra se transforma
em capital constante.)
No processo de produção efetivo, o trabalho
se converte realmente em capital, mas essa
conversão depende da troca originária entre
dinheiro e força de trabalho. Só em virtude dessa
conversão direta de trabalho em trabalho
materializado pertencente não ao trabalhador e sim
ao capitalista é que o dinheiro se converte em
capital, inclusive à parte dele que assumiu a
forma de meios de produção, de condições de
trabalho.
Antes, o dinheiro — exista na própria forma
ou na forma de mercadorias (produtos) adequadas
para servir de meios de produção de novas
mercadorias — é capital apenas em si 126.
Só a apontada relação definida com o
trabalho transforma o dinheiro ou a mercadoria em
capital, e é trabalho produtivo o trabalho que,
por meio dessa relação que mantém com as condições
de produção e a que corresponde determinado
comportamento no processo de produção efetivo —
transforma dinheiro ou mercadoria em capital, isto
é, conserva e acresce o valor do trabalho
materializado, que se tornou independente em
relação à força de trabalho. Trabalho produtivo é
uma abreviação para designar o conjunto do
re1acionamento e dos modos em que a força de
trabalho figura no processo capitalista de
produção. É da maior importância, porém,
distingui-lo de outras espécies de trabalho, pois
essa distinção exprime a especificidade da forma
do trabalho sobre que repousam o modo capitalista
de produção por inteiro e o próprio capital.
Trabalho produtivo, portanto é o que – no
sistema de produção capitalista – produz
mais-valia para o empregador ou que transforma as
condições materiais de trabalho em capital e o
dono delas em capitalista, por conseguinte
trabalho que produz o próprio produto como
capital.
Assim, ao falar de trabalho produtivo,
falamos de trabalho socialmente definido, trabalho
que envolve relação bem determinada entre o
comprador e o vendedor do trabalho.
Embora o dinheiro nas mãos do comprador da
força de trabalho — ou, se se expressa em
mercadoria, os meios de produção e os meios de
subsistência do trabalhador — só se torne capital
por meio do processo, só neste se converta em
capital, e essas coisas não sejam capital antes de
entrar no processo, mas apenas se destinem a ser
capital, são elas, entretanto, capital em si. São
capital em virtude da forma autônoma com que
confrontam a força de trabalho e esta as
confronta, uma relação que motiva e assegura a
troca com a força de trabalho e o processo daí
decorrente da conversão real do trabalho em
capital. Têm de antemão, em face dos
trabalhadores, a destinação social que as torna
capital e lhes dá o comando sobre o trabalho. Por
isso, com respeito ao trabalho, são precondições
na forma de capital.
Assim, podemos designar de trabalho
produtivo o que se troca diretamente por dinheiro
na qualidade de capital ou, apenas abreviando, o
que diretamente se troca por capital, isto é, por
dinheiro que em si é capital, tem a destinação de
funcionar como capital, ou que, na qualidade de
capital, enfrenta a força de trabalho. Na
expressão trabalho que se troca diretamente por
capital está implícito que o trabalho se troca por
dinheiro como capital e efetivamente se converte
em capital. A determinação do caráter imediato
dessa troca é matéria que logo veremos mais de
perto.
Trabalho produtivo é, portanto o que, para
o trabalhador, apenas reproduz o valor previamente
determinado de sua força de trabalho, mas, como
atividade geradora de valor, acresce o valor do
capital, ou contrapõe ao próprio trabalhador os
valores que criou na forma de capital.
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c) Duas fases da troca entre
capital e trabalho, distintas na essência |
Na troca entre capital e
trabalho, conforme vimos ao estudar o processo
de produção 127, é mister
distinguir duas fases, distintas na essência,
embora se condicionem uma a outra.
Primeiro.
A primeira troca entre trabalho e
capital é um processo formal, onde
o capital se configura em dinheiro e a
força de trabalho assume a forma de
mercadoria. A venda da força de trabalho
ocorre ideal ou juridicamente nesse primeiro
processo, embora só se pague o trabalho
após a execução, no fim do dia, da semana etc.
Essa circunstância em nada altera a transação em
que se vende a força de trabalho. O que
aí
diretamente
se vende não é mercadoria
em que o trabalho se realizou e sim o uso da
própria força de trabalho, de fato portanto
o próprio trabalho, pois o uso dessa
força é a ação dela, o trabalho. Não se
trata assim de troca de trabalho realizada por
meio da troca de mercadorias. Se A vende sapatos
a B, ambos trocam trabalho, o primeiro, trabalho
realizado em sapatos, e o segundo, em dinheiro.
Mas, na primeira troca se permuta trabalho
materializado na forma social geral, isto é,
em dinheiro, por trabalho que até então
só existe
como poder;
e o que é comprado e
vendido é o uso desse poder, ou seja, o
próprio trabalho, embora o valor da
mercadoria vendida não seja o valor do trabalho
(uma expressão irracional), mas o
valor da força de trabalho. Dá-se, portanto
diretamente troca entre trabalho
materializado e força de trabalho,
que de
fato
se reduz a trabalho vivo; por
conseguinte, entre trabalho materializado e
trabalho vivo. O salário — o valor da força de
trabalho — toma por isso a aparência, conforme
se explicou antes, de preço direto de compra,
preço do trabalho 128.
Nessa primeira fase, a relação
entre trabalhador e capitalista é a que
existe entre comprador e vendedor de mercadoria.
O capitalista paga o valor da força de
trabalho, portanto o
valor
da mercadoria que compra.
Mas, ao mesmo tempo, a força de
trabalho só é comprada porque o trabalho,
que pode realizar e se obriga a executar, é
maior que o trabalho necessário para reproduzir a
força de trabalho, e se apresenta por isso, em
valor maior que o valor da força de trabalho.
Segundo.
A segunda fase da troca
entre capital e trabalho nada tem a ver, na
realidade, com a primeira; no sentido estrito da
palavra, não é troca absolutamente.
Na primeira fase há troca de dinheiro por
mercadoria — troca de equivalentes —, e
trabalhador e capitalista se confrontam na
qualidade de donos de mercadorias. Trocam-se
equivalentes. (Isto é, à relação não importa
quando se trocam; e para a transação tanto faz
que o preço do trabalho esteja acima ou
abaixo do valor da força de trabalho ou lhe
seja
igual.
A transação portanto pode
ocorrer de acordo com a lei geral da troca de
mercadorias.)
Na segunda fase não há troca. O dono do dinheiro
cessou de ser comprador de mercadoria, e o
trabalhador, de ser vendedor de mercadoria. O dono
do dinheiro funciona agora como capitalista.
Consome a mercadoria que comprou, e o trabalhador
a fornece, pois o uso de sua força de trabalho
é seu próprio trabalho. Por meio da transação
anterior, o trabalho mesmo se tornou parte
da riqueza objetiva. O trabalhador o executa, mas
o trabalho pertence ao capital e agora é
deste apenas função. Ocorre portanto sob seu
controle e chefia diretos; e o produto onde se
materializa é a nova efígie em que o
capital aparece, ou melhor, em que se realiza
efetivamente como capital. Nesse
processo, portanto, o trabalho se materializa
de maneira direta, transforma-se de
imediato em capital, depois de já se ter
incorporado ao capital, formalmente, pela
primeira transação. Mais precisamente, converte-se
aí em capital mais trabalho do que o
capital (trabalho materializado 129)
que se desembolsou antes na compra de força de
trabalho. Nesse processo há apropriação de uma
parte não paga do trabalho, e só por esse meio o
dinheiro se transforma em capital.
Embora nessa fase, de fato, não ocorra troca, o
resultado, se pusermos de lado os meios que o
provocaram, é que — juntando-se ambas as fases —
determinada quantidade de trabalho materializado
se trocou por quantidade maior de trabalho vivo.
Isso se expressa no resultado do processo: o
trabalho que se materializou no produto é maior do
que o trabalho materializado na força de trabalho
e, portanto, maior do que o trabalho
materializado que é pago ao trabalhador, ou o
capitalista, no processo efetivo, recupera, isto
é, recebe não só à parte do capital a qual
desembolsou em salário, mas também mais-valia, que
nada lhe custa. A troca direta de trabalho por
capital significa aí: 1) a conversão imediata do
trabalho em capital, em elemento objetivo
componente no capital do processo de produção; 2)
a troca de determinada quantidade de trabalho
materializado pela mesma quantidade de trabalho
vivo acrescida de quantidade excedente de trabalho
vivo, da qual se assume a propriedade
sem troca.
A proposição — trabalho produtivo é o trabalho
que se troca diretamente por capital — abrange
toda essas fases e é apenas uma fórmula inferida
para dizer que é o trabalho que transforma
dinheiro em capital e faz a permuta com as
condições de produção guindadas a capital;
não se relaciona com elas qualificadas de meras
condições de produção, nem com elas se comporta
como trabalho puro e simples, sem destinação
social específica.
A proposição envolve: 1) a relação recíproca entre
dinheiro e força de trabalho como mercadoria,
compra e venda entre o dono do dinheiro e o dono
da força de trabalho; 2) a subsunção 129
direta do trabalho ao capital; 3) a
transformação direta do trabalho em capital no
processo de produção ou, o que dá no mesmo, a
criação da mais-valia para o capital. Ocorrem
duas espécies de troca
entre trabalho e
capital.
A primeira expressa apenas a compra
da força de trabalho e por isso, na realidade, do
trabalho e, em conseqüência, do respectivo
produto. A segunda, a conversão direta de trabalho
vivo em capital ou a materialização do
trabalho vivo como realização do capital. |
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d) O valor de uso específico do
trabalho produtivo para o capital |
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O resultado do processo de
produção capitalista não é mero produto (valor de
uso) nem mercadoria, isto é, valor de uso que tem
determinado valor de troca. Seu resultado, seu
produto, é criação de mais-valia para o capital e,
por isso, conversão real de dinheiro ou mercadoria
em capital; dinheiro e mercadoria são capital,
antes do processo de produção, pela intenção
apenas, em si, pela destinação. No processo de
produção absorve-se mais trabalho do que foi
comprado, e essa absorção, apropriação de trabalho
alheio não pago, consumada no processo de
produção, é o objetivo direto do processo de
produção capitalista; pois, o que o capital quer
produzir como capital (portanto, o capitalista
como capitalista) não é valor de uso imediato para
o próprio consumo pessoal, nem mercadoria para
transformar primeiro em dinheiro e depois em valor
de uso. Seu objetivo é o enriquecimento, o
acréscimo do valor, seu aumento, isto é, a
conservação do valor antigo e a criação de
mais-valia. E o capital só alcança esse produto
específico do processo de produção capitalista, na
troca pelo trabalho, que se chama por isso de
trabalho produtivo.
O trabalho, para produzir
mercadoria, tem de ser trabalho útil, produzir
valor de uso, configurar-se num valor de uso. E
por conseguinte só trabalho que se apresenta em
mercadoria, isto é, em valores de uso, é trabalho
por que se permuta capital. Este é um pressuposto
por si mesmo evidente. Mas, não é esse caráter
concreto do trabalho, seu valor de uso como tal —
a circunstância de ser, por exemplo, trabalho de
alfaiate, sapateiro, fiandeiro, tecelão etc. — que
constitui seu valor de uso específico para o
capital e por isso o qualifica de trabalho
produtivo no sistema de produção capitalista. O
que constitui seu valor de uso especifico para o
capital não é seu caráter útil particular,
tampouco as propriedades especiais úteis do
produto em que se materializou, e sim seu caráter
como o elemento criador do valor de troca, como
trabalho abstrato; mais precisamente, não é a
circunstância de representar, em suma, dada
quantidade desse trabalho geral, mas a de
representar quantidade maior que a contida em seu
preço, isto é, no valor da força de trabalho.
O valor de uso da força de
trabalho para o capital é justamente o excesso da
quantidade de trabalho que ela fornece além da
quantidade de trabalho que nela mesma se
materializa e por isso é necessária para
reproduzi-la. Fornece essa quantidade naturalmente
na forma determinada inerente a trabalho de
utilidade particular, como, por exemplo, trabalho
de fiar, tecer etc. Mas, esse caráter concreto,
que o capacita a configurar-se em mercadoria, não
é seu valor de uso específico para o capital. Para
este, seu valor de uso específico consiste em sua
qualidade de trabalho em geral e no que a
quantidade de trabalho que a força de trabalho
realiza excede a quantidade de trabalho que ela
custa.
Determinada soma de dinheiro x
torna-se capital por configurar-se no respectivo
produto como x + h; isto é, por ser a quantidade
de trabalho nela existente como produto maior que
a quantidade que nela antes se continha. E este é
o resultado da troca entre dinheiro e trabalho
produtivo, ou seja: só é produtivo o trabalho que
capacita o trabalho materializado, na troca por
ele, representar-se em quantidade maior de
trabalho materializado.
O processo capitalista de
produção, portanto, não consiste em mera produção
de mercadorias. É um processo que absorve trabalho
não pago, faz das matérias-primas e dos meios de
trabalho — os meios de produção — meios de
absorver trabalho não pago.
Do que se viu infere-se que
trabalho produtivo é uma qualificação que, de
início, absolutamente nada tem a ver com o
conteúdo característico do trabalho, com sua
utilidade particular ou com o valor de uso
peculiar em que ele se apresenta.
A mesma espécie de trabalho pode
ser produtiva ou improdutiva. Milton, por exemplo,
que escreveu o Paraíso Perdido por 5 libras
esterlinas, era um trabalhador improdutivo. Ao
revés, o escritor que fornece à editora trabalho
como produto industrial é um trabalhador
produtivo. Milton produziu o Paraíso Perdido pelo
mesmo motivo por que o bicho-da-seda produz seda.
Era uma atividade própria de sua natureza. Depois
vendeu o produto por 5 libras. Mas o proletário
intelectual de Leipzig, que sob a direção da
editora produz livros (por exemplo, compêndios de
economia), é um trabalhador produtivo; pois, desde
o começo, seu produto se subsume ao capital e só
para acrescer o valor deste vem à luz. Uma cantora
que vende seu canto por conta própria é um
trabalhador improdutivo. Mas, a mesma cantora, se
um empresário a contrata para ganhar dinheiro com
seu canto, é um trabalho produtivo, pois produz
capital. |
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e) Trabalho improdutivo e prestação
de serviços. Compra de serviços nas condições do
capitalismo. Concepção vulgar da relação entre
capital e trabalho como troca de serviço |
|
Releva distinguir agora diversas questões.
Para mim tanto faz comprar uma calça ou
comprar pano e mandar vir em casa um alfaiate a
quem pago o serviço (isto é, trabalho de alfaiate)
de converter o pano em calça, se o que está em
jogo é apenas obtê-la.
Compro a calça da alfaiataria que vende
roupas feitas, em vez de mandar faze-la em casa,
por ser cara esta solução, e custar menos à calça,
ser mais barata, quando produzida pela alfaiataria
capitalista. Mas, nos dois casos, transformo o
dinheiro com que compro a calça não em capital e
sim em calça, e nos dois casos trata-se para mim
de utilizar o dinheiro como simples meio de
circulação, isto é, convertê-lo nesse valor de uso
particular. O dinheiro aí não exerce portanto a
função de capital, embora num caso se troque por
mercadoria e no outro compre o próprio trabalho
como mercadoria. Só tem a função de dinheiro e,
mais precisamente de meio de circulação.
Contudo, o alfaiate que vem a minha casa
não é trabalhador produtivo, embora seu trabalho
me forneça o produto, a calça, e a ele, o preço do
trabalho, o dinheiro. É possível que a quantidade
de trabalho que o alfaiate me fornece seja maior
que a contida no preço que de mim recebe. E isso é
mesmo provável, pois o preço de seu trabalho é
determinado pelo preço que os alfaiates produtivos
recebem. Mas esse assunto não me interessa. Uma
vez dado o preço, para mim tanto faz que o
alfaiate trabalhe 8 ou 10 horas. Trata-se apenas
do valor de uso, a calça, e aí, tanto faz
comprá-la de uma maneira ou de outra, meu
interesse naturalmente é pagar o menos possível,
mas num caso nem mais nem menos que no outro,
noutras palavras, pagar o preço normal dela. Isso
é uma despesa com meu consumo, diminuição, ao
invés de acréscimo, de meu dinheiro. Não é meio de
enriquecimento, nem o é tampouco qualquer outra
maneira de despender dinheiro para meu consumo
pessoal.
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