Processo de Trabalho
e Processo de Produzir Mais Valia
Karl Marx
1. O Processo de Trabalho ou o Processo de
Produzir valores-de-uso
A UTILIZAÇÃO da força de trabalho é o próprio
trabalho. O comprador da força de trabalho
consome-a, fazendo o vendedor dela trabalhar.
Este, ao trabalhar, torna-se realmente no que
antes era apenas potencialmente: força de trabalho
em ação, trabalhador. Para o trabalho reaparecer
em mercadorias, tem de ser empregado em
valores-de-uso, em coisas que sirvam para
satisfazer necessidades de qualquer natureza. O
que o capitalista determina ao trabalhador
produzir é, portanto um valor-de-uso particular,
um artigo especificado. A produção de
valores-de-uso muda sua natureza geral por ser
levada a cabo em benefício do capitalista ou estar
sob seu controle. Por isso, temos inicialmente de
considerar o processo de trabalho à parte de
qualquer estrutura social determinada.
Antes de tudo, o trabalho é um processo de
que participam o homem e a natureza, processo em
que o ser humano com sua própria ação impulsiona,
regula e controla seu intercâmbio material com a
natureza.
Defronta-se com a natureza como uma de suas
forças. Põe em movimento as forças naturais de seu
corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de
apropriar-se dos recursos da natureza,
imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando
assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao
mesmo tempo modifica sua própria natureza.
Desenvolve as potencialidades nela
adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das
forças naturais. Não se trata aqui das formas
instintivas, animais, de trabalho. Quando o
trabalhador chega ao mercado para vender sua força
de trabalho, é imensa a distância histórica que
medeia entre sua condição e a do homem primitivo
com sua forma ainda instintiva de trabalho.
Pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente
humana. Uma aranha executa operações semelhantes
às do tecelão, e a abelha supera mais de um
arquiteto ao construir sua colméia. Mas o que
distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que
ele figura na mente sua construção antes de
transformá-la em realidade. No fim do processo do
trabalho aparece um resultado que já existia antes
idealmente na imaginação do trabalhador. Ele não
transforma apenas o material sobre o qual opera;
ele imprime ao material o projeto que tinha
conscientemente em mira, o qual constitui a lei
determinante do seu modo de operar e ao qual tem
de subordinar sua vontade. E essa subordinação não
é um ato fortuito. Além do esforço dos órgãos que
trabalham, é mister a vontade adequada que se
manifesta através da atenção durante todo o curso
do trabalho. E isto é tanto mais necessário quanto
menos se sinta o trabalhador atraído pelo conteúdo
e pelo método de execução de sua tarefa, que lhe
oferece por isso menos possibilidade de fruir da
aplicação das suas próprias forças físicas e
espirituais.
Os elementos componentes do processo de
trabalho são:
1) a atividade adequada a um fim, isto é o próprio
trabalho;
2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto
de trabalho;
3) os meios de trabalho, o instrumental de
trabalho.
A terra (do ponto de vista econômico,
compreende a água) que, ao surgir o homem, o provê
com meios de subsistência prontos para utilização
imediata, 1 existe independentemente da ação dele,
sendo o objeto universal do trabalho humano. Todas
as coisas que o trabalho apenas separa de sua
conexão imediata com seu meio natural constituem
objetos de trabalho, fornecidos pela natureza.
Assim, os peixes que se pescam, que são tirados do
seu elemento, a água, a madeira derrubada na
floresta virgem, o minério arrancado dos filões.
Se o objeto de trabalho é, por assim dizer,
filtrado através de trabalho anterior, chamamo-lo
de matéria-prima. Por exemplo, o minério extraído
depois de ser lavado. Toda matéria-prima é objeto
de trabalho, mas nem todo objeto de trabalho é
matéria-prima. O objeto de trabalho só é
matéria-prima depois de ter experimentado
modificação efetuada pelo trabalho.
O meio de trabalho é uma coisa ou um
complexo de coisas, que o trabalhador insere entre
si mesmo e o objeto de trabalho e lhe serve para
dirigir sua atividade sobre esse objeto. Ele
utiliza as propriedades mecânicas, físicas,
químicas das coisas, para fazê-las atuarem como
forças sobre outras coisas, de acordo com o fim
que tem em mira. 2 A coisa de que o trabalhador se
apossa imediatamente, - excetuados meios de
subsistência colhidos já prontos, como frutas,
quando seus próprios membros servem de meio de
trabalho, — não é o objeto de trabalho, mas o meio
de trabalho. Desse modo, faz de uma coisa da
natureza órgão de sua própria atividade, um órgão
que acrescenta a seus próprios órgãos corporais,
aumentando seu próprio corpo natural, apesar da
Bíblia. A terra, seu celeiro primitivo, é também
seu arsenal primitivo de meios de trabalho.
Fornece-lhe, por exemplo, a pedra que lança e lhe
serve para moer, prensar, cortar etc. A própria
terra é um meio de trabalho, mas, para servir como
tal na agricultura, pressupõe toda uma série de
outros meios de trabalho e um desenvolvimento
relativamente elevado da força de trabalho. 3 O
processo de trabalho, ao atingir certo nível de
desenvolvimento, exige meios de trabalho já
elaborados. Nas cavernas mais antigas habitadas
pelos homens, encontramos instrumentos e armas de
pedra. No começo da história humana, desempenham a
principal função de meios de trabalho os animais
domesticados, 4 amansados e modificados pelo
trabalho, ao lado de pedras, madeira, ossos e
conchas trabalhados. O uso e a fabricação de meios
de trabalho, embora em germe em certas espécies
animais, caracterizam o processo especificamente
humano de trabalho e Franklin define o homem como
“a toolmaking animal”, um animal que faz
instrumentos de trabalho. Restos de antigos
instrumentos de trabalho têm, para a avaliação de
formações econômico-sociais extintas, a mesma
importância que a estrutura dos ossos fósseis para
o conhecimento de espécies animais desaparecidas.
O que distingue as diferentes épocas econômicas
não é o que se faz, mas como, com que meios de
trabalho se faz. 55 Os meios de trabalho servem
para medir o desenvolvimento da força humana de
trabalho e, além disso, indicam as condições
sociais em que se realiza o trabalho. Os meios
mecânicos, que em seu conjunto podem ser chamados
de sistema ósseo e muscular da produção, ilustram
muito mais as características marcantes de uma
época social de produção, que os meios que apenas
servem de recipientes da matéria objeto de
trabalho e que, em seu conjunto, podem ser
denominados de sistema vascular da produção, como,
por exemplo, tubos, barris, cestos, cântaros etc.
Estes só começam a desempenhar papel importante na
produção química. 5a
Além das coisas que permitem ao trabalho
aplicar-se a seu objeto e servem de qualquer modo
para conduzir a atividade, consideramos meios de
trabalho em sentido lato todas as condições
materiais seja como forem necessárias à realização
do processo de trabalho. Elas não participam
diretamente do processo, mas este fica sem elas
total ou parcialmente impossibilitado de
concretizar-se. Nesse sentido, a terra é ainda um
meio universal de trabalho, pois fornece o local
ao trabalhador e proporciona ao processo que ele
desenvolve o campo de operação (field of
employment). Pertencem a essa classe meios
resultantes de trabalho anterior, tais como
edifícios de fábricas, canais, estradas etc.
No processo de trabalho, a atividade do
homem opera uma transformação, subordinada a um
determinado fim, no objeto sobre que atua por meio
do instrumental de trabalho. O processo
extingue-se ao concluir-se o produto. O produto é
um valor-de-uso, um material da natureza adaptado
às necessidades humanas através da mudança de
forma. O trabalho está incorporado ao objeto sobre
que atuou.
Concretizou-se e a matéria está trabalhada.
O que se manifestava em movimento, do lado do
trabalhador, se revela agora qualidade fixa, na
forma de ser, do lado do produto. Ele teceu e o
produto é um tecido.
Observando-se todo o processo do ponto de
vista do resultado, do produto, evidencia-se que
meio e objeto de trabalho são meios de produção 6
e o trabalho é trabalho produtivo. 7
Quando um valor-de-uso sai do processo de
trabalho como produto, participaram da sua
feitura, como meios de produção, outros
valores-de-uso, produtos de anteriores processos
de trabalho. Valor-de-uso que é produto de um
trabalho torna-se assim meio de produção de outro.
Os produtos destinados a servir de meio de
produção não são apenas resultado, mas também
condição do processo de trabalho.
Excetuadas as indústrias extrativas, cujo
objeto de trabalho é fornecido pela natureza
(mineração, caça, pesca etc; a agricultura se
compreende nessa categoria apenas quando desbrava
terras virgens), todos os ramos industriais têm
por objeto de trabalho a matéria-prima, isto é, um
objeto já filtrado pelo trabalho, um produto do
próprio trabalho. É o caso da semente na
agricultura. Animais e plantas que costumamos
considerar produtos da natureza são possivelmente
não só produtos do trabalho do ano anterior, mas,
em sua forma atual, produtos de uma transformação
continuada, através de muitas gerações, realizada
sob controle do homem e pelo seu trabalho. No
tocante aos meios de trabalho, a observação mais
superficial descobre, na grande maioria deles, os
vestígios do trabalho de épocas passadas.
A matéria-prima pode ser a substância
principal de um produto, ou contribuir para sua
constituição como material acessório. O meio de
trabalho consome o material acessório: assim, a
máquina a vapor, o carvão; a roda, o óleo; o
cavalo de tração, o feno. Ou o material acessório
é adicionado à matéria-prima, para modificá-la
materialmente: o cloro ao pano cru, o carvão ao
ferro, a anilina à lá; ou facilita a execução do
próprio trabalho: os materiais, por exemplo,
utilizados para iluminar e aquecer o local de
trabalho. A diferença entre substância principal e
acessória desaparece na fabricação em que se
processe uma transformação química, pois nesse
caso nenhuma das matérias-primas empregadas
reaparece como a substância do produto. 8
Tendo cada coisa muitas propriedades e servindo em
conseqüência a diferentes aplicações úteis, pode o
mesmo produto constituir matéria-prima de
processos de trabalho muito diversos. O centeio,
por exemplo, é matéria-prima do moleiro, do
fabricante de amido, do destilador de aguardente,
do criador de gado etc. Como semente, é
matéria-prima de sua própria produção. O carvão é
produto da indústria de mineração e, ao mesmo
tempo, meio de produção dela.
O mesmo produto pode no processo de
trabalho servir de meio de trabalho e de
matéria-prima. Na engorda de gado, por exemplo, o
boi é matéria-prima a ser elaborada e ao mesmo
tempo instrumento de produção de adubo.
Um produto que existe em forma final para
consumo pode tornar-se matéria-prima. A uva, por
exemplo, serve de matéria-prima para o vinho. Ou o
trabalho dá ao produto formas que só permitem sua
utilização como matéria-prima. Nesse caso,
chama-se a matéria-prima de semiproduto, ou,
melhor, de produto intermediário, como algodão,
fios, linhas etc. Embora já seja produto, a
matéria-prima original tem de percorrer toda uma
série de diferentes processos, funcionando em cada
um deles com nova forma, como matéria-prima, até
atingir o último processo, que faz dela produto
acabado, pronto para consumo ou para ser utilizado
como meio de trabalho.
Como se vê, um valor-de-uso pode ser
considerado matéria-prima, meio de trabalho ou
produto, dependendo inteiramente da sua função no
processo de trabalho, da posição que nele ocupa,
variando com essa posição a natureza do
valor-de-uso.
Ao servirem de meios de produção em novos
processos de trabalho perdem os produtos o caráter
de produto. Funcionam apenas como fatores
materiais desses processos. O fiandeiro vê no fuso
apenas o meio de trabalho, e na fibra de linho
apenas a matéria que fia, objeto de trabalho. Por
certo, é impossível a fiação sem material para
fiar e sem fuso. Pressupõe-se a existência desses
produtos para que tenha início a fiação. Mas,
dentro desse processo ninguém se preocupa com o
fato de a fibra de linho e o fuso serem produtos
de trabalho anterior, do mesmo modo que é
indiferente ao processo digestivo que o pão seja
produto dos trabalhos anteriores do triticultor,
do moleiro, do padeiro etc. Ao contrário, é
através dos defeitos que os meios de produção
utilizados no processo de trabalho fazem valer sua
condição de produtos de trabalho anterior. Uma
faca que não corta, o fio que se quebra etc.
lembram logo o cuteleiro A e o fiandeiro B. No
produto normal desaparece o trabalho anterior que
lhe imprimiu as qualidades úteis.
Uma máquina que não serve ao processo de
trabalho é inútil. Além disso, deteriora-se sob a
poderosa ação destruidora das forças naturais. O
ferro enferruja, a madeira apodrece. O fio que não
se emprega na produção de tecido ou de malha, é
algodão que se perde. O trabalho vivo tem de
apoderar-se dessas coisas, de arrancá-las de sua
inércia, de transformá-las de valores-de-uso
possíveis em valores-de-uso reais e efetivos. O
trabalho, com sua chama, delas se apropria, como
se fossem partes do seu organismo, e de acordo com
a finalidade que o move lhes empresta vida para
cumprirem suas funções; elas são consumidas, mas
com um propósito que as torna elementos
constitutivos de novos valores-de-uso, de novos
produtos que podem servir ao consumo individual
como meios de subsistência ou a novo processo de
trabalho como meios de produção.
Os produtos de trabalho anterior que, além de
resultado, constituem condições de existência do
processo de trabalho, só se mantêm e se realizam
como valores-de-uso através de sua participação
nesse processo, de seu contacto com o trabalho
vivo.
O trabalho gasta seus elementos materiais,
seu objeto e seus meios, consome-os, é um processo
de consumo. Trata-se de consumo produtivo que se
distingue do consumo individual: este gasta os
produtos como meios de vida do indivíduo, enquanto
aquele os consome como meios através dos quais
funciona a força de trabalho posta em ação pelo
indivíduo. O produto do consumo individual é,
portanto, o próprio consumidor, e o resultado do
consumo produtivo um produto distinto do
consumidor.
Quando seus meios (instrumental) e seu
objeto (matérias-primas etc.) já são produtos, o
trabalho consome produtos para criar produtos, ou
utiliza-se de produtos como meios de produção de
produtos. Mas, primitivamente, o processo de
trabalho ocorria entre o homem e a terra tal como
existia sem sua intervenção, e hoje continuam a
lhe servir de meios de produção coisas diretamente
fornecidas pela natureza, as quais não
representam, portanto, nenhuma combinação entre
substâncias naturais e trabalho humano.
O processo de trabalho, que descrevemos em
seus elementos simples e abstratos, é atividade
dirigida com o fim de criar valores-de-uso, de
apropriar os elementos naturais às necessidades
humanas; é condição necessária do intercâmbio
material entre o homem e a natureza; é condição
natural eterna da vida humana, sem depender,
portanto, de qualquer forma dessa vida, sendo
antes comum a todas as suas formas sociais. Não
foi por isso necessário tratar do trabalhador em
sua relação com outros trabalhadores. Bastaram o
homem e seu trabalho, de um lado, a natureza e
seus elementos materiais, do outro. O gosto do pão
não revela quem plantou o trigo, e o processo
examinado nada nos diz sobre as condições em que
ele se realiza, se sob o látego do feitor de
escravos ou sob o olhar ansioso do capitalista, ou
se o executa Cincinato lavrando algumas jeiras de
terra ou o selvagem ao abater um animal bravio com
uma pedra. 9
Voltemos ao nosso capitalista em embrião.
Deixamo-lo depois de ter ele comprado no mercado
todos os elementos necessários ao processo de
trabalho, os materiais ou meios de produção e o
pessoal, a força de trabalho. Com sua experiência
e sagacidade, escolheu os meios de produção e as
forças de trabalho adequados a seu ramo especial
de negócios, fiação, fabricação de calçados etc.
Nosso capitalista põe-se então a consumir a
mercadoria, a força de trabalho que adquiriu,
fazendo o detentor dela, o trabalhador, consumir
os meios de produção com o seu trabalho.
Evidentemente, não muda a natureza geral do
processo de trabalho executá-lo o trabalhador para
o capitalista e não para si mesmo.
De início, a intervenção do capitalista
também não muda o método de fazer calçados ou de
fiar. No começo tem de adquirir a força de
trabalho como a encontra no mercado, de
satisfazer-se com o trabalho da espécie que
existia antes de aparecerem os capitalistas. Só
mais tarde pode ocorrer a transformação dos
métodos de produção em virtude da subordinação do
trabalho ao capital e, por isso, só trataremos
dela mais adiante:
O processo de trabalho, quando ocorre como
processo de consumo da força de trabalho pelo
capitalista, apresenta dois fenômenos
característicos.
O trabalhador trabalha sob o controle do
capitalista, a quem pertence seu trabalho. O
capitalista cuida em que o trabalho se realize de
maneira apropriada e em que se apliquem
adequadamente os meios de produção, não se
desperdiçando matéria-prima e poupando-se o
instrumental de trabalho, de modo que só se gaste
deles o que for imprescindível à execução do
trabalho.
Além disso, o produto é propriedade do
capitalista, não do produtor imediato, o
trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o
valor diário da força de trabalho. Sua utilização,
como a de qualquer outra mercadoria, por exemplo,
a de um cavalo que alugou por um dia, pertence-lhe
durante o dia. Ao comprador pertence o uso da
mercadoria, e o possuidor da força de trabalho
apenas cede realmente o valor-de-uso que vendeu,
ao ceder seu trabalho. Ao penetrar o trabalhador
na oficina do capitalista, pertence a este o
valor-de-uso de sua força de trabalho, sua
utilização, o trabalho. O capitalista compra a
força de trabalho e incorpora o trabalho, fermento
vivo, aos elementos mortos constitutivos do
produto, os quais também lhe pertencem. Do seu
ponto de vista, o processo de trabalho é apenas o
consumo da mercadoria que comprou, a força de
trabalho, que só pode consumir adicionando-lhe
meios de produção. O processo de trabalho é um
processo que ocorre entre coisas que o capitalista
comprou, entre coisas que lhe pertencem. O produto
desse processo pertence-lhe do mesmo modo que o
produto do processo de fermentação em sua adega.
10
2. O Processo de Produzir mais Valia
O produto, de
propriedade do capitalista, é um valor-de-uso,
fios, calçados etc. Mas, embora calçados sejam
úteis à marcha da sociedade e nosso capitalista
seja um decidido progressista, não fabrica sapatos
por paixão aos sapatos. Na produção de
mercadorias, nosso capitalista não é movido por
puro amor aos valores-de-uso. Produz
valores-de-uso apenas por serem e enquanto forem
substrato material, detentores de valor-de-troca.
Tem dois objetivos. Primeiro, quer produzir um
valor-de-uso, que tenha um valor-de-troca, um
artigo destinado à venda, uma mercadoria.
E segundo,
quer produzir uma mercadoria de valor mais elevado
que o valor conjunto das mercadorias necessárias
para produzi-la, isto é, a soma dos valores dos
meios de produção e força de trabalho, pelos quais
antecipou seu bom dinheiro no mercado. Além de um
valor-de-uso quer produzir mercadoria, além de
valor-de-uso, valor, e não só valor, mas também
valor excedente (mais valia).
Tratando-se
agora de produção de mercadorias, só consideramos
realmente até aqui um aspecto do processo. Sendo a
própria mercadoria unidade de valor-de-uso e
valor, o processo de produzi-la tem de ser um
processo de trabalho ou um processe de produzir
valor-de-uso e, ao mesmo tempo, um processo de
produzir valor.
Focalizaremos
sua produção do ponto de vista do valor.
Sabemos que o
valor de qualquer mercadoria é determinado pela
quantidade de trabalho materializado em seu
valor-de-uso, pelo tempo de trabalho socialmente
necessário a sua produção. Isto se aplica também
ao produto que vai para as mãos do capitalista,
como resultado do processo de trabalho. De início,
temos portanto de quantificar o trabalho
materializado nesse produto.
Exemplifiquemos com fios.
Para a
produção de fios é necessário, digamos, 10 quilos
de algodão. No tocante ao valor do algodão, não é
necessário investigar, pois supomos ter sido
comprado no mercado pelo seu valor, 10 xelins. No
preço do algodão já está representado o trabalho
exigido para sua produção em termos de trabalho
social médio. Admitiremos ainda que, na elaboração
do algodão, o desgaste do fuso, que representa no
caso todos os outros meios de trabalho empregados,
atinge um valor de 2 xelins. Se uma quantidade de
ouro representada por 12 xelins é o produto de 24
horas de trabalho ou de 2 dias de trabalho,
infere-se que, de início, já estão incorporados no
fio dois dias de trabalho.
Não nos deve
levar à confusão nem a mudança de forma do algodão
nem a circunstância de ter desaparecido
inteiramente o que foi consumido do fuso. A
equação valor de 40 quilos de fio = valor de 40
quilos de algodão + valor de um fuso inteiro seria
verdadeira, segundo a lei geral do valor, se a
mesma quantidade de trabalho fosse exigida para
produzir o que está em cada um dos lados da
equação; nas mesmas condições, 10 quilos de fio
são o equivalente de 10 quilos de algodão mais ¼
de fuso.
No caso, o mesmo tempo de trabalho está
representado, de um lado, no valor-de-uso fio, e,
do outro, nos valores-de-uso algodão e fuso. Não
altera o valor aparecer sob a forma de fio, fuso
ou algodão. Se, em vez de deixar parados o fuso e
o algodão, combinamo-los no processo de fiação que
modifica suas formas de uso, transformando-os em
fio, essa circunstância em nada alteraria o valor
deles; seria o mesmo que os trocar simplesmente
por seu equivalente em fio.
O tempo de
trabalho exigido para a produção do algodão, a
matéria-prima no caso, é parte do necessário à
produção do fio e por isso está contido no fio. O
mesmo ocorre com o tempo de trabalho exigido para
a produção da parte dos fusos que tem de ser
desgastada ou consumida para fiar o algodão. 11
No tocante ao
valor do fio, o tempo de trabalho necessário à sua
produção, podemos considerar fases sucessivas de
um mesmo processo de trabalho, os diversos
processos especiais de trabalho, separados no
tempo e no espaço, a serem percorridos, para
produzir o próprio algodão, a parte consumida dos
fusos e, finalmente, o fio com o algodão e os
fusos. Todo o trabalho contido no fio é trabalho
pretérito. Não tem a menor importância que o tempo
de trabalho exigido para a produção dos elementos
constitutivos esteja mais afastado do presente que
o aplicado imediatamente no processo final, na
fiação. Se determinada quantidade de trabalho,
digamos, 30 dias de trabalho, é necessária à
construção de uma casa, em nada altera o tempo de
trabalho incorporado à casa que o trigésimo dia de
trabalho se aplique na construção 29 dias depois
do primeiro. Basta considerar o tempo de trabalho
contido no material e no instrumental do trabalho
como se tivesse sido despendido num estágio
anterior ao processo de fiação, antes do trabalho
de fiar finalmente acrescentado.
Os valores dos
meios de produção, o algodão e o fuso, expressos
no preço de 12 xelins, constituem partes
componentes do valor do fio ou do valor do
produto.
Mas, duas
condições têm de ser preenchidas. Primeiro algodão
e fuso devem ter servido realmente à produção de
um valor-de-uso. No caso, deve o fio ter surgido
deles. O valor não depende do valor-de-uso que o
representa, mas tem de estar incorporado num
valor-de-uso qualquer.
Segundo,
pressupõe-se que só foi aplicado o tempo de
trabalho necessário nas condições sociais de
produção reinantes. Se 1 quilo de algodão é
necessário para produzir 1 quilo de fio, só deve
ser consumido 1 quilo de algodão na fabricação de
1 quilo de fio. O mesmo vale para os fusos. Se o
capitalista se der ao luxo de empregar fusos de
ouro em vez de fusos de aço, só se computa no
valor do fio o trabalho socialmente necessário,
isto é, o tempo de trabalho necessário à produção
de fusos de aço.
Sabemos agora
à parte do valor do fio formada pelos meios de
produção, algodão e fuso. É igual a 12 xelins, que
representam dois dias de trabalho. Vejamos agora a
porção de valor que o trabalho do fiandeiro
acrescenta ao algodão.
Agora temos de
focalizar o trabalho sob aspecto totalmente
diverso daquele sob o qual o consideramos no
processo de trabalho. Tratava-se, então, da
atividade adequada para transformar algodão em
fio. Quanto mais apropriado o trabalho, melhor o
fio, continuando inalteradas as demais
circunstâncias. O trabalho do fiandeiro, como
processo de produzir valor-de-uso, é
especificamente distinto dos outros trabalhos
produtivos, e a diversidade se patenteia subjetiva
e objetivamente, na finalidade exclusiva de fiar,
no modo especial de operar, na natureza particular
dos meios de produção, no valor-de-uso específico
do seu produto. Algodão e fuso são indispensáveis
ao trabalho de fiar, mas não se pode com eles
estriar canos na fabricação de canhões. Mas,
agora, consideramos o trabalho do fiandeiro como
criador de valor, fonte de valor, e sob esse
aspecto não difere do trabalho do perfurador de
canhões, nem se distingue, tomando exemplo mais
próximo, dos trabalhos do plantador de algodão e
do produtor de fusos. É essa identidade que
permite aos trabalhos de plantar algodão, de fazer
fusos e de fiar constituírem partes, que diferem
apenas quantitativamente, do mesmo valor global, o
valor do fio. Não se trata mais da qualidade, da
natureza e do conteúdo do trabalho, mas apenas da
sua quantidade. Basta calcula-la. Pressupomos que
o trabalho de fiar é trabalho simples, trabalho
social médio. Ver-se-á depois que pressupor o
contrário em nada altera a questão.
Durante o
processo de trabalho, o trabalho se transmuta de
ação em ser, de movimento em produto concreto. Ao
fim de uma hora, a ação de fiar está representada
em determinada quantidade de fio; uma determinada
quantidade de trabalho, uma hora de trabalho se
incorpora ao algodão. Falamos em trabalho, ou
seja, no dispêndio da força vital do fiandeiro
durante uma hora, porque o trabalho de fiar só
interessa, aqui, como dispêndio da força de
trabalho e não como trabalho especializado.
É da maior
importância que durante o processo, durante a
transformação do algodão em fio, só se empregue o
tempo de trabalho socialmente necessário. Se sob
condições sociais de produção normais, médias, se
transformam x quilos de algodão durante uma hora
de trabalho em y quilos de fio, só se pode
considerar dia de trabalho de 12 horas, o que
transforma 12x quilos de algodão em 12y quilos de
fio. Só se considera criador de valor o tempo de
trabalho socialmente necessário.
Como o
trabalho, assumem a matéria-prima e o produto
aspecto totalmente diverso daquele sob o qual os
consideramos no processo de trabalho. A
matéria-prima serve aqui para absorver determinada
quantidade de trabalho. Com essa absorção
transforma-se em fio, por ter sido à força de
trabalho, a ela aplicada, despendida sob a forma
de fiação. Mas, o produto, o fio, apenas mede
agora o trabalho absorvido pelo algodão. E, numa
hora, 1.2/3 quilos de algodão se convertem em1.
2/3 quilos de fio, 10 quilos de fio representam 6
horas de trabalho absorvidas. Quantidades de
produto determinadas, estabelecidas pela
experiência, significam determinada quantidade de
trabalho, determinado tempo de trabalho
solidificado. Apenas materializam tantas horas ou
tantos dias de trabalho social.
Não importa
que o trabalho seja de fiação, que seu material
seja algodão e seu produto fio, nem interessa
tampouco que esse material já seja produto,
matéria-prima, portanto. Se o trabalhador, em vez
de fiar, estiver ocupado numa mina de carvão, o
carvão objeto de trabalho será fornecido pela
natureza. Apesar disso, determinada quantidade de
carvão extraído, 100 quilos, por exemplo,
representará a quantidade de trabalho que
absorveu.
Ao tratar da
venda da força de trabalho, supomos seu valor
diário = 3 xelins, objetivando-se nessa quantia 6
horas de trabalho. Essa quantidade de trabalho é,
portanto necessária para produzir a soma média
diária dos meios de subsistência do trabalhador.
Se numa hora de trabalho nosso fiandeiro
transforma 1.2/3 quilos de algodão em 1.2/2 quilos
de fio, 12 é claro que em 6 horas converterá 10
quilos de algodão em 10 quilos de fio. Assim,
durante a fiação, absorve o algodão 6 horas de
trabalho. O mesmo tempo está representado numa
quantidade de ouro com o valor de 3 xelins. Com a
fiação, acrescenta-se ao algodão um valor de 3
xelins.
Vejamos agora
o valor total do produto, os 10 quilos de fio.
Neles se incorporaram 2.1/2 dias de trabalho, dos
quais 2 se contêm no algodão e na substância
consumida do fuso e ½ foi absorvido durante o
processo de fiação. Esses 2.1/2 dias de trabalho
correspondem a uma quantidade de ouro equivalente
a 15 xelins. O preço adequado ao valor dos 10
quilos de fio é, portanto 15 xelins, e o de um
quilo de fio, 1 xelim e 6 pence.
Nosso
capitalista fica perplexo. O valor do produto é
igual ao do capital adiantado. O valor adiantado
não cresceu, não produziu excedente (mais valia),
o dinheiro não se transformou em capital. O preço
dos 10 quilos de fio é 15 xelins e essa quantia
foi gasta no mercado com os elementos
constitutivos do produto ou, o que é o mesmo, com
os fatores do processo de trabalho: 10 xelins com
algodão, 2 xelins com a parte consumida do fuso e
3 xelins com a força de trabalho. Pouco importa o
valor agregado do fio, pois é apenas a soma dos
valores existentes antes no algodão, no fuso e na
força de trabalho, e dessa mera adição de valores
existentes não pode jamais surgir mais valia. 13
Esses valores estão agora concentrados numa só
coisa, mas já formavam uma unidade na quantidade
de 15 xelins antes de ela se distribuir em três
compras de mercadorias.
Considerado em
si mesmo não há por que estranhar esse resultado.
O valor de 1 quilo de fio é 1 xelim e 6 pence e
por 10 quilos de fio nosso capitalista teria de
pagar no mercado 15 xelins. Tanto faz que compre
no mercado, já construída, sua casa particular ou
que a mande construir: o modo de aquisição não
alterará a quantia de dinheiro que tiver de
empregar.
O capitalista,
familiarizado com a economia vulgar, dirá
provavelmente que adiantou seu dinheiro com a
intenção de fazer com ele mais dinheiro. Mas, o
caminho do inferno está calçado de boas intenções,
e ele podia ter até a intenção de fazer dinheiro,
sem nada produzir.14 Ameaça. Não o embrulharão de
novo. Futuramente comprará a mercadoria pronta no
mercado, em vez de fabricá-la. Mas se todos os
seus colegas capitalistas fizerem o mesmo, como
achar mercadoria para comprar? Não pode comer seu
dinheiro. Resolve doutrinar. Sua abstinência deve
ser levada em consideração. Podia ter esbanjado em
prazeres seus 15 xelins. Ao invés disso,
consumiu-os produtivamente, transformando-os em
fio. Reparamos, entretanto, que tem agora fio em
vez de remorsos. Que não se deixe dominar pela
tentação de entesourar, pois já vimos a que
resultados leva o ascetismo do entesourador. Além
disso, o rei perde seus direitos onde nada existe.
Qualquer que seja o mérito de sua renúncia, nada
existe para remunerá-la, uma vez que o valor do
produto que sai do processo apenas iguala a soma
dos valores das mercadorias que nele entraram. Que
ele se console com a idéia de a virtude ser a
recompensa da virtude. Mas não, ele se torna
importuno. O fio não tem para ele nenhuma
utilidade. Produziu-o para vender. Se assim é, que
o venda, ou melhor, ainda, que doravante só
produza coisas para o próprio consumo, receita que
MacCulloch,
O médico da
família, já lhe prescrevera como infalível contra
a epidemia da superprodução. O capitalista se
lança ao ataque. Poderia o trabalhador construir
fábricas no ar, produzir mercadorias? Não lhe
forneceu ele os elementos materiais, sem os quais
não lhe teria sido possível materializar seu
trabalho? Sendo a maioria da sociedade constituída
dos que nada possuem, não prestou ele um serviço
inestimável à sociedade com seus meios de
produção, seu algodão e seus fusos, e ao próprio
trabalhador, a quem forneceu ainda os meios de
subsistência? Não deve ele computar todo esse
serviço? Mas, reparamos, não lhe compensou o
trabalhador ao converter o algodão e o fuso em
fio? Além disso, não se trata aqui de serviço.15
Serviço nada mais é que o efeito útil de um
valor-de-uso, mercadoria ou trabalho. 16 Trata-se
aqui de valor-de-troca. O capitalista pagou ao
trabalhador o valor de 3 xelins. O trabalhador
devolveu-lhe um equivalente exato no valor de 3
xelins, acrescido ao algodão. Valor contra valor.
Nosso amigo, até a pouco arrogante,, assume
subitamente a atitude modesta do seu próprio
trabalhador. Não trabalhou ele, não realizou o
trabalho de vigiar e de superintender o fiandeiro?
Não constitui valor esse trabalho? Mas, seu
capataz e seu gerente encolhem os ombros.
Entrementes, nosso capitalista recobra sua
fisionomia costumeira com um sorriso jovial. Com
toda aquela ladainha, estava apenas se divertindo
às nossas custas. Não daria um centavo por ela.
Deixa esses e outros subterfúgios e embustes por
conta dos professores de economia, especialmente
pagos para isso. Ele é um homem prático que nem
sempre pondera o que diz fora do negócio, mas sabe
o que faz dentro dele.
Examinemos o
assunto mais de perto. O valor diário da força de
trabalho importava em 3 xelins, pois nela se
materializa meio dia de trabalho, isto é, custam
meio dia de trabalho os meios de subsistência
quotidianamente necessários para produzir a força
de trabalho. Mas, o trabalho pretérito que se
materializa na força de trabalho e o trabalho vivo
que ela pode realizar, os custos diários de sua
produção e o trabalho que ela despende são duas
grandezas inteiramente diversas. A primeira
grandeza determina seu valor-de-troca, a segunda
constitui seu valor-de-uso. Por ser necessário
meio dia de trabalho para a manutenção do
trabalhador durante 24 horas, não se infira que
este está impedido de trabalhar uma jornada
inteira. O valor da força de trabalho e o valor
que ela cria no processo de trabalho são, portanto
duas magnitudes distintas. O capitalista tinha em
vista essa diferença de valor quando comprou a
força de trabalho. A propriedade útil desta, de
fazer fios ou sapatos, era apenas uma conditio
sine qua non, pois o trabalho para criar valor,
tem de ser despendido em forma útil. Mas, o
decisivo foi o valor-de-uso específico da força de
trabalho, o qual consiste em ser ela fonte de
valor e de mais valor que o que tem. Este é o
serviço específico que o capitalista dela espera.
E ele procede no caso de acordo com as leis
eternas da troca de mercadorias. Na realidade, o
vendedor da força de trabalho, como o de qualquer
outra mercadoria, realiza seu valor-de-troca e
aliena seu valor-de-uso. Não pode receber um, sem
transferir o outro. O valor-de-uso do óleo vendido
não pertence ao comerciante que o vendeu, e o
valor-de-uso da força de trabalho, o próprio
trabalho, tampouco pertence a seu vendedor. O
possuidor do dinheiro pagou o valor diário da
força de trabalho; pertence-lhe, portanto, o uso
dela durante o dia, o trabalho de uma jornada
inteira. A manutenção quotidiana da força de
trabalho custa apenas meia jornada, apesar de a
força de trabalho poder operar, trabalhar uma
jornada inteira, e o valor que sua utilização cria
num dia é o dobro do próprio valor-de-troca. Isto
é uma grande felicidade para o comprador, sem
constituir injustiça contra o vendedor.
Nosso
capitalista previu a situação que o faz sorrir.
Por isso, o trabalhador encontra na oficina os
meios de produção não para um processo de trabalho
de seis horas, mas de doze. Se 10 quilos de
algodão absorvem 6 horas de trabalho e se
transformam em 10 quilos de fio, 20 quilos de
algodão absorverão 12 horas de trabalho e se
converterão em 20 quilos de fio. Examinemos o
produto do processo de trabalho prolongado. Nos 20
quilos de fio estão materializados agora 5 dias de
trabalho, dos quais 4 no algodão e na porção
consumida do fuso, e 1 absorvido pelo algodão
durante a fiação. A expressão em ouro de 5 dias de
trabalho é 30 xelins. Este é o preço de 20 quilos
de fio. 1 quilo de fio custa agora, como dantes, 1
xelim e 6 pence. Mas a soma dos valores das
mercadorias lançadas no processo importa em 27
xelins. O valor do fio é de 30 xelins. O valor do
produto ultrapassa de 1/9 o valor antecipado para
sua produção. Desse modo, 27 xelins se
transformaram em 30 xelins. Criou-se uma mais
valia de 3 xelins. Consumou-se finalmente o
truque; o dinheiro se transformou em capital.
Satisfizeram-se todas as condições do problema e
não se violaram as leis que regem a troca de
mercadorias. Trocou-se equivalente por
equivalente. Como comprador, o capitalista pagou
toda mercadoria pelo valor, algodão, fuso, força
de trabalho. E fez o que faz qualquer outro
comprador de mercadoria. Consumiu seu
valor-de-uso. Do processo de consumo da força de
trabalho, ao mesmo tempo processo de produção de
mercadoria, resultaram 20 quilos de fio com um
valor de 30 xelins. O capitalista, depois de ter
comprado mercadoria, volta ao mercado para vender
mercadoria. Vende o quilo de fio por 1 xelim e 6
pence, nem um centavo acima ou abaixo de seu
valor. Tira, contudo, da circulação 3 xelins mais
do que nela lançou. Essa metamorfose, a
transformação de seu dinheiro em capital, sucede
na esfera da circulação e não sucede nela. Por
intermédio da circulação, por depender da compra
da força de trabalho no mercado. Fora da
circulação, por esta servir apenas para se chegar
à produção da mais valia, que ocorre na esfera da
produção. E assim “tudo que acontece é o melhor
que pode acontecer no melhor dos mundos
possíveis”.
Ao converter
dinheiro em mercadorias que servem de elementos
materiais de novo produto ou de fatores do
processo de trabalho e ao incorporar força de
trabalho viva à materialidade morta desses
elementos, transforma valor, trabalho pretérito,
materializado, morto, em capital, em valor que se
amplia, um monstro animado que começa a
“trabalhar”, como s