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Biblioteca marxista |
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Manifesto do Partido Comunista
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Karl Marx e Friedrich Engels
fevereiro de 1848
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Prefácio à edição alemã de 1872 |
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A Liga dos Comunistas, associação operária
internacional que, nas circunstâncias de então, só
podia evidentemente ser secreta, encarregou os
abaixo-assinados, no Congresso que teve lugar em
Londres em Novembro de 1847, de redigir um
programa detalhado, simultaneamente teórico e
prático, do Partido e destinado à publicação. Tal
é a origem deste Manifesto, cujo manuscrito foi
enviado para Londres, para ser impresso, algumas
semanas antes da Revolução de Fevereiro. Publicado
primeiro em Alemão, houve nesta língua pelo menos
doze edições diferentes na Alemanha, na Inglaterra
e na América do Norte. Traduzido em inglês por
Miss Helen Macfarlane, apareceu em 1850, em
Londres, no Red Republican, e, em 1871, teve na
América, pelo menos, três traduções inglesas.
Apareceu em francês, pela primeira vez, em Paris,
pouco tempo antes da insurreição de Junho de 1848,
e, recentemente, em Le Socialiste, de Nova Iorque.
Atualmente, prepara-se uma nova tradução. Fez-se
em Londres uma edição em polaco, pouco tempo
depois da primeira edição. Apareceu em russo, em
Genebra, na década de 60. Foi também traduzido em
dinamarquês pouco depois da sua publicação
original. Ainda que as circunstâncias tenham
mudado muito nos últimos vinte e cinco anos, os
princípios gerais expostos neste Manifesto
conservam ainda hoje, no seu conjunto, toda a sua
exatidão. Alguns pontos deveriam ser retocados. O
próprio Manifesto explica que a aplicação dos
princípios dependerá sempre e em toda a parte das
circunstâncias históricas existentes, e que,
portanto, não se deve atribuir demasiada
importância às medidas revolucionárias enumeradas
no final do capítulo II. Esta passagem,
atualmente, teria de ser redigida de maneira
diferente, em mais do que um aspecto. Dados os
imensos progressos da grande indústria nos últimos
vinte e cinco anos e os progressos paralelos
levados a cabo pela classe operária na sua
organização em partido, dadas as experiências
práticas, primeiro na Revolução de Fevereiro,
depois, e sobretudo, na Comuna de Paris, que,
durante dois meses e pela primeira vez, pôs nas
mãos do proletariado o poder político, este
programa envelheceu em alguns dois seus pontos. A
Comuna demonstrou, nomeadamente, que a "classe
operária não pode contentar-se com tomar tal qual
a máquina estatal e fazê-la funcionar por sua
própria conta". (Ver "Manifesto do Conselho Geral
da Associação Internacional dos Trabalhadores", A
Guerra Civil em França, onde esta idéia está mais
amplamente desenvolvida). Além disso, é evidente
que a crítica da literatura socialista apresenta
uma lacuna em relação ao momento atual, uma vez
que só chega a 1847. E, de igual modo, se as
observações sobre a posição dos comunistas face
aos diferentes partidos da oposição (capítulo IV)
são ainda hoje exatas nos seus princípios, na sua
aplicação elas envelheceram, porque a situação
política se modificou completamente e a evolução
histórica fez desaparecer a maior parte dos
partidos que ali se enumeram. No entanto, o
Manifesto é um documento histórico que já não
temos direito a modificar. Uma edição posterior
será talvez precedida de uma introdução que poderá
preencher a lacuna entre 1847 e os nossos dias; a
atual reimpressão foi tão inesperada para nós, que
não tivemos tempo de escrevê-la.
Karl Marx, Friedrich Engels. Londres, 24
de Junho de 1872
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Manifesto do partido comunista1 |
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Um espectro ronda a Europa - o espectro do
comunismo. Todas as potências da velha Europa
unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa
e o Tzar, Metternich e Guizot, os radicais da
França e os policiais da Alemanha.
Que partido de oposição não foi acusado de
comunista por seus adversários no poder? Que
partido de oposição, por sua vez, não lançou a
seus adversários de direita ou de esquerda a pecha
infamante de comunista?
Duas conclusões decorrem desses fatos:
1º) O comunismo já é reconhecido como força por
todas as potências da Europa; 2º) É tempo de os
comunistas exporem, à face do mundo inteiro, seu
modo de ver, seus fins e suas tendências, opondo
um manifesto do próprio partido à lenda do
espectro do comunismo.
Com este fim, reuniram-se, em Londres,
comunistas de várias nacionalidades e redigiram o
manifesto seguinte, que será publicado em Inglês,
francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês.
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Burgueses e proletários2 |
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A história de todas as sociedades que
existiram até aos nossos dias3
é a história da luta de classes.
Homens livres e escravos, patrícios e plebeus,
senhores e servos, mestres4
e oficiais, numa palavra: opressores e oprimidos,
em oposição constante, travaram uma guerra
ininterrupta, ora aberta, ora dissimulada, uma
guerra que acaba sempre pela transformação
revolucionária de toda a sociedade, ou pela
destruição das duas classes beligerantes. Nas
primeiras épocas históricas, constatamos, quase
por toda a parte, uma organização completa da
sociedade em classes distintas, uma escala gradual
de condições sociais: na Roma antiga, encontramos
patrícios, cavaleiros plebeus e escravos; na Idade
Média, senhores feudais, vassalos, mestres,
oficiais e servos, e, além disso, em quase todas
estas classes encontramos graduações especiais.
A sociedade burguesa moderna, que saiu das ruínas
da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de
classes. Apenas substituiu as velhas classes, as
velhas condições de opressão, as velhas formas de
luta por outras novas. Entretanto, o caráter
distintivo da nossa época, da época da burguesia,
é o de ter simplificado os antagonismos de
classes. A sociedade divide-se cada vez mais em
dois vastos campos inimigos, em duas grandes
classes diametralmente opostas: a burguesia e o
proletariado. Dos servos da Idade Média
nasceram os vilãos livres das primeiras cidades;
deste estrato urbano saíram os primeiros elementos
da burguesia. A descoberta da América e a
circum-navegação da África ofereceram à burguesia
em ascensão um novo campo de atividade. Os
mercados das Índias Orientais e da China, a
colonização da América, o comércio colonial, a
multiplicação dos meios de troca e das mercadorias
em geral imprimiram ao comércio, à navegação e à
indústria um impulso até então desconhecido e
aceleraram com isso o desenvolvimento do elemento
revolucionário da sociedade em decomposição. O
antigo modo de exploração feudal ou cooperativo da
indústria já não podia satisfazer a procura, que
crescia com a abertura de novos mercados. A
manufatura tomou o seu lugar. a média burguesia
industrial suplantou os mestres das corporações; a
divisão do trabalho entre as diferentes
corporações deu lugar à divisão do trabalho no
seio da mesma oficina. Mas os mercados cresciam
sem cessar: a procura crescia sempre. A própria
manufatura torna-se insuficiente. O vapor e a
máquina revolucionaram então a produção
industrial. A grande indústria moderna suplantou a
manufatura: a média burguesia deu lugar aos
milionários da indústria, aos chefes de
verdadeiros exércitos industriais, aos burgueses
modernos. A grande indústria criou o mercado
mundial, preparado pela descoberta da América. O
mercado mundial acelerou prodigiosamente o
desenvolvimento da navegação e de todos os meios
de transporte terrestre. Este desenvolvimento
influiu por sua vez na extensão da indústria; e à
medida que a indústria, o comércio, a navegação e
os caminhos de ferro se desenvolviam, a burguesia
crescia, decuplicando os seus capitais e
reelegendo para segundo plano todas as classes
ligadas pela Idade Média. A burguesia moderna,
como vimos, é ela mesma o produto de um longo
desenvolvimento, de uma série de revoluções no
modo de produção e troca. Cada etapa da
evolução percorrida pela burguesia era acompanhada
pelo correspondente progresso político5.
Estrato oprimido pelo despotismo feudal;
associação armada e autônoma na comuna, uns
sítios, republica urbana independente, noutros,
terceiro estado tributário da monarquia;6
depois, durante o período da manufatura,
contrapeso da nobreza nas monarquias feudais ou
absolutas e, em geral, pedra angular das grandes
monarquias, a burguesia, depois do estabelecimento
da grande indústria e do mercado mundial,
conquistou finalmente a hegemonia exclusiva do
poder político no estado representativo moderno. O
governo do estado moderno não é mais do que uma
junta que administra os negócios comuns de toda a
classe burguesa. A burguesia desempenhou na
história um papel eminentemente revolucionário.
Onde quer que conquistou o poder, a burguesia
destruiu todas as relações feudais, patrimoniais e
idílicas. Todos os laços complexos e variados que
unem o homem feudal aos seus "superiores
naturais", esmagou-os sem piedade para não deixar
subsistir outro vínculo entre os homens que o frio
interesse, as duras exigências do "a contado".
Afagou o sagrado êxtase do fervor religioso, o
entusiasmo cavalheiresco e o sentimentalismo
pequeno-burguês nas águas geladas do calculo
egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor
de troca; substituiu as liberdades tão
afetuosamente conquistadas por uma liberdade única
e impiedosa: a liberdade do comércio. Numa
palavra, em lugar da exploração velada por ilusões
religiosas e políticas, estabeleceu uma
exploração, descarada, direta e brutal. A
burguesia despojou da sua auréola todas as
atividades que até ai passavam por veneráveis e
dignas de piedoso respeito. Converteu o médico, o
jurista, o padre, o poeta, o sábio em assalariados
ao seu serviço. A burguesia rasgou o véu de
emocionante sentimentalismo que cobria as relações
familiares e reduziu-as a simples relações de
dinheiro. A burguesia revelou como a brutal
manifestação de forças na Idade Média, tão
admirada pela reação, tinha o seu complemento
natural na preguiça mais sórdida. Foi ela que,
pela primeira vez, demonstrou o que pode realizar
a atividade humana; criou maravilhas que
ultrapassam de longe as pirâmides do Egito, os
aquedutos romanos, as catedrais góticas, realizou
expedições que deixaram na sombra as invasões e as
cruzadas. A burguesia não pode existir sem
revolucionar constantemente os instrumentos de
produção, e, por conseguinte, as relações de
produção, isto é, o conjunto das relações sociais.
A conservação do antigo modo de produção era, pelo
contrário, a primeira condição de existência de
todas as classes industriais anteriores. Um
revolução continua na produção, uma incessante
comoção de todo o sistema social, uma agitação e
uma insegurança constantes distinguem a época
burguesa de todas as anteriores.7
Todas as relações sociais estancadas e
ferrugentas, com o seu cortejo de concepções e de
idéias antigas e veneradas, dissolvem-se; as que
as substituem envelhecem antes de se terem podido
ossificar. Tudo o que tinha solidez e permanência
esfumam-se; tudo o que era sagrado é profano, e os
homens, finalmente, vêem-se forçados a encarar as
suas condições de existência e as suas relações
recíprocas com olhos desiludidos. Impelida pela
necessidade de dar cada vez maior saída aos seus
produtos, a burguesia invade o mundo inteiro.
Necessita implantar-se por toda a parte, explorar
por toda a parte, estabelecer relações por toda a
parte. Pela exploração do mercado mundial, a
burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e
ao consumo de todos os países. Para grande
desespero dos reacionários, retirou à industria a
sua base nacional. As velhas industrias nacionais
foram e estão continuamente a ser destruídas. São
suplantadas por novas indústrias, cuja adoção se
torna uma questão de vida ou de morte para todas
as nações civilizadas, indústrias que já não
empregam matérias-primas indígenas, mas
matérias-primas vinda das mais longínquas regiões
do mundo, e cujos produtos se consomem não só no
próprio país, mas em todas as partes do globo. Em
vez das antigas necessidades, satisfeitas com
produtos nacionais, surgem necessidades novas, que
reclamam para sua satisfação produtos das regiões
e climas mais longínquos. Em vez do antigo
isolamento das regiões e nações que se bastavam a
si mesmas, estabelece-se um intercâmbio universal,
uma interdependência universal das nações. E isto
refere-se tanto à produção material, como à
produção intelectual. A produção intelectual de
uma nação converte-se em propriedade comum de
todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais
tornam-se de dia para dia mais impossíveis; e da
multiplicidade das literaturas nacionais e locais
nasce uma literatura universal. Em virtude do
rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de
produção e do constante progresso dos meios de
comunicação, a burguesia arrasta na corrente da
civilização todas as nações, até as mais bárbaras.
Os baixos preços das suas mercadorias constituem a
artilharia pesada que derruba todas as muralhas da
China e faz capitular os bárbaros mais
fanaticamente hostis aos estrangeiros. Sob pena de
corte, força todas as nações a adotar o modo
burguês de produção; força-as a introduzir a
chamada civilização, quer dizer, a tornar-se
burguesas. Numa palavra: forja um mundo à sua
imagem e semelhança. A burguesia submeteu o
campo ao domínio da cidade. Criou cidades enormes;
aumentou prodigiosamente a população das cidades
em comparação com a do campo, subtraindo uma
grande parte da população ao embrutecimento da
vida rural. Do mesmo modo que submeteu o campo à
cidade, os países bárbaros e semi-bárbaros aos
países civilizados, submeteu os povos de
camponeses aos povos de burgueses, o Oriente ao
Ocidente. A burguesia suprime cada vez mais o
fracionamento dos meios de produção, da
propriedade e da população. Aglomerou a população,
centralizou os meios de produção e concentrou a
propriedade num pequeno número de mãos. Províncias
independentes, ligadas entre si quase unicamente
por laços federais, com interesses, leis, governos
e tarifas aduaneiras diferentes, foram reunidas
numa só nação, com um só governo, uma só lei, um
só interesse nacional de classe e uma só linha
alfandegária. A burguesia, com a sua dominação
de classe, que conta apenas com um século
existência, criou forças produtivas mais
abundantes e mais grandiosas que todas as gerações
passadas tomadas em conjunto. A domesticação das
forças da natureza, as máquinas, a aplicação da
química à indústria e à agricultura, a navegação a
vapor, os caminhos de ferro, os telégrafos
elétricos, o arroteamento de continentes inteiros,
a regularização dos rios, populações inteiras
brotando da terra - qual dos séculos passados pôde
sequer suspeitar que semelhantes forças produtivas
dormitassem no seio do trabalho social? Vimos,
pois, que os meios de produção e de troca, sobre
cuja base se formou a burguesia, foram criados no
interior da sociedade feudal. Ao alcançar um certo
grau de desenvolvimento, estes meios de produção e
de troca, as condições em que a sociedade feudal
produzia e trocava, toda a organização feudal da
agricultura e da indústria manufaturaria, numa
palavra, as relações feudais de propriedade,
deixaram de corresponder às forças produtivas em
pleno desenvolvimento. Travavam a produção em vez
de a fazer progredir,8
transformaram-se em outras tantas cadeias. Era
preciso quebrar essas cadeias e elas foram
quebradas. Em seu lugar estabeleceu-se a livre
concorrência, com uma constituição social e
política apropriada, com a supremacia econômica e
política da burguesia. Hoje, produz-se diante
dos nossos olhos um movimento análogo. As relações
burguesas de produção e de troca, as relações
burguesas de propriedade, toda esta sociedade
burguesa moderna, que fez surgir tão poderosos
meios de produção e de troca, assemelha-se ao mago
que já não é capaz de dominar as potências
infernais que desencadeou. Desde há dezenas de
anos, a história da indústria e do comércio não é
mais do que a história das forças produtivas
modernas contra as atuais relações de produção,
contra as relações de produção que condicionam a
existência da burguesia e a sua dominação. Basta
mencionar as crises comerciais que, com o seu
retorno periódico ameaçam, cada vez mais, a
existência de toda a sociedade burguesa. Cada
crise destrói regularmente não só uma parte
considerável dos produtos já criados, mas ainda
uma grande parte das próprias forças produtivas já
existentes. Durante as crises, abate-se sobre a
sociedade uma epidemia que, em qualquer época
anterior pareceria absurda - a epidemia da
superprodução. A sociedade encontra-se subitamente
retrotraída a um estado de barbárie momentânea:
dir-se-ia que a fome, que uma guerra devastadora
mundial a privaram de todos os meios de
subsistência; a indústria e o comércio parecem
aniquilados. E tudo isto porquê? Porque a
sociedade possui demasiada civilização, demasiados
meios de vida, demasiada industria, demasiado
comércio. As forças produtivas de que dispõe não
servem já o desenvolvimento da civilização
burguesa e9
das relações de produção burguesas; pelo
contrário, tornaram-se demasiado poderosas para
estas relações, que constituem um obstáculo ao seu
desenvolvimento; e todas as vezes que as forças
produtivas sociais vencem este obstáculo,
precipitam na desordem toda a sociedade burguesa e
ameaçam a existência da propriedade burguesa. As
relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas
para conter as riquezas criadas no seu seio. Como
é que a burguesia vence estas crises? Por um lado,
destruindo pela violência uma grande quantidade de
forças produtivas, por outro lado, pela conquista
de novos mercados e pela exploração mais intensa
dos antigos. A que conduz isto? A preparar crises
mais gerais e mais violentas e a diminuir os meios
de preveni-las. As armas de que a burguesia se
serviu para derrubar o feudalismo voltaram-se
agora contra a própria burguesia. Mas a
burguesia não forjou apenas as armas que a levarão
à morte; produziu também os homens que empunharão
essas armas: Os operários modernos, os
proletários. À medida que cresce a burguesia,
quer dizer, o Capital, desenvolve-se também o
proletariado, a classe dos operários modernos, que
não vivem senão na condição de encontrarem
trabalho e que só o encontram se o seu trabalho
aumentar o capital. Estes operários, obrigados a
vender-se dia a dia, são uma mercadoria, um artigo
de comércio como qualquer outro, sujeito,
portanto, a todas as vicissitudes da concorrência,
a todas as flutuações do mercado. O emprego
crescente das máquinas e a divisão do trabalho,
fazendo perder ao trabalho do proletário todo o
caráter de autonomia, fizeram, consequentemente,
que ele perdesse todo o atrativo para o operário.
Este converte-se num simples apêndice da máquina e
só se lhe exige as remunerações mais simples, mais
monótonas e de mais fácil aprendizagem. Portanto,
o que custa o operário reduz-se pouco mais ou
menos ao custo dos meios de subsistência
indispensáveis para viver e perpetuar a sua
descendência. Mas o preço do trabalho,10
como o de toda a mercadoria, é igual ao seu custo
de produção. Por conseguinte quanto mais
fastidioso é o trabalho, mais baixos são os
salários. Mais ainda, quanto mais se desenvolvem a
maquinaria e a divisão do trabalho, mais aumenta a
quantidade de trabalho,11
quer mediante o prolongamento da jornada de
trabalho, quer pelo aumento do trabalho exigido
num tempo determinado, pela aceleração das
cadências das máquinas, etc. A indústria
moderna transformou a pequena oficina do
mestre-artesão patriarcal na grande fábrica do
capitalista industrial. Massas de operários,
comprimidos na fábrica, estão organizados de forma
militar. Soldados rasos da industria, estão
colocados sob a vigilância de uma hierarquia
completa de oficiais e sargentos. Eles não são
apenas os escravos da classe burguesa, do Estado
burguês, como ainda diariamente, a todas as horas,
os escravos da máquina, do contramestre, e
sobretudo do próprio burguês fabricante. E este
despotismo é tanto mais mesquinho, odioso e
exasperante, quanto maior é a fraqueza com que
proclama que tem como único fim o lucro. Quanto
menos habilidade e força requer o trabalho manual,
quer dizer, quanto maior é o desenvolvimento da
industria moderna, maior é a produção em que o
trabalho dos homens é suplantado pelo das mulheres
e crianças. No que respeita à classe operária, as
diferenças de idade e sexo perdem toda a
significação social. Não há senão instrumentos de
trabalho, cujo custo varia segundo a idade e o
sexo. Uma vez que o operário sofreu a
exploração do fabricante e que lhe foi pago o seu
salário, converte-se em vitima doutros membros da
burguesia: o proprietário, o retalhista, o
prestamista, etc. Pequenos industriais,
pequenos comerciantes e rendeiros, artesãos e
camponeses, todo o escalão inferior das classes
médias de outrora, caem nas fileiras do
proletariado; uns porque os seus pequenos capitais
não lhes permitem empregar os processos da grande
industria e sucumbem na sua concorrência com os
grandes capitalistas; outros; porque a sua
habilidade técnica se vê depreciada pelos novos
métodos de produção. De modo que o proletariado se
recruta entre todas as camadas da população. O
proletariado passa por diferentes etapas de
desenvolvimento. A sua luta contra a burguesia
começa com a sua própria existência. A
princípio, a luta é entabulada por operários
isolados, depois, por operários de uma mesma
fábrica, mais tarde, pelos operários do mesmo ramo
da indústria, numa mesma localidade, contra o
burguês que os explora diretamente. Não se
contentam com dirigir os seus ataques contra as
relações burguesas de produção, e dirigem-se
contra os próprios instrumentos de produção:12
destroem as mercadorias estrangeiras que lhes
fazem concorrência, quebram as máquinas,
incendeiam as fábricas, tentam reconquistar pela
força a posição perdida do artesão da Idade Média.
Nesta etapa, os operários formam uma camada
disseminada por todo o país e desagregada pela
concorrência. Se acontece que os operários se
apoiam pela ação da massa, esta ação não é ainda
conseqüência da sua própria unidade, mas da
unidade da burguesia que, para alcançar os seus
próprios fins políticos, tem de pôr em movimento
todo o proletariado - e ainda possui,
provisoriamente, o poder de o fazer. Durante esta
fase, os proletários não combatem, portanto,
contra os seus próprios inimigos, mas contra os
inimigos dos seu inimigos, quer dizer, contra os
vestígios da monarquia absoluta, os proprietários
de terra, os burgueses não-industriais e os
pequenos burgueses. Todo o movimento histórico se
concentra, deste modo, nas mãos da burguesia; toda
a vitória alcançada nestas condições é uma vitória
da burguesia. Mas a industria, no seu
desenvolvimento, não só aumenta o número de
proletários, como os concentra em massas
consideráveis; a força dos proletários aumenta e
eles adquirem uma maior consciência dessa força.
Os interesses e as condições de existência dos
proletários igualam-se cada vez mais à medida que
a máquina apaga as diferenças e reduz o salário,
quase em toda a parte, a um nível igualmente
baixo. Como resultado da crescente concorrência
dos burgueses entre si e das crises comerciais que
daí resultam, os salários tornam-se cada vez mais
instáveis; o constante e acelerado aperfeiçoamento
da máquina coloca o operário numa situação cada
vez mais precária; as colisões individuais entre o
operário e o burguês tomam cada vez mais o caráter
de colisões entre duas classes. Os operários
começam por formar coalizões13
contra os burgueses para a defesa dos seus
salários. Chegam a formar associações permanentes
para assegurar os meios necessários, na
perspectiva de eventuais rebeliões. Aqui e além, a
luta rebenta, sob a forma de sublevações. Por
vezes, os operários triunfam; mas é um triunfo
efêmero. O verdadeiro resultado das suas lutas é
menos o sucesso imediato do que a união crescente
dos trabalhadores. Esta união é favorecida pelo
crescimento dos meios de comunicação que são
criados pela grande indústria e que permitem aos
operários de localidades diferentes contatarem
entre si. Ora, basta esse contato para que as
numerosas lutas locais, que por toda a parte
revestem o mesmo caráter, se centralizem numa luta
nacional, numa luta de classes. Mas toda a luta de
classes é uma luta política, e a união que os
burgueses da Idade Média demoraram séculos a
estabelecer através dos seus caminhos vicinais, os
proletários modernos realizam-na em poucos anos
graças aos caminhos de ferro. Esta organização
do proletariado em classe, e portanto em partido
político, é sem cessar socavada pela concorrência
entre os próprios operários. Mas renasce sempre, e
cada vez mais forte, mais firme, mais potente.
Aproveita as divisões intestinas da burguesia para
obrigar a reconhecer por lei alguns interesses da
classe operária: por exemplo o bill da jornada de
dez horas na Inglaterra. Em geral, as colisões
que se produzem na velha sociedade favorecem de
diversas maneiras o desenvolvimento do
proletariado. A burguesia vive num estado de
guerra permanente: primeiro, contra a
aristocracia, depois, contra aquelas frações da
mesma burguesia cujos interesses entram em
contradição com o progresso da indústria, e
sempre, finalmente, contra a burguesia de todos os
países estrangeiros. Em todas estas lutas, vê-se
forçada a apelar para o proletariado, a reclamar a
sua ajuda e a arrastá-lo assim para o movimento
político. Deste modo, a burguesia proporciona aos
proletários os elementos da sua própria educação,14
isto é, armas contra ela própria. Além disso,
como acabamos de ver, o progresso da indústria
precipita nas fileiras do proletariado camadas
inteiras da classe dominante, ou, pelo menos,
ameaça-as nas suas condições de existência. Também
elas trazem ao proletariado numerosos elementos de
educação.15
Finalmente, nos períodos em que a luta de classes
se aproxima da hora decisiva, o processo de
desintegração da classe dominante, de toda a velha
sociedade, adquire um caráter tão violento e tão
patente que uma pequena fração da classe dominante
renega esta e adere à classe revolucionária, à
classe que tem nas mãos o provir. E assim como,
outrora, uma parte da nobreza passou para a
burguesia, nos nossos dias, um setor da burguesia
passa para o proletariado, particularmente esse
setor dos ideólogos burgueses que atingiram a
compreensão teórica do conjunto do movimento
histórico. De todas as classes que, na hora
atual, se opõem à burguesia, só o proletariado é
uma classe verdadeiramente revolucionária. As
outras classes periclitam e perecem com o
desenvolvimento da grande indústria; o
proletariado, pelo contrário, é o seu produto mais
autêntico. As classes médias - o pequeno
industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o
camponês - todas combatem a burguesia porque ela é
uma ameaça para a sua existência como classes
médias. Não são pois, revolucionárias mas
conservadoras. Mais ainda, são reacionárias, já
que pretendem fazer andar para trás a roda da
história. São revolucionárias unicamente quando
têm diante de si a perspectiva da sua passagem
iminente ao proletariado: então, elas defendem os
seus interesses futuros e não os seus interesses
atuais; abandonam o seu próprio ponto de vista
para adotar o do proletariado. O
lumpen-proletariado, esse produto passivo da
putrefação das camadas mais baixas da velha
sociedade, pode por vezes ser arrastado para o
movimento por uma revolução proletária; no
entanto, as condições de vida dispô-lo-ão antes a
vender-se à reação para servir as suas manobras.
As condições de existência da velha sociedade
estão já abolidas nas condições de existência do
proletariado. O proletariado não tem propriedade;
as suas relações com a mulher e com os filhos não
têm nada de comum com as da família burguesa; o
trabalho industrial moderno, a sujeição do
operário ao capital, tanto na Inglaterra como na
França, na América do Norte como na Alemanha,
despoja o proletariado de todo o caráter nacional.
As leis, a moral, a religião são para os seus
olhos outros tantos preconceitos burgueses, por
detrás dos quais se escondem outros tantos
interesses burgueses. Todas as classes que, no
passado, se apoderaram do poder tentavam
consolidar a sua situação adquirida submetendo a
sociedade às condições do seu modo de apropriação.
Os proletários não podem conquistar as forças
produtivas sociais, senão abolindo o seu próprio
modo de apropriação em vigor, e, por conseguinte,
todo o modo de apropriação existente até aos
nossos dias. Os proletários não têm nada a
salvaguardar; têm que destruir tudo o que até
agora vem garantindo e assegurando a propriedade
privada existente. Todos os movimentos
históricos foram até agora realizados por minorias
ou em proveito de minorias. O movimento proletário
é o movimento independente16
da imensa maioria em proveito da imensa maioria. O
proletariado, camada inferior da sociedade atual,
não pode levantar-se, não pode revoltar-se sem
fazer saltar toda a superestrutura das camadas que
constituem a sociedade oficial. A luta do
proletariado contra a burguesia, ainda que não
seja, pelo seu conteúdo, uma luta nacional,
reveste no entanto, inicialmente essa forma. É
evidente que o proletariado de cada país tem de
acabar, antes de mais, com a sua própria
burguesia. Ao esboçar em traços gerais as fases
do desenvolvimento do proletariado, descrevemos a
história da guerra civil, mais ou menos oculta,
que se desenvolve no seio da sociedade existente,
até ao momento em que esta guerra se transforma
numa revolução aberta e o proletariado, derrubando
pela violência a burguesia, implanta a sua
dominação. Como vimos, todas as sociedades
anteriores assentavam no antagonismo entre classes
opressoras e classes oprimidas. Mas para oprimir
uma classe, é preciso poder garantir-lhe condições
de existência que lhe permitam, pelo menos, viver
na servidão. O servo, em pleno regime de servidão,
conseguiu tornar-se membro da comuna, do mesmo
modo que o pequeno burguês conseguiu elevar-se à
categoria de burguês, sob o jugo do absolutismo
feudal. O operário moderno, pelo contrário, longe
de se elevar com o progresso da indústria, desce
sempre mais e mais, abaixo mesmo das condições de
vida da sua própria classe. O trabalhador cai na
miséria, e o pauperismo cresce ainda mais
rapidamente do que a produção e a riqueza. É
portanto manifesto que a burguesia é incapaz de
continuar a desempenhar por mais tempo o papel de
classe dominante na sociedade e de impor a esta,
como lei reguladora, as condições de existência da
sua classe. Já não é capaz de reinar, porque não
pode assegurar ao escravo a existência, nem sequer
dentro dos limites da escravidão, porque é
obrigada a deixa-lo decair até ao ponto de ter que
o manter, em vez de ter que ser mantida por ele. A
sociedade já não pode viver sob a sua dominação, o
que equivale a dizer que a existência da burguesia
já não é compatível com a sociedade. A condição
essencial da existência e da dominação da classe
burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de
particulares,17
a formação e o crescimento do Capital. A condição
de existência do Capital é o trabalho assalariado.
O trabalho assalariado assenta exclusivamente na
concorrência dos operários entre si. O progresso
da indústria, de que a burguesia, incapaz de se
lhe opor, é agente involuntário, substitui o
isolamento dos operários, resultante da
concorrência, pela sua união revolucionária
mediante a associação. Assim, o desenvolvimento da
grande indústria mina sob os pés da burguesia as
bases sobre as quais ela estabeleceu o sistema de
produção e de apropriação. A burguesia produz,
antes de mais, os seus próprios coveiros. A sua
queda e a vitória do proletariado são igualmente
inevitáveis.
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Proletários e comunistas |
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Qual é a posição dos comunistas em relação
ao conjunto dos proletários? Os comunistas não
formam um partido distinto, oposto aos outros
partidos operários. Não têm interesses alguns
que não sejam os interesses do conjunto do
proletariado. Não proclamam princípios
especiais18
sobre os quais queiram modelar o movimento
operário. Os comunistas só se distinguem dos
outros partidos operários em dois pontos: 1. Nas
diferentes lutas nacionais dos proletários,
destacam e fazem valer os interesses independentes
da nacionalidade e comuns a todo o proletariado;
2. Nas diferentes fases por que passa a luta entre
proletários e burgueses, representam sempre os
interesses do movimento no seu conjunto.
Praticamente, os comunistas são, pois, o setor
mais resoluto
19
dos partidos operários de todos os países, têm
sobre o resto do proletariado a vantagem de uma
clara compreensão das condições, da marcha e dos
fins gerais do movimento proletário. O objetivo
imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos
os outros partidos proletários: constituição dos
proletários em classe, derrubamento da dominação
burguesa, conquista do poder político pelo
proletariado. As concepções teóricas dos
comunistas não se baseiam de modo algum em idéias
e princípios inventados ou descobertos por este ou
aquele reformador do mundo. Elas não são mais
do que a expressão geral das condições reais de
uma luta de classes existente, de um movimento
histórico que se desenvolve diante dos nossos
olhos. A abolição das relações de propriedade até
aqui existentes não é uma característica peculiar
e exclusiva do comunismo. Todas as relações de
propriedade sofreram constantes mudanças
históricas, contínuas transformações históricas.
A Revolução Francesa, por exemplo, aboliu a
propriedade feudal em proveito da propriedade
burguesa. O que caracteriza o comunismo não é a
abolição da propriedade em geral, mas a abolição
da propriedade burguesa. Ora, a propriedade
privada de hoje, a propriedade burguesa, é a
última e mais acabada expressão do modo de
produção e de apropriação baseado nos antagonismos
de classes, na exploração de uns pelos outros.20
Neste sentido, os comunistas podem resumir a sua
teoria a esta fórmula única: abolição da
propriedade privada. Censuram-nos, a nós,
comunistas, por querer abolir a propriedade
pessoalmente adquirida, fruto do trabalho do
indivíduo, essa propriedade que declaram ser a
base de toda a liberdade, de toda a atividade, de
toda a independência individual. A propriedade
bem adquirida, fruto do trabalho, do esforço
pessoal! Referis-vos, por acaso, à propriedade do
pequeno burguês, do pequeno camponês, a essa forma
de propriedade que precede a propriedade burguesa?
Não precisamos de aboli-la: o progresso da
indústria aboliu-a e continua a aboli-la
diariamente. Ou referi-vos talvez à propriedade
privada moderna, à propriedade burguesa? Mas,
será que o trabalho assalariado, o trabalho do
proletário, cria propriedade para o proletário? De
maneira alguma. Ele cria o capital, quer dizer, a
propriedade que explora o trabalho assalariado e
que só pode acrescentar-se na condição de produzir
mais e mais trabalho assalariado, a fim de o
explorar de novo. Na sua forma atual, a
propriedade move-se no antagonismo entre o capital
e o trabalho assalariado. Examinemos os dois
termos deste antagonismo. Ser capitalista
significa ocupar não só uma posição meramente
pessoal na produção, mas também uma posição
social. O capital é um produto coletivo: só pode
ser posto em movimento pela atividade conjunta de
todos os membros da sociedade. O capital não é,
pois, uma força pessoal; é uma força social. Em
conseqüência, se o capital se transforma em
propriedade coletiva, pertencente a todos os
membros da sociedade, não é a propriedade pessoal
que se transforma em propriedade social. Só terá
mudado o caráter social da propriedade. Esta
perderá o seu caráter de classe. Examinemos o
trabalho assalariado. O preço médio do trabalho
assalariado é o mínimo do salário, quer dizer, a
soma dos meios de subsistência indispensáveis ao
operário para manter a sua vida, como operário.
Por conseguinte, aquilo de que o operário se
apropria pela sua atividade é o estritamente
necessário para reproduzir a sua vida, reduzida à
sua simples expressão. Não queremos de maneira
nenhuma abolir esta apropriação pessoal dos
produtos do trabalho, indispensável à mera
reprodução da vida humana, essa apropriação que
não deixa nenhum lucro líquido que confira um
poder sobre o trabalho de outrém. O que queremos
suprimir é o caráter miserável desta apropriação,
que faz com que o operário não viva senão para
acrescentar o capital e tão só na medida em que o
interesse da classe dominante exige que viva.
Na sociedade burguesa, o trabalho vivo não é mais
do que um meio para aumentar o trabalho acumulado.
Na sociedade comunista, o trabalho acumulado não é
mais do que um meio de ampliar, enriquecer e
tornar mais fácil a existência dos trabalhadores.
Deste modo, na sociedade burguesa, o passado
domina o presente; na sociedade comunista é o
presente que domina o passado. Na sociedade
burguesa, o capital é independente e tem
personalidade, enquanto que o indivíduo que
trabalha não tem independência, nem personalidade.
E é a abolição de semelhante estado de coisas o
que a burguesia considera como a abolição da
personalidade e da liberdade! E com razão. Pois
trata-se efetivamente de abolir a personalidade
burguesa, a independência burguesa e a liberdade
burguesa, entende-se a liberdade de comércio, a
liberdade de comprar e vender. Mas se o tráfico
desaparece, a liberdade de traficar desaparece
também. De resto, todas as grandes palavras sobre
a liberdade de comércio, do mesmo modo que as
fanfarronadas liberais da nossa burguesia, só têm
sentido quando aplicadas ao tráfico entravado e ao
burguês subjugado da Idade Média; mas não têm
nenhum sentido quando se trata da abolição, pelo
comunismo, do tráfico, das relações de produção
burguesas e da própria burguesia. Ficais
horrorizados por querermos abolir a propriedade
privada. Mas na vossa sociedade atual a
propriedade privada está abolida para nove décimos
dos seus membros. É precisamente porque não existe
para esses nove décimos que ele existe para vós.
Reprovai-nos, pois, o querer abolir uma forma de
propriedade que só pode existir na condição da
imensa maioria da sociedade ser privada de
qualquer propriedade. Numa palavra, acusais-nos
de querer abolir a vossa propriedade. Na verdade,
é isso que queremos. Segundo vós, a partir do
momento em que o trabalho não pode ser convertido
em capital, em dinheiro, em renda da terra, numa
palavra, em poder social susceptível de ser
monopolizado; quer dizer, a partir do momento em
que a propriedade pessoal não pode transformar-se
em propriedade burguesa
21, a partir desse momento a
personalidade fica suprimida. Confessais, pois,
que por personalidade só entendeis o burguês, o
proprietário burguês. E essa personalidade deve,
certamente, ser suprimida. O comunismo não tira
a ninguém a faculdade de se apropriar dos produtos
sociais; ele não tira mais do que o poder de
subjugar o trabalho alheio por meio desta
apropriação. Objetou-se ainda que, com a
abolição da propriedade privada cessaria toda a
atividade e uma preguiça geral se apoderaria do
mundo. Se assim fosse, já há muito tempo que a
sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade,
visto que, nesta sociedade, os que trabalham não
ganham e os que ganham não trabalham. Toda a
objeção se reduz a esta tautologia: onde não há
capital, não há trabalho assalariado. Todas as
objeções dirigidas contra o modo comunista de
apropriação e de produção dos elementos materiais
foram igualmente feitas em relação à apropriação e
à produção dos produtos do trabalho intelectual.
Do mesmo modo que, para o burguês, o
desaparecimento da propriedade de classe equivale
ao desaparecimento de toda a produção, o
desaparecimento da cultura de classe significa
para ele o desaparecimento de toda a cultura. A
cultura, cuja perda deplora, não é mais, para a
imensa maioria dos homens, do que o adestramento
que os transforma em máquinas. Mas é inútil
procurar discutir conosco enquanto aplicardes à
abolição da propriedade burguesa o critério das
vossas noções burguesas de liberdade, cultura,
direito, etc. As vossas idéias são, em si mesmas,
produto das relações de produção e de propriedade
burguesas, assim como o vosso direito não é mais
do que a vontade da vossa classe erigida em lei;
vontade cujo conteúdo está determinado pelas
condições materiais de existência da vossa classe.
A concepção interessada que vos fez erigir em leis
eternas da Natureza e da Razão as relações sociais
emanadas do vosso transitório modo de produção e
de propriedade - relações históricas que surgem e
desaparecem no curso da produção - partilha-la
como todas as classes dominantes hoje
desaparecidas. O que concebeis para a propriedade
antiga, o que concebeis para a propriedade feudal,
não vos atreveis a admiti-lo para a propriedade
burguesa. Querer abolir a família! até os mais
radicais se indignam perante este infame desígnio
dos comunistas. Em que base assenta a família
atual, a família burguesa? No capital, no lucro
privado. A família, plenamente desenvolvida, não
existe, a não ser para a burguesia; mas ela tem
por corolário a supressão forçada de toda a
família para o proletariado e a prostituição
pública. A família burguesa desaparece
naturalmente ao deixar de existir o seu corolário,
e um e outro desaparecem com o desaparecimento do
capital. Reprovais-nos o querer abolir a
exploração dos filhos pelos pais? Confessamos esse
crime. Mas dizeis que destruímos os vínculos
mais íntimos, substituindo a educação em família
pela educação social. E a vossa educação, não
está também determinada pela sociedade, pelas
condições sociais em que educais os vossos filhos,
pela intervenção direta ou indireta da sociedade
através da escola, etc.? Os comunistas não
inventaram esta ingerência da sociedade na
educação, eles não fazem mais do que mudar o seu
caracter e arrancar a educação à influência da
classe dominante. As declamações burguesas
sobre a família e a educação, sobre os doces laços
que unem os filhos aos pais, tornam-se cada vez
mais repugnantes à medida que a grande indústria
destrói todos os vínculos de família para o
proletário e transforma as crianças em simples
artigos de comércio, em simples instrumentos de
trabalho. Mas vós, os comunistas, quereis
estabelecer a comunidade das mulheres! -
gritam-nos, em coro, toda a burguesia. Para o
burguês, a sua mulher não é mais do que um
instrumento de produção. Ouve dizer que os
instrumentos de produção devem ser utilizados em
comum, e, naturalmente, não pode deixar de pensar
que as mulheres partilharão a sorte comum da
socialização. Não suspeita que se trata
precisamente de arrancar a mulher ao seu papel
atual de simples instrumento de produção. Nada
mais grotesco, aliás, do que o horror ultramoral
que inspira aos nossos burgueses a pretensa
comunidade oficial das mulheres que atribuem aos
comunistas. Os comunistas não têm necessidade de
introduzir a comunidade das mulheres: ela existiu
quase sempre. Os nossos burgueses, não
satisfeitos de ter à sua disposição as mulheres e
as filhas dos proletários, sem falar da
prostituição oficial, encontram um prazer singular
em cornear-se mutuamente. O matrimônio burguês
é, na realidade, a comunidade das esposas. Quando
muito, poder-se-ia acusar os comunistas de querer
substituir uma comunidade de mulheres
hipocritamente dissimulada, por uma comunidade
franca e oficial. É evidente, de resto, que, com a
abolição das relações de produção atuais
desaparecerá a comunidade das mulheres que delas
deriva, quer dizer, a prostituição oficial e
não-oficial. Acusam-se também os comunistas de
quer abolir a pátria, a nacionalidade. Os
operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar
aquilo que não possuem. Mas, como o proletariado
tem, em primeiro lugar, de conquistar o poder
político, elevar-se à condição de classe nacional,22
constituir-se em nação, é ainda nacional, posto
que, de maneira nenhuma, no sentido burguês. O
isolamento nacional e os antagonismos entre os
povos desaparecem de dia para dia com o
desenvolvimento da burguesia, a liberdade de
comércio e o mercado mundial, com a uniformidade
da produção industrial e as condições de
existência que lhe correspondem. O proletariado
no poder os fará desaparecer ainda mais depressa.
A ação comum do proletariado, pelo menos nos
países civilizados, é uma das primeiras condições
da sua emancipação. Aboli a exploração do homem
pelo homem, e abolireis a exploração de uma nação
por outra nação. Ao mesmo tempo que o
antagonismo das classes no interior das nações,
desaparecerá a hostilidade das nações entre si.
Quanto às acusações lançadas, dum modo geral,
contra o comunismo, partindo de pontos de vista
religiosos, filosóficos e ideológicos, não merecem
um exame aprofundado. Será necessária uma
grande perspicácia para compreender que as idéias,
as concepções e as noções dos homens, numa
palavra, a sua consciência, mudam com toda a
mudança sobrevinda nas suas condições de vida, nas
suas relações sociais, na sua existência social?
Que demonstra a história das idéias senão que a
produção intelectual se transforma com a produção
material? As idéias dominantes em qualquer época
nunca passaram das idéias da classe dominante.
Quando se fala de idéias que revolucionam toda uma
sociedade, exprime-se apenas o fato de que no seio
da velha sociedade se formaram os elementos de uma
sociedade nova, e de que a dissolução das velhas
idéias marcha a par da dissolução das antigas
condições de existência. Quando o mundo antigo
estava no seu declínio, as velhas religiões foram
vencidas pela religião cristã. Quando no século
XVIII, as idéias cristãs foram vencidas pelas
idéias do iluminismo, a sociedade feudal travava
uma luta de morte contra a burguesia, então
revolucionária. As idéias de liberdade religiosa e
de liberdade de consciência não fizeram mais do
que refletir o reinado da livre concorrência no
domínio da consciência.23
"Sem dúvida - dir-se-á - as idéias religiosas,
morais, filosóficas, políticas, jurídicas, etc.,
modificaram-se no decurso do processo histórico.
Mas a religião, a moral, a filosofia, a política,
o direito mantiveram-se sempre através dessas
transformações. Existem, além disso, verdades
eternas, tais como a liberdade, a justiça, etc.,
que são comuns, a todos os regimes sociais. Mas o
comunismo quer abolir estas verdades eternas, quer
abolir a religião e a moral, em vez de dar-lhe uma
forma nova, e isso contradiz todo o processo
histórico anterior". A que se reduz esta
acusação? A história de todas as sociedades que
existiram até hoje era feita de antagonismos de
classes, de antagonismos que revestem formas
diversas nas diferentes épocas. Mas qualquer
que tenha sido a forma destes antagonismos, a
exploração de uma parte da sociedade pela outra é
um fato comum a todos os séculos anteriores. Por
conseguinte, não é de espantar que a consciência
social de todos os séculos, a despeito de toda a
variedade e de toda a diversidade, se tenha movido
sempre dentro de certas formas comuns, dentro de
umas formas24
- formas de consciência - que só desaparecerão
completamente com o desaparecimento definitivo dos
antagonismos de classes. A revolução comunista
é a ruptura mais radical com as relações de
propriedade tradicionais, portanto, não há nada de
estranho em que no decurso do seu desenvolvimento
rompa da maneira mais radical com as idéias
tradicionais. Mas, deixemos as objeções feitas
pela burguesia ao comunismo. Como já vimos mais
acima, o primeiro passo da revolução operária é a
elevação do proletariado a classe dominante, a
conquista da democracia. O proletariado
servi-se-á da sua supremacia política para
arrancar pouco a pouco à burguesia todo o capital,
para centralizar todos os instrumentos de produção
nas mãos do Estado, quer dizer, do proletariado
organizado como classe dominante, e para aumentar
com a maior rapidez possível a quantidade das
forças produtivas. Isto naturalmente, não
poderá fazer-se, de inicio, senão por uma violação
despótica de direito de propriedade e das relações
burguesas de produção, quer dizer, pela adoção de
medidas que do ponto de vista econômico, parecem
insuficientes e insustentáveis, mas que, no
decurso do movimento ultrapassar-se-ão a si mesmas25
e serão indispensáveis como meio de transformar
radicalmente todo o modo de produção. Estas
medidas, naturalmente, serão muito diferentes nos
diversos países. No entanto, nos países mais
avançados poderão ser postas em prática quase em
toda a parte as seguintes medidas:
1. Expropriação da propriedade da terra e
afetação da renda da terra às despesas do Estado.
2. Imposto fortemente progressivo. 3. Abolição
do direito de herança. 4. Confiscação da
propriedade de todos os emigrados e sediciosos.
5. Centralização do crédito nas mãos do Estado,
por meio de um Banco nacional, com capital do
Estado e monopólio exclusivo. 6. Centralização
nas mãos do Estado de todos os meios de
transporte. 7. Multiplicação das empresas
fabris pertencentes ao Estado e dos instrumentos
de produção, arroteamento dos terrenos incultos e
melhoramento das terra cultivadas, segundo um
plano se conjunto. 8. Trabalho obrigatório para
todos; organização de exércitos industriais,
particularmente para a agricultura. 9.
Combinação da agricultura e da industria; medidas
tendentes a fazer desaparecer gradualmente o
antagonismo26
entre a cidade e o campo.27
10. Educação pública e gratuita de todas as
crianças; abolição do trabalho das crianças nas
fábricas tal como hoje se pratica. Combinação da
educação com a produção material, etc.
Uma vez que no decurso do desenvolvimento
tiverem desaparecido os antagonismos de classe e
se tiver concentrado toda a produção nas mãos de
indivíduos associados, o poder publico perderá o
seu caráter político. O poder político, para falar
com propriedade, é a violência organizada de uma
classe dominante, destrói pela violência as
antigas relações de produção, suprime ao mesmo
tempo que estas relações de produção as condições
para a existência do antagonismo das classes em
geral,28
e, portanto, a sua própria dominação como classe.
Em substituição da antiga sociedade burguesa, com
as suas classes e os seus antagonismos de classe,
surgirá uma associação em que o livre
desenvolvimento de cada um será a condição do
livre desenvolvimento de todos.
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Literatura socialista e comunista |
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O Socialismo Reacionário
a) O socialismo feudal
Pela sua posição histórica, as
aristocracias francesa e inglesa foram chamadas a
escrever libelos contra a moderna sociedade
burguesa. Na revolução francesa de Julho de 1830 e
no movimento inglês pela Reforma, haviam sucumbido
uma vez mais sob os golpes dessa odiada arrivista.
Daí em diante, não podia falar sequer de uma luta
política séria. Só lhes restava a luta literária.
Ora, mesmo no terreno literário, a velha
fraseologia da época da Restauração29
tinha-se tornado inaplicável. Para criar simpatias
era necessário que a aristocracia aparentasse não
ter em conta os seus próprios interesses e que
formulasse ao seu auto de acusação contra a
burguesia no exclusivo interesse da classe
explorada. Tinha, assim, a satisfação de compor
canções satíricas contra o seu novo amo e de
musicar-lhe aos ouvidos profecias mais ou menos
sinistras. Assim nasceu o socialismo feudal,
mistura de jeremiadas e de pasquins, de ecos do
passado e de ameaças sobre o futuro. Se algumas
vezes a sua crítica amarga, mordaz e engenhosa
feriu a burguesia no seu coração, a sua
incapacidade absoluta de compreender a marcha da
história moderna acabou sempre por cobri-lo de
ridículo. À guisa de bandeira, estes senhores
arvoravam a sacola do mendigo, a fim de atrair o
povo. Mas cada vez que o povo acorria,
apercebia-se dos velhos brasões feudais com que
ornamentavam o traseiro e dispersava no meio de
grandes e irreverentes gargalhadas. Uma parte
dos legitimistas franceses e a "Jovem Inglaterra"30
deram ao mundo este espetáculo. Quando os
campeões do feudalismo demonstraram que o seu modo
de exploração era distinto do da burguesia,
esquecem uma coisa: é que o feudalismo explorava
em condições e circunstâncias completamente
diferentes e hoje antiquadas. Quando fazem notar
que sob a sua dominação não existia o proletariado
moderno, esquecem que a burguesia moderna é
precisamente um produto inevitável do seu regime
social. Aliás disfarçam tão pouco o caráter
reacionário da sua crítica, que a principal
acusação que apresentam contra a burguesia é
precisamente ter criado sob o seu regime uma
classe que fará ir pelos ares toda a antiga ordem
social. O que reprovam à burguesia não é tanto
o ter feito surgir um proletariado em geral, mas o
ter feito surgir um proletariado revolucionário.
Por isso, na luta política, tomam parte ativa em
todas as medidas de violência contra a classe
operária. E na sua vida quotidiana, apesar da sua
fraseologia pomposa, acomodam-se muito bem a
recolher as maças de ouro caídas da árvore da
indústria e a trocar a honra, o amor e a
fidelidade pelo comércio de lãs, de açúcar de
beterraba e de aguardente.31
Do mesmo modo que o padre e o senhor
feudal andaram sempre se mãos dadas, também o
socialismo clerical caminha lado a lado com o
socialismo feudal. Nada mais fácil do que dar
um verniz socialista ao ascetismo cristão. Acaso o
cristianismo não se levantou também contra a
propriedade privada, o matrimônio e o Estado? Não
pregou, em seu lugar, a caridade e a pobreza, o
celibato e a mortificação da carne, a vida
monástica e a igreja? O socialismo cristão32
não é mais do que a água benta com que o padre
consagra o despeito da aristocracia.
b) O socialismo pequeno-burguês
A aristocracia feudal não é a única classe
arruinada pela burguesia, e não é a única classe
cujas condições de existência desfalecem e se vão
extinguindo na sociedade burguesa moderna. Os
pequenos burgueses e os pequenos camponeses da
Idade Média foram os percursores da burguesia
moderna. Nos países em que a indústria e o
comércio são menos desenvolvidos esta classe
continua a vegetar ao lado da burguesia
florescente. Nos países onde se desenvolveu a
civilização moderna, formou-se uma nova classe de
pequeno burgueses que oscila entre o proletariado
e a burguesia; fração complementar da sociedade
burguesa, ela constitui-se sem cessar; mas, devido
à concorrência, os indivíduos que a compõe vêm-se
continuamente precipitados nas fileiras do
proletariado, e, com o desenvolvimento progressivo
da grande indústria, vêem aproximar-se o momento
em que desaparecerão por completo como fração
independente da sociedade moderna, e serão
substituídos no comércio, na manufatura e na
agricultura por contramestres e empregados. Em
países como a França, onde os camponeses formam
bastante mais de metade da população, é natural
que os escritores que defendiam a causa do
proletariado contra a burguesia, aplicassem à sua
crítica do regime burguês critérios
pequeno-burgueses e de pequenos camponeses, e
defendessem a classe operária do ponto de vista da
pequena burguesia. Assim se formou o socialismo
pequeno-burguês. Sismondi é o mais alto expoente
desta literatura, não só em França, mas também na
Inglaterra. Este socialismo analisou com muita
sagacidade as contradições inerentes às modernas
relações de produção. Pôs a nu as hipócritas
apologias dos economistas. Demonstrou de forma
irrefutável os efeitos destruidores da maquinaria
e da divisão do trabalho, a concentração dos
capitais e da propriedade da terra, a
superprodução, as crises, a inevitável ruína dos
pequenos burgueses e dos camponeses, a miséria do
proletariado, a anarquia da produção, a
escandalosa desigualdade na distribuição das
riquezas, a exterminadora guerra industrial das
nações entre si, a dissolução dos velhos costumes,
das antigas relações familiares, das velhas
nacionalidades. Todavia, o conteúdo positivo
desse socialismo consiste no seu desejo ardente de
restabelecer os antigos meios de produção e de
troca, e, com eles, as antigas relações de
propriedade e toda a sociedade antiga, ou em
querer à força encaixar os modernos meios de
produção e de troca no quadro estreito das antigas
relações de propriedade que já foram destruídas,
por aqueles. Quer num caso, quer noutro, este
socialismo é simultaneamente reacionário e
utópico. Para a manufatura, o regime
corporativo; para a agricultura, o regime
patriarcal: eis a sua última palavra. No seu
ulterior desenvolvimento, esta escola caiu no
marasmo cobarde que segue a embriagues.33
c) O socialismo alemão ou socialismo
"verdadeiro"
A literatura socialista e comunista de
França, que nasceu sob o jugo de uma burguesia
dominante e é a expressão literária da revolta
contra esta dominação, foi introduzida na Alemanha
no momento em que a burguesia começava a sua luta
contra o absolutismo feudal. Filósofos
semifilósofos e diletantes alemães lançaram-se
avidamente sobre esta literatura, mas esqueceram
que, com a importação da literatura francesa para
a Alemanha não foram importadas, ao mesmo tempo,
as condições sociais da França. Nas condições
alemãs, a literatura francesa perdeu toda a sua
significação prática imediata e tomou um caráter
puramente literário. Não devia parecer mais do que
uma especulação ociosa sobre a sociedade
verdadeira,34
sobre a realização da essência humana.35
Deste modo, para os filósofos alemães do século
XVIII, as reivindicações da primeira Revolução
Francesa não eram mais do que as reivindicações da
"razão prática" em geral, e as manifestações da
vontade da burguesia revolucionária de França não
exprimiam aos seus olhos mais do que as leis da
vontade pura, da vontade tal como deve ser, da
vontade verdadeiramente humana. Todo o trabalho
dos literatos alemães reduziu-se unicamente a pôr
as novas idéias francesas de acordo com a sua
velha consciência filosófica ou, mais exatamente,
a assimilar as idéias francesas partindo do seu
ponto de vista filosófico. E assimilaram-nas
como se assimila em geral uma língua estrangeira:
pela tradução. É sabido como os monges
recobriram os manuscritos das obras clássicas da
antigüidade pagã com absurdas lendas dos santos
católicos. Os literatos alemães procederam
inversamente em relação à literatura profana
francesa. Deslizaram os seus absurdos filosóficos
sob o original francês. Por exemplo, sob a crítica
francesa das funções do dinheiro, escreviam
"alienação da essência humana", sob a crítica
francesa do Estado burguês, escreviam "abolição do
reino do universal abstrato", e assim
sucessivamente. A esta interpolação da sua
fraseologia filosófica na crítica francesa deram o
nome de "filosofia da ação", "socialismo
verdadeiro", "ciência alemã do socialismo",
"fundamentação filosófica do socialismo", etc.
Desta maneira, foi completamente castrada a
literatura socialista e comunista francesa. E,
como nas mãos dos alemães deixava de ser a
expressão da luta de uma classe contra outra, os
alemães imaginaram que se tinham elevado muito
acima da "estreiteza francesa" e felicitaram-se
por ter defendido, em vez das verdadeiras
necessidades, a necessidade da verdade, em vez dos
interesses do proletariado, os interesses da
essência humana, do homem em geral, do homem que
não pertence a nenhuma classe nem a nenhuma
realidade e que só existe no céu brumoso da
fantasia filosófica. Este socialismo alemão,
que tomava tão solenemente a sério os seus torpes
exercícios de escola e que os lançava aos quatro
ventos com tanto estrépito charlatanesco, foi
perdendo a pouco e pouco a sua inocência
pedantesca. A luta da burguesia alemã, e
principalmente da burguesia prussiana, contra os
senhores feudais e a monarquia absoluta, numa
palavra, o movimento liberal, adquiria um caráter
mais sério. Deste modo, o "verdadeiro"
socialismo teve a tão desejada ocasião de
contrapor ao movimento político as reivindicações
socialistas, de fulminar os anátemas tradicionais
contra o liberalismo , contra o regime
representativo, contra a concorrência burguesa,
contra a liberdade burguesa de imprensa, contra o
direito burguês, contra a liberdade e a igualdade
burguesas e de pregar às massas populares que elas
não tinham nada a ganhar, mas que, pelo contrário,
perderiam tudo, neste movimento burguês. O
socialismo alemão esqueceu, muito a propósito, que
a crítica francesa, da qual era um simples eco
insípido, pressupunha a sociedade burguesa
moderna, com as correspondentes condições
materiais de existência e uma Constituição
Política apropriada, isto é, precisamente as
premissas que, na Alemanha, se tratava ainda de
conquistar. Para os governos absolutos da
Alemanha, com o seu séquito de padres, de
pedagogos, de fidalgos rústicos e de burocratas,
este socialismo converteu-se no espantalho
desejado, contra a burguesia que se levantava,
ameaçadora. Juntou a sua hipocrisia adocicada
às chicotadas e aos tiros com que estes mesmos
governos responderam às rebeliões dos operários
alemães. Se o "verdadeiro socialismo" se
converteu deste modo numa arma nas mãos dos
governos contra a burguesia alemã, representava
além disso, diretamente, um interesse reacionário,
o interesse do pequeno burguês alemão.36
A classe dos pequeno burgueses, legada pelo século
XVI, e desde então renascendo sem cessar sob
diversas formas, constitui para a Alemanha a
verdadeira base social do regime estabelecido.
Mantê-la é manter na Alemanha o regime
estabelecido. A supremacia industrial e política
da grande burguesia ameaça esta pequena burguesia
de morte certa, devido, por um lado, à
concentração dos capitais, e, por outro, ao
desenvolvimento de um proletariado revolucionário.
pareceu à pequena burguesia que o "verdadeiro"
socialismo podia matar os dois coelhos com uma só
cajadada. E este propagou-se como uma epidemia.
Tecido com os fios de aranha da especulação,
bordado com as finas flores da sua retórica,
impregnado dum quente orvalho sentimental, essa
roupagem fantástica com que os socialistas alemães
vestiram o esqueleto das suas "vedardes eternas"
não fez mais do que ativar o escoamento da sua
mercadoria, junto de semelhante público. Por
seu lado, o socialismo alemão correspondeu cada
vez melhor que estava destinado a ser o
representante pomposo desta pequena burguesia.
Proclamou que a nação alemã era a nação modelo e o
filisteu alemão o homem modelo. A todas as
infâmias deste homem modelo, deu-lhes um sentido
oculto, um sentido superior e socialista,
contrário à realidade. Foi conseqüente até ao fim,
manifestando-se de um modo direto contra a
tendência "brutalmente destrutiva" do comunismo e
declarando que planava imparcialmente por cima de
todas as lutas de classes. Salvo muito raras
excepções, todas as obras pretensamente
socialistas e comunistas que circulam na Alemanha
pertencem a esta imunda e enervante literatura.37
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O Socialismo Conservador ou Burguês |
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Uma parte da burguesia procura remediar
as anomalias sociais, a fim de consolidar a
sociedade burguesa. A esta categoria pertencem
os economistas, os filantropos, os humanitários,
os que procuram melhorar a sorte das classes
trabalhadoras, organizar a beneficência, proteger
os animais, fundar as sociedades de temperança, em
suma, os reformadores de gabinete de todos os
gêneros e feitios. E chegou-se até a elaborar este
socialismo burguês em sistemas completos.
Citemos, como exemplo, a Filosofia da Miséria, de
Proudhon. Os socialistas burgueses querem
perpetuar as condições de vida da sociedade
moderna, mas sem as lutas e os perigos que dela
fatalmente derivam. Querem a sociedade atual, mas
expurgada dos elementos que a revolucionam e
dissolvem. Querem a burguesia sem o proletariado.
A burguesia, como é natural, concebe o mundo em
que domina como o melhor dos mundos. O socialismo
burguês elabora num sistema mais ou menos completo
esta representação consoladora. Quando convida o
proletariado a realizar os seus sistemas e a
entrar na nova Jerusalém, não faz mais, no fundo,
do que induzi-lo a continuar na sociedade atual,
mas desembaraçando-se da concepção odiosa que
sobre ela formou. Outra forma de socialismo,
menos sistemática, mas mais prática, tenta afastar
os operários de todo o movimento revolucionário,
demonstrando-lhe que não é esta ou aquela mudança
política que poderá beneficiá-los, mas apenas uma
transformação das condições materiais de vida, das
relações econômicas. Reparai que, por
transformação das condições materiais de vida,
este socialismo não entende, de maneira alguma, a
abolição das relações de produção burguesas - a
qual só é possível pela revolução -, mas
unicamente reformas administrativas realizadas
sobre a base das mesmas relações de produção
burguesas, e que, portanto, não mudam em nada as
relações entre o Capital e o Trabalho Assalariado,
servindo unicamente, no melhor dos casos, para
diminuir à burguesia os gastos que requer a sua
dominação e para aligeirar o orçamento do Estado.
O socialismo burguês não atinge a sua expressão
adequada senão quando se converte numa simples
figura retórica. Livre-câmbio, no interesse da
classe operária! Prisões celulares, no interesse
da classe operária! Eis a última palavra do
socialismo burguês, a única que disse com
seriedade. Porque o socialismo burguês
resume-se precisamente nesta afirmação: os
burgueses são burgueses - no interesse da classe
operária.
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O socialismo e o comunismo
crítico-utópicos |
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Não se trata aqui da literatura que, em
todas as grandes revoluções modernas, formulou as
reivindicações do proletariado (os escritos de
Babeuf, etc.). As primeiras tentativas diretas
do proletariado para fazer prevalecer os seus
interesses de classe, realizadas em tempos de
efervescência geral, no período do derrubamento da
sociedade feudal, fracassaram necessariamente,
tanto devido ao débil desenvolvimento do próprio
proletariado, como pela ausência das condições
materiais da sua emancipação, condições que só
podem resultar da época burguesa. A literatura
revolucionária que acompanhava estes primeiros
movimentos do proletariado era, pelo seu conteúdo,
forçosamente, reacionária. Preconizava um
ascetismo geral e um igualitarismo grosseiro.
Os sistemas socialistas e comunistas propriamente
ditos, os sistemas de Saint-Simon, de Fourier, de
Owen, etc., fazem o seu aparecimento no primeiro
período descrito anteriormente (ver "Burgueses e
Proletários"). Os inventores destes sistemas,
por certo, dão-se conta do antagonismo das
classes, assim como da ação de elementos
destruidores dentro da própria sociedade
dominante. Mas não vêem do lado do proletariado,
nenhuma iniciativa histórica, nenhum movimento
político que lhe seja próprio. Como o
desenvolvimento do antagonismo de classes vai a
par com o desenvolvimento da indústria, tão pouco
podem encontrar as condições materiais da
emancipação do proletariado, e lançam-se à procura
de uma ciência social, de umas leis que permitam
criar essas condições. Em vez da ação social,
têm que pôr a ação do seu próprio engenho; em vez
das condições históricas da emancipação, condições
fantásticas; em vez da organização gradual e
espontânea do proletariado em classe, uma
organização social por eles inventada. Para eles,
a história futura do mundo reduz-se à propaganda e
execução prática dos seus planos sociais. Na
confecção destes planos têm consciência, por
certo, de defender antes de tudo os interesses da
classe operária, porque ela é a classe que mais
sofre. Para eles o proletariado não existe, a não
ser sob este aspecto da classe que mais sofre.
Mas a forma rudimentar da luta de classes, assim
como a sua própria posição social, leva-os a
considerar-se muito acima de todo o antagonismo de
classes. Desejam melhorar as condições materiais
de vida de todos os membros da sociedade, mesmo
dos mais privilegiados. Por isso, não cessam de
apelar para toda a sociedade, indiscriminadamente,
e dirigem-se mesmo, de preferência à classe
dominante. Porque, na verdade, basta compreender o
seu sistema para reconhecer que é o melhor de
todos os planos possíveis da melhor de todas as
sociedades possíveis. Repudiam, por isso, toda
a ação política e, sobretudo, toda a ação
revolucionária; propõe-se alcançar o seu objetivo
por meios pacíficos, tentando abrir caminho ao
novo evangelho social pela força do exemplo, por
meio de pequenas experiências que, naturalmente,
fracassam sempre. A pintura fantasista da
sociedade futura, que surge numa época em que o
proletariado, ainda muito pouco desenvolvido,
encara a sua própria situação de uma maneira
também fantasista, corresponde às38
primeiras aspirações instintivas dos operários no
sentido de uma transformação completa da
sociedade. Mas estas obras socialistas e
comunistas encerram também elementos críticos.
Atacam todas as bases da sociedade existente. E
deste modo forneceram, no seu tempo, materiais de
grande valor para o desenvolvimento dos operários.
As suas teses positivas referentes à sociedade
futura,39
tais como a supressão do antagonismo entre a
cidade e o campo,40
a abolição da família, do lucro privado e do
trabalho assalariado, a proclamação da harmonia
social e a transformação do Estado numa simples
administração da produção; todas estas teses não
fazem mais do que enunciar o desaparecimento do
antagonismo das classes, antagonismo que começa
tão somente a esboçar-se e do qual os inventores
de sistema não conhecem ainda senão as primeiras
formas indistintas e confusas. Assim, estas teses
têm ainda um sentido puramente utópico. A
importância do socialismo e do comunismo
crítico-utópico está na razão inversa do
desenvolvimento histórico. À medida que a luta de
classes se acentua e toma formas mais definidas, o
esforço fantástico de abstrair-se dela, essa
fantástica oposição que se lhe faz, perdem todo o
valor prático, toda a justificação teórica. É por
isso que, se em muitos aspectos os autores destes
sistemas eram revolucionários, as seitas formadas
pelos seus discípulos são sempre reacionárias,
pois se aferram ás velhas concepções dos seus
mestres, apesar do ulterior desenvolvimento
histórico do proletariado. Procuram, pois, e nisso
são conseqüentes, embotar a luta de classes e
conciliar os antagonismos. Continuam a sonhar com
a realização experimental das suas utopias sociais
- estabelecimento de falanstérios isolados,
criação de home-colonies, fundação de uma pequena
Icária,41
edição in-12 da nova Jerusalém. E para a
construção de todos estes castelos no ar vêem-se
forçados a apelar para o coração e a bolsa dos
filantropos burgueses. Pouco a pouco, vão caindo
na categoria dos socialistas reacionários ou
conservadores descritos mais acima e só se
distinguem deles por um pedantismo mais
sistemático e uma fé mais supersticiosa e fanática
na eficácia milagrosa da sua ciência social.
Por isso, opõem-se obstinadamente a todo o
movimento político da classe operária, não podendo
semelhante ação provir, a seu ver, senão de uma
cega falta de fé no novo evangelho. Os
owenistas, em Inglaterra, reagem contra os
cartitas, e os fourieristas, na França, contra os
reformistas.42
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Posição dos comunistas face aos
diferentes partidos de oposição |
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Depois do que dissemos no capitulo II, a
posição dos comunistas em relação aos partidos
operários já constituídos explica-se por si mesma,
e, portanto, a sua posição em relação aos cartitas
na Inglaterra e aos reformadores agrários na
América do Norte. Os comunistas lutam pelos
interesses objetivos imediatos da classe operária;
mas ao mesmo tempo, representam e defendem também,
dentro do movimento atual, o porvir desse
movimento. Em França, os comunistas aliam-se ao
Partido Democrático-Socialista41
contra a burguesia conservadora e radical,
reservando-se, contudo, o direito de criticar a
fraseologia e as ilusões legadas pela tradição
revolucionária. Na Suíça, apoiam os radicais,
sem desconhecer que este partido se compõe de
elementos contraditórios, uma metade de
democratas-socialistas, na acepção francesa do
termo, outra metade de burgueses radicais. Na
Polônia os comunistas apoiam o partido que vê na
revolução agrária a condição da libertação
nacional, quer dizer, o partido que fez, em 1846,
a insurreição de Cracóvia. Na Alemanha, o
Partido Comunista luta de acordo com a burguesia,
todas as vezes que a burguesia atua
revolucionariamente contra a monarquia absoluta, a
propriedade feudal da terra e a pequena burguesia
reacionária. Porém em nenhum momento, este
partido se esquece de despertar nos operários a
mais clara consciência do antagonismo violento que
existe entre a burguesia e o proletariado, a fim
de que os operários alemães saibam converter de
imediato as condições políticas e sociais, criadas
pelo regime burguês, noutras tantas armas contra a
burguesia, a fim de que, logo que sejam destruídas
as classes reacionárias da Alemanha, comece
imediatamente a luta contra a própria burguesia.
É sobretudo para a Alemanha que se volta a atenção
dos comunistas, porque a Alemanha se encontra na
véspera de uma revolução burguesa, porque ela
levará a cabo esta revolução nas condições mais
avançadas da civilização européia e com um
proletariado infinitamente mais desenvolvido do
que a Inglaterra no século XVII e a França no
século XVIII, e, porque, por conseguinte, a
revolução burguesa alemã não poderá deixar de ser
o prelúdio imediato de uma revolução proletária.
Em suma, os comunistas apoiam em todos os países
todo o movimento revolucionário contra a ordem
social e política existente. Em todos estes
movimentos põem à frente a questão da propriedade,
qualquer que seja a forma mais ou menos
desenvolvida que revista, como a questão
fundamental do movimento. Finalmente, os
comunistas trabalham para a união e o acordo entre
os partidos democráticos de todos os países. Os
comunistas consideram indigno dissimular as sua
idéias e propósitos. Proclamam abertamente que os
seus objetivos só podem ser alcançados derrubando
pela violência toda a ordem social existente. Que
as classes dominantes tremam ante a idéia de uma
Revolução Comunista! Os proletários não têm nada a
perder com ela, além das suas cadeias. Têm, em
troca, um mundo a ganhar. PROLETÁRIOS DE TODOS
OS PAÍSES, UNI-VOS!
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Notas |
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1. O Manifesto do Partido
Comunista é um dos mais importantes
documentos-programa do comunismo científico. "Este
breve folheto tem o valor de um volume completo: o
seu espírito inspira e guia, até aos nossos dias,
todo o proletariado organizado e combatente do
mundo civilizado" (Lênin). O Manifesto,
como programa redigido entre Dezembro de 1847 e
Janeiro de 1848 por Karl Marx e Friedrich Engels
para a Liga do Comunistas, apareceu pela primeira
vez em Londres, em Fevereiro de 1848, pelo
Deutsche Londoner Zeitung, órgão
democrático dos emigrantes alemães, e depois
reeditado em Londres, no mesmo ano, sob a forma de
uma brochura de 30 páginas. Nesta ocasião,
suprimiram-se certos erros de impressão da
primeira edição e reviu-se a pontuação. Esta
edição serviu de base às edições seguintes
autorizadas por Marx e Engels. O Manifesto
foi traduzido em 1848 em várias línguas européias
(francês, polaco, italiano, dinamarquês, flamengo,
e sueco). Os nomes dos autores foram mencionados
pela primeira vez no prefácio do editor escrito
por Georg J. Harney para a primeira tradução
inglesa do Manifesto, que surgiu em 1850 no
jornal dos Cartistas The Red Republican.
2. Entende-se por
burguesia a classe dos capitalistas modernos,
proprietários dos meios de produção social, que
empregam o trabalho assalariado. Entende-se por
proletário a classe dos operários assalariados
modernos que, privados dos meios de produção
próprios, se vêm obrigados a vender a sua força de
trabalho para poderem subsistir. (Nota de
Engels para a edição inglesa de 1888).
3. Ou mais exatamente a
história escrita. Em 1847, a história da
organização social que precedeu toda a história
escrita, a pré-história, era quase desconhecida.
Posteriormente, Haxthausen descobriu na Rússia a
propriedade comum da terra. Maurer demonstrou que
esta foi a base social da qual partiram
historicamente todas as tribos alemãs, e foi-se
descobrindo pouco a pouco que a comunidade rural,
com posse coletiva da terra, foi a forma primitiva
da sociedade, desde as Índias até à Irlanda.
Finalmente, a estrutura desta sociedade comunista
primitiva foi posta a claro, no que tem de típico,
com a descoberta de Morgan que fez conhecer a
verdadeira natureza da gens e o seu lugar na
tribo. Com a dissolução destas comunidades
primitivas começa a divisão da sociedade em
classes distintas, e finalmente antagônicas. Eu
tentei analisar este processo de dissolução na
obra A Origem da Família, da Propriedade
Privada e do Estado, 2ª edição, Stuttgart,
1886. (Nota de Engels para a edição inglesa de
1888. A última frase desta nota foi omitida na
edição alemã de 1890)
4. Zunftburger,
isto é, membro de pleno direito de uma corporação,
mestre da mesma, e não seu dirigente. (Nota de
Engels para a edição inglesa de 1888)
5. Na edição de 1888,
revista por Engels, às palavras "êxito político"
foi acrescentado "desta classe".
6. Na edição de 1888, às
palavras "república urbana independente" foi
acrescentado "(como na Itália e na Alemanha)", e
às palavras "terceiro estado tributário da
monarquia" as palavras "como na França".
7. Na edição alemã de 1890,
em vez de "anteriores" diz-se "outras".
8. Na edição inglesa de
1888, esta frase foi omitida.
9. Na edição alemã de 1872 e nas edições
alemãs posteriores de 1883 e de 1890 as palavras
"da civilização burguesa e" foram omitidas.
10. Nos seus escritos
posteriores, Marx e Engels, em vez de "valor de
trabalho" e "preço de trabalho" empregaram termos
mais precisos, aplicados por Marx: "valor da força
de trabalho", "preço da força de trabalho".
11. Na edição inglesa de
1888, em vez de "quantidade de trabalho" diz-se
"dureza do trabalho".
12. Na edição inglesa de
1888, em vez desta frase diz-se "Eles dirigem os
seus ataques não contra as relações burguesas de
produção, mas contra os próprios instrumentos de
produção."
13. Na edição inglesa de
1888, depois da palavra "coalizações", foi
acrescentado "(trade-unions)".
14. Na edição inglesa de
1888, em vez de "elementos da sua própria" diz-se
"elementos da sua própria educação política e
geral".
15. Na edição inglesa de
1888, em vez de "elementos de educação" diz-se
"elementos de ilustração e progresso".
16. Na edição inglesa de
1888, às palavras "o movimento independente" foi
acrescentado "e consciente".
17. Não se trata aqui da
Restauração inglesa de 1660-1689, mas da
Restauração francesa de 1814-1830. (Nota de Engels
para a edição inglesa de 1888).
18. Na edição inglesa de
1888, as palavras "a acumulação da riqueza nas
mãos de particulares" foram omitidas.
19. Na edição inglesa de
1888, em vez de "especiais" diz-se "sectários".
20. Na edição inglesa de
1888, em vez de "o setor mais resoluto" diz-se "o
setor mais avançado e resoluto".
20. Na edição inglesa de
1888, em vez de "a exploração de uns pelos outros"
diz-se "a exploração da maioria pela minoria".
21. Na edição inglesa de
1888, às palavras "em propriedade burguesa" foi
acrescentado "em capital".
22. Na edição inglesa de
1888, em vez de "elevar-se à condição de classe
nacional" diz-se "elevar-se à condição de classe
dirigente da nação".
23. Na edição alemã de 1872
e nas edições alemãs posteriores de 1883 e de
1890, em vez de "no domínio da consciência" diz-se
"no domínio do saber".
24. Na edição alemã de 1890,
as palavras "dentro de umas formas" foram
omitidas.
25. Na edição inglesa de
1888, às palavras "ultrapassar-se-ão a si
próprias", foi acrescentado "exigindo
ulteriormente atacar a velha ordem social".
26. Na edição inglesa de
1888, em vez de "do antagonismo entre a cidade e o
campo" diz-se "da diferença entre a cidade e o
campo.
27. Na edição alemã de 1872
e nas edições alemãs posteriores de 1883 e de
1890, em vez de "antagonismos" diz-se "as
diferenças".
28. Na edição inglesa de
1888, em vez deste artigo diz-se: "9. Combinação
da agricultura e da industria; abolição gradual
das diferenças entre a cidade e o campo, mediante
a distribuição mais equilibrada da população no
país".
29. Isto refere-se
principalmente à Alemanha onde a aristocracia
agrária e os "junkeres" (Fidalgo rústico) cultivam
por conta própria a maior parte das suas terras,
com a ajuda de administradores, e possuem, além
disso, grandes fábricas de açúcar de beterraba e
empresas vinícolas. Os mais ricos aristocratas
ingleses ainda não chegaram a tanto; mas também
sabem como podem compensar a diminuição da renda,
cedendo os seus nomes aos fundadores de todo o
gênero de sociedades anônimas de reputação mais ou
menos duvidosa. (Nota de Engels para a edição
inglesa de 1888).
30. Na edição alemã de 1872
e nas edições alemãs e posteriores de 1883 e de
1890, em vez de "as condições para a existência do
antagonismo das classes e das classes em geral"
diz-se "as condições para a existência do
antagonismo das classes, e as classes em geral".
30. Os legitimistas eram os
partidos da dinastia dos Bourbons, que fora
destronada em 1830 e representava o interesse da
grande propriedade hereditária da terra. Na luta
contra a dinastia reinante dos Orléans, que era
apoiada pela aristocracia financeira e pela grande
burguesia, certos legitimistas recorriam
frequentemente à demagogia social, dizendo que
assumiam a defesa dos trabalhadores contra os
exploradores burgueses. Jovem Inglaterra (Young
England)- grupo de políticos e homens de letras
ingleses, pertencentes ao partido Tory
(conservador). Organizaram-se no início dos anos
40 do século XIX. Os representantes da "Jovem
Inglaterra" refletiam o descontentamento da
aristocracia da terra que se opunha ao crescimento
das forças econômicas e políticas da burguesia.
Recorreram a métodos demagógicos, com vista a
submeter a classe operária à sua influência e
utiliza-la na sua luta contra a burguesia.
31. Na edição alemã de 1848,
em vez de "socialismo cristão" diz-se "socialismo
sagrado e atual".
32. Na edição de 1888, este
último parágrafo diz-se assim: "Finalmente, quando
fatos históricos irrefutáveis desvaneceram todos
os efeitos embriagadores das falsas ilusões, esta
forma de socialismo caiu num miserável abatimento.
33. Na edição alemã de 1872
e nas edições alemãs posteriores de 1883 e de
1890, as palavras "sobre a sociedade verdadeira"
foram omitidas.
34. Na edição inglesa de
1888, esta frase foi omitida.
35. A tormenta
revolucionária de 1848 varreu esta miserável
escola e tirou aos seus partidários qualquer
desejo de continuar a fazer socialismo. O
principal representante e o tipo clássico desta
escola é o senhor Karl Grun. (Nota de Engels
para a edição alemã 1890).
36. Na edição inglesa de
1888, as expressões "pequeno burguês alemão" e
pequena burguesia alemã" foram substituídas, na
parte relativa ao socialismo "verdadeiro", pelas
expressões "filisteus alemães" e filisteu pequeno
burguês alemão".
37. Na edição alemã de 1872
e nas edições alemãs posteriores de 1883 e de
1890, em vez de "corresponde às" diz-se provém
das".
38. Na edição inglesa de
1888, em vez de "As suas teses positivas
referentes à sociedade futura" diz-se "As medidas
práticas nelas propostas".
39. Falanstério era o
nome das colônias socialistas imaginadas por
Fourier. Cabet deu o nome de Icária ao seu país
utópico, e, mais tarde, à sua colônia comunista na
América. (Nota de Engels para a edição inglesa
de 1888)
40. Alusão aos partidários
do jornal La Réforme, órgão do Partido
Democrático-Socialista, que preconizavam a
instauração da república e a aplicação de reformas
democráticas e sociais.
41. Este partido estava
representado no parlamento por Ledru-Rollin, na
literatura por Luís Blanc e na imprensa diária por
La Réforme. O nome democrático-socialista
significava, na boca dos inventores, a parte do
Partido Democrático ou Republicano que tinha uma
matiz mais ou menos socialista. (Nota de Engels
para a edição inglesa 1888). O que então se
chamava, em França, o Partido
Democrático-Socialista estava representado em
política por Ledru-Rollin e na literatura por Luís
Blanc; estava, portanto, a cem mil léguas da
social-democracia alemã de hoje. (Nota de Engels
para a edição alemã de 1890). Home-colonies
(colônias no interior do país).Owen dava este nome
às suas sociedades comunistas modelos. Os
falanstérios eram palácios sociais imaginados por
Fourier. Chamava-se Icária ao país
fantástico-utópico, cujas instituições comunistas
Cabet descrevia. (Nota de Engels para a edição
alemã de 1890.)
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