Karl Marx nasceu em 5
de Maio de 1818 em Trier (Prússia renana). O
pai, advogado, israelita, converteu-se em 1824 ao
protestantismo. A família, abastada e culta, não
era revolucionária. Depois de ter terminado os
seus estudos no liceu de Trier, Marx entrou na
Universidade de Bona e depois na de Berlim; aí
estudou direito e, sobretudo história e filosofia.
Em 1841 terminava o curso defendendo uma tese de
doutoramento sobre a filosofia de Epicuro. Eram,
então, as concepções de Marx as de um idealista
hegeliano. Em Berlim, aderiu ao círculo dos
“hegelianos de esquerda”3 (Bruno Bauer
e outros) que procuravam tirar da filosofia de
Hegel conclusões ateias e revolucionárias.
Ao
sair da Universidade, Marx fixou-se em Bona, onde
contava tornar-se professor. Mas a política
reacionária de um governo que, em 1832, tinha
tirado a Ludwig Feuerbach a sua cadeira de
professor, recusando-lhe novamente o acesso à
Universidade em 1836, e que em 1841 proibira o
jovem professor Bruno Bauer de fazer conferências
em Bona, obrigou Marx a renunciar a uma carreira
universitária. Nessa época, o desenvolvimento das
idéias do hegelianismo de esquerda fazia, na
Alemanha, rápidos progressos. A partir, sobretudo
de 1836, Ludwig Feuerbach começa a criticar a
teologia e a orientar-se para o materialismo, a
que, em 1841, adere completamente (A Essência
do Cristianismo); em 1843 aparecem os seus
Princípios da Filosofia do Futuro. “É
preciso (...) ter vivido a influência emancipadora”
desses livros, escreveu mais tarde Engels, a
propósito destas obras de Feuerbach. “Nós”, (isto
é, os hegelianos de esquerda, entre eles Marx)
“imediatamente nos tornamos feuerbachianos.”4
Nessa altura os burgueses radicais da Renânia, que
tinham certos pontos de contacto com os hegelianos
de esquerda, fundaram em Colónia um jornal de
oposição, a Gazeta Renana5(que
apareceu a partir de 1 de Janeiro de 1842). Marx e
Bruno Bauer foram os seus principais colaboradores
e, em Outubro de 1842, Marx tornou-se o
redator-chefe, mudando-se então de Bona para
Colónia. Sob a direção de Marx, a tendência
democrática revolucionária do jornal acentuou-se
cada vez mais e o governo começou por submetê-lo a
uma dupla e mesmo tripla censura e acabou por
ordenar a sua suspensão completa a partir de 1 de
Janeiro de 1843. Por essa altura, Marx viu-se
obrigado a deixar o seu posto de redator, mas a
sua saída não salvou o jornal, que foi proibido em
Março de 1843. Entre os artigos mais importantes
que Marx publicou na Gazeta Renana, além
dos que indicamos mais adiante (ver
Bibliografia 6) Engels cita um
sobre a situação dos vinhateiros do vale do Mosela
7. A sua atividade de jornalista tinha
feito compreender a Marx que os seus conhecimentos
de economia política eram insuficientes e por isso
lançou-se a estudá-la com ardor.
Em
1843, Marx casou-se, em Kreuznach, com Jenny von
Westphalen, amiga de infância, de quem já era
noivo desde o tempo de estudante. A sua mulher
pertencia a uma família nobre e reacionária da
Prússia. O irmão mais velho de Jenny vou
Westphaleu foi ministro do interior na Prússia
numa das épocas mais reacionárias, de 1850 a 1858.
No Outono de 1843 Marx foi para Paris para editar
no estrangeiro uma revista radical em colaboração
com Arnold Ruge (1802-1880; hegeliano de esquerda,
preso de 1825 a 1830; emigrado depois de 1848 e
partidário de Bismarck depois de 1866-1870). Mas
só apareceu o primeiro fascículo desta revista,
intitulada Anais Franco-Alemães8,
que teve de ser suspensa por causa das
dificuldades com a sua difusão clandestina na
Alemanha e de divergências com Ruge. Nos artigos
de Marx publicados pela revista, ele aparece-nos
já como um revolucionário que proclama “a crítica
implacável de tudo o que existe” e, em particular,
“a crítica das armas”, e apela para as massas
e o proletariado.
Em
Setembro de 1844, Friedrich Engels esteve em Paris
por uns dias, e desde então tornou-se o amigo mais
íntimo de Marx. Ambos tomaram uma parte muito
ativa na vida agitada da época dos grupos
revolucionários de Paris (especial importância
assumia então a doutrina de Proudhon 10,
que Marx submeteu a uma crítica impiedosa na sua
obra Miséria da Filosofia, publicada em
1847) e, numa árdua luta contra as diversas
doutrinas do socialismo pequeno-burguês,
elaboraram a teoria e a tática do socialismo
proletário revolucionário ou comunismo
(marxismo). Vejam-se as obras de Marx desta época,
1844-1848, mais adiante na Bibliografia. Em
1845, a pedido do governo prussiano, Marx foi
expulso de Paris como revolucionário perigoso. Foi
para Bruxelas, onde fixou residência. Na Primavera
de 1847, Marx e Engels filiaram-se numa sociedade
secreta de propaganda, a “Liga dos Comunistas”
11, tiveram papel destacado no II
Congresso desta Liga (Londres, Novembro de 1847) e
por incumbência do Congresso redigiram o célebre
Manifesto do Partido Comunista, publicado
em Fevereiro de 1848. Esta obra expõe, com uma
clareza e um vigor geniais, a nova concepção do
mundo, o materialismo conseqüente aplicado também
ao domínio da vida social, a dialética como a
doutrina mais vasta e mais profunda do
desenvolvimento, a teoria da luta de classes e do
papel revolucionário histórico universal do
proletariado, criador de uma sociedade nova, a
sociedade comunista.
Quando eclodiu a revolução de Fevereiro de 1848
12, Marx foi expulso da Bélgica.
Regressou novamente a Paris, que deixou depois da
revolução de Março 13 para voltar à
Alemanha e fixar-se em Colónia. Foi aí que
apareceu, de 1 de Junho de 1848 até 19 de Maio de
1849, a Nova Gazeta Renana 14,
de que Marx foi o redator-chefe. A nova teoria foi
brilhantemente confirmada pelo curso dos
acontecimentos revolucionários de 1848-1849 e
posteriormente por todos os movimentos proletários
e democráticos em todos os países do mundo. A
contra-revolução vitoriosa arrastou Marx ao
tribunal (foi absolvido em 9 de Fevereiro de 1849)
e depois expulsou-o da Alemanha (em 16 de Maio de
1849). Voltou então para Paris, de onde foi
igualmente expulso após a manifestação de 13 de
Junho de 184915, e partiu depois
para Londres, onde viveu até ao fim dos seus dias.
As
condições desta vida de emigração eram
extremamente penosas, como o revela com particular
vivacidade a correspondência entre Marx e Engels
(editada em 1913). Marx e a família viviam
literalmente esmagados pela miséria; sem o apoio
financeiro constante e dedicado de Engels, Marx
não só não teria podido acabar O Capital,
como teria fatalmente sucumbido à miséria. Além
disso, as doutrinas e as correntes predominantes
do socialismo pequeno-burguês, do socialismo não
proletário em geral, obrigavam Marx a sustentar
uma luta implacável, incessante e, por vezes, a
defender-se mesmo dos ataques pessoais mais
furiosos e mais absurdos (Herr Vogt 16).
Conservando-se à margem dos círculos de emigrados,
Marx desenvolveu numa série de trabalhos
históricos (ver Bibliografia) a sua teoria
materialista, dedicando-se, sobretudo ao estudo da
economia política. Revolucionou esta ciência (ver
a seguir o capítulo acerca da doutrina de
Marx), nas suas obras Contribuição para a
Crítica da Economia Política (1859) e O
Capital (r. i, 1867).
A
época da reanimação dos movimentos democráticos,
no final dos anos 50 e nos anos 60, levou Marx a
voltar ao trabalho prático. Foi em 1864 (em 28 de
Setembro) que se fundou em Londres a célebre I
Internacional, a “Associação Internacional dos
Trabalhadores”. Marx foi a sua alma, sendo o autor
do primeiro “Apelo” 17 e de um grande
número de resoluções, declarações e manifestos.
Unindo o movimento operário dos diversos países,
procurando orientar numa via de atividade comum as
diferentes formas do socialismo não proletário,
pré-marxista (Mazzini, Proudhon, Bakúnine, o
trade-unionismo liberal inglês, as oscilações dos
lassallianos para a direita na Alemanha, etc.)
combatendo as teorias de todas estas seitas e
escolas, Marx foi forjando uma tática única para a
luta proletária da classe operária nos diversos
países. Depois da queda da Comuna de Paris (1871)
- a qual Marx analisou (em A Guerra Civil em
França, 1871) de uma maneira tão penetrante,
tão justa, tão brilhante, tão eficaz e
revolucionária - e depois da cisão provocada pelos
bakuninista 18, a Internacional não
pôde continuar a subsistir na Europa. Depois do
Congresso de 1872 em Haia, Marx conseguiu a
transferência do Conselho Geral da Internacional
para Nova lorque. A I Internacional tinha cumprido
a sua missão histórica e dava lugar a uma época de
crescimento infinitamente maior do movimento
operário em todos os países do mundo,
caracterizada pelo seu desenvolvimento em
extensão, pela formação de partidos
socialistas operários de massas no quadro
dos diversos Estados nacionais.
A
sua atividade intensa na Internacional e os seus
trabalhos teóricos, que exigiam esforços ainda
maiores, abalaram definitivamente a saúde de Marx.
Prosseguiu a sua obra de transformação da economia
política e de acabamento de O Capital,
reunindo uma massa de documentos novos e estudando
várias línguas (o russo, por exemplo), mas a
doença impediu-o de terminar O
Capital.
A 2
de Dezembro de 1881, morre a sua mulher. A 14 de
Março de 1883, Marx adormecia pacificamente, na
sua poltrona, para o último sono. Foi enterrado
junto da sua mulher no cemitério de Highgate, em
Londres. Vários filhos de Marx morreram muito
jovens, em Londres, quando a família atravessava
uma grande miséria. Três das suas filhas casaram
com socialistas ingleses e franceses: Eleanor
Aveling, Laura Lafargue e Jenny Longuet; um dos
filhos desta última é membro do Partido Socialista
Francês.
A doutrina de Marx
O marxismo é o sistema das idéias e da
doutrina de Marx. Marx continuou e desenvolveu
plena e genialmente as três principais correntes
ideológicas do século XIX, nos três países mais
avançados da humanidade: a filosofia clássica
alemã, a economia política clássica inglesa e o
socialismo francês, em ligação com as doutrinas
revolucionárias francesas em geral. O caráter
notavelmente coerente e integral das suas idéias,
reconhecido pelos próprios adversários - e que, no
seu conjunto, constituem o materialismo moderno e
o socialismo científico moderno como teoria e
programa do movimento operário de todos os países
civilizados -, obriga-nos a fazer preceder a
exposição do conteúdo essencial do marxismo, a
doutrina econômica de Marx, de um breve resumo da
sua concepção do mundo em geral.
O materilaismo filosófico
Desde 1844-1845, época em que se formaram as suas
idéias, Marx foi materialista; foi, em particular,
partidário de L. Feuerbach, cujo único lado fraco
foi para ele, mesmo mais tarde, a falta de
coerência e de universalidade do seu materialismo.
Marx via a importância histórica mundial de
Feuerbach, que “fez época”, precisamente na sua
ruptura decisiva com o idealismo de Hegel e na sua
afirmação do materialismo que já desde “o século
XVIII e nomeadamente em França não foi apenas uma
luta contra as instituições políticas existentes,
assim como contra a religião e a teologia
existentes, mas também ... contra toda a
metafísica” (tomada no sentido de “especulação
delirante” por oposição a uma “filosofia sensata”)
(A Sagrada Família19, no
Literarischer Nachlass). “Para Hegel -
escrevia Marx - o processo do pensamento, que ele
personifica mesmo sob o nome de idéia num sujeito
independente, é o demiurgo (o criador) da
realidade ... Para mim, pelo contrário, o ideal
não é senão o material transposto e traduzido no
cérebro humano” (O Capital, I,
posfácio da segunda edição). Perfeitamente de
acordo com a filosofia materialista de Marx, F.
Engels, expondo-a no Anti-Díihring (ver),
que Marx lera ainda em manuscrito, escrevia: “A
unidade do mundo não consiste no seu ser ... A
unidade real do mundo consiste na sua
materialidade e esta última está provada ... por
um longo e laborioso desenvolvimento da filosofia
e das ciências naturais ... O movimento é o modo
de existência da matéria. Nunca e em parte alguma
houve nem poderá haver matéria sem movimento ...
Matéria sem movimento é impensável do mesmo modo
que movimento sem matéria ... Mas, se pergunta,
depois disso, o que são o pensamento e a
consciência, e donde provêm, conclui-se que são
produtos do cérebro humano e que o próprio homem é
um produto da natureza, o qual se desenvolveu no
seu ambiente e com ele; daí se compreende por si
só que os produtos do cérebro humano que, em
última análise, são igualmente produtos da
natureza, não estão em contradição, mas sim em
correspondência com a restante conexão da
natureza” “Hegel era idealista, isto é, para ele,
as idéias do seu cérebro não eram reflexos (Abbilder,
por vezes Engels, fala de ‘reproduções’) mais
ou menos abstratos dos objetos e dos fenômenos
reais, mas, pelo contrário, eram os objetos e o
seu desenvolvimento que eram para ele os reflexos
da idéia, que já existia, não se sabe onde, antes
da existência do mundo.” No seu Ludwig
Feuerbach, livro onde expõe as suas idéias e
as de Marx sobre a filosofia de Feuerbach e que só
mandou imprimir depois de ter lido uma vez mais o
velho manuscrito de 1844-1845, escrito em
colaboração com Marx, sobre Hegel, Feuerbach e a
concepção materialista da história, Engels
escreve: “A grande questão fundamental de toda a
filosofia, especialmente da filosofia moderna, é a
da relação entre o pensamento e o ser, entre o
espírito e a natureza ... Que é primeiro: o
espírito ou a natureza?... Conforme respondiam de
uma maneira ou de outra a esta questão, os
filósofos dividiam-se em dois grandes campos.
Aqueles que afirmavam que o espírito é primeiro em
relação à natureza e que, por conseguinte,
admitiam, em última instância, uma criação do
mundo de qualquer espécie ... constituíam o campo
do idealismo. Os outros, que consideravam a
natureza como o elemento primordial, pertenciam às
diversas escolas do materialismo.” Qualquer outro
emprego dos conceitos de idealismo e de
materialismo (no sentido filosófico), não faz mais
do que criar a confusão; Marx repudiou
categoricamente não apenas o idealismo, sempre
ligado, de uma maneira ou de outra, à religião,
mas também o ponto de vista, particularmente
difundido nos nossos dias, de Rume e de Kant, o
agnosticismo, o criticismo, o positivismo20
sob os seus diferentes aspectos,
considerando esse gênero de filosofia como uma
concessão “reacionária” ao idealismo, e, no melhor
dos casos, “uma maneira envergonhada de aceitar o
materialismo às escondidas, renegando-a
publicamente”. A este respeito, é bom consultar,
além das
já
citadas obras de Marx e Engels, a carta de
Marx a Engels, datada de 12 de Dezembro de 1866,
em que, falando de uma intervenção do célebre
naturalista T. Huxley, que se mostrou “mais
materialista” do que habitualmente e reconheceu
que “enquanto observamos e pensamos realmente
nunca podemos sair do materialismo”, Marx o
critica por ter “aberto uma porta” ao agnosticismo
e à teoria de Rume. É importante, sobretudo reter
a opinião de Marx sobre as relações entre a
liberdade e a necessidade: “A necessidade só é
cega enquanto não é compreendida. A liberdade
consiste em conhecer a necessidade.” (F. Engels,
Anti-Díihring.)
E o
reconhecimento das leis objetivas que regem a
natureza e da transformação dialética da
necessidade em liberdade (da mesma maneira que a
transformação da “coisa em si” não conhecida mas
cognoscível, em “coisa para nós”, da “essência das
coisas” em “fenômenos”). O defeito essencial do
“velho” materialismo, incluindo o de Feuerbach (e,
com mais forte razão, o do materialismo “vulgar”
de Buchner-Vogt-Moleschott), era para Marx e
Engels: 1 - que este materialismo era
“essencialmente mecanicista” e não tomava em conta
os progressos mais recentes da química e da
biologia (atualmente conviria acrescentar ainda a
teoria elétrica da matéria); 2 - que o velho
materialismo não tinha um caráter histórico nem
dialético (sendo pelo contrário metafísico, no
sentido de antidialético) e não aplicava a
concepção do desenvolvimento de forma conseqüente
e sob todos os seus aspectos; 3 - que concebia a
“essência humana” como uma abstração e não como o
“conjunto de todas as relações sociais” (concretamente
determinadas pela história), não fazendo assim
mais do que “interpretar” o mundo, enquanto aquilo
de que se tratava era de o “transformar”, ou, por
outras palavras, não compreendia a importância da
“atividade revolucionária prática”.
A dialética
Marx e Engels viam na dialética
de Hegel a doutrina do desenvolvimento mais
vasta, mais rica de conteúdo e mais profunda, a
maior aquisição da filosofia clássica alemã.
Consideravam qualquer outro enunciado do princípio
do desenvolvimento, da evolução, unilateral,
pobre, que mutilava e deturpava a marcha real do
desenvolvimento (marcha que muitas vezes se efetua
através de saltos, catástrofes, revoluções) na
natureza e na sociedade. “Marx e eu, fomos
seguramente quase os únicos que procuramos salvar”
(do descalabro do idealismo, incluindo o
hegelianismo) “a dialética consciente, para a
integrar na concepção materialista da natureza”.
“A natureza é a comprovação da dialética, e
devemos dizer que as ciências modernas da natureza
nos forneceram materiais extremamente numerosos”
(e isto foi escrito antes da descoberta do rádio,
dos eletrões, da transformação dos elementos,
etc.!) “cujo volume aumenta dia a dia, provando
assim que, em última análise, na natureza as
coisas se passam dialeticamente, e não
metafisicamente. “21
“A grande idéia
fundamental - escreve Engels - segundo a qual o
mundo não deve ser considerado como um conjunto de
coisas acabadas, mas como um conjunto de processos
em que as coisas, aparentemente estáveis, bem como
os seus reflexos mentais no nosso cérebro, os
conceitos, passam por uma série ininterrupta de
transformações, por um processo de gênese e de
deperecimento, esta grande idéia fundamental
penetrou, desde Hegel, tão profundamente na
consciência corrente que, sob esta forma geral,
quase já não encontra contraditores. Mas
reconhece-la em palavras e aplicá-la na realidade
concreta, em cada domínio submetido à
investigação, são duas coisas diferentes.” “Nada
há de definitivo, de absoluto, de sagrado para a
filosofia dialética. Ela mostra a caducidade de
todas as coisas e para ela nada mais existe senão
o processo ininterrupto do surgir e do perecer, da
ascensão sem fim do inferior para o superior, de
que ela própria não é senão o simples reflexo no
cérebro pensante.” Portanto, para Marx, a
dialética é“a ciência das leis gerais do movimento
tanto do mundo exterior como do pensamento humano”
22.
Foi este aspecto
revolucionário da filosofia de Hegel que Marx
adotou e desenvolveu. O materialismo dialético
“não necessita de nenhuma filosofia colocada acima
das outras ciências”. A única coisa que resta da
filosofia anterior é “a teoria do pensamento e das
suas leis, a lógica formal e a dialética”23.
E a dialética compreende, na concepção de Marx,
como na de Hegel, o que hoje se chama à teoria do
conhecimento, ou gnosiologia, ciência que deve
considerar o seu objeto também historicamente,
estudando e generalizando a origem e o
desenvolvimento do conhecimento, a passagem do
não conhecimento ao conhecimento.
Atualmente, a
idéia do desenvolvimento, da evolução, penetrou
quase completamente na consciência social, mas por
outra via que não a da filosofia de Hegel. No
entanto, esta idéia, tal como a formularam Marx e
Engels, apoiando-se em Hegel, é muito mais vasta e
rica de conteúdo do que a idéia corrente da
evolução.
É um desenvolvimento que parece repetir
etapas já percorridas, mas sob outra forma, numa
base mais elevada (“negação da negação”); um
desenvolvimento por assim dizer em espiral, e não
em linha reta; um desenvolvimento por saltos, por
catástrofes, por revoluções; “soluções de
continuidade”; transformações da quantidade em
qualidade; impulsos internos do desenvolvimento,
provocados pela contradição, pelo choque de forças
e tendências distintas agindo sobre determinado
corpo, no quadro de um determinado fenômeno ou no
seio de uma determinada sociedade;
interdependência e ligação estreita, indissolúvel,
de todos os aspectos de cada fenômeno (com
a particularidade de que a história faz
constantemente aparecer novos aspectos), ligação
que mostra um processo único universal do
movimento, regido por leis; tais são certos traços
da dialética, dessa doutrina do desenvolvimento
mais rica de conteúdo do que a doutrina usual.
(Ver a carta de Marx a Engels, de 8 de Janeiro de
1868, onde ridiculariza as “tricotomias rígidas”
de Stein, que seria absurdo confundir com a
dialética materialista.)
A concepção materialista da
história
Dando-se conta do
caráter inconseqüente, incompleto e unilateral do
velho materialismo, Marx foi levado à convicção de
que era preciso “pôr a ciência da sociedade de
acordo com a base materialista e reconstruir esta
ciência apoiando-se nessa base”24. Se,
de uma forma geral, o materialismo explica a
consciência pelo ser, e não ao contrário, ele
exige, quando aplicado à vida social da
humanidade, que se explique à consciência
social pelo ser social. “A tecnologia,
diz Marx (O Capital, l), revela a
atitude ativa do homem para com a natureza, o
processo imediato da produção da sua vida e, por
conseguinte, das suas condições sociais de vida e
das representações espirituais que delas derivam.”25Uma formulação completa das teses fundamentais
do materialismo aplicado à sociedade humana e à
sua história é dada por Marx no prefácio à sua
obra Contribuição para a Crítica da Economia
Política, nestes termos:
“Na produção
social da sua existência, os homens entram em
relações determinadas, necessárias, independentes
da sua vontade; relações de produção que
correspondem a um dado grau de desenvolvimento das
suas forças produtivas materiais.
O conjunto dessas
relações de produção constitui a estrutura
econômica da sociedade, a base real sobre a qual
se eleva uma superestrutura jurídica e política e
à qual correspondem formas de consciência social
determinadas. O modo de produção da vida material
condiciona o processo da vida social, política e
intelectual, em geral. Não é a consciência dos
homens que determina o seu ser, mas, pelo
contrário, é o seu ser social que determina a sua
consciência. Num certo estádio do seu
desenvolvimento, as forças produtivas materiais da
sociedade entram em contradição com as relações de
produção existentes ou, o que não é senão a
expressão jurídica disso, com as relações de
propriedade no seio das quais elas se haviam
movido até então. De formas de desenvolvimento das
forças produtivas que eram, essas relações
tornam-se seus entraves. Abre-se então uma época
de revolução social. A transformação na base
econômica revoluciona, mais ou menos rapidamente,
toda a enorme superestrutura. Quando se estudam
tais revoluções é preciso distinguir sempre entre
as transformações materiais ocorridas nas
condições econômicas de produção
- que
podem ser verificadas com o rigor próprio das
ciências naturais
- e as formas jurídicas, políticas,
religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo,
as formas ideológicas sob as quais os homens tomam
consciência desse conflito e lutam por resolvê-lo.
“Assim como não
se pode julgar um indivíduo pela idéia que ele faz
de si próprio, também se não pode julgar uma tal
época de revoluções pela consciência que ela tem
de si mesma. Pelo contrário, é preciso explicar
esta consciência pelas contradições da vida
material, pelo conflito que existe entre as forças
produtivas sociais e as relações de produção ...”
“Em traços largos, os modos de produção asiático,
antigo, feudal e burguês moderno, podem ser
designados como outras tantas épocas de progresso
na formação econômica da sociedade.” (Ver a
fórmula sucinta que Marx dá na sua carta a Engels
datada de 7 de Julho de 1866: “A nossa
teoria da organização do trabalho determinada
pelos meios de produção.”)
A descoberta da
concepção materialista da história ou, mais
exatamente, a aplicação, a extensão conseqüente do
materialismo ao domínio dos fenômenos sociais
eliminou os dois defeitos essenciais das teorias
da história anteriores a Marx. Em primeiro lugar,
estas consideravam, no melhor dos casos, os
móbiles ideológicos da atividade histórica dos
homens, sem investigar a origem desses móbiles,
sem apreender as leis objetivas que presidem ao
desenvolvimento do sistema das relações sociais e
sem descobrir as raízes dessas relações no grau de
desenvolvimento da produção material. Em segundo
lugar, as teorias anteriores não abarcavam
precisamente a ação das massas da
população, enquanto o materialismo histórico
permite, pela primeira vez, estudar com a precisão
das ciências naturais as condições sociais da vida
das massas e as modificações dessas condições. A
”sociologia” e a historiografia anteriores a Marx,
no melhor dos casos, acumularam fatos em
bruto, fragmentariamente recolhidos, e expuseram
alguns aspetos do processo histórico. Omarxismo abriu caminho ao estudo universal e
completo do processo do nascimento,
desenvolvimento e declínio das formações
econômico-sociais, examinando o conjunto
das tendências contraditórias, ligando-as às
condições de existência e de produção, exatamente
determináveis, das diversas classes da
sociedade, afastando o subjetivismo e o arbítrio
na seleção das diversas idéias “dominantes” ou na
sua interpretação, revelando as raízes de
todas as idéias e todas as diferentes tendências,
sem exceção, no estado das forças produtivas
materiais. Os homens são os artífices da sua
própria história, mas, que causas determinam os
móbiles dos homens e, mais precisamente, das
massas humanas? Qual é a causa dos conflitos de
idéias e aspirações contraditórias? Que representa
o conjunto destes conflitos na massa das
sociedades humanas? Quais são as condições
objetivas da produção da vida material nas quais
se baseia toda a atividade histórica dos homens?
Qual é a lei que preside ao desenvolvimento destas
condições? Marx fez incidir a sua atenção sobre
todos estes problemas e traçou o caminho para o
estudo científico da história concebida como um
processo único regido por leis, apesar da sua
prodigiosa variedade de aspetos e de todas as
suas contradições.
A luta de classes
Toda a gente sabe
que, em qualquer sociedade, as aspirações de uns
contrariam as de outros, que a vida social está
cheia de contradições, que a história nos mostra a
luta entre povos e sociedades, assim como no seu
próprio seio; que ela nos mostra, além disso, uma
sucessão de períodos de revolução e de reação, de
paz e de guerra, de estagnação e de progresso
rápido ou de decadência. O marxismo deu o fio
condutor que, neste labirinto, neste caos
aparente, permite descobrir a existência de leis:
a teoria da luta de classes. Só o estudo do
conjunto das aspirações de todos os membros de uma
sociedade ou de um grupo de sociedades permite
definir, com uma precisão científica, o resultado
destas aspirações. Ora, as aspirações
contraditórias nascem da diferença de situação e
de condições de vida das classes em que se
divide qualquer sociedade. “A história de toda a
sociedade até agora existente - escreve Marx no
Manifesto do Partido Comunista (excetuado a
história da comunidade primitiva, acrescentaria
Engels mais tarde) e a história de lutas de
classes. O homem livre e o escravo, o patrício e o
plebeu, o barão feudal e o servo, o mestre de uma
corporação e o oficial, em suma, opressores e
oprimidos, estiveram em constante antagonismo
entre si, travaram uma luta ininterrupta, umas
vezes oculta, aberta outras, que acabou sempre com
uma transformação revolucionária de toda a
sociedade ou com o declínio comum das classes em
conflito... A moderna sociedade burguesa, saída do
declínio da sociedade feudal, não acabou com os
antagonismos de classe. Não fez mais do que
colocar novas classes, novas condições de
opressão, novos aspectos da luta no lugar dos
anteriores. A nossa época, a época da burguesia,
distingue-se, contudo por ter simplificado os
antagonismos de classe. Toda a sociedade está a
cindir-se cada vez mais em dois grandes campos
hostis, em duas grandes classes em confronto
direto: a burguesia e o proletariado.” Após a
grande revolução francesa, a história da Europa,
em muitos países, revela com particular evidência
o verdadeiro fundo dos acontecimentos, a luta de
classes. Já na época da Restauração26
se vê aparecer em França um certo número de
historiadores (Thierry, Guizot, Mignet, Thiers)
que, sintetizando os acontecimentos, não puderam
deixar de reconhecer que a luta de classes é a
chave para a compreensão de toda a história
francesa. Ora, a época contemporânea, a época da
vitória completa da burguesia, das instituições
representativas, do sufrágio amplo (quando não
universal), da imprensa diária barata e que chega
às massas, etc., a época das associações operárias
e patronais poderosas e cada vez mais vastas, etc,
mostra com mais evidência ainda (embora, por
vezes, sob uma forma unilateral, “pacifica”,
“constitucional”) que a luta de classes é o motor
dos acontecimentos. A seguinte passagem do
Manifesto do Partido Comunista mostra-nos o
que Marx exigia da ciência social para a análise
objetiva da situação de cada classe no seio da
sociedade moderna, em ligação com a análise das
condições do desenvolvimento de cada classe:
“De todas as
classes que hoje em dia defrontam a burguesia só o
proletariado é uma classe realmente
revolucionária. As demais classes vão-se
arruinando e soçobram com a grande indústria; o
proletariado é o produto mais característico
desta. As camadas médias, o pequeno industrial, o
pequeno comerciante, o artífice, o camponês, lutam
todos contra a burguesia para assegurarem a sua
existência como camadas médias, antes do declínio.
Não são pois revolucionárias, mas conservadoras.
Mais ainda, são reacionárias, pois procuram pôr a
andar para trás a roda da história. Se são
revolucionárias, são-no apenas em termos da sua
iminente passagem para o proletariado, o que quer
dizer que não defendem os seus interesses
presentes, mas os futuros, o que quer dizer que
abandonam a sua posição social própria e se
colocam na do proletariado.” Em numerosas obras
históricas (ver Bibliografia), Marx deu
exemplos brilhantes e profundos de historiografia
materialista, de análise da situação de cada
classe particular, e, por vezes, dos diversos
grupos ou camadas no seio de uma classe,
mostrando, até à evidência, porque e como “toda a
luta de classes é uma luta política”. A passagem
que acabamos de citar ilustra claramente como é
complexa a rede das relações sociais e dos graus
transitórios de uma classe para outra, do
passado para o futuro, que Marx analisa, para
determinar a resultante do desenvolvimento
histórico.
A teoria de
Marx encontra a sua confirmação e aplicação mais
profunda, mais completa e mais pormenorizada na
sua doutrina econômica.
A doutrina econômica de Marx
“O objetivo final
desta obra, diz Marx no seu prefácio a O
Capital, é descobrir a lei econômica do
movimento da sociedade moderna”, isto é, da
sociedade capitalista, da sociedade burguesa. O
estudo das relações de produção de uma sociedade
historicamente determinada e concreta no seu
nascimento, desenvolvimento e declínio, tal é o
conteúdo da doutrina econômica de Marx. O que
domina na sociedade capitalista é a produção de
mercadorias; por isso a análise de Marx começa
pela análise da mercadoria.
O valor
A mercadoria é,
em primeiro lugar, uma coisa que satisfaz uma
qualquer necessidade do homem; em segundo lugar, é
uma coisa que se pode trocar por outra. A
utilidade de uma coisa faz dela um valor de
uso. O valor de troca (ou simplesmente o
valor) é, em primeiro lugar, a relação, a
proporção na troca de um certo número de valores
de uso de uma espécie contra um certo número de
valores de uso de outra espécie. A experiência
quotidiana mostra-nos que, através de milhões, de
milhares de milhões de trocas deste tipo se
comparam incessantemente os valores de uso mais
diversos e mais díspares. Que há de comum entre
estas coisas diferentes, que são tornadas
constantemente equivalentes num determinado
sistema de relações sociais? O que elas têm de
comum é serem produtos do trabalho.
Trocando os seus produtos, os homens criam
relações de equivalência entre os mais diferentes
gêneros de trabalho. A produção das mercadorias é
um sistema de relações sociais no qual os diversos
produtores criam produtos variados (divisão social
do trabalho) e em que todos estes produtos se
equiparam uns aos outros na troca. Por
conseguinte, o que é comum a todas as mercadorias
não é o trabalho concreto de um ramo de produção
determinado, não é um trabalho de um gênero
particular, mas o trabalho humano abstrato,
o trabalho humano em geral. Numa dada sociedade,
toda a força de trabalho representada pela soma
dos valores de todas as mercadorias constitui uma
só e mesma força de trabalho humano; milhares de
milhões de atos de troca o demonstram. Cada
mercadoria considerada isoladamente não representa
portanto senão uma certa parte do tempo de
trabalho socialmente necessário. A grandeza
do valor é determinada pela quantidade de trabalho
socialmente necessário ou pelo tempo de trabalho
socialmente necessário para a produção de
determinada mercadoria, de determinado valor de
uso. “Ao equiparar os seus diversos produtos na
troca como valores, os homens equiparam os seus
diversos trabalhos como trabalho humano. Não se
dão conta, mas fazem-no.”27 O valor é
uma relação entre duas pessoas, disse um velho
economista; mas deveria acrescentar: uma relação
entre pessoas escondida sob a envoltura das
coisas. Só partindo do sistema de relações sociais
de produção de uma formação histórica determinada,
relações que se manifestam na troca, fenômeno
generalizado que se repete milhares de milhões de
vezes, é que se pode compreender o que é o valor.
“Como valores, todas as mercadorias são apenas
quantidades determinadas de tempo de trabalho
cristalizado.” Depois de uma análise detalhada do
duplo caráter do trabalho incorporado nas
mercadorias, Marx passa à análise da formado
valor e do dinheiro. A principal tarefa
que Marx se atribui é investigar a origem
da forma dinheiro do valor, estudar o processo
histórico do desenvolvimento da troca,
começando pelos atos de troca particulares e
fortuitos (“forma simples, particular ou acidental
do valor: uma quantidade determinada de uma
mercadoria é trocada por uma quantidade
determinada de outra mercadoria), para passar à