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. O trabalho à Maneira Revolucionária (Um Sábado Comunista)

. Os Sábados Comunistas

 

 
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Uma Grande Iniciativa



Vladimir lliCh Ulianov LÊNIN
28, de Junho de 1919

 

Os Sábado Comunistas

 

« S a r á t o v, 5 de Junho. Os ferroviários comunistas, correspondendo ao apelo dos seus camaradas de Moscovo, decidiram, numa assembléia geral do partido, trabalhar gratuitamente aos sábados cinco horas extraordinárias para apoiar a economia nacional.

* * *

Reproduzi com o máximo pormenor e inteiramente as informações relativas aos sábados comunistas porque observamos aqui, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes da edificação comunista, ao qual a nossa imprensa dedica insuficiente atenção e que nós todos apreciamos ainda insuficientemente.
Menos palavreado político e maior atenção aos fatos mais simples, mais vivos, tomados da vida e verificados na vida, da edificação comunista; tal é a palavra de ordem que todos nós, os nossos escritores, agitadores, propagandistas, organizadores, etc., devemos repetir constantemente.
É natural e inevitável que durante os primeiros tempos depois da revolução proletária nos preocupe acima de tudo a tarefa principal e fundamental: superar a resistência da burguesia, vencer os exploradores, reprimir as suas conspirações (como a «conspiração dos escravistas» para entregar Petrogrado, na qual participaram todos, desde os cem negros e os democratas-constitucionalistas até aos mencheviques e os socialistas-revolucionários108). Mas, ao lado desta tarefa, surge também inevitavelmente — e cada vez com maior força — a tarefa mais essencial da edificação comunista positiva, da criação das novas relações econômicas, da nova sociedade.
A ditadura do proletariado — como já tive ocasião de indicar mais d~ uma vez e, entre outras, também no meu discurso de 12 de Março na reunião do Soviete de deputados de Petrogrado — não é só a violência sobre os exploradores, nem sequer é principalmente a violência. A base econômica dessa violência revolucionária, a garantia da sua vitalidade e do seu êxito, está em que o proletariado representa e realiza um tipo mais elevado de organização social do trabalho em comparação com o capitalismo. Isto é o essencial. Nisto reside a fonte da força e a garantia da vitória inevitável e completa do comunismo.
A organização feudal do trabalho social assentava na disciplina do cacete, na ignorância e no embrutecimento extremos dos trabalhadores, espoliados e escarnecidos por um punhado de latifundiários. A organização capitalista do trabalho social assentava na disciplina da fome, e a massa enorme dos trabalhadores, apesar de todo o progresso da cultura e da democracia burguesa, continuou a ser, mesmo nas repúblicas mais avançadas, mais civilizadas e mais democráticas, a massa ignorante e embrutecida dos escravos assalariados ou dos camponeses esmagados, espoliados e escarnecidos por um punhado de capitalistas. A organização comunista do trabalho social, de que o socialismo constitui o primeiro passo, assenta e assentará cada vez mais na disciplina livre e consciente dos próprios trabalhadores, que derrubaram o jugo tanto dos latifundiários como dos capitalistas.
Esta nova disciplina não cai do céu nem nasce de votos piedosos, mas decorre das condições materiais da grande produção capitalista, e apenas delas. Sem elas é impossível. E o portador ou veículo dessas condições materiais é uma classe histórica determinada, criada, organizada, unida, instruída, educada e temperada pelo grande capitalismo. Essa classe é o proletariado.
A ditadura do proletariado, se traduzirmos esta expressão latina, científica, histórico-filosófica, para uma linguagem mais simples, significa o seguinte:
só uma classe determinada, a saber os operários urbanos e em geral os operários das fábricas, os operários industriais, está em condições de dirigir toda a massa de trabalhadores e explorados na luta para derrubar o jugo do capital, no processo do próprio derrubamento, na luta para manter e consolidar a vitória, na obra da criação do novo regime social, do regime socialista, em toda a luta pela completa supressão das classes. (Notemos entre parênteses: a diferença científica entre o socialismo e o comunismo consiste apenas em que a primeira palavra designa a primeira fase da sociedade nova que nasce do capitalismo, e a segunda palavra designa uma fase superior e mais avançada dessa sociedade.)
O erro da Internacional amarela «de Berna» consiste em que os seus chefes só em palavras reconhecem a luta de classes e o papel dirigente do proletariado, receando levar as suas idéias até ao fim, receando precisamente a inevitável conclusão que causa particular horror à burguesia e que é absolutamente inaceitável para ela. Receiam reconhecer que a ditadura do proletariado é também um período de luta de classes, que é inevitável enquanto as classes não tiverem sido suprimidas e que muda as suas formas, tornando-se particularmente encarniçada e particularmente específica durante os primeiros tempos após o derrubamento do capital. Uma vez conquistado o poder político, o proletariado não cessa a sua luta de classe, antes a continua até a supressão das classes, mas naturalmente noutras condições, sob outras formas e com outros meios.
E que quer dizer «supressão das classes»? Todos aqueles que se dizem socialistas reconhecem este objetivo final do socialismo, mas nem todos, longe disso, refletem no seu significado. Chama-se classes a grandes grupos de pessoas que se diferenciam entre si pelo seu lugar num sistema de produção social historicamente determinado, pela sua relação (as mais das vezes fixada e formulada nas leis) com os meios de produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e, consequentemente, pelo modo de obtenção e pelas dimensões da parte da riqueza social de que dispõem. As classes são grupos de pessoas, um dos quais pode apropriar-se do trabalho do outro graças ao fato de ocupar um lugar diferente num regime determinado de economia social.
E claro que, para suprimir por completo as classes, é preciso não só derrubar os exploradores, os latifundiários e capitalistas, não só abolir a sua propriedade, é preciso abolir ainda toda a propriedade privada dos meios de produção, é preciso suprimir tanto a diferença entre a cidade e o campo, como a diferença entre os trabalhadores manuais e intelectuais. E uma obra muito longa. Para a realizar, é necessário um gigantesco passo em frente no desenvolvimento das forças produtivas, é necessário superar a resistência (freqüentemente passiva, que é particularmente tenaz e particularmente difícil de superar) das numerosas sobrevivência da pequena produção, é preciso superar a enorme força do hábito e da rotina ligadas a estas sobrevivência.
Supor que todos os «trabalhadores» são igualmente capazes de realizar este trabalho seria uma frase vazia e uma ilusão de um socialista antediluviano, pré-marxista. Porque essa capacidade não se dá por si mesma, antes nasce historicamente e nasce apenas das condições materiais da grande produção capitalista. No principio do caminho do capitalismo para o socialismo, só o proletariado possui essa capacidade. Ele está em condições de cumprir a gigantesca missão que lhe incumbe, primeiro porque é a classe mais forte e mais avançada das sociedades civilizadas; segundo, porque nos países mais desenvolvidos constitui a maioria da população; terceiro, porque nos países capitalistas atrasados, como a Rússia, a maioria da população é composta por semiproletários, isto é, por homens que regularmente vivem uma parte do ano como proletários, que procuram regularmente a subsistência, em certa medida, no trabalho assalariado em empresas capitalistas.
Aqueles que tentam resolver os problemas da transição do capitalismo para o socialismo com generalidades sobre a liberdade, a igualdade, a democracia em geral, a igualdade da democracia do trabalho, etc. (como o fazem Kautsky, Mártov e os outros heróis da Internacional amarela de Berna), apenas revelam desta maneira a sua natureza de pequenos burgueses, de filisteus, de espíritos mesquinhos, que se arrastam servilmente atrás da burguesia no plano ideológico. Este problema só pode ser resolvido de um modo acertado por um estudo concreto das relações específicas existentes entre a classe específica que conquistou o poder político, ou seja, o proletariado, e toda a massa não proletária e também semiproletária da população trabalhadora, e estas relações não se estabelecem em condições fantasticamente harmoniosas, «ideais», mas nas condições reais de uma raivosa e multiforme resistência por parte da burguesia.
Em qualquer país capitalista, incluindo a Rússia, a imensa maioria da população — e mais ainda a imensa maioria da população trabalhadora —sentiu mil vezes sobre si e os seus familiares a opressão do capital, a sua pilhagem e toda a espécie de vexames. A guerra imperialista — isto é, o assassínio de dez milhões de homens para decidir se a primazia na pilhagem de todo o mundo devia pertencer ao capital inglês ou alemão — agudizou, ampliou e aprofundou extraordinariamente estas provações, forçando as massas a tomar consciência delas. Daí a inevitável simpatia da imensa maioria da população, particularmente da massa dos trabalhadores, pelo proletariado, pelo fato de ele, com uma audácia heróica com implacabilidade revolucionária, derrubar o jugo do capital, derrubar os exploradores, reprimir a sua resistência e, derramando o seu próprio sangue, abrir o caminho que conduz à criação duma sociedade nova, na qual não haverá lugar para os exploradores.
Por maiores e inevitáveis que sejam as hesitações pequeno-burguesas, a tendência para voltar para trás, para o lado da «ordem» burguesa, para debaixo da «asa» da burguesia, por parte das massas não proletárias e semiproletárias da população trabalhadora, elas não podem deixar de reconhecer a autoridade moral e política do proletariado, que não só derruba os exploradores e reprime a sua resistência, mas que também estabelece um vínculo social, uma disciplina social novos e mais elevados: a disciplina dos trabalhadores conscientes e unidos, que não conhecem nenhum jugo e nenhum poder além do poder da sua própria união, da sua própria vanguarda, mais consciente, audaciosa, unida, revolucionária e firme.
Para vencer, para criar e consolidar o socialismo, o proletariado tem que realizar uma tarefa dupla, ou melhor, com dois aspectos: primeiro, arrastar, com o seu heroísmo abnegado na luta revolucionária contra o capital, toda a massa de trabalhadores e explorados, arrastá-la, organizá-la, dirigi-la para o derrubamento da burguesia e o esmagamento completo de toda a resistência por parte desta; segundo, conduzir atrás de si toda a massa de trabalhadores e de explorados, assim como todas as camadas pequeno-burguesas, para a via da nova construção econômica, para a via da criação do novo vínculo social, da nova disciplina do trabalho e da nova organização do trabalho, que combina a última palavra da ciência e da técnica capitalista com a união maciça dos trabalhadores conscientes, que criam a grande produção socialista.
Esta segunda tarefa é mais difícil que a primeira, porque não pode ser realizada em caso algum pelo heroísmo de um impulso isolado, mas exige o heroísmo mais prolongado, mais perseverante, mais difícil do trabalho de massas e quotidiano. Mas esta tarefa é também mais essencial que a primeira, porque no fim de contas, a fonte mais profunda da força para as vitórias sobre a burguesia e a única garantia de solidez e inalienabilidade destas vitórias reside unicamente num modo novo e superior da produção social, na substituição da produção capitalista e pequeno-burguesa pela grande produção socialista.

* * *


Os «sábados comunistas» têm uma imensa importância histórica precisamente porque nos mostram a iniciativa consciente e voluntária dos operários no desenvolvimento da produtividade do trabalho, na passagem a uma nova disciplina do trabalho e na criação de condições socialistas na economia e na vida.
J. Jacoby, um dos poucos, ou mais exatamente um dos raríssimos democratas burgueses da Alemanha que, depois das lições de 1870-1871, não passaram para o chauvinismo nem para o nacional-liberalismo, mas para o socialismo, dizia que a fundação de uma só associação operária tinha mais importância histórica do que a batalha de Sadowa109. E tinha razão. A batalha de Sadowa decidiu qual de duas monarquias burguesas, a austríaca ou a prussiana, teria a supremacia na criação de um Estado capitalista nacional alemão. A fundação de uma associação operária representava um pequeno passo para a vitória mundial do proletariado sobre a burguesia. Do mesmo modo, nós podemos dizer que o primeiro sábado comunista, organizado em 10 de Maio de 1919 em Moscovo pelos operários ferroviários da linha férrea Moscovo-Kazán, tem mais importância histórica do que qualquer vitória de Hindenburgo ou de Foch e dos ingleses na guerra imperialista de 1914-1918. As vitórias dos imperialistas são o massacre de milhões de operários para aumentar os lucros dos milionários anglo-americanos e franceses. São a bestialidade do capitalismo agonizante, empanturrado, que apodrece em vida, O sábado comunista dos operários ferroviários da linha Moscovo-Kazán é uma das células da sociedade nova, socialista, que traz a todos os povos da terra a emancipação do jugo do capital e das guerras.
Os senhores burgueses e os seus lacaios, incluindo os mencheviques e socialistas-revolucionários, habituados a considerarem-se representantes da «opinião pública», troçam, naturalmente, das esperanças dos comunistas, chamando a estas esperanças «embondeiro num vaso de reseda» e riem-se do ínfimo número de sábados, em comparação com os inumeráveis casos de roubo, ociosidade, redução de produtividade, deterioração das matérias-primas, deterioração dos produtos, etc. Nós respondemos a esses senhores: se a intelectualidade burguesa tivesse ajudado com os seus conhecimentos os trabalhadores e não os capitalistas russos e estrangeiros para a restauração do poder, a revolução seria mais rápida e mais pacífica. Mas isso é uma utopia, pois a questão é decidida pela luta de classes, e a maioria da intelectualidade inclina-se para a burguesia. O proletariado triunfará não com a ajuda da intelectualidade, mas apesar da sua oposição (pelo menos na maior parte dos casos), afastando os intelectuais burgueses incorrigíveis, transformando, reeducando e submetendo os vacilantes, conquistando gradualmente para o seu lado um número cada vez maior deles. Regozijar-se maldosamente a propósito das dificuldades e insucessos da revolução, semear o pânico, fazer propaganda do regresso ao passado — tudo isto são armas e processos da luta de classe da intelectualidade burguesa.- Mas o proletariado não se deixará enganar com isso.
Mas se abordarmos a questão a fundo, será possível encontrar na história um único exemplo de um modo de produção novo que se tenha implantado de repente, sem uma longa série de reveses, de erros e de recaídas? Meio século depois da queda do regime de servidão, persistiam ainda na aldeia russa muitas sobrevivência da servidão. Meio século depois da abolição da escravidão dos negros na América, a situação dos negros continuava a ser, em muitos casos, de semi-escravidão. A intelectualidade burguesa, incluindo os mencheviques e socialistas-revolucionários, é fiel a si mesma servindo o capital e mantendo uma argumentação totalmente falsa: antes da revolução proletária acusavam-nos de utopismo, e depois dela exigem que eliminemos fantasticamente depressa as sobrevivências do passado!
Mas nós não somos utopistas e conhecemos o verdadeiro valor dos «argumentos» burgueses, sabemos também que as sobrevivência do passado nos costumes predominarão inevitavelmente durante um certo tempo, depois da revolução, sobre os rebentos do novo. Quando o novo acaba de nascer, tanto na natureza como na vida social, o velho permanece sempre mais forte do que ele durante um certo tempo. Os sarcasmos a propósito da debilidade dos rebentos do novo, o cepticismo barato dos intelectuais, etc., são, no fundo, processos da luta de classe da burguesia contra o proletariado, da defesa do capitalismo perante o socialismo. Devemos estudar minuciosamente os rebentos do novo, dispensar-lhes a maior atenção, ajudar por todos os meios o seu crescimento e «cuidar» desses débeis rebentos. E inevitável que alguns deles pereçam. Não se pode assegurar que precisamente os «sábados comunistas» desempenharão um papel de particular importância. Não se trata disso. Trata-se de que é preciso apoiar todos e quaisquer rebentos do novo, entre os quais a vida selecionará os mais vivazes. Se um cientista japonês, para ajudar os homens a vencer a sífilis, teve a paciência de experimentar 605 preparações antes de elaborar a 606a, que satisfaz determinadas exigências, quem quiser resolver um problema mais difícil, vencer o capitalismo, deverá ter perseverança para experimentar centenas e milhares de novos processos, métodos e meios de luta até elaborar os mais úteis.
Os «sábados comunistas» têm tanta importância porque foram iniciados não por operários que se encontram em condições excepcionalmente favoráveis, mas por operários de diversas especialidades, incluindo também operários não especializados, serventes que se encontram nas condições habituais, isto é, as mais duras. Todos conhecemos muito bem a condição fundamental da queda da produtividade do trabalho que se verifica não apenas na Rússia, mas em todo o mundo: a ruína e a miséria, a exasperação e o cansaço provocados pela guerra imperialista, as doenças e a subalimentação. Pela sua importância, esta última ocupa o primeiro lugar. A fome — eis a causa. E para suprimir a fome é necessário elevar a produtividade do trabalho tanto na agricultura como nos transportes e na indústria. Encontramo-nos, por conseguinte, perante uma espécie de círculo vicioso:
para elevar a produtividade do trabalho é preciso escapar à fome, e para escapar à fome é preciso elevar a produtividade do trabalho.
E sabido que semelhantes contradições se resolvem na prática pela ruptura deste círculo vicioso, por uma viragem no estado de espírito das massas, pela iniciativa heróica de alguns grupos, que no quadro de tal viragem desempenha freqüentemente um papel decisivo. Os serventes de Moscovo e os ferroviários de Moscovo (tendo em vista naturalmente a maioria, e não um punhado de especuladores, funcionários e outros guardas brancos) são trabalhadores que vivem em condições desesperadamente difíceis. Sofrem de subalimentação crônica, e agora, antes da nova colheita, quando a situação do abastecimento piorou em toda a parte, sofrem de verdadeira fome. E estes operários famintos, cercados pela maldosa agitação contra-revolucionária da burguesia, dos mencheviques e dos socialistas--revolucionários, organizam os «sábados comunistas», trabalham horas extraordinárias sem qualquer remuneração e conseguem um aumento enorme da produtividade do trabalho, apesar de se encontrarem cansados, atormentados e extenuados pela subalimentação. Não será isto um heroísmo grandioso? Não será o começo duma viragem de importância histórica universal?
A produtividade do trabalho é, em última análise, o mais importante, o principal para a vitória do novo regime social. O capitalismo criou uma produtividade do trabalho nunca vista sob o feudalismo. O capitalismo pode ser definitivamente vencido e será definitivamente vencido porque o socialismo cria uma nova produtividade do trabalho muitíssimo mais elevada. É uma tarefa muito difícil e muito longa, mas já começou, e isso é o principal. Se na Moscovo faminta do Verão de 1919, operários famintos, que viveram quatro duros anos de guerra imperialista, depois de ano e meio de uma guerra civil ainda mais dura, puderam iniciar esta grande obra, que desenvolvimento atingirá ela quando vencermos na guerra civil e conquistarmos a paz?
O comunismo é uma produtividade do trabalho mais elevada que a dó capitalismo, obtida voluntariamente por operários conscientes e unidos que utilizam uma técnica avançada. Os sábados comunistas têm um valor excepcional como começo efetivo do comunismo, e isto é extremamente raro, pois nos encontramos numa etapa na qual «se dão apenas os primeiros passos na transformação do capitalismo para o comunismo» (como diz, com toda a razão, o programa do nosso partido110).
O comunismo começa lá onde dos operários de base surge uma preocupação abnegada, que supera a dureza do trabalho, pelo aumento da produtividade do trabalho, pela salvaguarda de cada pud de trigo, de carvão, de ferro e de outros produtos que não se destinam pessoalmente aos que trabalham nem aos seus «próximos», mas a pessoas «alheias», isto é, a toda a sociedade no seu conjunto, a dezenas e centenas de milhões de homens, unidos primeiro num Estado socialista, e depois numa união de Repúblicas Soviéticas.
Karl Marx, em O Capital, troça da pomposidade e grandiloqüência da grande parte democrático-burguesa das liberdades e direitos do homem, de toda essa fraseologia sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade em geral, que deslumbra os pequenos burgueses e filisteus de todos os países, incluindo os vis heróis atuais da vil Internacional de Berna. Marx contrapõe a essas pomposas declarações de direitos a maneira simples, modesta, prática e corrente com que o proletariado apresenta a questão: redução da jornada de trabalho pelo Estado, eis um exemplo típico111. Toda a justeza e toda a profundidade da observação de Marx nos aparece com tanto maior clareza e evidência quanto mais se desenvolve o conteúdo da revolução proletária. As «fórmulas» do verdadeiro comunismo distinguem-se da fraseologia pomposa, artificiosa e solene dos Kautsky, dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários, bem como dos seus queridos «irmãos» de Berna, precisamente em que elas reduzem tudo às condições de trabalho. Menos palavreado acerca da «democracia do trabalho», acerca da «igualdade liberdade, fraternidade», a «soberania do povo» e outras coisas semelhantes: o operário e o camponês conscientes dos nossos dias distingue nestas frases ocas a fraude do intelectual burguês tão facilmente como qualquer pessoa com experiência da vida que, ao ver a fisionomia irrepreensivelmente cuidada e o aspecto de uma «pessoa distinta», afirma imediatamente e sem se enganar: «E de certeza um trapaceiro.»
Menos frases pomposas e mais trabalho simples, quotidiano, mais preocupação por cada pud de trigo e por cada pud de carvão! Mais preocupação porque esse pud de trigo e esse pud de carvão, indispensáveis ao operário faminto e ao camponês esfarrapado e descalço, lhes cheguem não por traficâncias, não à maneira capitalista, mas pelo trabalho consciente, voluntário, abnegadamente heróico de simples trabalhadores, como os serventes e os ferroviários da linha Moscovo-Kazán.
Todos devemos reconhecer que a cada passo, em toda a parte, e também nas nossas fileiras, se revelam vestígios da abordagem charlatanesca, intelectual burguesa, da questão da revolução. A nossa imprensa, por exemplo, não luta o suficiente contra estes restos putrefactos do apodrecido passado democrático-burguês e apoia pouco os rebentos simples, modestos, quotidianos, mas vivos, do verdadeiro comunismo.
Tomemos a situação da mulher. Nenhum partido democrático do mundo, em nenhuma das repúblicas burguesas mais avançadas, faz, neste aspecto, em dezenas de anos, nem a centésima parte daquilo que nós fizemos no primeiro ano do nosso poder. Não deixamos, no sentido literal da palavra, pedra sobre pedra das infames leis da desigualdade de direitos da mulher, das restrições ao divórcio, das ignóbeis formalidades que o rodeiam, sobre o não reconhecimento dos filhos naturais, a investigação da paternidade, etc. — leis de que subsistem em todos os países civilizados numerosos vestígios, para vergonha da burguesia e do capitalismo. Temos mil vezes razão para nos sentirmos orgulhosos do que fizemos neste domínio. Mas quanto mais limpamos o terreno da cangalhada de velhas leis e instituições burguesas, tanto mais claro se tornou para nós que isto foi apenas a limpeza do terreno para a construção, mas ainda não a própria construção.
A mulher continua a ser escrava do lar, apesar de todas as leis libertadoras, porque está oprimida, sufocada, embrutecida, humilhada pelos pequenos trabalhos domésticos, que a amarram à cozinha e aos filhos, que malbaratam a sua atividade num trabalho improdutivo, mesquinho, enervante, embrutecedor e opressivo. A verdadeira emancipação da mulher e o verdadeiro comunismo só começarão ali e onde começar a luta em massa (dirigida pelo proletariado, detentor do poder do Estado) contra esta pequena economia doméstica, ou, mais exatamente, quando começar a sua transformação em massa numa grande economia socialista.
Concedemos nós na prática suficiente atenção a esta questão, que, do ponto de vista teórico, é indiscutível para qualquer comunista? Certamente que não. Preocupamo-nos suficientemente com os rebentos do comunismo que já existem neste domínio? Uma vez mais, não e não. .As cantinas públicas, as creches e os jardins infantis — eis exemplos destes rebentos, eis meios simples, correntes, sem pompa, grandiloqüência nem solenidade, de fato capazes de emancipar a mulher, de fato capazes de minorar e suprimir a sua desigualdade em relação ao homem pelo seu papel na produção social e na vida social. Estes meios não são novos. Foram criados (como, em geral, todas as premissas materiais do socialismo) pelo grande capitalismo, mas neste eles têm sido, em primeiro lugar, uma raridade, e em segundo lugar — o que tem particular importância —, ou ‘eram empresas mercantis, com todos os piores aspectos da especulação, do lucro, do engano, da falsificação, ou então uma .«acrobacia da caridade burguesa», odiada e desprezada, com toda a razão, pelos melhores operários.
É indubitável que estas instituições são já muito mais numerosas no nosso país e começam a mudar de caráter. E indubitável que entre as operárias e camponesas há muito mais talentos organizativos do que os que nós conhecemos, pessoas que sabem organizar o trabalho prático, com a participação de um grande número de trabalhadores e de um número muito maior de consumidores, sem a abundância de frases, a futilidade, as brigas e a charlatanice sobre planos, sistemas, etc., da que «padece» a «intelectualidade», sempre demasiado presumida, ou os «comunistas» precoces. Mas não cuidamos como devíamos desses rebe4ltos do novo.
Vejamos a burguesia. Como sabe admiravelmente dar publicidade àquilo que lhe é necessário! Como exalta as empresas «modelo» (na opinião dos capitalistas) nos milhões de exemplares dos seus jornais, como sabe fazer de instituições burguesas «modelo» objeto de orgulho nacional! A nossa imprensa não se preocupa, ou quase não se preocupa, em descrever as melhores cantinas ou as melhores creches, em conseguir, com uma insistência diária, a transformação de algumas delas em instituições modelo, em fazer propaganda delas, em descrever pormenorizadamente a economia de esforço humano, as vantagens para os consumidores, a poupança de produtos, a libertação da mulher da escravidão doméstica, a melhoria das condições sanitárias que se conseguem com um exemplar trabalho comunista e que se podem alcançar, que se podem alargar a toda a sociedade, a todos os trabalhadores.
Uma produção exemplar, sábados comunistas exemplares, um cuidado e uma honestidade exemplares na obtenção e distribuição de cada pud de trigo, cantinas exemplares, a limpeza exemplar duma habitação operária, de um bairro, tudo isto deve tornar-se, dez vezes mais do que agora, objeto de atenção e cuidado tanto por parte da nossa imprensa como por parte de cada organização operária e camponesa. Tudo isto são rebentos de comunismo, e cuidar destes rebentos é uma obrigação primordial de todos nós. Por muito difícil que seja a situação do abastecimento e da produção, o avanço em toda a frente em ano e meio de poder bolchevique é indubitável: o aprovisionamento de cereais subiu de 30 milhões de puds (de 1.VIII.1917 a 1.VIII.19 18) para 100 milhões de puds (de 1.VIII.1918 a 1.V.1919); cresceu a horticultura, diminuiu a extensão dos campos não semeados, começou a melhorar o transporte ferroviário, apesar das gigantescas dificuldades com o combustível, etc. Sobre este fundo geral, e com o apoio do poder de Estado proletário, os rebentos de comunismo não estiolarão, mas crescerão e florescerão, transformando-se em comunismo pleno.

* * *

É necessário refletir sobre o significado dos “sábados comunistas” para retirar desta grande iniciativa todas as lições práticas, de grande importância, que dela decorrem.
O apoio por todos os meios a esta iniciativa é a primeira e principal lição. Começou-se a usar entre nós a palavra «comuna» com excessiva ligeireza. Qualquer empresa fundada por comunistas ou com a sua participação recebe a cada passo e imediatamente o nome de «comuna»; e com isto esquece-se freqüentemente que essa denominação tão honrosa deve ser conquistada por um trabalho prolongado e perseverante, conquistada por êxitos práticos comprovados na edificação verdadeiramente comunista.
Por isso é inteiramente justa, na minha opinião, a decisão, que amadureceu na maioria do CEC, de anular um decreto do Conselho de Comissários do Povo no que se refere à denominação «comunas de consumo»’12. Não importa que a denominação seja mais simples; a propósito, as lacunas e os defeitos das primeiras etapas do novo trabalho de organização não serão atribuídos às «comunas», mas imputados (e é justo que assim seja) aos maus comunistas. Seria muito útil eliminar do uso corrente a palavra «comuna», impedir que a primeira pessoa que aparece possa apossar-se desta palavra, ou reconhecer esta denominação unicamente às verdadeiras comunas, que demonstraram verdadeiramente na prática (e confirmaram pelo reconhecimento unânime de toda a população local) que podem e sabem organizar as coisas à maneira comunista. Primeiro demonstra a tua capacidade de trabalhar gratuitamente no interesse da sociedade, no interesse de todos os trabalhadores, a capacidade de «trabalhar à maneira revolucionária», a capacidade de elevar a produtividade do trabalho, de organizar as coisas de modo exemplar, e depois estende a mão para o honroso título de «comuna»!
Neste aspecto, os «sábados comunistas» constituem uma excepção do mais alto valor. Porque aqui os serventes e os operários ferroviários da linha Moscovo-Kazán primeiro mostraram de fato que são capazes de trabalhar como comunistas, e depois deram à sua iniciativa a denominação de «sábados comunistas». E preciso procurar e conseguir que se proceda também assim no futuro, que todos aqueles que chamem comuna à sua empresa, instituição ou obra sem o demonstrar com o trabalho duro e os êxitos práticos de um trabalho prolongado, com uma maneira exemplar e realmente comunista de organizar as coisas, sejam impiedosamente ridicularizados e cobertos de vergonha como charlatães ou fanfarrões.
A grande iniciativa dos «sábados comunistas» deve ser aproveitada também noutro sentido, a saber: para depurar o partido. Era absolutamente inevitável, nos primeiros tempos depois da revolução, quando a massa das pessoas «honestas» e de espírito pequeno-burguês estava particularmente amedrontada, quando a intelectualidade burguesa, incluindo, claro está, os mencheviques e os socialistas-revolucionários, sabotava sem excepção, como lacaios da burguesia, era absolutamente inevitável que aderissem ao partido dirigente aventureiros e outros elementos nocivos. Não houve nem pode haver nenhuma revolução sem isto. O importante é que o partido dirigente, apoiando-se na classe avançada, sã e forte, saiba depurar as suas fileiras.
Já há muito tempo que começamos o trabalho neste aspecto. É preciso continuá-lo sem desfalecimento e sem descanso. A mobilização dos comunistas para a guerra ajudou-nos: os cobardes e os canalhas fugiram do partido. Bons ventos os levem! Esta diminuição do número de membros do partido significa um enorme crescimento da sua força e peso. E preciso continuar a depuração, utilizando a iniciativa dos «sábados comunistas»: admitir no partido apenas depois de meio ano, digamos, de «prova» ou «estágio», que consistam em «trabalho à maneira revolucionária». A mesma prova deve ser exigida a todos os membros do partido que tenham entrado depois de 25 de Outubro de 1917 e que não tenham demonstrado com trabalhos ou méritos especiais a sua absoluta firmeza, lealdade e capacidade de ser comunistas.
A depuração do partido, ligada à inflexível elevação do seu grau de exigência em relação a um trabalho autenticamente comunista, melhorará o aparelho do poder de Estado e aproximará dum modo gigantesco a passagem definitiva dos camponeses para o lado do proletariado revolucionário.
Os «sábados comunistas», entre outras coisas, projetaram uma luz extraordinariamente clara sobre o caráter de classe do aparelho do poder de Estado sob a ditadura do proletariado. O CC do partido escreve uma carta acerca do «trabalho à maneira revolucionária»*. A idéia foi lançada pelo Comitê Central de um partido que conta entre 100 000 e 200 000 membros (suponho que serão os que ficarão depois duma depuração séria, pois agora são mais).
A idéia é retomada pelos operários sindicalizados. O seu número na Rússia e na Ucrânia é de 4 milhões. Eles são, na sua gigantesca maioria, favoráveis ao poder de Estado proletário, à ditadura do proletariado. 200 000 e 4 000 000 — eis a proporção das «rodas dentadas», se me é permitido expressar-me assim. Vêm a seguir dezenas de milhões de camponeses, que se dividem em três grupos principais: o semiproletariado ou camponeses pobres, o grupo mais numeroso e mais próximo do proletariado; depois o campesinato médio; por último, um grupo muito reduzido, o dos kulaques ou burguesia rural.
Enquanto subsistir a possibilidade de comerciar com o trigo e especular com a fome, o camponês continuará a ser (e isto é inevitável durante um certo período de tempo sob a ditadura do proletariado) semitrabalhador e semiespeculador. Como especulador é-nos hostil, hostil ao Estado proletário, e inclina-se para o entendimento com a burguesia e os seus fiéis lacaios, incluindo o menchevique Cher ou o socialista-revolucionário B. Tchernenkov, partidários do comércio livre dos cereais. Mas como trabalhador, o camponês é amigo do Estado proletário, é o aliado mais fiel do operário na luta contra o latifundiário e contra o capitalista. Como trabalhadores, os camponeses, na sua imensa massa de milhões de pessoas, apoiam a «máquina» de Estado, que é dirigida por cem ou duzentos mil homens da vanguarda proletária comunista e que consiste em milhões de proletários organizados.
Jamais houve no mundo um Estado mais democrático, no verdadeiro sentido da palavra, mais estreitamente ligado às massas trabalhadoras e. exploradas.
E precisamente este trabalho proletário, que os «sábados comunistas» representam e levam à prática, que traz consigo a consolidação definitiva do respeito e do amor do campesinato pelo Estado proletário. Este trabalho, e só ele, convence definitivamente o camponês de que temos razão, de que o comunismo tem razão, e faz do camponês um nosso partidário sem reservas. E isto significa: conduzirá à superação completa das dificuldades do abastecimento, à vitória completa do comunismo sobre o capitalismo na questão da produção e da distribuição de cereais, conduzirá à consolidação absoluta do comunismo.

28 de Junho de 1919.