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« S a r á t o v, 5 de Junho. Os ferroviários
comunistas, correspondendo ao apelo dos seus
camaradas de Moscovo, decidiram, numa
assembléia geral do partido, trabalhar
gratuitamente aos sábados cinco horas
extraordinárias para apoiar a economia
nacional.
* * *
Reproduzi com o máximo pormenor e inteiramente
as informações relativas aos sábados
comunistas porque observamos aqui, sem dúvida,
um dos aspectos mais importantes da edificação
comunista, ao qual a nossa imprensa dedica
insuficiente atenção e que nós todos
apreciamos ainda insuficientemente.
Menos palavreado político e maior atenção aos
fatos mais simples, mais vivos, tomados da
vida e verificados na vida, da edificação
comunista; tal é a palavra de ordem que todos
nós, os nossos escritores, agitadores,
propagandistas, organizadores, etc., devemos
repetir constantemente.
É natural e inevitável que durante os
primeiros tempos depois da revolução
proletária nos preocupe acima de tudo a tarefa
principal e fundamental: superar a resistência
da burguesia, vencer os exploradores, reprimir
as suas conspirações (como a «conspiração dos
escravistas» para entregar Petrogrado, na qual
participaram todos, desde os cem negros e os
democratas-constitucionalistas até aos
mencheviques e os
socialistas-revolucionários108). Mas, ao lado
desta tarefa, surge também inevitavelmente — e
cada vez com maior força — a tarefa mais
essencial da edificação comunista positiva, da
criação das novas relações econômicas, da nova
sociedade.
A ditadura do proletariado — como já tive
ocasião de indicar mais d~ uma vez e, entre
outras, também no meu discurso de 12 de Março
na reunião do Soviete de deputados de
Petrogrado — não é só a violência sobre os
exploradores, nem sequer é principalmente a
violência. A base econômica dessa violência
revolucionária, a garantia da sua vitalidade e
do seu êxito, está em que o proletariado
representa e realiza um tipo mais elevado de
organização social do trabalho em comparação
com o capitalismo. Isto é o essencial. Nisto
reside a fonte da força e a garantia da
vitória inevitável e completa do comunismo.
A organização feudal do trabalho social
assentava na disciplina do cacete, na
ignorância e no embrutecimento extremos dos
trabalhadores, espoliados e escarnecidos por
um punhado de latifundiários. A organização
capitalista do trabalho social assentava na
disciplina da fome, e a massa enorme dos
trabalhadores, apesar de todo o progresso da
cultura e da democracia burguesa, continuou a
ser, mesmo nas repúblicas mais avançadas, mais
civilizadas e mais democráticas, a massa
ignorante e embrutecida dos escravos
assalariados ou dos camponeses esmagados,
espoliados e escarnecidos por um punhado de
capitalistas. A organização comunista do
trabalho social, de que o socialismo constitui
o primeiro passo, assenta e assentará cada vez
mais na disciplina livre e consciente dos
próprios trabalhadores, que derrubaram o jugo
tanto dos latifundiários como dos
capitalistas.
Esta nova disciplina não cai do céu nem nasce
de votos piedosos, mas decorre das condições
materiais da grande produção capitalista, e
apenas delas. Sem elas é impossível. E o
portador ou veículo dessas condições materiais
é uma classe histórica determinada, criada,
organizada, unida, instruída, educada e
temperada pelo grande capitalismo. Essa classe
é o proletariado.
A ditadura do proletariado, se traduzirmos
esta expressão latina, científica,
histórico-filosófica, para uma linguagem mais
simples, significa o seguinte:
só uma classe determinada, a saber os
operários urbanos e em geral os operários das
fábricas, os operários industriais, está em
condições de dirigir toda a massa de
trabalhadores e explorados na luta para
derrubar o jugo do capital, no processo do
próprio derrubamento, na luta para manter e
consolidar a vitória, na obra da criação do
novo regime social, do regime socialista, em
toda a luta pela completa supressão das
classes. (Notemos entre parênteses: a
diferença científica entre o socialismo e o
comunismo consiste apenas em que a primeira
palavra designa a primeira fase da sociedade
nova que nasce do capitalismo, e a segunda
palavra designa uma fase superior e mais
avançada dessa sociedade.)
O erro da Internacional amarela «de Berna»
consiste em que os seus chefes só em palavras
reconhecem a luta de classes e o papel
dirigente do proletariado, receando levar as
suas idéias até ao fim, receando precisamente
a inevitável conclusão que causa particular
horror à burguesia e que é absolutamente
inaceitável para ela. Receiam reconhecer que a
ditadura do proletariado é também um período
de luta de classes, que é inevitável enquanto
as classes não tiverem sido suprimidas e que
muda as suas formas, tornando-se
particularmente encarniçada e particularmente
específica durante os primeiros tempos após o
derrubamento do capital. Uma vez conquistado o
poder político, o proletariado não cessa a sua
luta de classe, antes a continua até a
supressão das classes, mas naturalmente
noutras condições, sob outras formas e com
outros meios.
E que quer dizer «supressão das classes»?
Todos aqueles que se dizem socialistas
reconhecem este objetivo final do socialismo,
mas nem todos, longe disso, refletem no seu
significado. Chama-se classes a grandes grupos
de pessoas que se diferenciam entre si pelo
seu lugar num sistema de produção social
historicamente determinado, pela sua relação
(as mais das vezes fixada e formulada nas
leis) com os meios de produção, pelo seu papel
na organização social do trabalho e,
consequentemente, pelo modo de obtenção e
pelas dimensões da parte da riqueza social de
que dispõem. As classes são grupos de pessoas,
um dos quais pode apropriar-se do trabalho do
outro graças ao fato de ocupar um lugar
diferente num regime determinado de economia
social.
E claro que, para suprimir por completo as
classes, é preciso não só derrubar os
exploradores, os latifundiários e
capitalistas, não só abolir a sua propriedade,
é preciso abolir ainda toda a propriedade
privada dos meios de produção, é preciso
suprimir tanto a diferença entre a cidade e o
campo, como a diferença entre os trabalhadores
manuais e intelectuais. E uma obra muito
longa. Para a realizar, é necessário um
gigantesco passo em frente no desenvolvimento
das forças produtivas, é necessário superar a
resistência (freqüentemente passiva, que é
particularmente tenaz e particularmente
difícil de superar) das numerosas
sobrevivência da pequena produção, é preciso
superar a enorme força do hábito e da rotina
ligadas a estas sobrevivência.
Supor que todos os «trabalhadores» são
igualmente capazes de realizar este trabalho
seria uma frase vazia e uma ilusão de um
socialista antediluviano, pré-marxista. Porque
essa capacidade não se dá por si mesma, antes
nasce historicamente e nasce apenas das
condições materiais da grande produção
capitalista. No principio do caminho do
capitalismo para o socialismo, só o
proletariado possui essa capacidade. Ele está
em condições de cumprir a gigantesca missão
que lhe incumbe, primeiro porque é a classe
mais forte e mais avançada das sociedades
civilizadas; segundo, porque nos países mais
desenvolvidos constitui a maioria da
população; terceiro, porque nos países
capitalistas atrasados, como a Rússia, a
maioria da população é composta por
semiproletários, isto é, por homens que
regularmente vivem uma parte do ano como
proletários, que procuram regularmente a
subsistência, em certa medida, no trabalho
assalariado em empresas capitalistas.
Aqueles que tentam resolver os problemas da
transição do capitalismo para o socialismo com
generalidades sobre a liberdade, a igualdade,
a democracia em geral, a igualdade da
democracia do trabalho, etc. (como o fazem
Kautsky, Mártov e os outros heróis da
Internacional amarela de Berna), apenas
revelam desta maneira a sua natureza de
pequenos burgueses, de filisteus, de espíritos
mesquinhos, que se arrastam servilmente atrás
da burguesia no plano ideológico. Este
problema só pode ser resolvido de um modo
acertado por um estudo concreto das relações
específicas existentes entre a classe
específica que conquistou o poder político, ou
seja, o proletariado, e toda a massa não
proletária e também semiproletária da
população trabalhadora, e estas relações não
se estabelecem em condições fantasticamente
harmoniosas, «ideais», mas nas condições reais
de uma raivosa e multiforme resistência por
parte da burguesia.
Em qualquer país capitalista, incluindo a
Rússia, a imensa maioria da população — e mais
ainda a imensa maioria da população
trabalhadora —sentiu mil vezes sobre si e os
seus familiares a opressão do capital, a sua
pilhagem e toda a espécie de vexames. A guerra
imperialista — isto é, o assassínio de dez
milhões de homens para decidir se a primazia
na pilhagem de todo o mundo devia pertencer ao
capital inglês ou alemão — agudizou, ampliou e
aprofundou extraordinariamente estas
provações, forçando as massas a tomar
consciência delas. Daí a inevitável simpatia
da imensa maioria da população,
particularmente da massa dos trabalhadores,
pelo proletariado, pelo fato de ele, com uma
audácia heróica com implacabilidade
revolucionária, derrubar o jugo do capital,
derrubar os exploradores, reprimir a sua
resistência e, derramando o seu próprio
sangue, abrir o caminho que conduz à criação
duma sociedade nova, na qual não haverá lugar
para os exploradores.
Por maiores e inevitáveis que sejam as
hesitações pequeno-burguesas, a tendência para
voltar para trás, para o lado da «ordem»
burguesa, para debaixo da «asa» da burguesia,
por parte das massas não proletárias e
semiproletárias da população trabalhadora,
elas não podem deixar de reconhecer a
autoridade moral e política do proletariado,
que não só derruba os exploradores e reprime a
sua resistência, mas que também estabelece um
vínculo social, uma disciplina social novos e
mais elevados: a disciplina dos trabalhadores
conscientes e unidos, que não conhecem nenhum
jugo e nenhum poder além do poder da sua
própria união, da sua própria vanguarda, mais
consciente, audaciosa, unida, revolucionária e
firme.
Para vencer, para criar e consolidar o
socialismo, o proletariado tem que realizar
uma tarefa dupla, ou melhor, com dois
aspectos: primeiro, arrastar, com o seu
heroísmo abnegado na luta revolucionária
contra o capital, toda a massa de
trabalhadores e explorados, arrastá-la,
organizá-la, dirigi-la para o derrubamento da
burguesia e o esmagamento completo de toda a
resistência por parte desta; segundo, conduzir
atrás de si toda a massa de trabalhadores e de
explorados, assim como todas as camadas
pequeno-burguesas, para a via da nova
construção econômica, para a via da criação do
novo vínculo social, da nova disciplina do
trabalho e da nova organização do trabalho,
que combina a última palavra da ciência e da
técnica capitalista com a união maciça dos
trabalhadores conscientes, que criam a grande
produção socialista.
Esta segunda tarefa é mais difícil que a
primeira, porque não pode ser realizada em
caso algum pelo heroísmo de um impulso
isolado, mas exige o heroísmo mais prolongado,
mais perseverante, mais difícil do trabalho de
massas e quotidiano. Mas esta tarefa é também
mais essencial que a primeira, porque no fim
de contas, a fonte mais profunda da força para
as vitórias sobre a burguesia e a única
garantia de solidez e inalienabilidade destas
vitórias reside unicamente num modo novo e
superior da produção social, na substituição
da produção capitalista e pequeno-burguesa
pela grande produção socialista.
* * *
Os «sábados comunistas» têm uma imensa
importância histórica precisamente porque nos
mostram a iniciativa consciente e voluntária
dos operários no desenvolvimento da
produtividade do trabalho, na passagem a uma
nova disciplina do trabalho e na criação de
condições socialistas na economia e na vida.
J. Jacoby, um dos poucos, ou mais exatamente
um dos raríssimos democratas burgueses da
Alemanha que, depois das lições de 1870-1871,
não passaram para o chauvinismo nem para o
nacional-liberalismo, mas para o socialismo,
dizia que a fundação de uma só associação
operária tinha mais importância histórica do
que a batalha de Sadowa109. E tinha razão. A
batalha de Sadowa decidiu qual de duas
monarquias burguesas, a austríaca ou a
prussiana, teria a supremacia na criação de um
Estado capitalista nacional alemão. A fundação
de uma associação operária representava um
pequeno passo para a vitória mundial do
proletariado sobre a burguesia. Do mesmo modo,
nós podemos dizer que o primeiro sábado
comunista, organizado em 10 de Maio de 1919 em
Moscovo pelos operários ferroviários da linha
férrea Moscovo-Kazán, tem mais importância
histórica do que qualquer vitória de
Hindenburgo ou de Foch e dos ingleses na
guerra imperialista de 1914-1918. As vitórias
dos imperialistas são o massacre de milhões de
operários para aumentar os lucros dos
milionários anglo-americanos e franceses. São
a bestialidade do capitalismo agonizante,
empanturrado, que apodrece em vida, O sábado
comunista dos operários ferroviários da linha
Moscovo-Kazán é uma das células da sociedade
nova, socialista, que traz a todos os povos da
terra a emancipação do jugo do capital e das
guerras.
Os senhores burgueses e os seus lacaios,
incluindo os mencheviques e
socialistas-revolucionários, habituados a
considerarem-se representantes da «opinião
pública», troçam, naturalmente, das esperanças
dos comunistas, chamando a estas esperanças
«embondeiro num vaso de reseda» e riem-se do
ínfimo número de sábados, em comparação com os
inumeráveis casos de roubo, ociosidade,
redução de produtividade, deterioração das
matérias-primas, deterioração dos produtos,
etc. Nós respondemos a esses senhores: se a
intelectualidade burguesa tivesse ajudado com
os seus conhecimentos os trabalhadores e não
os capitalistas russos e estrangeiros para a
restauração do poder, a revolução seria mais
rápida e mais pacífica. Mas isso é uma utopia,
pois a questão é decidida pela luta de
classes, e a maioria da intelectualidade
inclina-se para a burguesia. O proletariado
triunfará não com a ajuda da intelectualidade,
mas apesar da sua oposição (pelo menos na
maior parte dos casos), afastando os
intelectuais burgueses incorrigíveis,
transformando, reeducando e submetendo os
vacilantes, conquistando gradualmente para o
seu lado um número cada vez maior deles.
Regozijar-se maldosamente a propósito das
dificuldades e insucessos da revolução, semear
o pânico, fazer propaganda do regresso ao
passado — tudo isto são armas e processos da
luta de classe da intelectualidade burguesa.-
Mas o proletariado não se deixará enganar com
isso.
Mas se abordarmos a questão a fundo, será
possível encontrar na história um único
exemplo de um modo de produção novo que se
tenha implantado de repente, sem uma longa
série de reveses, de erros e de recaídas? Meio
século depois da queda do regime de servidão,
persistiam ainda na aldeia russa muitas
sobrevivência da servidão. Meio século depois
da abolição da escravidão dos negros na
América, a situação dos negros continuava a
ser, em muitos casos, de semi-escravidão. A
intelectualidade burguesa, incluindo os
mencheviques e socialistas-revolucionários, é
fiel a si mesma servindo o capital e mantendo
uma argumentação totalmente falsa: antes da
revolução proletária acusavam-nos de utopismo,
e depois dela exigem que eliminemos
fantasticamente depressa as sobrevivências do
passado!
Mas nós não somos utopistas e conhecemos o
verdadeiro valor dos «argumentos» burgueses,
sabemos também que as sobrevivência do passado
nos costumes predominarão inevitavelmente
durante um certo tempo, depois da revolução,
sobre os rebentos do novo. Quando o novo acaba
de nascer, tanto na natureza como na vida
social, o velho permanece sempre mais forte do
que ele durante um certo tempo. Os sarcasmos a
propósito da debilidade dos rebentos do novo,
o cepticismo barato dos intelectuais, etc.,
são, no fundo, processos da luta de classe da
burguesia contra o proletariado, da defesa do
capitalismo perante o socialismo. Devemos
estudar minuciosamente os rebentos do novo,
dispensar-lhes a maior atenção, ajudar por
todos os meios o seu crescimento e «cuidar»
desses débeis rebentos. E inevitável que
alguns deles pereçam. Não se pode assegurar
que precisamente os «sábados comunistas»
desempenharão um papel de particular
importância. Não se trata disso. Trata-se de
que é preciso apoiar todos e quaisquer
rebentos do novo, entre os quais a vida
selecionará os mais vivazes. Se um cientista
japonês, para ajudar os homens a vencer a
sífilis, teve a paciência de experimentar 605
preparações antes de elaborar a 606a, que
satisfaz determinadas exigências, quem quiser
resolver um problema mais difícil, vencer o
capitalismo, deverá ter perseverança para
experimentar centenas e milhares de novos
processos, métodos e meios de luta até
elaborar os mais úteis.
Os «sábados comunistas» têm tanta importância
porque foram iniciados não por operários que
se encontram em condições excepcionalmente
favoráveis, mas por operários de diversas
especialidades, incluindo também operários não
especializados, serventes que se encontram nas
condições habituais, isto é, as mais duras.
Todos conhecemos muito bem a condição
fundamental da queda da produtividade do
trabalho que se verifica não apenas na Rússia,
mas em todo o mundo: a ruína e a miséria, a
exasperação e o cansaço provocados pela guerra
imperialista, as doenças e a subalimentação.
Pela sua importância, esta última ocupa o
primeiro lugar. A fome — eis a causa. E para
suprimir a fome é necessário elevar a
produtividade do trabalho tanto na agricultura
como nos transportes e na indústria.
Encontramo-nos, por conseguinte, perante uma
espécie de círculo vicioso:
para elevar a produtividade do trabalho é
preciso escapar à fome, e para escapar à fome
é preciso elevar a produtividade do trabalho.
E sabido que semelhantes contradições se
resolvem na prática pela ruptura deste círculo
vicioso, por uma viragem no estado de espírito
das massas, pela iniciativa heróica de alguns
grupos, que no quadro de tal viragem
desempenha freqüentemente um papel decisivo.
Os serventes de Moscovo e os ferroviários de
Moscovo (tendo em vista naturalmente a
maioria, e não um punhado de especuladores,
funcionários e outros guardas brancos) são
trabalhadores que vivem em condições
desesperadamente difíceis. Sofrem de
subalimentação crônica, e agora, antes da nova
colheita, quando a situação do abastecimento
piorou em toda a parte, sofrem de verdadeira
fome. E estes operários famintos, cercados
pela maldosa agitação contra-revolucionária da
burguesia, dos mencheviques e dos
socialistas--revolucionários, organizam os
«sábados comunistas», trabalham horas
extraordinárias sem qualquer remuneração e
conseguem um aumento enorme da produtividade
do trabalho, apesar de se encontrarem
cansados, atormentados e extenuados pela
subalimentação. Não será isto um heroísmo
grandioso? Não será o começo duma viragem de
importância histórica universal?
A produtividade do trabalho é, em última
análise, o mais importante, o principal para a
vitória do novo regime social. O capitalismo
criou uma produtividade do trabalho nunca
vista sob o feudalismo. O capitalismo pode ser
definitivamente vencido e será definitivamente
vencido porque o socialismo cria uma nova
produtividade do trabalho muitíssimo mais
elevada. É uma tarefa muito difícil e muito
longa, mas já começou, e isso é o principal.
Se na Moscovo faminta do Verão de 1919,
operários famintos, que viveram quatro duros
anos de guerra imperialista, depois de ano e
meio de uma guerra civil ainda mais dura,
puderam iniciar esta grande obra, que
desenvolvimento atingirá ela quando vencermos
na guerra civil e conquistarmos a paz?
O comunismo é uma produtividade do trabalho
mais elevada que a dó capitalismo, obtida
voluntariamente por operários conscientes e
unidos que utilizam uma técnica avançada. Os
sábados comunistas têm um valor excepcional
como começo efetivo do comunismo, e isto é
extremamente raro, pois nos encontramos numa
etapa na qual «se dão apenas os primeiros
passos na transformação do capitalismo para o
comunismo» (como diz, com toda a razão, o
programa do nosso partido110).
O comunismo começa lá onde dos operários de
base surge uma preocupação abnegada, que
supera a dureza do trabalho, pelo aumento da
produtividade do trabalho, pela salvaguarda de
cada pud de trigo, de carvão, de ferro e de
outros produtos que não se destinam
pessoalmente aos que trabalham nem aos seus
«próximos», mas a pessoas «alheias», isto é, a
toda a sociedade no seu conjunto, a dezenas e
centenas de milhões de homens, unidos primeiro
num Estado socialista, e depois numa união de
Repúblicas Soviéticas.
Karl Marx, em O Capital, troça da pomposidade
e grandiloqüência da grande parte
democrático-burguesa das liberdades e direitos
do homem, de toda essa fraseologia sobre a
liberdade, a igualdade e a fraternidade em
geral, que deslumbra os pequenos burgueses e
filisteus de todos os países, incluindo os vis
heróis atuais da vil Internacional de Berna.
Marx contrapõe a essas pomposas declarações de
direitos a maneira simples, modesta, prática e
corrente com que o proletariado apresenta a
questão: redução da jornada de trabalho pelo
Estado, eis um exemplo típico111. Toda a
justeza e toda a profundidade da observação de
Marx nos aparece com tanto maior clareza e
evidência quanto mais se desenvolve o conteúdo
da revolução proletária. As «fórmulas» do
verdadeiro comunismo distinguem-se da
fraseologia pomposa, artificiosa e solene dos
Kautsky, dos mencheviques e dos
socialistas-revolucionários, bem como dos seus
queridos «irmãos» de Berna, precisamente em
que elas reduzem tudo às condições de
trabalho. Menos palavreado acerca da
«democracia do trabalho», acerca da «igualdade
liberdade, fraternidade», a «soberania do
povo» e outras coisas semelhantes: o operário
e o camponês conscientes dos nossos dias
distingue nestas frases ocas a fraude do
intelectual burguês tão facilmente como
qualquer pessoa com experiência da vida que,
ao ver a fisionomia irrepreensivelmente
cuidada e o aspecto de uma «pessoa distinta»,
afirma imediatamente e sem se enganar: «E de
certeza um trapaceiro.»
Menos frases pomposas e mais trabalho simples,
quotidiano, mais preocupação por cada pud de
trigo e por cada pud de carvão! Mais
preocupação porque esse pud de trigo e esse
pud de carvão, indispensáveis ao operário
faminto e ao camponês esfarrapado e descalço,
lhes cheguem não por traficâncias, não à
maneira capitalista, mas pelo trabalho
consciente, voluntário, abnegadamente heróico
de simples trabalhadores, como os serventes e
os ferroviários da linha Moscovo-Kazán.
Todos devemos reconhecer que a cada passo, em
toda a parte, e também nas nossas fileiras, se
revelam vestígios da abordagem charlatanesca,
intelectual burguesa, da questão da revolução.
A nossa imprensa, por exemplo, não luta o
suficiente contra estes restos putrefactos do
apodrecido passado democrático-burguês e apoia
pouco os rebentos simples, modestos,
quotidianos, mas vivos, do verdadeiro
comunismo.
Tomemos a situação da mulher. Nenhum partido
democrático do mundo, em nenhuma das
repúblicas burguesas mais avançadas, faz,
neste aspecto, em dezenas de anos, nem a
centésima parte daquilo que nós fizemos no
primeiro ano do nosso poder. Não deixamos, no
sentido literal da palavra, pedra sobre pedra
das infames leis da desigualdade de direitos
da mulher, das restrições ao divórcio, das
ignóbeis formalidades que o rodeiam, sobre o
não reconhecimento dos filhos naturais, a
investigação da paternidade, etc. — leis de
que subsistem em todos os países civilizados
numerosos vestígios, para vergonha da
burguesia e do capitalismo. Temos mil vezes
razão para nos sentirmos orgulhosos do que
fizemos neste domínio. Mas quanto mais
limpamos o terreno da cangalhada de velhas
leis e instituições burguesas, tanto mais
claro se tornou para nós que isto foi apenas a
limpeza do terreno para a construção, mas
ainda não a própria construção.
A mulher continua a ser escrava do lar, apesar
de todas as leis libertadoras, porque está
oprimida, sufocada, embrutecida, humilhada
pelos pequenos trabalhos domésticos, que a
amarram à cozinha e aos filhos, que malbaratam
a sua atividade num trabalho improdutivo,
mesquinho, enervante, embrutecedor e
opressivo. A verdadeira emancipação da mulher
e o verdadeiro comunismo só começarão ali e
onde começar a luta em massa (dirigida pelo
proletariado, detentor do poder do Estado)
contra esta pequena economia doméstica, ou,
mais exatamente, quando começar a sua
transformação em massa numa grande economia
socialista.
Concedemos nós na prática suficiente atenção a
esta questão, que, do ponto de vista teórico,
é indiscutível para qualquer comunista?
Certamente que não. Preocupamo-nos
suficientemente com os rebentos do comunismo
que já existem neste domínio? Uma vez mais,
não e não. .As cantinas públicas, as creches e
os jardins infantis — eis exemplos destes
rebentos, eis meios simples, correntes, sem
pompa, grandiloqüência nem solenidade, de fato
capazes de emancipar a mulher, de fato capazes
de minorar e suprimir a sua desigualdade em
relação ao homem pelo seu papel na produção
social e na vida social. Estes meios não são
novos. Foram criados (como, em geral, todas as
premissas materiais do socialismo) pelo grande
capitalismo, mas neste eles têm sido, em
primeiro lugar, uma raridade, e em segundo
lugar — o que tem particular importância —, ou
‘eram empresas mercantis, com todos os piores
aspectos da especulação, do lucro, do engano,
da falsificação, ou então uma .«acrobacia da
caridade burguesa», odiada e desprezada, com
toda a razão, pelos melhores operários.
É indubitável que estas instituições são já
muito mais numerosas no nosso país e começam a
mudar de caráter. E indubitável que entre as
operárias e camponesas há muito mais talentos
organizativos do que os que nós conhecemos,
pessoas que sabem organizar o trabalho
prático, com a participação de um grande
número de trabalhadores e de um número muito
maior de consumidores, sem a abundância de
frases, a futilidade, as brigas e a
charlatanice sobre planos, sistemas, etc., da
que «padece» a «intelectualidade», sempre
demasiado presumida, ou os «comunistas»
precoces. Mas não cuidamos como devíamos
desses rebe4ltos do novo.
Vejamos a burguesia. Como sabe admiravelmente
dar publicidade àquilo que lhe é necessário!
Como exalta as empresas «modelo» (na opinião
dos capitalistas) nos milhões de exemplares
dos seus jornais, como sabe fazer de
instituições burguesas «modelo» objeto de
orgulho nacional! A nossa imprensa não se
preocupa, ou quase não se preocupa, em
descrever as melhores cantinas ou as melhores
creches, em conseguir, com uma insistência
diária, a transformação de algumas delas em
instituições modelo, em fazer propaganda
delas, em descrever pormenorizadamente a
economia de esforço humano, as vantagens para
os consumidores, a poupança de produtos, a
libertação da mulher da escravidão doméstica,
a melhoria das condições sanitárias que se
conseguem com um exemplar trabalho comunista e
que se podem alcançar, que se podem alargar a
toda a sociedade, a todos os trabalhadores.
Uma produção exemplar, sábados comunistas
exemplares, um cuidado e uma honestidade
exemplares na obtenção e distribuição de cada
pud de trigo, cantinas exemplares, a limpeza
exemplar duma habitação operária, de um
bairro, tudo isto deve tornar-se, dez vezes
mais do que agora, objeto de atenção e cuidado
tanto por parte da nossa imprensa como por
parte de cada organização operária e
camponesa. Tudo isto são rebentos de
comunismo, e cuidar destes rebentos é uma
obrigação primordial de todos nós. Por muito
difícil que seja a situação do abastecimento e
da produção, o avanço em toda a frente em ano
e meio de poder bolchevique é indubitável: o
aprovisionamento de cereais subiu de 30
milhões de puds (de 1.VIII.1917 a 1.VIII.19
18) para 100 milhões de puds (de 1.VIII.1918 a
1.V.1919); cresceu a horticultura, diminuiu a
extensão dos campos não semeados, começou a
melhorar o transporte ferroviário, apesar das
gigantescas dificuldades com o combustível,
etc. Sobre este fundo geral, e com o apoio do
poder de Estado proletário, os rebentos de
comunismo não estiolarão, mas crescerão e
florescerão, transformando-se em comunismo
pleno.
* * *
É necessário refletir sobre o significado dos
“sábados comunistas” para retirar desta grande
iniciativa todas as lições práticas, de grande
importância, que dela decorrem.
O apoio por todos os meios a esta iniciativa é
a primeira e principal lição. Começou-se a
usar entre nós a palavra «comuna» com
excessiva ligeireza. Qualquer empresa fundada
por comunistas ou com a sua participação
recebe a cada passo e imediatamente o nome de
«comuna»; e com isto esquece-se freqüentemente
que essa denominação tão honrosa deve ser
conquistada por um trabalho prolongado e
perseverante, conquistada por êxitos práticos
comprovados na edificação verdadeiramente
comunista.
Por isso é inteiramente justa, na minha
opinião, a decisão, que amadureceu na maioria
do CEC, de anular um decreto do Conselho de
Comissários do Povo no que se refere à
denominação «comunas de consumo»’12. Não
importa que a denominação seja mais simples; a
propósito, as lacunas e os defeitos das
primeiras etapas do novo trabalho de
organização não serão atribuídos às «comunas»,
mas imputados (e é justo que assim seja) aos
maus comunistas. Seria muito útil eliminar do
uso corrente a palavra «comuna», impedir que a
primeira pessoa que aparece possa apossar-se
desta palavra, ou reconhecer esta denominação
unicamente às verdadeiras comunas, que
demonstraram verdadeiramente na prática (e
confirmaram pelo reconhecimento unânime de
toda a população local) que podem e sabem
organizar as coisas à maneira comunista.
Primeiro demonstra a tua capacidade de
trabalhar gratuitamente no interesse da
sociedade, no interesse de todos os
trabalhadores, a capacidade de «trabalhar à
maneira revolucionária», a capacidade de
elevar a produtividade do trabalho, de
organizar as coisas de modo exemplar, e depois
estende a mão para o honroso título de
«comuna»!
Neste aspecto, os «sábados comunistas»
constituem uma excepção do mais alto valor.
Porque aqui os serventes e os operários
ferroviários da linha Moscovo-Kazán primeiro
mostraram de fato que são capazes de trabalhar
como comunistas, e depois deram à sua
iniciativa a denominação de «sábados
comunistas». E preciso procurar e conseguir
que se proceda também assim no futuro, que
todos aqueles que chamem comuna à sua empresa,
instituição ou obra sem o demonstrar com o
trabalho duro e os êxitos práticos de um
trabalho prolongado, com uma maneira exemplar
e realmente comunista de organizar as coisas,
sejam impiedosamente ridicularizados e
cobertos de vergonha como charlatães ou
fanfarrões.
A grande iniciativa dos «sábados comunistas»
deve ser aproveitada também noutro sentido, a
saber: para depurar o partido. Era
absolutamente inevitável, nos primeiros tempos
depois da revolução, quando a massa das
pessoas «honestas» e de espírito
pequeno-burguês estava particularmente
amedrontada, quando a intelectualidade
burguesa, incluindo, claro está, os
mencheviques e os socialistas-revolucionários,
sabotava sem excepção, como lacaios da
burguesia, era absolutamente inevitável que
aderissem ao partido dirigente aventureiros e
outros elementos nocivos. Não houve nem pode
haver nenhuma revolução sem isto. O importante
é que o partido dirigente, apoiando-se na
classe avançada, sã e forte, saiba depurar as
suas fileiras.
Já há muito tempo que começamos o trabalho
neste aspecto. É preciso continuá-lo sem
desfalecimento e sem descanso. A mobilização
dos comunistas para a guerra ajudou-nos: os
cobardes e os canalhas fugiram do partido.
Bons ventos os levem! Esta diminuição do
número de membros do partido significa um
enorme crescimento da sua força e peso. E
preciso continuar a depuração, utilizando a
iniciativa dos «sábados comunistas»: admitir
no partido apenas depois de meio ano, digamos,
de «prova» ou «estágio», que consistam em
«trabalho à maneira revolucionária». A mesma
prova deve ser exigida a todos os membros do
partido que tenham entrado depois de 25 de
Outubro de 1917 e que não tenham demonstrado
com trabalhos ou méritos especiais a sua
absoluta firmeza, lealdade e capacidade de ser
comunistas.
A depuração do partido, ligada à inflexível
elevação do seu grau de exigência em relação a
um trabalho autenticamente comunista,
melhorará o aparelho do poder de Estado e
aproximará dum modo gigantesco a passagem
definitiva dos camponeses para o lado do
proletariado revolucionário.
Os «sábados comunistas», entre outras coisas,
projetaram uma luz extraordinariamente clara
sobre o caráter de classe do aparelho do poder
de Estado sob a ditadura do proletariado. O CC
do partido escreve uma carta acerca do
«trabalho à maneira revolucionária»*. A idéia
foi lançada pelo Comitê Central de um partido
que conta entre 100 000 e 200 000 membros
(suponho que serão os que ficarão depois duma
depuração séria, pois agora são mais).
A idéia é retomada pelos operários
sindicalizados. O seu número na Rússia e na
Ucrânia é de 4 milhões. Eles são, na sua
gigantesca maioria, favoráveis ao poder de
Estado proletário, à ditadura do proletariado.
200 000 e 4 000 000 — eis a proporção das
«rodas dentadas», se me é permitido
expressar-me assim. Vêm a seguir dezenas de
milhões de camponeses, que se dividem em três
grupos principais: o semiproletariado ou
camponeses pobres, o grupo mais numeroso e
mais próximo do proletariado; depois o
campesinato médio; por último, um grupo muito
reduzido, o dos kulaques ou burguesia rural.
Enquanto subsistir a possibilidade de
comerciar com o trigo e especular com a fome,
o camponês continuará a ser (e isto é
inevitável durante um certo período de tempo
sob a ditadura do proletariado)
semitrabalhador e semiespeculador. Como
especulador é-nos hostil, hostil ao Estado
proletário, e inclina-se para o entendimento
com a burguesia e os seus fiéis lacaios,
incluindo o menchevique Cher ou o
socialista-revolucionário B. Tchernenkov,
partidários do comércio livre dos cereais. Mas
como trabalhador, o camponês é amigo do Estado
proletário, é o aliado mais fiel do operário
na luta contra o latifundiário e contra o
capitalista. Como trabalhadores, os
camponeses, na sua imensa massa de milhões de
pessoas, apoiam a «máquina» de Estado, que é
dirigida por cem ou duzentos mil homens da
vanguarda proletária comunista e que consiste
em milhões de proletários organizados.
Jamais houve no mundo um Estado mais
democrático, no verdadeiro sentido da palavra,
mais estreitamente ligado às massas
trabalhadoras e. exploradas.
E precisamente este trabalho proletário, que
os «sábados comunistas» representam e levam à
prática, que traz consigo a consolidação
definitiva do respeito e do amor do
campesinato pelo Estado proletário. Este
trabalho, e só ele, convence definitivamente o
camponês de que temos razão, de que o
comunismo tem razão, e faz do camponês um
nosso partidário sem reservas. E isto
significa: conduzirá à superação completa das
dificuldades do abastecimento, à vitória
completa do comunismo sobre o capitalismo na
questão da produção e da distribuição de
cereais, conduzirá à consolidação absoluta do
comunismo.
28 de Junho de 1919.
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