A II
Internacional deixou realmente de existir? Os seus
representantes mais autorizados, como Kautsky e
Vandervelde, negam-no obstinadamente. Nada
aconteceu além de uma ruptura das relações; tudo
está bem; tal é o seu ponto de vista.
A fim de esclarecer a verdade, vejamos o manifesto
do congresso de Basileia de 1912, que se refere
precisamente à atual guerra mundial imperialista e
foi adotado por todos os partidos socialistas do
mundo. Deve-se assinalar que nenhum socialista
ousará, em teoria, negar a necessidade de uma
avaliação histórica concreta de cada guerra.
Agora que a guerra eclodiu, nem os oportunistas
declarados nem os kautskistas se resolvem nem a
negar o manifesto de Basileia nem a confrontar com
as suas exigências o comportamento dos partidos
socialistas durante a guerra. Porquê? Pois porque
o manifesto os desmascara inteiramente a uns e a
outros.
Nele não há nem uma única palavrinha sobre a
defesa da pátria, nem sobre a diferença entre a
guerra ofensiva e a guerra defensiva, nem uma
palavra sobre tudo que afirmam agora aos quatro
ventos os oportunistas e os kautskistas da
Alemanha e da quádrupla Entente. O manifesto não
podia falar disso, dado que aquilo que ele diz
exclui absolutamente qualquer emprego desses
conceitos. Ele indica de maneira absolutamente
concreta uma série de conflitos econômicos e
políticos que prepararam esta guerra durante
decênios, que se tinham revelado plenamente em
1912 e provocaram a guerra de 1914. O manifesto
recorda o conflito russo-austríaco a propósito da
«hegemonia nos Balcãs», o conflito entre a
Inglaterra, a França e a Alemanha (entre todos
estes países!) a propósito da sua «política de
conquista na Ásia Menor», o conflito
austro-italiano a propósito da «aspiração ao
domínio» na Albânia, etc. O manifesto define numa
palavra todos esses conflitos como conflitos no
terreno do «imperialismo capitalista». Deste modo,
o manifesto reconhece com toda a clareza o caráter
espoliador, imperialista, reacionário, escravista
desta guerra, isto é, o caráter que transforma a
admissibilidade da defesa da pátria numa
insensatez do ponto de vista teórico e num absurdo
do ponto de vista prático. Está em curso uma luta
dos grandes tubarões para devorar «pátrias»
estrangeiras. O manifesto tira as conclusões
inevitáveis de fatos históricos indiscutíveis:
esta guerra não pode ser «justificada por qualquer
pretexto de interesse popular»; ela é preparada «a
bem dos lucros dos capitalistas e das ambições das
dinastias». Seria «um crime» se os operários
«começassem a disparar uns contra os outros».
Assim diz o manifesto.
A época do imperialismo capitalista é a época do
capitalismo maduro e mais que maduro, do
capitalismo que está em vésperas da sua derrocada,
que amadureceu o suficiente para dar lugar ao
socialismo. O período de 1789 a 1871 foi a época
do capitalismo progressista, em que na ordem do
dia da história estava o derrube do feudalismo e
do absolutismo, a libertação do jugo estrangeiro.
Nesse terreno, e só nele era admissível a «defesa
da pátria», isto é, a defesa contra a opressão.
Este conceito poderia ainda hoje ser aplicado a
uma guerra contra as grandes potências
imperialistas, mas seria absurdo aplicá-lo à
guerra entre as grandes potências imperialistas, à
guerra na qual se trata de saber quem pilhará mais
os países balcânicos, a Ásia Menor, etc. Não é por
isso de espantar que os «socialistas» que
reconhecem a «defesa da pátria» na presente guerra
evitem o manifesto de Basileia como o ladrão evita
o lugar do roubo. É que o manifesto demonstra que
eles são sociais-chauvinistas, isto é, socialistas
em palavras e chauvinistas na realidade, que
ajudam a «sua» burguesia a pilhar países
estrangeiros, a subjugar outras nações. O que é
essencial na noção de «chauvinismo» é a defesa da
«sua» pátria mesmo quando as ações desta visam
escravizar as pátrias alheias.
Do reconhecimento de uma guerra como guerra de
libertação nacional decorre uma tática, do seu
reconhecimento como guerra imperialista decorre
outra. O manifesto aponta claramente essa outra
tática. A guerra «provocará uma crise econômica e
política» que deverá ser «aproveitada»: não para
atenuar a crise, não para defender a pátria mas,
pelo contrário, para «sacudir» as massas, para
«apressar a queda do domínio do capital». Não se
pode apressar aquilo cujas condições históricas
ainda não amadureceram. O manifesto reconhecia que
a revolução social é possível, que as premissas
para ela amadureceram, que ela virá precisamente
em relação com a guerra: as «classes dominantes»
temem «a revolução proletária», declara o
manifesto, invocando o exemplo da Comuna de Paris
e da revolução de 1905 na Rússia, isto é, os
exemplos das greves de massas, da guerra civil. É
uma mentira afirmar, como faz Kautsky, que a
atitude do socialismo para com esta guerra não foi
esclarecida. Esta questão não só foi discutida
como foi decidida em Basileia, onde foi adotada a
tática da luta proletária revolucionária de
massas.
É uma revoltante hipocrisia passar em silêncio,
totalmente ou nas partes mais essenciais, o
manifesto de Basileia e em lugar dele citar
discursos de dirigentes ou resoluções de certos
partidos que, em primeiro lugar, foram proferidos
antes de Basileia, em segundo lugar não eram
decisões dos partidos de todo o mundo, em terceiro
lugar referiam-se a diferentes guerras possíveis,
mas não à presente guerra. O fundo da questão está
em que a época das guerras nacionais entre as
grandes potências européias foi substituída pela
época das guerras imperialistas entre elas e em
que o manifesto de Basileia teve pela primeira vez
de reconhecer oficialmente esse fato.
Seria um erro pensar que o manifesto de Basileia é
uma declamação oca, uma fraseologia oficial, uma
ameaça pouco séria. É assim que gostariam de
apresentar a questão aqueles que esse manifesto
desmascara. Mas isso é falso. O manifesto é apenas
o resultado de um grande trabalho de propaganda de
toda a época da II Internacional, é apenas um
resumo de tudo aquilo que os socialistas lançaram
entre as massas em centenas de milhares de
discursos, artigos e apelos em todas as línguas.
Ele apenas repete aquilo que escreveu, por
exemplo, Jules Guesde em 1899, quando fustigava o
ministerialismo dos socialistas em caso de guerra:
ele falava da guerra provocada pelos «piratas
capitalistas» (En garde!, p. 175); apenas repete
aquilo que escreveu Kautsky em 1909 em O Caminho
do Poder, onde reconhecia o fim da época
«pacifica» e o inicio de uma época de guerras e
revoluções. Apresentar o manifesto de Basileia
como fraseologia ou como um erro significa
considerar como fraseologia ou como um erro todo o
trabalho socialista nos últimos 25 anos. A
contradição entre o manifesto e a sua não
aplicação é tão intolerável para os oportunistas e
kautskistas porque ela revela a profundíssima
contradição no trabalho da II Internacional. O
caráter relativamente «pacifico» do período de
1871 a 1914 alimentou o oportunismo primeiro como
estado de espírito, depois como tendência e
finalmente como grupo ou camada da burocracia
operária e dos companheiros de jornada
pequeno-burgueses. Estes elementos só podiam
submeter o movimento operário reconhecendo em
palavras os objetivos revolucionários e a tática
revolucionária. Eles só podiam conquistar a
confiança das massas através da afirmação solene
de que todo o trabalho «pacifico» constitui apenas
uma preparação para a revolução proletária. Esta
contradição era um abcesso que alguma vez haveria
de rebentar, e rebentou. Toda a questão consiste
em saber se se deve tentar, como fazem Kautsky e
C.a, reintroduzir de novo esse pus no organismo em
nome da «unidade» (com o pus) ou se, para ajudar à
completa cura do organismo do movimento operário,
se deve, o mais depressa possível e o mais
cuidadosamente possível, livrá-lo desse pus,
apesar da temporária dor aguda causada por esse
processo.
E evidente a traição ao socialismo por parte
daqueles que votaram pelos créditos de guerra,
entraram para os ministérios e advogaram a idéia
da defesa da pátria em 1914-1915. Só os hipócritas
podem negar este fato. É necessário explicá-lo.
II
Seria absurdo encarar toda a questão como
uma questão de pessoas. Que relação tem isso com o
oportunismo se pessoas como Plekhánov e Guesde,
etc.? — interrogava Kautsky (Neue Zeit, 28 de Maio
de 1915). Que relação tem isso com o oportunismo
se Kautsky, etc.? — respondia Axelrod em nome dos
oportunistas da quádrupla Entente (Die Krise der
Sozialdemokratie , Zurique, 1915, p. 21). Tudo
isso é uma comédia. Para explicar a crise de todo
o movimento é necessário examinar, em primeiro
lugar, o significado e c o n ó m i c o desta
política, em segundo lugar as d e i a s que estão
na sua base, e em terceiro lugar a sua ligação
coma história das tendências no socialismo.
Em que consiste a essência econômica do defensismo
durante a guerra de 1914-1915? A burguesia de
todas as grandes potências trava a guerra com o
fim de partilhar e explorar o mundo, com o fim de
oprimir os povos. Um pequeno circulo da burocracia
operária, da aristocracia operária e de
companheiros de jornada pequeno-burgueses podem
receber algumas migalhas dos grandes lucros da
burguesia. A causa de classe profunda do
social-chauvinismo e do oportunismo é a mesma: a
aliança de uma pequena camada de operários
privilegiados com a «sua» burguesia nacional
contra as massas da classe operária, a aliança dos
lacaios da burguesia com esta última contra a
classe por ela explorada.
O conteúdo político do oportunismo e do
social-chauvinismo é o mesmo: a colaboração das
classes, a renúncia à ditadura do proletariado, a
renúncia às ações revolucionárias, o
reconhecimento sem reservas da legalidade
burguesa, a falta de confiança no proletariado, a
confiança na burguesia. O social-chauvinismo é a
continuação direta e o coroamento da política
operária liberal inglesa, do millerandismo e do
bernsteinianismo.
A luta entre as duas tendências fundamentais no
movimento operário, o socialismo revolucionário e
o socialismo oportunista, abrange toda a época de
1889 a 1914. E também hoje existem em todos os
países duas correntes principais quanto à questão
da atitude para com a guerra. Deixemos a maneira
burguesa e oportunista de invocar os indivíduos.
Tomemos as tendências numa série de países.
Tomaremos dez Estados europeus: Alemanha,
Inglaterra, Rússia, Itália, Holanda, Suécia,
Bulgária, Suiça, Bélgica e França. Nos primeiros
oito países a divisão em tendências oportunista e
revolucionária corresponde à divisão em
sociais-chauvinistas e internacionalistas. Na
Alemanha os pontos de apoio do social-chauvinismo
são os Sozialistische Monatshefte e Legien e C.a;
na Inglaterra os fabianos e o Partido Trabalhista
(o ILP fez sempre bloco com eles, apoiou o seu
órgão e sempre foi mais fraco nesse bloco do que
os sociais-chauvinistas, enquanto no BSP os
internacionalistas constituem três sétimos); na
Rússia essa corrente é representada pela Nacha
Zariá (agora Nache Delo), pelo Comitê de
Organização, pela fração da Duma dirigida por
Tchkheidze; na Itália pelos reformistas
encabeçados por Bissolati; na Holanda pelo partido
de Troelstra; na Suécia pela maioria do partido,
dirigida por Branting; na Bulgária pelo partido
dos «amplos» ; na Suiça por Greulich e C.ª Foi
precisamente entre os sociais-democratas
revolucionários de todos estes países que se
ergueu já um protesto mais ou menos vivo contra o
social-chauvinismo. Apenas dois países constituem
excepção: a França e a Bélgica, onde no entanto o
internacionalismo também existe, mas é muito
fraco.
O social-chauvinismo é o oportunismo acabado. Ele
amadureceu para uma aliança aberta, freqüentemente
vulgar, com a burguesia e os estados-maiores. E é
precisamente essa aliança que lhe dá uma grande
força e o monopólio da imprensa legal e da
mistificação das massas. E absurdo considerar
ainda hoje o oportunismo como um fenômeno interno
do partido. É absurdo pensar em aplicar a
resolução de Basileia em conjunto com David,
Legien, Hyndman, Plekhánov e Webb. A unidade com
os sociais-chauvinistas é a unidade com a sua
«própria» burguesia nacional, que explora outras
nações, é a cisão do proletariado internacional.
Isso não significa que a ruptura com os
oportunistas é imediatamente possível em toda a
parte, significa apenas que ela amadureceu
historicamente, que ela é necessária e inevitável
para a luta revolucionária do proletariado, que a
história, que conduziu do capitalismo «pacifico»
ao capitalismo imperialista, preparou essa
ruptura. Volentem ducunt fata, nolentem trahunt.
III
Os
representantes inteligentes da burguesia
compreenderam-no muito bem. Por isso elogiam tanto
os atuais partidos socialistas, à frente dos quais
se encontramos «defensores da pátria», isto é, os
defensores da pilhagem imperialista. E por isso
que os governos gratificam os chefes
sociais-chauvinistas ora com postos ministeriais
(em França e Inglaterra) ora com o monopólio da
existência legal sem obstáculos (na Alemanha e na
Rússia). É por isso que na Alemanha, onde o
partido social-democrata era o mais forte e onde a
sua transformação em partido operário
nacional-liberal contra-revolucionário foi mais
evidente, as coisas chegaram a tal ponto que o
ministério público vê na luta entre a «minoria» e
a «maioria» uma «incitação ao ódio de classe»! Por
isso os oportunistas inteligentes se preocupam
acima de tudo com a preservação da anterior
«unidade» dos velhos partidos, que prestaram tão
grandes serviços à burguesia em 1914-1915. Um dos
membros da social-democracia alemã, que publicou
em Abril de 1915, sob o pseudônimo de Monitor, um
artigo na revista reacionária Preussische
Jahrbucher, exprime com uma franqueza digna de
agradecimento as concepções desses oportunistas em
todos os países do mundo. Monitor considera que
para a burguesia seria muito perigoso que a
social-democracia se deslocasse ainda mais para a
direita: «Ela deve manter o caráter de partido
operário com ideais socialistas. Porque no dia em
que ela renunciar a isso, surgirá um novo partido,
que adotará o programa rejeitado pelo velho
partido anterior e lhe dará uma formulação ainda
mais radical» (Preussische Jahrbucher, 1915, n.0
4, pp. 50-5 1).
Monitor acertou em cheio. Os liberais ingleses e
os radicais franceses sempre quiseram precisamente
isso: frases de ressonância revolucionária, para
enganar as massas, para que estas tenham confiança
em Lloyd George, Sembat, Renaudel, Legien e
Kautsky, em homens capazes de pregar a «defesa da
pátria» na guerra de rapina.
Mas Monitor representa apenas uma das variedades
do oportunismo: aberta, grosseira, cínica. As
outras atuam dissimuladamente, subtilmente,
«honestamente». Engels disse uma vez: os
oportunistas «honestos» são os mais perigosos para
a classe operária... Eis um exemplo:
Kautsky escreve na Neue Zeit (de 26 de Novembro de
1915):
«Cresce a oposição contra a maioria; o espírito
das massas é de oposição.» «Depois da guerra (só
depois da guerra? N. L.) as contradições de classe
agudizar-se-ão de tal modo que o radicalismo entre
as massas se imporá.» «Depois da guerra (só depois
da guerra? N. L.) arriscamo-nos a que os elementos
radicais fujam do partido e refluam para um
partido de ações de massas antiparlamentares
(entenda-se: extraparlamentares).» «Assim, o nosso
partido decompõe-se em dois campos extremos, que
nada têm de comum entre si.» A fim de salvar a
unidade, Kautsky procura convencer a maioria no
Reichstag a autorizar a minoria a pronunciar
alguns discursos parlamentares radicais. Isto
significa que Kautsky quer, por meio de alguns
discursos parlamentares radicais, reconciliar as
massas revolucionárias com os oportunistas, que
«nada têm de comum» com a revolução, que já há
muito dirigem os sindicatos e que agora,
apoiando-se na sua estreita aliança com a
burguesia e com o governo, se apoderaram também da
direção do partido.
Em que é que isto difere, no fundo, do «programa»
de Monitor? Em nada a não ser nas frases melosas
que prostituem o marxismo.
Na reunião da fração do Reichstag de 18 de Março
de 1915, o kautskista Wurm «preveniu» a fração
para não «esticar demasiado a corda; nas massas
operárias cresce a oposição contra a maioria da
fração; é necessário manter-se no centro marxista»
(?! sem dúvida uma gralha: deve ler-se
«monitoria») (Klassenkampf gegen den Krieg!
Material zum «Fali Liebknecht». Ais Manuskript
gedruckt , p. 67). Deste modo, vemos que o fato de
que as massas são revolucionárias foi reconhecido
em nome de todos os kautskistas (o chamado
«centro») já em Março de 1915!! E oito meses e
meio mais tarde Kautsky de novo apresenta a
proposta de «reconciliar» as massas, que querem
lutar, com o partido oportunista,
contra-revolucionário, e isto com a ajuda de
algumas frases de sonoridade revolucionária!!
A guerra tem muitas vezes a utilidade de pôr a nu
a podridão e rejeitar o convencionalismo.
Comparemos os fabianos ingleses com os kautskistas
alemães. Eis o que escrevia acerca dos primeiros
um verdadeiro marxista, Friedrich Engels, em 18 de
Janeiro de 1893: «... um bando de ambiciosos que
têm entendimento suficiente para verem a
inevitabilidade do revolucionamento social, mas
para quem é, no entanto, impossível confiar este
trabalho gigantesco ao proletariado imaturo...
medo da revolução é o seu princípio
fundamental...» (Correspondência com Sorge, p.
390).
E em 11 de Novembro de 1893 escreve: ..... estes
burgueses enfatuados que querem por benevolência
condescender em libertar o proletariado de cima
para baixo, desde que este queira ser tão
inteligente para assim compreender que uma massa
bruta inculta não pode libertar-se a si própria e
não chega a nada a não ser pela benevolência
desses advogados, literatos, atemorizados e destas
comadres sentimentais...» (ibidem, p. 401).
Em teoria Kautsky olha os fabianos com desprezo,
como o fariseu o pobre publicano. Porque ele jura
pelo «marxismo». Mas qual é na prática a diferença
entre eles? Assinaram ambos o manifesto de
Basileia e atuaram ambos em relação a ele como
Guilherme II em relação à neutralidade belga.
Enquanto Marx durante toda a sua vida fustigou as
pessoas que procuram abafar o espírito
revolucionário dos operários.
Kautsky opôs aos marxistas revolucionários a nova
teoria do «ultra-imperialismo». Por
ultra-imperialismo ele entende a eliminação da
«luta dos capitais financeiros nacionais entre si»
e a sua substituição pela «exploração conjunta do
mundo pelo capital financeiro internacional» (N.
Z., 30 de Abril de 1915). Mas acrescenta: «ainda
não dispomos das premissas suficientes para
decidir se esta nova fase do capitalismo é
realizável». Assim, é com base apenas em
suposições sobre uma «nova fase», sem ousar
declarar abertamente que ela é «realizável», que o
inventor dessa «fase» rejeita as suas próprias
declarações revolucionárias, rejeita as tarefas
revolucionárias e a tática revolucionária do
proletariado agora, na "fase" da crise já
iniciada, da guerra, de uma agudização maldita das
contradições de classe! Não será isto o mais
ignóbil fabianismo?
O líder dos kautskistas russos, Axelrod, vê «o
centro de gravidade do problema da
internacionalização do movimento libertador do
proletariado na internacionalização da prática
quotidiana»: por exemplo, «a legislação sobre a
proteção do trabalho e a legislação do seguro
social devem ser objeto de ações e da organização
internacionais dos operários» (Axelrod, A Crise da
Social-Democracia, Zurique, 1915, pp. 39-40). É
perfeitamente claro que não só Legien, David, os
Webb, mas também o próprio Lloyd George, Naumann,
Briand e Miliukov aderirão inteiramente a esse
«internacionalismo». Tal como em 1912, Axelrod
está disposto, em nome de um futuro muito, muito
distante, a proferir as frases mais
revolucionárias, se a futura Internacional «atuar
(contra os governos, em caso de guerra) e levantar
uma tempestade revolucionária». Vejam lá como nós
somos corajosos! Mas quando se trata de apoiar e
desenvolver agora a efervescência revolucionária
que começa entre as massas, então Axelrod responde
que essa tática das ações revolucionárias de
massas «ainda teria alguma justificação se
estivéssemos imediatamente em vésperas de uma
revolução social, como aconteceu, por exemplo, na
Rússia, onde as manifestações estudantis de 1901
anunciavam a aproximação de batalhas decisivas
contra o absolutismo». Mas no presente momento
tudo isso é uma «utopia», «bakuninismo», etc.,
inteiramente no espírito de Kolb, David, Sudekum e
Legien.
O inefável Axelrod esquece simplesmente que em
1901 na Rússia ninguém sabia nem podia saber que a
primeira «batalha decisiva» teria lugar quatro
anos mais tarde — não esqueça: quatro anos mais
tarde — e não seria «decisiva». E no entanto só
nós, marxistas revolucionários, tínhamos razão
nessa altura: nós ridicularizámos os Kritchevski e
os Martinov, que apelavam imediatamente ao
assalto. Nós apenas aconselhávamos os operários a
expulsarem por toda a parte os oportunistas e a
apoiar, intensificar e alargar com todas as suas
forças as manifestações e outras ações
revolucionárias de massas. A situação atual na
Europa é perfeitamente análoga: seria insensato
apelar ao assalto «imediato». Mas seria vergonhoso
intitular-se social-democrata e não aconselhar os
operários a romper com os oportunistas e
consolidar, aprofundar, alargar e intensificar com
todas as suas forças o movimento revolucionário e
as manifestações que se iniciam. A revolução nunca
cai do céu já pronta, e no início da efervescência
revolucionária nunca ninguém sabe se esta
conduzirá e quando a uma revolução «verdadeira»,
«autêntica». Kautsky e Axelrod dão aos operários
conselhos velhos, gastos, contra-revolucionários.
Kautsky e Axelrod alimentam as massas com a
esperança de que a futura Internacional será já
certamente revolucionária — trata-se apenas de
presentemente proteger, encobrir e embelezar a
dominação dos elementos contra-revolucionários: os
Legien, os David, os Vandervelde, os Hyndman. Pois
não é evidente que a «unidade» com Legien e C.a
constitui o melhor meio de preparar a «futura»
Internacional revolucionária?
«A aspiração de transformar a guerra mundial em
guerra civil seria uma loucura», declara o líder
dos oportunistas alemães, David (Die
Sozialdemokratie und der Weltkrieg — A
Social-Democracia e a Guerra Mundial, 1915, p.
172), respondendo ao manifesto do Comitê Central
do nosso partido de 1 de Novembro de 1914 . Nesse
manifesto diz-se, entre outras coisas:
«Por maiores que pareçam as dificuldades dessa
transformação num ou noutro momento, os
socialistas nunca renunciarão a um trabalho
preparatório sistemático, perseverante, constante
nesse sentido, desde que a guerra se tornou um
fato.»
(Também citado por David, p. 171.) Um mês antes da
publicação do livro de David o nosso partido
publicou resoluções nas quais a «preparação
sistemática» era explicada do seguinte modo:
1. Recusa dos créditos. 2. Ruptura da paz civil.
3. Criação de organizações ilegais. 4. Apoio às
manifestações de solidariedade nas trincheiras. 5.
Apoio a todas as ações revolucionárias de massas.
David é quase tão corajoso como Axelrod: em 1912
não considerava «loucura», em caso de guerra, a
referência à Comuna de Paris.
Plekhánov, representante típico dos
sociais-chauvinistas da Entente, raciocina sobre a
tática revolucionária do mesmo modo que David.
Chama-lhe «alucinofarsa». Mas ouçamos Kolb,
oportunista confesso, que escreveu: «O resultado
da tática das pessoas que rodeiam Liebknecht seria
uma luta levada até ao ponto de ebulição no seio
da nação alemã» (Die Sozialdemokratie am
Scheidewege —A Social-Democracia na Encruzilhada,
p. 50).
Mas o que é uma luta levada até ao ponto de
ebulição, senão uma guerra civil?
Se a tática do nosso CC, que nos seus traços
fundamentais coincide com a tática da esquerda de
Zimmerwald, fosse uma «loucura», «um sonho», «uma
aventura», «bakuninismo» — como afirmaram David,
Plekhánov, Axelrod, Kautsky, etc. —, ela nunca
poderia conduzir à «luta no seio da nação», e
muito menos ser levada até ao ponto de ebulição.
As frases anarquistas em parte nenhuma do mundo
conduziram à luta no seio de uma nação. Em
contrapartida, os fatos mostram que precisamente
em 1915, em conseqüência da crise suscitada pela
guerra, cresce a efervescência revolucionária
entre as massas, crescem as greves e as
manifestações políticas na Rússia, as greves na
Itália e na Inglaterra, as marchas da fome e as
manifestações políticas na Alemanha. Não será isto
o início das ações revolucionárias de massas?
Apoio, desenvolvimento, alargamento,
intensificação das ações revolucionárias de
massas, criação de organizações ilegais, sem as
quais mesmo nos países «livres» não é possível
dizer a verdade às massas populares: eis todo o
programa prático da social-democracia nesta
guerra. Tudo o resto é mentira ou fraseologia,
sejam quais forem as teorias oportunistas ou
pacifistas com que se enfeite .
Quando nos dizem que essa «tática russa»
(expressão de David) não convém à Europa, nós
respondemos habitualmente indicando fatos. Em 30
de Outubro, em Berlim, apresentou-se na direção do
partido uma delegação de camaradas, mulheres de
Berlim, e declarou «que agora, com a existência de
um grande aparelho organizativo, é possível, muito
mais facilmente que no tempo da lei contra os
socialistas, difundir brochuras e panfletos
ilegais e realizar “reuniões não autorizadas”».
«Não nos faltam meios nem vias, mas, visivelmente,
falta a vontade» (Berner Tagwacht, 1915, n.0 271).
Será que estas más camaradas foram desviadas do
bom caminho pelos «sectários» russos, etc.? Será
que as verdadeiras massas são representadas não
por estas camaradas mas por Legien e Kautsky? Por
Legien, que no seu relatório de 27 de Janeiro de
1915 fulminava a idéia «anarquista» de criação de
organizações ilegais; por Kautsky, que se tornou a
tal ponto contra-revolucionário que em 26 de
Novembro, quatro dias antes da manifestação em
Berlim de dez mil pessoas, qualificou as
manifestações de rua como uma «aventura»!!
Basta de frases, basta de «marxismo» prostituído à
la Kautsky! Depois de 25 anos de existência da II
Internacional, depois do manifesto de Basileia, os
operários não acreditarão mais em frases. O
oportunismo mais do que amadureceu, passou
definitivamente para o campo da burguesia,
transformando-se em social-chauvinismo: ele rompeu
espiritual e politicamente com a
social-democracia. Romperá com ela também
organizativamente. Os operários reclamam já uma
imprensa «sem censura» e reuniões «não
autorizadas», isto é, organizações clandestinas
para apoiar o movimento revolucionário das massas.
Só uma tal «guerra à guerra» é uma causa
social-democrata e não uma frase. E a despeito de
todas as dificuldades, das derrotas temporárias,
dos erros, dos enganos, das, essa causa levará a
humanidade à revolução proletária vitoriosa.
Publicado em Janeiro de 1916 na revista Verbete nº
1.
Notas
Não se trata aqui da
personalidade dos partidários de Kautsky na
Alemanha, mas desse tipo internacional de falsos
marxistas que oscilam entre o oportunismo e o
radicalismo mas na realidade servem apenas de
folha de parra ao oportunismo.
Ministerialismo: o mesmo que millerandismo, tática
oportunista de participação dos socialistas em
governos burgueses reacionários. O termo surgiu em
relação com a participação em 1899 do socialista
francês Millerand no governo burguês de
Waldeck-Rousseau.
A questão do millerandismo foi discutida em 1900
no congresso de Paris da II Internacional. O
congresso aprovou uma resolução conciliatória
proposta por K. Kautsky, a qual condenava a
participação dos socialistas no governo burguês ,
mas admitia a possibilidade dessa participação em
casos “excepcionais”. Os socialistas franceses
utilizaram esta ressalva para justificar a sua
participação no governo da burguesia imperialista
no período da Primeira Guerra Mundial.
A Crise da Social-Democracia.
Bernsteinianismo: corrente oportunista na
social-democracia internacional surgida no fim do
século XIX na Alemanha e designada segundo o nome
de E. Bernstein, o mais aberto representante do
revisionismo. Bernstein pronunciava-se contra a
doutrina da revolução socialista e a ditadura do
proletariado, declarando como única tarefa do
movimento operário a luta por reformas, pela
melhoria da situação econômica dos operário no
quadro da sociedade capitalista.
Nos congressos do Partido Social Democrata Alemão
K. Kautsky criticou o bernsteinianismo, mas não
colocou decididamente a questão da
incompatibilidade da revisão do marxismo com a
permanência de fileiras nas fileiras da
social-democracia.
Socialistas “amplos”: na Bulgária o mesmo que
“Obschedeltsi” . Corrente oportunista do Partido
Social-democrata Búlgaro, que desde 1900 editou a
revista Obscho Delo. Depois da cisão do X
Congresso (1903) do Partido Social-Democrata, os
“obschedelsi” formaram o Partido Social-Democrata
Búlgaro, reformista. Durante a Primeira Guerra
Mundial os “obschedeltsi” tiveram uma posição
chauvinista.
O destino conduz aquele que consente, arrasta
aquele que resiste.
F. Engels, Para a Crítica do Projeto de Programa
Social-Democrata de 1891.
Luta de Classe contra a Guerra! Materiais para o
«Caso Liebknecht». Publicado como Manuscrito.
Em 1 de Novembro d 1914 foi publicado no jornal
Sotsial-Demokrat o manifesto do CC do POSDR A
Guerra e a Social-Democracia Russa, escrito Lenin.
O manifesto definiu o caráter da Primeira Guerra
Mundial como guerra imperialista e elaborou a
tática dos bolcheviques: transformação da guerra
imperialista em guerra civil. O manifesto condenou
o social-chauvinismo dos dirigentes da II
Internacional.
No congresso internacional de mulheres em Berna,
em Março de 1915, as representantes do CC do nosso
partido indicaram a necessidade absoluta de criar
organizações ilegais. Isto foi rejeitado. As
inglesas riram-se dessas propostas e enalteceram a
«liberdade» inglesa. Mas alguns meses mais tarde
foram recebidos jornais ingleses, como por exemplo
o Labour Leader *, com espaços em branco, e
posteriormente chegaram notícias de buscas
policiais, de confiscação de brochuras, prisões e
sentenças draconianas contra camaradas que na
Inglaterra falavam da paz e só da paz!
*The Labour Leader (O Dirigente Operário): jornal
semanal inglês, publica-se desde 1891. A partir de
1893 foi órgão do Partido Trabalhista Independente
da Inglaterra. Desde 1946 publica-se com o nome de
Socialist Leader (Dirigente Socialista).