I – Em que sentido se pode falar da
significação internacional da Revolução Russa?
Nos primeiros meses que se
seguiram à conquista do Poder político pelo
proletariado na Rússia (25-X/7-XI de 1917)
poder-se-ia acreditar que, em virtude das enormes
diferenças existentes entre a Rússia atrasada e os
países adiantados da Europa Ocidental, a revolução
proletária nesses países seria muito pouco
parecida com a nossa. Atualmente já possuímos uma
experiência internacional bastante considerável,
experiência que demonstra, com absoluta clareza,
que alguns dos aspectos fundamentais da nossa
revolução não têm apenas significação local,
particularmente nacional, russa, mas revestem-se,
também, de significação internacional, E não me
refiro à significação internacional no sentido
amplo da palavra: não são apenas alguns, mas sim
todos os aspectos fundamentais - e muitos
secundários - da nossa revolução que têm
significação internacional quanto à influência que
exercem sobre todos os países. Refiro-me ao
sentido mais estrito da palavra, isto é,
entendendo por significação internacional a sua
transcendência mundial ou a inevitabilidade
histórica de que se repita em escala universal o,
que aconteceu em nosso país, significação que deve
ser reconhecida em alguns dos aspectos -
fundamentais da nossa revolução.
Naturalmente, seria o maior dos
erros exagerar o alcance dessa verdade,
aplicando-a a outros aspectos da nossa revolução
além de alguns dos fundamentais. Também seria
errado não ter em conta que depois da vitória da
revolução proletária, mesmo que seja em apenas um
dos países adiantados, se produzirá, com toda
certeza, uma radical transformação: a Rússia, logo
depois disso, transformar-se-á não em país modelo,
e sim, de novo, em pais atrasado (do ponto de
vista “soviético” e socialista).
No momento histórico atual,
porém, trata-se exatamente de que o exemplo russo
ensina algo a todos os países, algo muito
substancial, a respeito de seu futuro próximo e
inevitável. Os operários evoluídos de todos os
países já compreenderam isso há muito tempo e,
mais que compreender, já perceberam, sentiram com
seu instinto de classe revolucionária. Daí a
“significação” internacional (no sentido estrito
da palavra) do Poder Soviético e dos fundamentos
da teoria e da tática bolcheviques. Esse fato não
foi compreendido pelos chefes “revolucionários” da
II Internacional, como Kautsky na Alemanha e Otto
Bauer e Friedrich Adler na Áustria, que, por isso,
se converteram em reacionários, em defensores do
pior dos oportunismo e da social-traição.
Assinalemos, de passagem, que o folheto anônimo
A Revolução Mundial (Weltre-revolution),
publicado em 1919 em Viena (Sozialistische
Bücherei, Heft II; Ignaz Brand*), apresenta
com particular clareza todo o processo de
desenvolvimento do pensamento e todo o conjunto de
raciocínios, ou melhor, todo esse abismo de
incompreensões, pedantismo, vilania e traição aos
interesses da classe operária, tudo isso mascarado
sob a “defesa” da idéia da “revolução mundial”.
Mas teremos de deixar para outra
ocasião o exame mais pormenorizado desse folheto.
Consignemos aqui apenas o seguinte: na época, já
bem distante, em que Kautsky era um marxista e não
um renegado, previa, ao abordar a questão como
historiador, a possibilidade do surgimento de uma
situação em que o revolucionarismo do proletariado
russo se converteria em modelo para a Europa
Ocidental. Isso foi em 1902, quando Kautsky
publicou na Iskra revolucionária o artigo
Os eslavos e a revolução, no qual dizia:
"Atualmente" (ao contrário de
1848) "pode-se acreditar que os eslavos não só se
incorporaram às fileiras dos povos
revolucionários, como, também, que o centro de
gravidade das idéias e da obra revolucionárias se
desloca, dia a dia, para os eslavos. O centro
revolucionário está se transferindo do Ocidente
para o Oriente. Na primeira metade do século XIX
encontrava-se na França e, em alguns momentos, na
Inglaterra. Em 1848, a Alemanha também se
incorporou às fileiras das nações
revolucionárias... O novo século inicia-se com
acontecimentos que sugerem a idéia de que
caminhamos para um novo deslocamento do centro
revolucionário: concretamente, de sua
transferência para a Rússia... É possível que a
Rússia, que assimilou tanta iniciativa
revolucionária do Ocidente, esteja hoje, ela
própria, pronta para servir-lhe de fonte de
energia revolucionária. O crescente movimento
revolucionário russo será, talvez, o meio mais
poderoso para eliminar esse espírito de
filisteísmo flácido e de politicagem de praticismo
mesquinho que começa a difundir-se em nossas
fileiras e ressuscitará a chama viva do anseio de
luta e a fidelidade apaixonada aos nossos grandes
ideais. Há muito tempo que a Rússia deixou de ser
para a Europa Ocidental um simples reduto da
reação e do absolutismo. O que acontece atualmente
é, talvez, exatamente o contrário. A Europa
Ocidental torna-se o reduto da reação e do
absolutismo russos... É possível que os
revolucionários russos já tivessem derrubado o
czar há muito tempo se não fossem obrigados a
lutar, ao mesmo tempo, contra o aliado deste, o
capital europeu.
Esperamos que dessa vez consigam
derrotar ambos os inimigos e que a nova “santa
aliança" desmorone, mais rapidamente que suas
predecessoras. Contudo, seja qual for o resultado
da luta atual na Rússia, o sangue e o sofrimento
dos mártires que essa luta cria, infelizmente em
demasia, não serão inúteis e sim, pelo contrário,
fecundarão os germes da revolução social em todo o
mundo civilizado, fazendo-os crescer com maior
esplendor e rapidez. Em 1848, os eslavos eram uma
terrível geada que calcinava as flores da
primavera popular. É bem possível que agora venham
a representar o papel da tormenta que romperá o
gelo da reação e trará consigo irresistivelmente,
uma nova e feliz primavera para os povos". (Karl
Kautsky, Os eslavos e a revolução, artigo
publicado na Iskra, jornal revolucionário da
social-democracia, russa, n.º 18, 10 de março de
1902).
Como Karl Kautsky escrevia bem, há
dezoito anos!
II - Uma das condições fundamentais do
êxito dos bolcheviques
Hoje, sem dúvida, quase todo mundo já compreende
que os bolcheviques; não se teriam mantido no
poder, não digo dois anos e meio, mas nem sequer
dois meses e meio, não fosse a disciplina
rigorosíssima, verdadeiramente férrea, de nosso
Partido, não fosse o total e incondicional apoio
da massa da classe operária, isto é, tudo que ela
tem de consciente, honrado, abnegado, influente e
capaz de conduzir ou trazer consigo as camadas
atrasadas.
A ditadura do proletariado é a guerra. mais
severa e implacável da nova classe contra um
inimigo mais poderoso, a burguesia, cuja
resistência está decuplicada, em virtude de sua
derrota (mesmo que em apenas um país), e cuja
potência consiste não só na força do capital
internacional, na força e na solidez das relações
internacionais da burguesia, como também na força
do costume, na força da pequena produção. Porque,
infelizmente, continua a haver no mundo a pequena
produção em grande escala, e ela cria capitalismo
e burguesia constantemente, todo dia, a toda hora,
através de um processo espontâneo e em massa. Por
tudo isso, a ditadura do proletariado é
necessária, e a vitória sobre a burguesia torna-se
impossível sem uma guerra prolongada, tenaz,
desesperada, mortal; uma guerra que exige
serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e
uma vontade única.
A experiência da ditadura proletária
triunfante na Rússia, repito, demonstrou, de modo
palpável, a quem não sabe pensar ou a quem não
teve oportunidade de refletir sobre esse problema,
que a centralização incondicional e a disciplina
mais severa do proletariado constituem uma das
condições fundamentais da vitória sobre a
burguesia.
Fala-se disso com freqüência. Mas não se
medita suficientemente sobre o que isso significa
e sobre as condições em que isso se torna
possível. Não conviria que as saudações
entusiásticas ao Poder dos Sovietes e aos
bolcheviques fossem acompanhadas, mais amiúde,
pela mais séria análise das causas que permitiram
aos bolcheviques forjar a disciplina de que
necessita o proletariado revolucionário?
0 bolchevismo existe como corrente do
pensamento político e como partido político desde
1903. Somente a história do bolchevismo em todo o
período de sua existência é capaz de explicar
satisfatoriamente as razões pelas quais ele pôde
forjar e manter, nas mais difíceis condições, a
disciplina férrea, necessária à vitória do
proletariado.
A primeira pergunta que surge é a seguinte:
como se mantém a disciplina do partido
revolucionário do proletariado? Como é ela
comprovada? Como é fortalecida? Em primeiro lugar,
pela consciência da vanguarda proletária e por sua
fidelidade à revolução, por sua firmeza, seu
espírito de sacrifício, seu heroísmo. Segundo, por
sua capacidade de ligar-se, aproximar-se e, até
certo ponto, se quiserem, de fundir-se com as mais
amplas massas trabalhadoras, antes de tudo com as
massas proletárias, mas também com as massas
trabalhadoras não proletárias. Finalmente, pela
justeza da linha política seguida por essa
vanguarda, pela justeza de sua estratégia, e de
sua tática políticas, com a condição de que as
mais amplas massas se convençam disso por
experiência própria. Sem essas condições é
impossível haver disciplina num partido
revolucionário realmente capaz de ser o partido da
classe avançada, fadada a derrubar a burguesia e a
transformar toda a sociedade. Sem essas condições,
os propósitos de implantar uma disciplina
convertem-se, inevitavelmente, em ficção, em
frases sem significado, em gestos grotescos. Mas,
por outro lado, essas condições não podem surgir
de repente. Vão se formando somente através de um
trabalho prolongado, de uma dura experiência; sua
formação é facilitada por uma acertada teoria
revolucionária que, por sua vez, não é um dogma e
só se forma de modo definitivo em estreita ligação
com a experiência prática de um movimento
verdadeiramente de massas e verdadeiramente
revolucionário.
Se o bolchevismo pode elaborar e levar à
prática com êxito, nos anos de 1917/1920, em
condições de inaudita gravidade, a mais rigorosa
centralização e uma disciplina férrea, deve-se
simplesmente a uma série de particularidades
históricas da Rússia.
De um lado, o bolchevismo surgiu em 1903
fundamentado na mais sólida base da teoria do
marxismo. E a justeza dessa teoria revolucionária
- e de nenhuma outra - foi demonstrada tanto pela
experiência internacional de todo o século XIX
como, em particular, pela experiência dos desvios,
vacilações, erros e desilusões do pensamento
revolucionário na Rússia.
No decurso de quase meio século,
aproximadamente de 1840 a 1890, o pensamento de
vanguarda na Rússia, sob o jugo do terrível
despotismo do czarismo selvagem e reacionário,
procurava avidamente uma teoria revolucionária
justa, acompanhando com zelo e atenção admiráveis
cada “última palavra” da Europa e da América nesse
terreno. A Rússia tornou sua a única teoria
revolucionária justa, o marxismo, em meio século
de torturas e sacrifícios extraordinários, de
heroísmo revolucionário nunca visto, de incrível
energia e abnegada pesquisa, de estudo, de
experimentação na prática, de desilusões, de
comprovação, de comparação com a experiência da
Europa. Graças à emigração provocada pelo
czarismo, a Rússia revolucionária da segunda
metade do século XIX contava, mais que qualquer
outro país, com enorme riqueza de relações
internacionais e excelente conhecimento de todas
as formas e teorias do movimento revolucionário
mundial.
Por outro lado, o bolchevismo, surgido
sobre essa granítica base teórica, teve uma
história prática de quinze anos (1903/1917) sem
paralelo no mundo, em virtude de sua riqueza de
experiências. Nenhum país, no decurso desses
quinze anos, passou, nem ao menos aproximadamente,
por uma experiência revolucionária tão rica, uma
rapidez e um variedade semelhantes na sucessão das
diversas formas do movimento, legal e ilegal,
pacífico e tumultuoso, clandestino e declarado, de
propaganda nos círculos e entre as massas,
parlamentar e terrorista. Em nenhum país esteve
concentrada, em tão curto espaço de tempo,
semelhante variedade de formas, de matizes, de
métodos de luta, de todas as clames da sociedade
contemporânea, luta que, além disso, em
conseqüência do atraso do país e da opressão do
jugo czarista, amadurecia com singular rapidez e
assimilava com particular: sofreguidão e
eficiência a “última palavra” da experiência
política americana e européia.
III - As principais etapas da
história do bolchevismo
Anos de preparação da revolução
(1903/1905). Prenúncio de grande tempestade em
toda parte, fermentação e preparativos em todas as
classes. No estrangeiro, a imprensa dos emigrados
expõe teoricamente todas as questões essenciais da
revolução. Com uma luta encarniçada de concepções
programáticas e táticas, os representantes das
três classes fundamentais, das três correntes
políticas principais - a liberal-burguesa, a
democrático-pequeno-burguesa (encoberta pelos
rótulos de social-democrática” e
“social-revolucionária”) é a proletária
revolucionária - prenunciam e preparam a futura
luta aberta de classes. Todas as questões que
motivaram a luta armada das massas em 1905/1907 e
em 1917/1920 podem (e devem) ser encontradas, em
forma embrionária, na imprensa daquela época.
Naturalmente, entre essas três tendências
principais existem todas as formações
intermediárias, transitórias, híbridas que se
queira. Em termos mais exatos: na luta entre os
órgãos da imprensa, os partidos, as frações e os
grupos vão se cristalizando as tendências
ideológicas e políticas com caráter realmente de
classe; cada uma das classes forja para si uma
arma ideológica e política para as batalhas
futuras.
Anos de revolução (1905/1907).
Todas as classes agem abertamente. Todas as
concepções, programáticas e táticas são
comprovadas através da ação das massas. Luta
grevista sem precedentes no mundo inteiro por sua
amplitude e dureza. Transformação da greve
econômica em greve política e da greve política em
insurreição. Comprovação prática das relações
existentes entre o proletariado dirigente e os
camponeses dirigidos, vacilantes e instáveis.
Nascimento, no processo espontâneo da luta, da
forma soviética de organização. As discussões de
então sobre o papel dos Soviets são uma
antecipação da grande luta de 1917/1920. A
sucessão das formas de luta parlamentares e não
parlamentares, da tática de boicote do parlamento
e de participação no mesmo, e das formas legais e
ilegais de luta,, assim como suas relações
recíprocas e as ligações existentes entre elas,
distinguem-se por uma assombrosa riqueza de
conteúdo. Do ponto de vista do aprendizado dos
fundamentos da ciência política pelas massas e os
chefes, pelas massas e os partidos - cada mês
desse período eqüivale a um ano de desenvolvimento
“pacifico” e “constitucional”. Sem o “ensaio
geral” de 1905, a vitória da Revolução de Outubro
de 1917 teria sido impossível.
Anos de reação (1907/1910). 0
czarismo triunfou. Foram esmagados todos os
partidos revolucionários e de posição. Desânimo,
desmoralização, cisões, dispersão, deserções,
pornografia em vez de política. Fortalecimento da
tendência para o idealismo filosófico, misticismo
como disfarce de um estado de espírito
contra-revolucionário. Todavia, ao mesmo tempo,
justamente essa grande derrota dá aos partidos
revolucionários e à classe revolucionária uma
verdadeira lição extremamente proveitosa, uma
lição de dialética histórica, de compreensão, de
destreza e arte na direção da luta política. Os
amigos se manifestam na desgraça. Os exércitos
derrotados passam por uma boa escola.
0 czarismo vitorioso vê-se obrigado
a destruir apressadamente os remanescentes do
regime pré-burgues e patriarcal na Rússia. O
desenvolvimento burguês do país progride com
notável rapidez. As ilusões à margem e acima das
classes, as ilusões sobre a possibilidade de
evitar o capitalismo se dissipam. A luta de
classes manifesta-se de modo absolutamente novo e
com maior relevo.
Os partidos revolucionários têm de
completar sua instrução. Aprenderam a desencadear
a ofensiva. Agora têm que compreender que essa
ciência deve ser completada pela de saber recuar
ordenadamente. É preciso compreender - e a classe
revolucionária aprende a compreendé-la através de
sua própria e amarga experiência - que não se pode
triunfar sem saber atacar e empreender a retirada
com ordem. De todos os partidos revolucionários e
de oposição derrotados, foram os bolcheviques que
recuaram com maior ordem, com menores perdas para
seu “exército”, conservando melhor seu núcleo
central, com cisões menos profundas e
irreparáveis, menos desmoralização e com maior
capacidade para reiniciar a ação de modo mais
amplo, justo e vigoroso. E se os bolcheviques
conseguiram tal resultado foi exclusivamente
porque desmascararam impiedosamente e expulsaram
os revolucionários de boca, obstinados em não
compreender que é necessário recuar, que é preciso
saber recuar, que é obrigatório aprender a atuar
legalmente nos mais reacionários parlamentos e nas
organizações sindicais, cooperativas, nas
organizações de socorros mútuos e outras
semelhantes, por mais reacionárias que sejam.
Anos de ascenso (1910/1914). A
principio, o ascenso foi de uma lentidão incrível;
em seguida, depois dos acontecimentos do Lena2.
em 1912, verificou-se com rapidez um pouco maior.
Vencendo dificuldade3 inauditas, os bolcheviques
eliminaram os mencheviques, cujo papel como
agentes da burguesia no movimento operário foi
admiravelmente compreendido depois de 1905 por
toda a burguesia e aos quais, por isso mesmo, ela
apoiava de mil maneiras contra os bolcheviques.
Estes nunca teriam conseguido eliminar os
mencheviques, caso não houvessem aplicado uma
tática justa, combinando o trabalho ilegal com a
utilização obrigatória das “possibilidades
legais”. Na mais reacionária das Dumas, os
bolcheviques conquistaram toda a bancada operária.
Primeira guerra imperialista
mundial (1914/1917). 0 parlamentarismo legal, com
um “parlamento” ultra-reacionário, presta os mais
úteis serviços ao partido do proletariado
revolucionário, aos bolcheviques. Os deputados
bolcheviques são deportados para a Sibéria. Na
imprensa dos emigrados encontram entre nós sua
mais plena expressão todos os matizes das
concepções do social-imperialismo, do
social-chovinismo, do social--patriotismo, do
internacionalismo inconseqüente e do conseqüente,
do pacifismo e, da negação revolucionária das
ilusões pacifistas. Os imbecis sabichões e as
velhas comadres da II Internacional, que franziam
o cenho com desdém e arrogância ante a abundância
de “frações” no socialismo russo e ante a luta
encarniçada que havia entre elas, foram incapazes,
quando a guerra suprimiu em todos os países
adiantados a tão alardeada “legalidade” de
organizar, ainda que apenas aproximadamente, um
intercâmbio livre (ilegal) de idéias e uma
elaboração livre (ilegal) de concepções justas,
como os revolucionários russos organizaram na
Suíça e em outros países. Precisamente por isso,
tanto os social-patriotas declarados como os
“kautskistas” de todos os países revelaram-se os
piores traidores do proletariado. E se o
bolchevismo foi capaz de triunfar em 1917/1920,
uma das causas fundamentais dessa vitória consiste
em que desmascarou impiedosamente, já desde fins
de 1914, a vileza, a infâmia e a abjeção do
social-chovinismo e do “kautskismo” (ao qual
correspondem o longuetismo3 na França,
as idéias dos chefes do Partido Trabalhista
Independente4 e dos fabianos5
na Inglaterra, de Turati na, Itália, etc.) e em
que as massas foram se convencendo cada vez mais,
por experiência própria, de que as concepções dos
bolcheviques eram justas.
Segunda revolução russa
(fevereiro-outubro de 1917). 0 incrível grau de
decrepitude e caducidade do czarismo criou contra
ele (com ajuda dos reveses e sofrimentos de uma
guerra infinitamente penosa) uma tremenda força
destruidora. Em poucos dias, a Rússia converteu-se
numa república burguesa democrática mais livre
(nas condições da guerra) que qualquer outro país.
Os chefes dos partidos de oposição e
revolucionários começaram a formar o governo, como
nas repúblicas do mais “puro parlamentarismo”,
pois o título de chefe de partido de oposição no
parlamento, mesmo no mais reacionário jamais
havido, sempre facilitou o papel ulterior desse
chefe na revolução Em poucas semanas, os
mencheviques e os “social-revolucionários”
assimilaram com perfeição todos os maneirismos, e
posições, argumentos o sofismas dos heróis
europeus da II Internacional, dos ministerialistas
e de toda a corja oportunista Tudo que hoje lemos
sobre os Scheidemann e os Noske, Kautsky e
Hilferding, Renner e Austerlitz, Otto Bauer e
Fritz Adler, Turati e Longuet, sobre os fabianos e
os chefes do Partido Trabalhista Independente da
Inglaterra nos parece (e é, na realidade) uma
repetição monótona de um assunto antigo e
conhecido. A História os ludibriou, obrigando os
oportunistas de um país atrasado a se manifestarem
antes dos oportunistas de uma série de países
adiantados.
Se todos os heróis da II
Internacional fracassaram e se cobriram de
opróbrio na questão do papel e da importância dos
Soviets e do Poder Soviético; se eles se cobriram
de ignominia com singular “brilhantismo” e se os
chefes dos três grandes partidos que se separaram
agora da II Internacional (Partido
Social-Democrata Independente da Alemanha6,
Partido Longuetista da França e Partido
Trabalhista Indepedente da Inglaterra) se
confundiram nossa questão; se todos eles se
tornaram escravos dos preconceitos da democracia
pequeno-burguesa (exatamente da mesma maneira que
os pequeno-burgueses de 1848, que se chamavam
“social-democratas”), também é verdade que já
vimos tudo isso no exemplo dos mencheviques. A
História fez esse gracejo: os Soviets surgiram na
Rússia em 1905, foram falsificados em
fevereiro-outubro de 1917 pelos mencheviques - que
fracassaram por não haver compreendido o papel e a
importância dos Soviets --- e hoje surgiu no mundo
inteiro a idéia do Poder Soviético, idéia que se
difunde com inusitada rapidez entre o proletariado
de todos os países. Enquanto isso, os antigos
heróis da II Internacional fracassam em toda
parte, por não terem sabido compreender, do mesmo
modo que os nossos mencheviques, o papel e a
importância dos Soviets. A experiência demonstrou
que, em algumas questões essenciais da revolução
proletária, todos os países passarão,
inevitavelmente, por onde a Rússia passou.
Contrariamente às opiniões que não
raro se expendem agora na Europa e na América, os
bolcheviques começaram com muita prudência e não
prepararam de modo algum com facilidade a sua
vitoriosa luta contra a república burguesa
parlamentar (de fato) e contra os mencheviques. No
início do período citado, não conclamamos à
derrubada do governo, e sim explicamos a
impossibilidade de fazê-lo sem modificar
previamente a composição e o estado de espírito
dos Soviets. Não declaramos o boicote ao
parlamento burguês, mas, pelo contrário, dissemos
- e a partir da Conferência de nosso Partido,
celebrada em abril de 1917, passamos a dizê-lo
oficialmente em nome do Partido - que uma
república burguesa com uma Constituinte era
preferível à mesma república sem Constituinte, mas
que a república “operária-camponesa” soviética é
melhor que qualquer república
democrático-burguesa, parlamentar. Sem essa
preparação prudente, minuciosa, sensata e
prolongada não teríamos podido alcançar nem manter
a vit6ria; de Outubro de 1917.
IV - Quais foram os inimigos que o
bolchevismo enfrentou, dentro do movimento operário,
para poder crescer, fortalecer-se e temperar-se?
Em primeiro lugar, e acima de tudo, na luta
contra o oportunismo que, em 1914, transformou-se
definitivamente em social -chovinismo e se
bandeou, de uma vez por todas, para o lado da
burguesia, contra o proletariado. Esse era,
naturalmente, o principal inimigo do bolchevismo
dentro do movimento operário, e continua sendo, em
escala mundial. O bolchevismo prestou e presta a
esse inimigo a maior atenção. Esse aspecto da
atividade dos bolcheviques já é muito bem
conhecido no estrangeiro.
Quanto a outro inimigo do bolchevismo no
movimento operário, a coisa já é bem diferente.
Pouco se sabe, no estrangeiro, que o bolchevismo
cresceu, formou-se e temperou-se, durante muitos
anos, na luta contra o revolucionarismo
pequeno-burguês, parecido com o anarquismo, ou que
adquiriu dele alguma coisa, afastando-se, em tudo
que é essencial, das condições e exigências de uma
conseqüente luta de classes do proletariado. Para
os marxistas está plenamente provado do ponto de
vista teórico - e a experiência de todas as
revoluções e movimentos revolucionários da Europa
confirmam-no totalmente - que o pequeno
proprietário, o pequeno patrão (tipo social muito
difundido em vários países europeus e que tem
caráter de massas), que, muitas vezes sofre sob o
capitalismo uma pressão contínua e, amiúde, uma
agravação terrivelmente brusca e rápida de suas
precárias condições de vida, não sendo difícil
arruinar-se, passa-se facilmente para uma posição
ultra-revolucionária, mas é incapaz de manifestar
serenidade, espírito de organização, disciplina e
firmeza. O pequeno-burguês “enfurecido” pelos
horrores do capitalismo é, como o anarquismo, um
fenômeno social comum a todos os países
capitalistas.
São por demais conhecidas a inconstância e
a esterilidade dessas veleidades revolucionárias,
assim como a facilidade com que se transformam
rapidamente em submissão, apatia, fantasias, e
mesmo num entusiasmo “furioso” por essa ou aquela
tendência burguesa “em moda”. Contudo, o
reconhecimento teórico, abstrato, de tais verdades
não é suficiente, de modo algum, para proteger um
partido revolucionário dos antigos erros, que
sempre acontecem por motivos inesperados, com
ligeira variação de forma, com aparência ou
contorno nunca vistos, anteriormente, numa
situação original (mais ou menos original).
0 anarquismo foi, muitas vezes, uma espécie
de expiação dos pecados oportunistas do movimento
operário. Essas duas anomalias completavam-se
reciprocamente. Se o anarquismo exerceu na Rússia
uma influência relativamente insignificante nas
duas revoluções (1905 e 1917) e durante sua
preparação, não obstante a população
pequeno-burguesa ser aqui mais numerosa que nos
países europeus, isso se deve, em parte, sem
dúvida, ao bolchevismo, que sempre lutou impiedosa
e inconciliavelmente contra o oportunismo. Digo
“em parte” porque o que mais contribuiu para
debilitar o anarquismo na Rússia foi a
possibilidade que teve no passado (década de 70 do
século XIX) de alcançar um desenvolvimento
extraordinário e revelar profundamente seu caráter
falso e sua incapacidade de servir como teoria
dirigente da classe revolucionária.
Ao surgir em 1903, o bolchevismo herdou a
tradição de luta implacável contra o
revolucionarismo pequeno-burguês, semi-anarquista
(ou capaz de “namoricar” o anarquismo), tradição
que sempre existira na social-democracia
revolucionária e que se consolidou particularmente
em nosso país em 1900/1903, quando foram
assentadas as bases do partido de massas do
proletariado revolucionário da Rússia. O
bolchevismo fez sua e continuou a luta contra o
partido que mais fielmente representava as
tendências do revolucionarismo pequeno-burguês
(isto é, o partido dos “socialistas
revolucionários”) em três pontos principais. Em
primeiro lugar, esse partido, que repudiava o
marxismo, obstinava-se em não querer compreender
(talvez fosse mais justo dizer que não podia.
compreender) a necessidade de levar em conta, com
estrita objetividade, as forças de classe e suas
relações mútuas antes de empreender qualquer ação
política. Em segundo lugar, esse partido via um
sinal particular de seu “revolucionarismo” ou de
seu “esquerdismo” no reconhecimento do terror
individual, dos atentados, que nós, marxistas,
rejeitávamos categoricamente. É claro que
condenávamos o terror individual exclusivamente
por conveniência; as pessoas capazes de condenar
“por princípio” o terror da grande revolução
francesa ou, de modo geral, o terror de um partido
revolucionário vitorioso, assediado pela burguesia
do mundo inteiro, já foram fustigadas e
ridicularizadas por Plekhanov em 1900/1903, quando
este era marxista e revolucionário. Em terceiro
lugar, ser “esquerdista” consistia, para os
social-revolucionários, em rir dos pecados
oportunistas, relativamente leves, da
social-democracia alemã, ao mesmo tempo que
imitavam os ultra-oportunistas desse mesmo
partido, em questões como a agrária ou a da
ditadura do proletariado.
A História, diga-se de passagem, confirmou
hoje, em grande escala, em escala
histórico-mundial, a opinião que sempre
defendemos, isto é: que a social-democracia
revolucionária alemã (devemos levar em conta que,
já em 1900/1903, Plekhanov reclamava a expulsão de
Bernstein do partido e que os bolcheviques,
mantendo sempre essa tradição, desmascaravam em
1913 toda a vilania, a baixeza e a traição de
Legien) estava mais próxima que ninguém do partido
de que o proletariado revolucionário necessitava
para triunfar. Agora, em 1920, depois de todos os
rompimentos e crises ignominiosos da época da
guerra e dos primeiros anos que a sucederam, vê-se
com clareza que, de todos os partidos ocidentais,
a social-democracia revolucionária alemã é,
exatamente, a que deu os melhores chefes e que
mais rapidamente se recuperou, corrigiu e
fortaleceu. Isso também se verifica no partido dos
espartaquistas7 e na ala esquerda, proletária, do
“Partido Social-Democrata Independente da
Alemanha”, que mantém uma luta firme contra o
oportunismo e a falta de caráter dos Kautsky,
Hilferding, Ledebour e Crispien. Se dermos agora
uma olhada num período histórico completamente
encerrado, que vai da Comuna de Paris à primeira
República Socialista Soviética, veremos
delinear-se com relevo absolutamente definido e
indiscutível a posição do marxismo diante do
anarquismo. Afinal de contas, o marxismo
demonstrou ter razão. E se os anarquistas
assinalavam com justeza o caráter oportunista das
concepções sobre o Estado que imperavam na maioria
dos partidos socialistas, é preciso observar, em
primeiro lugar, que esse caráter oportunista
provinha de uma deformação e até mesmo de uma
ocultação consciente das idéias de Marx a respeito
do Estado (em meu livro 0 Estado e a Revolução
registrei que Bebel manteve no fundo de uma gaveta
durante 36 anos, de 1875 a 1911, a carta em que
Engels denunciava com singular realce, vigor,
franqueza e clareza o oportunismo das concepções
social-democratas em voga sobre o Estado); e, em
segundo lugar, que a retificação dessas idéias
oportunistas e o reconhecimento do Poder Soviético
e de sua superioridade sobre a democracia
parlamentar burguesa partiram com maior amplitude
e rapidez precisamente das tendências mais
marxistas existentes no selo dos partidos
socialistas da Europa e da América.
Houve dois momentos em que luta do
bolchevismo contra os desvios “esquerdistas” de
seu próprio partido adquiriu dimensões
particularmente consideráveis: em 1908, em torno
da participação num “parlamento” ultra-reacionário
e nas associações operárias legais, regidas pelas
leis mais reacionárias, e em 1918 (paz de Brest),
em torno da admissibilidade desse ou daquele
“compromisso”.
Em 1908, os bolcheviques “de esquerda”
foram expulsos de nosso partido, em virtude de seu
empenho em não querer compreender a necessidade de
participar num “parlamento” ultra-reacionário. Os
“esquerdistas”, entre os quais havia muitos
excelentes revolucionários que depois foram (e
continuam sendo) honrosamente membros do Partido
Comunista, apoiavam-se, principalmente, na feliz
experiência do boicote de 1905. Quando o czar
anunciou, em agosto de 1905, a convocação de um
“parlamento” consultivo, os bolcheviques, contra
todos os partidos da oposição e contra os
mencheviques, declararam o boicote a esse
parlamento, que foi liqüidado, com efeito, pela
revolução de outubro de 1905. Naquela ocasião, o
boicote foi justo, não porque seja certo
abster-se, de modo geral, de participar nos
parlamentos reacionários, mas porque foi levada em
conta, acertadamente, a situação objetiva, que
levava à rápida transformação das greves de massas
em greve política e, sucessivamente, em greve
revolucionária e em insurreição. Além disso, o
motivo da luta era, nessa época, saber se se devia
deixar nas mãos do czar a convocação da primeira
instituição representativa, ou se se devia tentar
arrancá-la das mãos das antigas autoridades. Como
não havia, nem podia haver, a plena certeza de que
a situação objetiva era semelhante e que seu
desenvolvimento havia de realizar-se no mesmo
sentido e com igual rapidez, o boicote deixava de
ser justo.
O boicote dos bolcheviques ao “parlamento”
em 1905, enriqueceu o proletariado revolucionário
com uma experiência política extraordinariamente
preciosa, mostrando que, na combinação das formas
de luta legais e ilegais, parlamentares e
extraparlamentares, é, às vezes, conveniente e até
obrigatório saber renunciar às formas
parlamentares. Mas transportar cegamente, por
simples imitação, sem espírito critico, essa
experiência a outras condições, a outra situação,
é o maior dos erros. O que já constituíra um erro,
embora pequeno e facilmente corrigível *, foi o
boicote dos bolcheviques à “Duma” em 1906. Os
boicotes de 1907, 1908 e dos anos seguintes foram
erros muito mais sérios e dificilmente reparáveis,
pois, de um lado, não era acertado esperar que a
onda revolucionária se reerguesse com muita
rapidez e se transformasse em insurreição e, por
outro lado, o conjunto da situação histórica
originada pela renovação da monarquia burguesa
impunha a necessidade de combinar-se o trabalho
legal com o ilegal. Hoje, quando se considera
retrospectivamente esse período histórico já
encerrado por completo, cuja ligação com os
períodos posteriores já se manifestou plenamente,
compreende-se com extrema clareza que os
bolcheviques não teriam podido conservar (já não
digo consolidar, desenvolver e fortalecer) o
núcleo sólido do partido revolucionário do
proletariado durante os anos 1908/1914, se não
houvessem defendido, na mais árdua luta, a
combinação obrigatória das formas legais com as
ilegais, a participação obrigató