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As
modernas ciências naturais, as únicas que
alcançaram um desenvolvimento científico,
sistemático e completo, em contraste com as
geniais intuições filosóficas que os antigos
aventuravam acerca da natureza, e com as descobertas
dos árabes, muito importantes mas esporádicas
e que se perderam, na maioria dos casos, sem
oferecer o menor resultado positivo; as modernas
ciências naturais, como quase toda a história,
datam da grande época que nós, os alemães,
chamamos Reforma - segundo a desgraça nacional
que então nos acontecera -, os franceses chamam
Renaissance e os italianos Cinquecento1, embora
nenhuma dessas denominações reflita com toda
plenitude o seu conteúdo. Essa é a época que
se inicia com a segunda metade do século XV.
O Poder real, apoiando-se nos habitantes das
cidades, derrubou o poderio da nobreza feudal
e estabeleceu grandes monarquias, baseadas
essencialmente no princípio nacional e em
cujo selo se desenvolveram as nações européias
modernas e a moderna sociedade burguesa. Enquanto
os moradores das cidades e os nobres achavam-se
ainda enredados em sua luta, a guerra camponesa
na Alemanha apontou profeticamente as futuras
batalhas de classe: não só saíram à arena
os camponeses sublevados - isso nada constituía
de novo -, mas atrás deles apareceram os antecessores
do proletariado moderno, desfraldando a bandeira
vermelha e tendo nos lábios a reivindicação
da propriedade comum sobre os bens. Nos manuscritos
salvos na queda de Bisâncio, nas antigas estátuas
escavadas nas ruínas de Roma, um novo mundo
- a Grécia antiga - se ofereceu aos olhos
atônitos do Ocidente. Os espectros da Idade
Média desvaneceram-se diante daquelas formas
luminosas; na Itália verificou-se um inusitado
florescimento, da arte, que veio a ser como
um reflexo da antigüidade clássica e que jamais
voltou a repetir-se. Na Itália, na França
e na Alemanha nasceu uma literatura nova,
a primeira literatura moderna. Pouco depois
chegaram as épocas clássicas da literatura
na Inglaterra e na Espanha. Romperam-se os
limites do velho "orbis terrarum"2; só então
foi descoberto o mundo, no sentido próprio
da palavra, e se assentaram as bases para
o subseqüente comércio mundial e para a passagem
do artesanato à manufatura, que por sua vez
serviu de ponto de partida à grande indústria
moderna. Foi abatida a ditadura espiritual
da Igreja; a maioria dos povos germânicos
pôs por terra o seu jugo e abraçou a religião
protestante, enquanto que entre os povos românicos
lançava raízes cada vez mais profundas e abria
caminho para o materialismo do século XVIII
uma serena liberdade de pensamento, herdada
dos árabes e alimentada pela filosofia grega,
de novo descoberta. Foi essa a maior revolução
progressista que a humanidade conhecera até
então; foi uma época que exigia gigantes e
que forjou gigantes pela força do pensamento,
pela paixão e o caráter, pela universalidade
e a erudição. Dos homens que lançaram as bases
do atual domínio da burguesia poderá dizer-se
o que se quiser, mas de modo nenhum que tenham
pecado de limitação burguesa. Pelo contrário:
todos eles se achavam dominados, em maior
ou menor medida, pelo espírito de aventuras
inerentes A época. Quase não havia nem um
só grande homem que não houvesse realizado
longas viagens, não falasse quatro ou cinco
idiomas e não brilhasse em vários domínios
da ciência e da técnica. Leonardo da Vinci
não só foi um grande pintor, mas um exímio
matemático, mecânico e engenheiro, ao qual
devemos importantes descobertas nos mais diferentes
ramos da física. Alberto Durero foi pintor,
gravador, escultor, arquiteto e, além disso
idealizou um sistema de fortificação que encerrava
pensamentos muito tempo depois desenvolvidos
por Mantelembert e pela moderna ciência alemã
da fortificação. Maquiavel foi homem de Estado,
historiador, poeta, além de ter sido o primeiro
escritor militar digno de menção dos tempos
modernos. Lutero não só limpou os estábulos
de Augias da Igreja, como também os do idioma
alemão, foi o pai da prosa alemã contemporânea
e compôs a letra e a música do hino triunfal
que chegou a ser a Marselhesa do século XVI.
Os heróis daqueles tempos ainda não eram escravos
da divisão do trabalho, cuja influência comunica
à atividade dos homem, como podemos observá-lo
em muitos de seus sucessores, um caráter limitado
e unilateral. O que mais caracteriza os referidos
heróis é que quase todos eles viviam plenamente
os interesses de seu tempo, participavam de
maneira ativa na luta política, aderiam a
um ou outro partido e lutavam, uns com a palavra
e a pena, outros com a espada, e outros com
ambas as coisas ao mesmo tempo. Daí a plenitude
o a força de caráter que fazem deles homens
de uma só peça. Os sábios de gabinete eram
nessa época uma exceção: eram homens de segunda
ou terceira linha, ou prudentes filisteus
que não desejam sujar os dedos. Também as
ciências naturais desenvolviam-se então em
meio à revolução geral o eram profundamente
revolucionárias, pois deviam conquistar ainda
o direito à existência. Ao lado dos grandes
italianos que deram nascimento à nova filosofia,
as ciências naturais ofereceram os seus mártires
às fogueiras e aos cárceres da Inquisição.
É de notar que os protestantes superaram os
católicos nas perseguições contra a investigação
livre da natureza. Servet foi queimado, por
ordem de Calvino quando se achava às portas
da descoberta da circulação do sangue, sendo
mantido vivo por duas horas na fogueira; a
Inquisição, pelo menos, deu-se por satisfeita
queimando simplesmente Giordano Bruno. O ato
revolucionário com que as ciências naturais
declararam sua independência e pareceram repetir
a ação de Lutero quando este queimou a bula
do papa, foi a publicação da obra imortal
em que Copérnico, se bem que timidamente e,
por assim dizer, em seu leito de morte, vibrou
o guante contra a autoridade da Igreja nas
questões acerca da natureza. Data de então
a emancipação das ciências naturais relativamente
à teologia, embora a luta por alguns protestos
recíprocos se prolongue até os nossos dias
e, em certas consciências, está muito longe
ainda de ter terminado. Mas a partir daí operou-se,
a passos agigantados, o desenvolvimento da
ciência, e pode-se dizer que esse desenvolvimento
se intensificou proporcionalmente ao quadrado
da distância (no tempo) que o separa de seu
ponto de partida. Era como se fosse necessário
demonstrar ao mundo que a partir de então
regia para o produto supremo da matéria orgânica
- o espírito humano - uma lei do movimento
inversa à lei do movimento que vigorava para
a matéria inorgânica. A tarefa principal no
primeiro período das ciências naturais, período
que acabava de começar, consistia em dominar
o material que se tinha à mão. Na maior parte
dos ramos tornou-se necessário começar pelo
mais elementar. Todo o legado da antigüidade
resumia-se em Euclídes e o sistema solar de
Ptolomeu, e o legado dos árabes à numeração
decimal, os rudimentos da álgebra, os numerais
modernos e a alquimia; a Idade Média cristã
nada havia deixado. Em tal situação era inevitável
que ocupassem o primeiro posto as ciências
naturais mais elementares: a mecânica dos
corpos terrestres e celestes e, ao mesmo tempo,
e como seu auxiliar, a descoberta e o aperfeiçoamento
dos métodos matemáticos. Grandes realizações
foram conseguidas nesse domínio. Em fins desse
período, caracterizado por Newton e Linneu,
vemos que esses ramos da ciência atingiram
certo auge. No fundamental, foram estabelecidos
os métodos matemáticos mais importantes: a
geometria analítica, principalmente por Descartes,
os logaritmos, por Neper, e as cálculos, diferencial
e integral, por Leibniz e, talvez, por Newton.
O mesmo pode ser dito quanto à mecânica dos
corpos sólidos, cujas leis principais foram
encontradas de uma vez e para sempre. Finalmente,
na astronomia do sistema solar, Kepler descobriu
as leis do movimento planetário, e Newton
as formulou do ponto de vista das leis gerais
do movimento da matéria. Os demais ramos das
ciências naturais estavam muito longe de haver
alcançado sequer esse apogeu preliminar. A
mecânica dos corpos líquidos e gasosos só
foi elaborado com maior amplitude em fins
do período indicado. (Torricelli em conexão
com a regulação das torrentes dos Alpes 3).
A física propriamente dita achava-se ainda
em cueiros, com exceção da ótica, que conseguiu
realizações extraordinárias, impulsionada
pelas necessidades práticas da astronomia.
A química acabava de libertar-se da alquimia
graças à teoria do flogisto4. A geologia ainda
não havia saldo do estado embrionário representado
pela mineralogia, e por isso a paleontologia
não podia existir. Finalmente, no domínio
da biologia a preocupação fundamental era
a acumulação e a classificação elementar de
um imenso acervo de dados não só botânicos
e zoológicos, mais também anatômicos e fisiológicos
no sentido verdadeiro da palavra. Quase não
se podia falar ainda da comparação das diferentes
formas de vida nem do estudo de sua distribuição
geográfica, condições climatológicas e demais
condições de existência. Aqui, unicamente
a botânica e a zoologia, graças a Linneu,
alcançaram uma estruturação relativamente
acabada. Mas o que sobretudo caracteriza esse
período é a elaboração de uma peculiar concepção
do mundo, na qual o ponto de vista mais importante
é a idéia da imutabilidade absoluta da natureza.
Segundo essa idéia, a natureza, independentemente
da forma em que houvesse nascido, uma vez
presente permanecia sempre imutável, enquanto
existisse. Os planetas e seus satélites, uma
vez postos em movimento pelo misterioso "impulso
inicial", seguiam eternamente, ou pelo menos
até o fim de todas as coisas, suas elipses
prescritas. As, estrelas permaneciam eternamente
fixas e imóveis em seus lugares, mantendo-se
neles umas às outras em virtude da "gravitação
universal". A Terra permanecia imutável desde
o seu surgimento ou - segundo o ponto de vista
- desde a sua criação. As "cinco partes do
mundo" existiram sempre, e sempre tiveram
as mesmas montanhas, vales e rios, o mesmo
clima, a mesma flora e a mesma fatia, com
exceção do que fora mudado ou transplantado
pelo homem. As espécies vegetais e animais
foram estabelecidas de uma vez para sempre
ao aparecer, cada indivíduo sempre produzia
outros iguais a ele, e Linneu fazia já uma
grande concessão ao admitir que em alguns
lugares, graças ao cruzamento, podiam ter
surgido novas espécies. Em oposição à história
da humanidade, que se desenvolvia no tempo,
atribuía-se à história natural unicamente
o desenvolvimento no espaço. Negava-se toda
transformação, todo desenvolvimento na natureza.
As ciências naturais, tão revolucionárias
a princípio, viram-se frente a uma natureza
conservadora até à medula, na qual tudo continuava
sendo como fora no início e na qual tudo devia
continuar, até o fim do mundo ou eternamente,
tal qual fora desde o princípio mesmo das
coisas. As ciências naturais da primeira metade
do século XVIII achavam-se tão acima da antigüidade
grega quanto ao volume dos seus conhecimentos
e mesmo quanto à sistematização dos dados,
como abaixo no que se referia à sua interpretação,
à concepção geral da natureza. Para os filósofos
gregos o mundo era, em essência, algo surgido
do caos, algo que se desenvolvera, que havia
chegado a ser. Para todos os naturalistas
do período que estamos estudando o mundo era
algo ossificado, imutável, e para a maioria
deles algo criado subitarnente. A ciência
achava-se ainda profundamente imersa na teologia.
Em toda parte procurava e encontrava como
causa primária um impulso exterior, que não
se devia à própria natureza. Se a atração,
que Newton chamava pomposamente gravitação
universal, é concebida como uma propriedade
essencial da matéria, de onde provém a incompreensível
força tangencial que deu origem às órbitas
dos planetas? Como surgiram as inumeráveis
espécies vegetais e animais? E como, em particular,
surgiu o homem, a respeito do qual se está
de acordo em que não existe eternamente? Ao
responder a tais perguntas as ciências naturais
limitavam-se, freqüentemente, a apresentar
o criador como responsável por tudo. No começo
desse período Copérnico expulsou da ciência
a teologia; Newton encerra essa época com
o postulado do impulso divino inicial. A Idéia
geral mais elevada alcançada pelas ciências
naturais do período considerado é a da congruência
da ordem estabelecida na natureza, a teleologia,
vulgar de Wolff, segundo a qual os gatos,
foram criados para devorar os ratos, os ratos
para ser devorados pelos gatos e toda a natureza
para demonstrar a sabedoria do criador. Devem
ser assinalados dois grandes méritos da filosofia
da época que, apesar da limitação das ciências
naturais contemporâneas, não se desorientou
e - começando por Spinoza e acabando pelos
grandes materialistas franceses - esforçou-se
tenazmente para explicar o mundo partindo
do próprio mundo e deixando a justificação
detalhada dessa idéia para as ciências naturais
do futuro. Incluo também nesse período os
materialistas do século XVIII, porque não
dispunham de outros dados das ciências naturais
além dos que foram descritos acima. A obra
de Xant, que posteriormente faria época, não
foi por eles conhecida, e Laplace apareceu
muito depois deles. Não esqueçamos que embora
os progressos da ciência abrissem numerosas
brechas nessa caduca concepção da natureza,
toda a primeira metade do século XIX se encontrou,
apesar de tudo, sob a sua influência; em essência,
ainda hoje ela continua a ser ensinada em
todas as escolas5. A primeira brecha nessa
concepção fossilizada da natureza não foi
aberta por um naturalista, mas por um filósofo.
Em 1755 apareceu a História Natural do Mundo
e Teoria do Céu, de Kant. A questão do impulso
inicial foi eliminada; a Terra e todo o sistema
solar surgiram como algo que se desenvolve
no transcurso do tempo. Se a maioria esmagadora
dos naturalistas não tivesse em relação ao
pensamento a aversão que Newton exprimiu na
advertência "Física, guarda-te da metafísica!",
a genial descoberta de Kant lhes teria permitido
fazer deduções que poriam fim ao seu interminável
extravio por sinuosos despenhadeiros e poupado
o tempo e o esforço dissipados copiosamente
ao seguir falsas direções, uma vez que a descoberta
de Kant era o ponto de partida para todo progresso
ulterior. Se a Terra era alguma coisa que
havia chegado a ser, alguma coisa que também
havia chegado a ser era o seu estado geológico,
geográfico e climático, assim como suas plantas
e seus animais; a Terra não só devia ter sua
história de coexistência no espaço, mas também
de sucessão no tempo. Se as ciências naturais
houvessem continuado sem tardança e de maneira
resoluta as investigações nesse rumo, estariam
hoje muito mais adiantadas. Mas, que podia
dar de bom a filosofia? A obra de Kant não
proporcionou resultados imediatos senão muitos
anos depois, quando Laplace e Herschel desenvolveram
o seu conteúdo e a fundamentaram mais detalhadamente,
preparando assim, gradualmente, a admissão
da "hipótese das nebulosas"'. Descobertas
posteriores deram, por fim, vitória a essa
teoria. As mais importantes entre essas descobertas
foram: a do movimento próprio das estrelas
fixas, a demonstração de que no espaço cósmico
existe um meio resistente e a prova, fornecida
pela análise espectroscópica, da identidade
química da matéria cósmica e a existência
- suposta por Kant - de massas nebulosas incandescentes.
[A influência retardadora das marés na rotação
da Terra, também suposta por Kant, sã agora
foi compreendida]. Contudo, pode-se pôr em
dúvida que a maioria dos naturalistas tenha
adquirido logo consciência da contradição
entre a idéia de uma Terra sujeita a transformações
e a teoria da imutabilidade dos organismos
que nela se encontram, se a nascente concepção
de que a Terra não existe simplesmente, mas
se encontra em processo de devenir e de mudança
não fosse apoiada por outro lado. Nasceu a
geologia e não só descobriu estratos geológicos
formados uns depois de outros e situados uns
sobre os outros, mas a presença neles de carcassas,
de esqueletos de animais extintos e de troncos,
folhas e frutos de plantas que hoje já não
existem. Impunha-se reconhecer que não só
a Terra, em seu conjunto, tinha sua história
no tempo, mas que também a tinham a sua superfície
e os animais e plantas nela existentes. A
princípio isso não era reconhecido de bom
grado. A teoria de Cuvier acerca dos cataclismos
da Terra era revolucionária de palavra o reacionária
de fato. Substituía um ato único de criação
divina por uma série de atos de criação, fazendo
do milagre a força motriz principal da natureza.
Lyell foi o primeiro a introduzir o senso
comum na geologia, substituindo as revoluções
repentinas, disfarce do criador, pelo efeito
gradual de uma lenta transformação da Terra7.
A teoria de Lyell era mais incompatível com
a admissão da constância das espécies orgânicas
do que todas as teorias anteriores. A idéia
da transformação gradual da crosta terrestre
e das condições de vida nela existentes levava
de modo direto à teoria da transformação gradual
dos organismos e de sua adaptação ao meio
em transformação, levava à teoria da variabilidade
das espécies. Contudo, a tradição é uma força
poderosa, não só na Igreja Católica, mas também
na ciências naturais. Durante longos anos
o próprio Lyéll não surpreendeu essa contradição,
muito menos os seus discípulos. Isso foi resultado
da divisão de trabalho que predominava então
nas ciências naturais, em virtude da qual
cada pesquisador se limitava, mais ou menos,
A sua especialidade, sendo pouquíssimos os
que não perderam a capacidade de abarcar o
todo com o seu olhar. Enquanto isso, a física
fizera enormes progressos, cujos resultados
foram resumidos quase simultaneamente por
três pessoas em 1842, ano que marcou época
no setor das ciências naturais8. Mayer, em
Heilbronn, e Joule, em Manchester, demonstraram
a transformação do calor em força, mecânica
e da força mecânica em calor. A determinação
do equivalente mecânico em calor pôs fim a
todas as dúvidas a respeito. Enquanto isso,
Grove, que não era um naturalista, mas um
advogado inglês, demonstrava, mediante uma
simples elaboração dos resultados isolados
já obtidos pela física, que todas as chamadas
forças físicas - a força mecânica, o calor,
a luz, a eletricidade, o magnetismo e inclusive
a chamada energia química - transformavam-se
umas em outras em determinadas condições,
sem que se produzisse a menor perda de energia.
Grove provou assim, uma vez mais, com suas
investigações no domínio da física, o princípio
formulado por Descartes ao afirmar que a quantidade
de movimento existente no mundo é sempre a
mesma. Graças a essa descoberta, as diferentes
forças físicas, essas "espécies" constantes,
por assim dizer, da física, diferenciaram-se
em variadas formas do movimento da matéria,
que se transformavam umas em outras de acordo
com leis determinadas. Desterrou-se da ciência
a casualidade da existência de tal ou qual
quantidade de forças físicas, mas ficaram
demonstradas suas interconexões e transições.
A física, como antes a astronomia, chegou
a um resultado que indicava necessariamente
o ciclo eterno da matéria em movimento como
a última conclusão da ciência. O desenvolvimento
maravilhosamente rápido da química a partir
de Lavolsier, e sobretudo a partir de Dalton,
atacou por outro flanco as velhas concepções
da natureza. A obtenção, por meios inorgânicos,
de compostos que até então só haviam sido
produzidos nos organismos vivos, demonstrou
que as leis da química tinham a mesma validez
tanto para os corpos orgânicos como os inorgânicos
e superou em grande parte o pretenso abismo
entre a natureza inorgânica e a orgânica,
abismo que Kant considerava insuperável pelos
séculos dos séculos. Finalmente, também na
esfera das pesquisas biológicas as viagens
e expedições científicas organizadas de modo
sistemático a partir de meados do século passado,
o estudo mais meticuloso das colônias européias
em todas as partes do mundo pelos especialistas
que ali vivem e, ademais, as realizações da
paleontologia, a anatomia e a fisiologia em
geral, sobretudo desde que começou a ser sistematicamente
usado o microscópio e se descobriu a célula;
tudo isso acumulou tal quantidade de dados
que se tornou possível - e necessária - a
aplicação do método comparativo [embriologia].
De um lado, a geografia física comparada permitiu
determinar as condições em que vivem as diferentes
floras e faunas; de outro lado, foram comparados
diferentes organismos, uns com os outros,
segundo seus órgãos homólogos, e por certo
não só no estado de maturidade, mas em todas
as fases de seu desenvolvimento. E quanto
mais profunda e exata era essa pesquisa, tanto
mais se esfumava o rígido sistema que supunha
a natureza orgânica imutável e fixa. Não só
se iam tornando mais difusas, as fronteiras
entre as diferentes espécies vegetais e animais,
como foram descobertos animais, como o anfioxo9
e o lepidosirena10, que pareciam burlar de
toda a classificação existente até então [Ceratodus11.
Ditto archeopteryx12, etc); finalmente, foram
encontrados organismos dos quais nem sequer
se pode dizer se pertencem ao mundo animal
ou ao vegetal. As lacunas nos anais da paleontologia
iam sendo preenchidas uma após outra, o que
forçava os mais obstinados ao reconhecimento
do assombroso paralelismo existente entre
a história do desenvolvimento do mundo orgânico
em seu conjunto e a história do desenvolvimento
de cada organismo em separado: o fio de Ariadne
que devia indicar a saída do labirinto no
qual a botânica e a zoologia pareciam cada
vez mais perdidas. Observe-se que quase ao
mesmo tempo em que Kant; atacava a doutrina
da eternidade do sistema solar, C. F. Wolff
desencadeava, em 1759, o primeiro ataque contra
a teoria da constância das espécies e proclamava
a teoria da evolução. Mas o que apenas antecipara
brilhantemente tomou uma forma concreta nas
mãos de Oken, Lemarck e Baer e foi vitoriosamente
implantado na ciência por Darwin, em 1859,
exatamente cem anos depois. Quase ao mesmo
tempo ficou estabelecido que o protoplasma
e a célula, considerados até então como os
únicos constituintes morfológicos de todos
os organismos, eram também, formas orgânicas
inferiores com existência independente. Todas
essas realizações reduziram ao mínimo o abismo
entre a natureza inorgânica e a orgânica e
eliminaram um dos principais obstáculos que
se erguiam ante a teoria da evolução dos organismos.
A nova concepção da natureza achava-se já
traçada em seus aspectos fundamentais: dissolveu-se
toda rigidez, tudo o que era inerte adquiriu
movimento, toda particularidade considerada
como eterna passou a ser passageira, e ficou
demonstrado que a natureza move-se num fluxo
eterno e cíclico. *** E assim voltamos à concepção
que os grandes fundadores da filosofia grega
tinham do mundo - a concepção de que toda
a natureza, desde suas mais ínfimas partículas
aos corpos mais gigantescos, desde o grão
de areia até o Sol, desde o protísta até o
homem, acha-se em estado perene de nascimento
e morte, em fluxo constante, sujeito a incessantes
transformações e movimentos. Com a única diferença
essencial de que o que fora para os gregos
uma intuição genial é, em nosso caso, o resultado
de uma rigorosa investigação científica baseada
na experiência e que tem, por isso, uma forma
mais definitiva e mais clara. É certo que
a prova empírica desse movimento cíclico não
está isenta de lacunas, mas, estas, insignificantes
em comparação com o que já se conseguiu estabelecer
firmemente, são menores cada ano. Além do
mais, como pode ser essa prova isenta de lacunas
em alguns detalhes se levarmos em conta que
os ramos mais importantes do saber - a astronomia
transplanetáría, a química, a. geologia -
contam apenas um século, que a fisiologia
comparada existo apenas há cinqüenta anos
e que a forma básica do quase todo desenvolvimento
vital, a cédula, foi descoberta há menos de
quarenta anos? *** Os inumeráveis sóis e sistemas
solares de nossa ilha cósmica, limitada pelos
anéis siderais extremos da Via Láctea, desenvolveram-se
graças à contração e esfriamento de nebulosas
Incandescentes, sujeitas a um movimento em
torvelinho cujas leis talvez sejam descobertas
depois que vários séculos de observações nos
proporcionarem uma idéia clara do movimento
próprio das estrelas. Evidentemente, esse
movimento não se operou em toda parte com
a mesma celeridade. A astronomia é cada vez
mais obrigada a reconhecer que, além dos planetas,
existe em nosso sistema sideral corpos opacos,
sóis extintos (Mädler); por outro lado (segundo
Secchi), uma parte das manchas nebulares gasosas
pertence a nosso sistema estelar como sóis
ainda não formados, o que não exclui a possibilidade
de que outras nebulosas, como afirma Mädler,
sejam distantes ilhas cósmicas independentes,
cujo estádio relativo de desenvolvimento deve
ser estabelecido pelo espectroscópio. Laplace
demonstrou, minuciosamente e com mestria até
hoje não superada, como um sistema solar se
desenvolve a partir de uma massa nebular independente;
conquistas posteriores da ciência vieram provar,
cada vez com maior força, que ele tinha razão.
Nos corpos Independentes formados dessa maneira
- tanto nos sóis como nos planetas e seus
satélites - prevaleceu a princípio a forma
de movimento da matéria que chamamos calor.
Não se pode falar de compostos de elementos
químicos nem sequer à temperatura que tem
atualmente o Sol; observações posteriores
sobre o Sol demonstraram-nos até que ponto
o calor se transforma em eletricidade ou em
magnetismo; já se acha quase provado que os
movimentos mecânicos que se operam no Sol
são devidos exclusivamente ao conflito entre
o calor e a gravidade. Os corpos desprendidos
das nebulosas esfriam-se mais rapidamente
quanto menores são. Primeiro esfriam-se os
satélites, os asteróides e os meteoritos,
do mesmo modo que a nossa Lua há muito se
esfriou. Nos planetas esse processo opera-se
mais lentamente, e no astro central com maior
lentidão ainda. Paralelamente ao esfriamento
progressivo começa a manifestar-se com força
crescente a interação das formas físicas de
movimento que se transformam umas em outras,
até que, por fim, se chega a um ponto em que
a afinidade química começa a deixar-se sentir,
em que os elementos químicos antes indiferentes
se diferenciam quimicamente, adquirem propriedades
químicas e se combinam uns com os outros.
Essas combinações alteram-se continuamente
com a diminuição da temperatura - que influi
de um modo diferente já não só em cada elemento,
mas em cada combinação de elementos -; mudam
com a conseqüente passagem de uma parte da
matéria gasosa primeiro ao estado líquido,
depois ao estado sólido e com as novas condições
assim criadas. O período em que o planeta
adquire sua crosta sólida e aparecem acumulações
de água em sua superfície coincide com o período
em que a importância do seu calor intrínseco
diminui mais e mais em comparação com o que
recebe do astro central. Sua atmosfera converte-se
em palco de fenômenos meteorológicos no sentido
que damos hoje a esta palavra, e sua superfície
em palco de mudanças geológicas, nas quais
os depósitos resultantes das precipitações
atmosféricas vão ganhando cada vez maior preponderância
sobre os efeitos, lentamente decrescentes,
do fluído incandescente que constituísse um
núcleo interior. Finalmente, quando a temperatura
desceu até tal ponto - pelo menos em uma parte
importante da superfície que já não ultrapassa
os limites em que a albumina é capaz de viver,
forma-se, desde que se dêem outras condições
químicas favoráveis, o protoplasma vivo. Hoje,
ainda não sabemos que condições são essas,
o que não pode causar estranheza, já que até
agora não se conseguiu estabelecer a fórmula
química da albumina, nem sequer conhecemos
quantos albuminóides existem, e só há uns
dez anos sabemos que a albumina completamente
desprovida de estrutura cumpre todas as funções
essenciais da vida: a digestão, a excreção,
o movimento, a contração, a reação aos estímulos
e a reprodução. Transcorreram seguramente
milhares de anos antes que se dessem as condições
para o seguinte passo adiante, e da albumina
informe surgisse a primeira célula, graças
à formação do núcleo e da membrana. Mas com
a primeira célula obteve-se a base para o
desenvolvimento morfológico de todo o mundo
orgânico; o que primeiro se desenvolveu, segundo
podemos coligir levando em conta os dados
fornecidos pelos - arquivos de paleontologia,
foram inúmeras espécies de protistas acelulares
e celulares - delas só chegou até nós o Eozoon
canadense13 - que foram diferenciando-se até
formar as primeiras plantas e os primeiros
animais. E dos primeiros animais desenvolveram-se
essencialmente graças à diferenciação, incontáveis
classes, ordens, famílias, gêneros e espécies,
até chegar aos vertebrados e, finalmente,
entre estes, à forma na qual o sistema nervoso
alcança seu mais pleno desenvolvimento e em
que a natureza adquire consciência de si mesma
na pessoa do homem. Também o homem surge em
virtude da diferenciação, e não só como indivíduo
- desenvolvendo-se a partir de um simples
óvulo até formar o organismo mais complexo
produzido pela natureza - mas também no sentido
histórico. Quando, depois de uma luta de milênios,
a mão por fim se diferenciou dos pés e se
chegou à atitude ereta, o homem tornou-se
diferente do macaco e ficou assentada a base
para o desenvolvimento da linguagem articulada
e para o poderoso desenvolvimento do cérebro,
que desde então abriu um abismo infranqueável
entre o homem e o macaco. A especialização
da mão implica o aparecimento da ferramenta,
e esta implica atividade especificamente humana,
a ação reciproca transformadora do homem sobre
a natureza, a produção. Também os animais
têm ferramentas no sentido mais estreito da
palavra, mas só como membros de seu corpo:
a formiga, a abelha, o castor; os animais
também produzem, mas o efeito de sua produção
sobre a natureza que os rodeia é igual a zero
em relação a esta última. Unicamente o homem
conseguiu imprimir seu selo à natureza, e
não só transportando plantas e animais de
um lugar para outro, mas inclusive modificando
o aspecto e o clima do lugar em que mora,
modificando as próprias plantas e os animais
a tal ponto que os resultados de sua atividade
só podem desaparecer. com a extinção geral
do globo terrestre. E isso foi conseguido
pelo homem valendo-se, antes de tudo e sobretudo,
da mão. Até a máquina a vapor, que é hoje
sua ferramenta mais poderosa para a transformação
da natureza, depende, no final das contas,
como ferramenta, da atividade das mãos. Contudo,
paralelamente às mãos, foi desenvolvendo-se,
passo a passo, o cérebro; ia surgindo a consciência,
primeiro das condições necessárias para obter
certos resultados práticos úteis; depois,
sobre essa base, nasceu entre os povos que
se achavam numa situação mais vantajosa a
compreensão das leis da natureza que determinam
os referidos resultados úteis. Ao mesmo tempo
que se desenvolvia rapidamente o conhecimento
das leis da natureza, aumentavam os meios
de ação reciproca sobre ela; a mão só jamais
teria conseguido criar a máquina a vapor se,
paralelamente e em parte graças à mão, não
se teria desenvolvido correlativamente o cérebro
do homem. Com o homem, ingressamos na história.
Também os animais têm uma história, a de sua
origem e desenvolvimento gradual até seu estado
presente. Mas os animais são objetos passivos
da natureza, e quando participam nela, isso
se dá sem seu conhecimento ou desejo. Os homens,
ao contrário, à medida que se afastam mais
dos animais no sentido estrito da palavra,
em maior grau fazem eles próprios sua história,
conscientemente, e tanto menor é a influência
que exercem sobre essa história as circunstâncias
imprevistas e as forças incontroladas, e tanto
mais exatamente há uma correspondência entre
o resultado histórico e os fins de antemão
estabelecidos. Mas se aplicamos essa mesma
rasoura à história humana, inclusive à história
dos povos mais desenvolvidos de nosso século,
veremos que mesmo aqui existe ainda uma colossal
discrepância entre os objetivos propostos
e os resultados obtidos, veremos que continuam
prevalecendo as influências imprevistas, que
as forças incontroladas são muito mais poderosas
do que as postas em movimento de acordo com
um plano. E não será de outro modo enquanto
a atividade histórica mais essencial dos homens,
aquela que os elevou do estado animal ao humano
e forma a base material de todas as suas demais
atividades - refiro-me à produção dos seus
meios de subsistência, isto é, ao que chamamos
produção social -- for particularmente subordinada
à ação imprevista de forças incontroladas
e enquanto o objetivo desejado for atingido
só com exceção, e muito mais freqüentemente
se obtenham resultados diametralmente opostos.
Nos países industriais mais adiantados submetemos
as forças da natureza, pondo-as a serviço
do homem; graças a isso aumentamos incomensuravelmente
a produção, de modo que hoje uma criança produz
mais do que antes cem adultos produziam. Mas,
quais foram as conseqüências desse incremento
da produção? O aumento do trabalho esgotador,
uma miséria crescente das massas e uma crise
imensa cada dez anos, Darwin não suspeitava
que sátira tão amarga escrevia dos homens,
em particular de seus compatriotas, quando
demonstrou que a livre concorrência, a luta
pela existência celebrada pelos economistas
como a maior realização histórica, era o estado
normal do mundo animal. Só uma organização
consciente da produção social, em que a produção
e a distribuição obedeçam a um plano, pode
elevar socialmente os homens sobre o resto
do mundo animal, do mesmo modo que a produção
em geral os elevou como espécie. O desenvolvimento
histórico torna cada dia essa organização
mais necessária e mais possível. Ela é que
dará nascimento à nova época histórica em
que os próprios homens, e com eles todos os
ramos de sua atividade, especialmente as ciências
naturais, alcançarão êxitos em face dos quais
será eclipsado tudo o que foi conseguido até
agora. Mas, "tudo o que nasce deve morrer"14.
Talvez passem ainda milhões de anos, nasçam
e baixem à sepultura centenas de milhares
de gerações, mas se aproxima inflexivelmente
o tempo em que o calor decrescente do Sol
já não poderá derreter o gelo procedente dos
pólos; a humanidade, cada vez mais amontoada
em torno do equador, não encontrará nem sequer
ali o calor necessário para a vida; irá desaparecendo
paulatinamente todo sinal de vida orgânica,
e a Terra, morta, convertida numa esfera fria,
como a lua, girará nas trevas mais profundas,
seguindo órbitas mais e mais reduzidas em
volta do Sol, também morto, e sobre o qual,
por fim, cairá. Alguns planetas terão essa
sorte antes da Terra, outros depois; e em
lugar do luminoso e cálido sistema solar,
com a harmoniosa disposição de seus componentes,
restará tão só uma esfera fria e morta, que
continuará ainda seu solitário caminho pelo
espaço cósmico. Destino igual ao que aguarda
o nosso sistema solar, será, antes ou depois,
o de todos os demais sistemas de nossa ilha
cósmica, inclusive aqueles cuja luz jamais
alcançará a Terra enquanto restar um ser humano
capaz de percebê-la. Mas o que se passará
quando esse sistema solar houver terminado
a sua existência, quando passar pela sorte
de tudo o que é finito, a morte? Continuará
o cadáver do Sol eternamente pelo espaço infinito,
e todas as forças da natureza, antes infinitamente
diferenciadas, em uma única forma do movimento,
na atração? "Ou - como pergunta Secchi (pág.
810) - há na natureza forças capazes de fazer
com que o sistema morto volte a seu estado
original de nebulosa incandescente, capazes
de despertá-lo para uma nova vida? Não o sabemos".
Sem dúvida, não o sabemos no sentido em que
sabemos que 2 x 2 = 4 ou que a atração da
matéria aumenta e diminui na razão do quadrado
da distância. Mas nas ciências naturais teóricas
- que, na medida do possível, unem sua concepção
da natureza em um todo harmonioso, e sem as
quais o empírico mais limitado nada pode fazer
em nossos dias -, temos com freqüência que
operar com magnitudes imperfeitamente conhecidas;
e a conseqüência lógica do pensamento teve
que suprir, em todos os tempos, a insuficiência
de nossos conhecimentos. As ciências naturais
contemporâneas viram-se constrangidas a tomar
da filosofia o princípio da indestrutibilidade
do movimento; sem esse princípio as ciências
naturais já não podem existir. Mas o movimento
da matéria não é unicamente tosco movimento
mecânico, mera troca de lugar; é calor e luz,
tensão elétrica e magnética, combinação química
e dissociação, vida e, finalmente, consciência.
Dizer que a matéria em toda a eternidade só
uma vez - e isso por um Instante, em comparação
com sua eternidade - pode diferenciar seu
movimento e, com isso, desfraldar toda a riqueza
dele, e que antes e depois disso se viu limitada
a simples deslocamentos de lugar - dizer tal
coisa eqüivale a afirmar que a matéria é perecível
e o movimento passageiro. A indestrutibilidade
do movimento deve ser compreendida não só
no sentido quantitativo, mas também no sentido
qualitativo. A matéria cujo simples deslocamento
mecânico de lugar inclui a possibilidade de
transformação, verificando-se condições favoráveis,
em calor, eletricidade, ação química, vida,
mas que é incapaz de produzir essas condições
por si mesmo - essa matéria sofreu determinado
prejuízo em seu movimento. O movimento que
perdeu a capacidade de ver-se transformado
nas diferentes formas que lhe são próprias,
embora possua ainda dynamis, já não tem energia,
e por isso se acha praticamente destruído.
Mas é inconcebível que ocorram um e outro.
Está fora de dúvida, em todo caso, que houve
um tempo em que a matéria de nossa ilha cósmica
convertia em calor uma quantidade tão grande
de movimento - até hoje não sabemos de que
gênero - que dele puderam desenvolver-se os
sistemas solares pertencentes (segundo Mädler)
pelo menos a vinte milhões de estrelas e cuja
extinção gradual é igualmente indubitável.
Como se operou essa transformação? Sabemos
disso tão pouco como o padre Secchi sabe se
o futuro caput mortuum15 de nosso sistema
solar se converterá de novo, alguma vez, em
matéria-prima para novos sistemas solares.
Mas aqui nos vemos obrigados ou a recorrer
à ajuda do criador ou a concluir que a matéria-prima
incandescente que deu origem aos sistemas
solares de nossa ilha cósmica produziu-se
de forma natural, por transformações do movimento
que são inerentes por natureza à matéria em
movimento e cujas condições devem, por conseguinte,
ser reproduzidas pela matéria, embora depois
de bilhões de anos, mais ou menos acidentalmente,
mas com a necessidade que é também inerente
à casualidade. Agora é cada vez mais admitida
a possibilidade de semelhante transformação.
Chega-se à convicção de que o destino final
dos corpos celestes é cair uns sobre outros
e se calcula inclusive a quantidade de calor
que deve desenvolver-se em tais colisões.
O aparecimento repentino de novas estrelas
e o não menos repentino aumento do brilho
de estrelas há muito conhecidas - sobre o
que nos informa a astronomia - podem ser facilmente
explicados por semelhantes colisões. Ademais,
deve-se ter em conta que não somente os nossos
planetas giram em tomo do Sol e que não só
o nosso Sol se move dentro de nossa ilha cósmica,
mas que toda esta última se move no espaço
cósmico, achando-se em equilíbrio temporário
relativo com as outras ilhas cósmicas, pois
mesmo o equilíbrio relativo dos corpos que
flutuam livremente pode existir só ali onde
o movimento está reciprocamente condicionado;
além disso, alguns admitem que a temperatura
no espaço cósmico não é em toda parte a mesma.
Finalmente sabemos que, com exceção de uma
porção infinitesimal, o calor dos inumeráveis
sóis de nossa ilha cósmica desaparece no espaço
cósmico, procurando em vão elevar sua temperatura,
ainda que seja em um milionésimo de grau centígrado.
Que se faz de toda essa enorme quantidade
de calor? Perde-se para sempre em sua tentativa
de esquentar o espaço cósmico, cessa de existir
praticamente e continua existindo só teoricamente
no fato de que o espaço cósmico se aqueceu
em uma fração decimal de grau, que começa
com dez ou mais zeros? Essa suposição nega
a indestrutibilidade do movimento; admite
a possibilidade de que pela queda sucessiva
dos corpos celestes uns sobre outros, todo
o movimento mecânico existente se converterá
em calor irradiado ao espaço cósmico, graças
ao qual, a despeito de toda a "indestrutibilidade
da força", cessaria em geral todo movimento.
(Vê-se por aqui, certamente, quanto é incorreta
a expressão indestrutibilidade da força em
lugar de indestrutibilidade do movimento).
Chegamos assim à conclusão de que o calor
irradiado ao espaço cósmico deve, de um modo
ou de outro - chegará um tempo em que as ciências
naturais se proporão a tarefa de averiguá-lo
- converter-se em uma forma de movimento em
que tenha a possibilidade de concentrar-se
uma vez mais e funcionar ativamente. Desaparece
com isso o principal obstáculo que hoje existe
para o reconhecimento da reconversão, dos
sóis extintos em nebulosas incandescentes.
Ademais, a sucessão eternamente reiterada
dos mundos no tempo infinito é apenas um complemento
lógico à coexistência de inumeráveis mundos
no espaço infinito. Êsse é um princípio cuja
necessidade indiscutível mesmo o cérebro antiteórico
do ianque Draper16 foi forçado a reconhecer,
Esse é o céu eterno em que se move a matéria,
um ciclo que unicamente encerra sua trajetória
em períodos para os quais o nosso ano terrestre
não pode servir de unidade de medida, um ciclo
no qual o tempo de máximo desenvolvimento,
o tempo da vida orgânica e, ainda mais, o
tempo de vida dos seres conscientes de si
mesmos e da natureza, é tão precariamente
medido como o espaço em que existem a vida
e a autoconsciência; um ciclo no qual cada
forma finita de existência da matéria - tanto
um sol como uma nebulosa, um indivíduo animal
ou uma espécie de animais, a combinação química
ou a dissociação - é igualmente passageira
e no qual nada existe de eterno além da matéria
em eterno movimento e transformação e as leis
segundo as quais se move e se transforma.
Mas, por mais freqüente e inflexivelmente
que esse se opere no tempo e no espaço, por
mais milhões de sóis e terras que nasçam e
morram, por mais que possam demorar em criar-se
em um sistema solar e mesmo em um só planeta
as condições orgânicas, por mais inumeráveis
que sejam os seres orgânicos que devam surgir
e perecer antes de se desenvolverem de seu
meio animais com um cérebro capaz de pensar
e que encontrem por um breve prazo condições
favoráveis para sua vida, para ser logo também
aniquilados sem piedade, temos a certeza de
que a matéria será eternamente a mesma em
todas; as suas transformações, de que. nenhum
de seus atributos pode jamais perder-se e
que por, isso com a mesma necessidade férrea
com que há de exterminar na Terra sua criação
superior, a mente pensante, há de voltar a
criá-la em algum outro lugar. Escrito por
F. Engels em 1875/1876. Publicado pela primeira
vez em 1925. Publica-se segundo a edição soviética
de 1952, de acordo com o, manuscrito em alemão.
Traduzido do espanhol.
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