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O pequeno trabalho que o leitor tem diante
de si fazia parte, originariamente, de uma obra
maior. Em 1875, o Dr. E. Dühring, docente privado
da Universidade de Berlim, anunciou inopinadamente
e com bastante alarido sua conversão ao socialismo
e apresentou ao público alemão não só uma teoria
socialista minuciosamente elaborada, como também
um plano prático completo para a reorganização da
sociedade.
Lançou-se, naturalmente, sobre seus
predecessores, distinguindo particularmente Marx,
sobre quem derramou sua transbordante cólera.
Isso ocorria num momento em que os dois setores do
Partido Socialista Alemão - os eisenachianos e os
lassalianos acabavam de fundir-se, adquirindo
assim não só um imenso fortalecimento, mas algo
ainda mais importante: a possibilidade de
desenvolver toda essa força contra o inimigo
comum. O Partido Socialista da Alemanha
convertia-se rapidamente numa potência. Mas para
que se convertesse numa potência a condição
essencial residia em que não fosse posta em perigo
a unidade recém-conquistada. E o Dr. Dühring
dispôs-se publicamente a formar em torno de sua
pessoa uma seita - núcleo do que seria, no futuro,
um partido à parte. Não havia, pois, outro
remédio, senão aceitar a luva que nos atirava e
entrar na luta, por menos agradável que isso nos
fosse.
Certamente, ainda que não fosse muito
difícil, a coisa haveria de ser, evidentemente;
bastante pesada. É sabido que nós, os alemães,
temos uma terrível e poderosa Gründlichkeit - um
radicalismo profundo ou uma radical profundidade,
como se queira chamar. Quando um de nós expõe algo
que reputa ser uma nova doutrina, a primeira coisa
que faz é elaborá-la sob a forma de um sistema
universal. Tem que demonstrar que tanto os
princípios básicos da lógica como as leis
fundamentais do universo não existiram, desde toda
uma eternidade, senão com o propósito de levar,
afinal, a essa teoria recém-descoberta, que coroa
então tudo quanto existe. A esse respeito, o Dr.
Dühring estava talhado perfeitamente pelo padrão
nacional. Nada menos que um Sistema Completo da
Filosofia - filosofia intelectual, moral, natural
e da história -, um Sistema Completo de Economia
Política e de Socialismo e, finalmente, uma
História Crítica de Economia Política - três
gordos volumes In-8º, pesados por fora e por
dentro, três corpos de exército de argumentos,
mobilizados contra todos os filósofos e
economistas anteriores, em geral, e contra Marx em
particular; em realidade, uma tentativa de
completa "subversão da ciência". Tive que
defrontar-me com tudo isso; tive que tratar todos
os temas possíveis, desde as idéias sobre o tempo
e o espaço até o bimetalismo; desde a eternidade
da matéria e do movimento até a natureza perecível
das idéias morais; desde a seleção natural de
Darwin até a educação da juventude numa sociedade
futura. É certo que a sistemática universalidade
de meu contendor me oferecia a oportunidade para
desenvolver diante dele, numa forma mais coerente
do que até então se havia feito, as idéias
sustentadas por Marx e por mim acerca de tão
grande variedade de matérias. E foi essa a razão
principal que me leva a empreender essa tarefa,
ademais tão ingrata.
Minha réplica apareceu, primeiro, numa
série de artigos publicados no Vorwarts de
Leipzig, órgão central do Partido Socialista, e
mais tarde em forma de livro, com o título Herrn
Eugen Dühring Umwalzung der Wissenschaft [A
Subversão da Ciência Pelo Senhor E. Duhring], do
qual foi publicado em Zurique a segunda edição em
1886.
A pedido de meu amigo Paul Lafargue, atual
representante de Lille na Câmara dos Deputados da
França, destaquei três capítulos desse livro para
um folheto, que ele traduziu e publicou em 1880
com o título de Socialisme Utopique et Socialisme
Scientifique. Desse texto francês foram feitas
urna versão polonesa e outra espanhola. Em 1883
nossos amigos da Alemanha publicaram o folheto em
seu idioma original. Desde então publicaram-se, à
base do texto alemão, traduções para o italiano, o
russo, o dinamarquês, o holandês e o romeno.
Assim, incluindo a atual edição inglesa, este
folheto foi difundido em dez línguas. Não sei de
nenhuma outra publicação socialista, inclusive o
nosso Manifesto Comunista de 1848 e O Capital de
Marx, que tenha sido traduzida tantas vezes. Na
Alemanha foram feitas quatro edições, com uma
tiragem total de cerca de 20 mil exemplares.
O apêndice A Marca foi escrito com o
propósito de difundir entre o Partido Socialista
Alemão algumas noções elementares a respeito da
história e o desenvolvimento da propriedade rural
na Alemanha. Naquele tempo Isso era extremamente
necessário, tanto mais que a Incorporação dos
operários urbanos ao Partido fizera já um grande
progresso e já se colocava a tarefa de dedicar-se
às massas de operários agrícolas e dos camponeses.
Esse apêndice foi incluído na edição tendo em
conta a circunstância de que as formas primitivas
de posse da terra, comuns a todas as tribos
teutônicas, assim como a história de sua
decadência, são ainda me nos conhecidas na
Inglaterra do que na Alemanha. Deixa o texto na
sua forma original, sem aludir à hipótese
recentemente proposta por Maxim Kovalevski,
segundo a qual a repartição das terras de cultivo
e de pastagem entre os membros da Marca precedeu
ao cultivo em comum dessas terras por uma grande
comunidade familiar patriarcal, que compreendia
várias gerações (pode servir de exemplo a zádruga
do sul da Eslávia, até hoje existente). Logo porém
que a comunidade cresceu e se tomou demasiado
numerosa para administrar em comum a economia
verificou-se a repartição da terra. É provável que
Kovalevski tenha razão, mas o assunto ainda se
encontra sub judice.
Os termos de economia empregados neste
trabalho coincidem, sempre que novos, com os da
edição inglesa de O Capital de Marx. Designamos
como "produção de mercadorias" aquela fase
econômica em que os objetos não são produzidos
apenas para o uso do produtor, mas também para os
fins de troca, isto é, como mercadorias e não
valores de uso.
Essa fase vai dos albores da produção para
a troca até os tempos presentes; mas só alcança
seu pleno desenvolvimento sob a produção
capitalista, isto é, sob as condições em que o
capitalista, proprietário dos meios de produção,
emprega, em troca de um salário, operários, homens
despojados de todo meio de produção, com exceção
de sua própria força de trabalho, e embolsa o
excedente do preço de venda dos produtos sobre o
seu custo de produção. Dividimos a história da
produção industrial desde a Idade Média em três
períodos: 1) indústria artesanal, pequenos mestres
artesãos com alguns oficiais e aprendizes, em que
cada operário elabora o artigo completo; 2)
manufatura, em que se congrega num amplo
estabelecimento um número considerável de
operários, elaborando-se o artigo completo de
acordo com o princípio da divisão do trabalho,
onde cada operário só executa uma operação
parcial, de tal modo que o produto só está
completo e acabado quando tenha passado
sucessivamente pelas mãos de todos; 3) indústria
moderna, em que o produto é fabricado mediante a
máquina movida pela força motriz e o trabalho do
operário se limita a vigiar e retificar as
operações do mecanismo.
Sei muito bem que o conteúdo deste livro
indignará grande parte do público britânico. Mas
se nós, os continentais, houvéssemos guardado a
menor consideração aos preconceitos da
"respeitabilidade" britânica, isto é, ao
filisteísmo britânico, pior ainda teríamos saldo.
Esta obra defende o que nós chamamos o
"materialismo-histórico" e para os ouvidos da
imensa maioria dos leitores britânicos a palavra
materialismo soa muito mal. "Agnosticismo" ainda
poderia passar, mas materialismo é totalmente
inadmissível.
E no entanto a pátria primitiva de todo o
materialismo moderno, a partir do século XVII, é a
Inglaterra.
“O materialismo é filho nato da Grã
Bretanha”. Já o escolástico britânico Duns Scot
perguntava a si mesmo se a matéria não poderia
pensar.
Para realizar esse milagre refugiava-se na
onipotência divina, isto é, obrigava a própria
teologia a pregar o materialismo. Duns Scot era,
ademais, nominalista. O nominalismo aparece como
elemento primordial nos materialistas ingleses e
é, em geral, a expressão primeira do materialismo.
O verdadeiro pai do materialismo inglês é
Bacon. Para ele a ciência da natureza é a
verdadeira ciência, e a física experimental a
parte mais importante da ciência da natureza.
Anaxágoras, com suas homo emerias e Demócrito com
seus átomos são as autoridades que cita com
freqüência. Segundo, sua teoria os sentidos são
infalíveis e constituem a fonte de todos os
conhecimentos. Toda ciência se baseia na
experiência e consiste em aplicar um método
racional de investigação ao que é dado pelos
sentidos. A indução, a análise, a comparação, a
observação, a experimentação são as condições
fundamentais desse método racional.
Entre as propriedades inerentes à matéria,
a primeira e mais importante é o movimento,
concebido não só como um movimento mecânico e
matemático, porém ainda mais como impulso, como
espírito vital, como tensão, como "Qual" - para
empregar a expressão de Jakob Böhme - da matéria.
As formas primitivas deste último são
forças substanciais vivas, individualizantes, a
ela inerentes, forças que produzem as diferenças
específicas.
Em Bacon, como seu primeiro criador, o
materialismo guarda ainda, de maneira ingênua, os
germes de um desenvolvimento multilateral. A
matéria sorri com um fulgor poeticamente sensorial
a todo homem. Em troca, a doutrina aforística é
ainda, por si mesma, um manancial de
inconseqüência teológicas.
Em seu desenvolvimento posterior, o
materialismo torna-se unilateral. Hobbes
sistematiza o materialismo de Bacon. A
sensoriedade perde o seu brilho e se converte na
sensoriedade abstrata do geômetra. O movimento
físico sacrifica-se ao movimento mecânico ou
matemático, a geometria é proclamada a ciência
fundamental. O materialismo toma-se misantropo.
Para poder dar combate em seu próprio
terreno ao espírito misantrópico e descarnado, o
materialismo se vê obrigado também a flagelar a
sua carne e converter-se em asceta. Apresenta-se
como entidade intelectual, mas desenvolve também a
lógica impiedosa do intelecto.
Se os sentidos fornecem ao homem todos os
conhecimentos - argumenta Hobbes partindo de Bacon
-, os conceitos, as idéias, as representações
mentais, etc., não são senão fantasmas do mundo
físico, mais ou menos despojado de sua forma
sensorial. A ciência não pode fazer mais do que
dar nomes a esses fantasmas. Um nome pode ser
atribuído a vários fantasmas. Pode inclusive haver
nomes de nomes. Mas seria uma contradição querer,
de um lado, buscar a origem de todas as idéias no
mundo dos sentidos e, de outro lado, afirmar que
uma palavra é algo mais que uma palavra, que além
dos seres concretos que nós nos representamos,
existem seres universais. Uma substância
incorpórea é um contra-senso igual a um corpo
incorpóreo. Corpo, ser, substância, vêm a ser uma
e a mesma idéia real. Não se pode separar o
pensamento da matéria que pensa. Ela é o sujeito
de todas as mudanças. A palavra "infinito" carece
de sentido, a não ser como expressão da capacidade
do nosso espírito para acrescentar sem fim. Como
só o material é perceptível, susceptível de ser
conhecido, nada se conhece da existência de Deus.
Só a minha própria existência é certa. Toda paixão
humana é movimento mecânico que termina ou começa.
Os objetos do impulso são o bem. O homem acha-se
sujeito às mesmas leis que a natureza. O poder e a
liberdade são coisas idênticas.
Hobbes sistematizou Bacon, mas sem oferecer
novas provas a favor de seu princípio fundamental:
o de que os conhecimentos e as idéias têm sua
origem no mundo dos sentidos.
Locke, em sua obra Essay on the Human
Understanding (Ensaio Sobre o Entendimento Humano)
fundamenta o princípio de Bacon e Hobbes.
Do mesmo modo que Hobbes destruiu os preconceitos
teísticos do materialismo baconiano, Collins,
Dodwell, Coward, Hartley, Priestley, etc,
derrubaram a última barreira teológica do
sensualismo de Locke. O deísmo não é, pelo menos
para os materialistas, mais do que uma maneira
cômoda e indolente de desfazer-se da religião."
Assim se expressava Karl Marx: referindo-se
às origens britânicas do materialismo moderno. E
se aos ingleses de hoje não agrada muito essa
homenagem prestada por Marx aos seus antepassados,
lamentamos por eles. Mas é inegável, ape. sar de
tudo, que Bacon, Hobbes e Locke foram os pais
daquela brilhante escola de materialistas
franceses que, apesar das derrotas que os alemães
e ingleses Infligiram à França por mar e por
terra, fizeram do século XVIII um século,
eminentemente francês; e isso muito antes daquela
revolução francesa que coroou o final do século e
cujos resultados ainda hoje nos esforçamos por
aclimatar na Inglaterra e na Alemanha.
Não se pode negar. Se em meados do século
um estrangeiro culto se instalasse na Inglaterra,
o que mais lhe causaria surpresa seria a beatice
religiosa e a estupidez - assim teria ele que
considerar - da "respeitável" classe média
inglesa. Todos nós éramos, então, materialistas
ou, pelo menos, livres-pensadores muito avançados,
e nos parecia inconcebível que quase todos os
homens cultos da Inglaterra acreditassem numa
série de milagres impossíveis e que até geólogos
como Buckland e Mantell tergiversassem os fatos de
sua ciência, para não desmascarar muito
frontalmente os mitos do Gênesis; inconcebível
que, para encontrar pessoas que se atrevessem a
servir-se de sua inteligência em matéria
religiosa, tivessem que recorrer aos setores
incultos, às "hordas dos que não se lavam", como
se dizia então, aos operários e, principalmente,
aos socialistas owenianos.
Mas, de então para cá, a Inglaterra
"civilizou-se". A Exposição de 1851 foi o repique
fúnebre do exclusivismo insular inglês. A
Inglaterra foi, pouco a pouco,
internacionalizando-se nas comidas e nas bebidas,
nos costumes e nas idéias, até um ponto que me faz
desejar que certos costumes ingleses encontrassem
no continente uma acolhida tão geral como o têm
encontrado outros hábitos continentais na
Inglaterra. O que se pode assegurar é que a
difusão do azeite para salada (que antes de 1851
só era conhecido pela aristocracia) foi
acompanhada de uma fatal difusão do ceticismo
continental em matéria religiosa, chegando-se até
ao extremo de que o agnosticismo, embora ainda não
considerado tão elegante como a igreja anglicana,
está contudo, no que se refere à respeitabilidade,
quase na mesma altura da seita anabatista,
ocupando mesmo posição muito mais alta que o
Exército de Salvação. Não posso deixar de pensar
que, para muitos que deploram e amaldiçoam com
toda sua alma tais progressos da descrença, será
um consolo saber que essas idéias flamejantes não
são de origem estrangeira, não circulam com a
marca "Made in Germany" (fabricado na Alemanha),
como tantos outros artigos de uso diário, mas têm,
ao contrário, antiga e venerável origem inglesa e
que os seus autores britânicos de há duzentos anos
atrás iam muito mais longe do que os seus atuais
descendentes.
Com efeito, que é o agnosticismo senão um
materialista envergonhado? A concepção agnóstica
da natureza é inteiramente materialista. Todo o
mundo natural é regido por leis e exclui por
completo toda influência exterior. Mas nós,
acrescenta cautelosamente o agnóstico, não estamos
em condições de poder provar ou refutar a
existência de um ser supremo fora do mundo por nós
conhecido. Essa reserva podia ter sua razão de ser
na época em que Laplace, como Napoleão lhe
perguntasse por que na Mécanique Céleste do grande
astrônomo não se mencionava sequer o criador do
mundo, respondia com estas palavras orgulhosas: "Je
n’avais pas besoin de cette hypothèse." Mas hoje a
nossa idéia do universo em seu desenvolvimento não
deixa o menor lugar nem para um criador nem para
um regente do universo; e se quiséssemos admitir a
existência de um ser supremo posto à margem de
todo o mundo existente, incorreríamos numa
contradição lógica e, além disso, parece-me,
feriríamos desnecessariamente os sentimentos das
pessoas religiosas.
Nosso agnóstico reconhece também que todos
os nossos conhecimentos têm por base as
comunicações que recebemos por intermédio dos
sentidos. Mas, como sabemos - acrescenta - se
nossos sentidos nos transmitem realmente a imagem
exata dos objetos por eles percebidos? E continua
dizendo: quando falo das coisas e das propriedades
não me refiro, em verdade, a essas coisas e suas
propriedades em si, acerca das quais nada posso
saber de certo, mas apenas às impressões que
deixam em meus sentidos. É, certamente, uma forma
de conceber que parece difícil ser contestada
através de simples argumentação. Mas os homens,
antes de argumentar, haviam atuado. "Im Anfang war
die Tat." E a ação humana havia resolvido a
dificuldade muito antes de os sofismas humanos a
inventarem. “The proof of the pudding ís in the
eating” .
Desde o momento em que aplicamos essas
coisas, de acordo com as qualidades que percebemos
nelas, a nosso uso próprio, submetemos as
percepções de nossos sentidos a uma prova
infalível no que se refere à sua exatidão ou à sua
falsidade. Se essas percepções fossem falsas,
falso seria também nosso juízo acerca da
possibilidade de empregar a coisa de que se trata,
e nossa tentativa de em pregá-la teria
forçosamente de fracassar. Mas se conseguimos o
fim desejado, se achamos que a coisa corresponde à
idéia que dela fazemos, que nos dá o que dela
esperávamos ao usá-la, teremos a prova positiva de
que, dentro desses li. mites, nossas percepções
acerca dessa coisa e de suas propriedades
coincidem com a realidade existente fora de nós.
Em troca, se acontece termos dado um golpe em
falso, geralmente não tardamos muito em descobrir
as causas do nosso engano; concluímos que a
percepção em que se baseava a nossa ação era
incompleta e superficial, ou se achava enlaçada
com os resultados de outras percepções de um modo
não justificado pela realidade das coisas; quer
dizer: havíamos realizado o que chamamos um
raciocínio defeituoso. Enquanto adestrarmos e
empregarmos bem os nossos sentidos e ajustarmos o
nosso modo de proceder aos limites traçados pelas
observações bem feitas e bem utilizadas, veremos
que os resultados dos nossos atos fornecerão a
prova da conformidade de nossas percepções com a
natureza objetiva das coisas percebidas. Em nenhum
caso, segundo a experiência que possuímos até
hoje, nos vimos obrigados a chegar à conclusão de
que as percepções sensoriais cientificamente
controladas originam em nosso cérebro Idéias do
mundo exterior que, por sua natureza, diferem da
realidade, ou de que entre o mundo exterior e as
percepções que nossos sentidos ,dele nos
transmitem medeia uma incompatibilidade inata.
Mas, ao chegar aqui, apresenta-se o
agnóstico neo-kantiano e nos diz: Sim, poderemos
talvez perceber exatamente as propriedades de uma
coisa, porém nunca apreender a coisa em si por
meio de nenhum processo sensorial ou discursivo.
Essa "coisa em si" situa-se além de nossas
possibilidades de conhecimento. Já Hegel, há muito
tempo, respondeu a isso: desde o momento em que
conhecemos todas as propriedades de uma coisa,
conhecemos também a própria coisa; fica somente em
pé o fato de que essa coisa existe fora de nós, o
enquanto os nossos sentidos nos fornecerem esse
fato, apreendemos até o último resíduo da coisa em
si, a famosa o incognoscível Ding an sich de Kant.
Hoje, só podemos acrescentar a isso que, na
época de Kant, o conhecimento que ele tinha das
coisas naturais em o bastante fragmentário para se
poder suspeitar, por trás de cada uma delas, uma
misteriosa "coisa em si". Mas, de então para cá,
essas coisas inapreensíveis foram apreendidas,
analisadas e, mais ainda, reproduzidas uma após
outra pelos gigantescos progressos da ciência. E
desde o instante em que podemos produzir uma
coisa, não há nenhuma razão para que seja ela
considerada incognoscível. Para a química da
primeira metade de nosso século, as substâncias
orgânicas eram coisas misteriosas. Hoje, já
aprendemos a fabricá-las uma após outra, à base
dos elementos químicos e sem ajuda dos processos
orgânicos. A química moderna nos diz que, logo que
se conheça a constituição química de qualquer
corpo, esse corpo pode integrar-se a partir de
seus elementos.
Estamos atualmente muito longe ainda de
conhecer exatamente a constituição das substâncias
orgânicas superiores, os chamados corpos
albuminóides, mas não existe absolutamente nenhuma
razão para que não adquiramos, ainda que tal se dê
dentro de vários séculos, esse conhecimento, e com
sua ajuda possamos fabricar albumina artificial. E
quando o conseguirmos teremos conseguido também
produzir a vida orgânica, pois a vida, desde as
suas formas mais inferiores às mais elevadas, não
é senão a modalidade normal de existência dos
corpos albuminóides.
Mas, depois de feitas essas reservas
formais, nosso agnóstico faz e atua em tudo como o
materialista empedernido, que no fundo é. Poderá
dizer: a julgar pelo que nós sabemos, a matéria e
o movimento ou, como agora se diz, a energia, não
podem criar-se nem destruir-se, mas não temos
provas de que ambas não tenham sido criadas em
algum tempo remoto e desconhecido. E se tentardes
dirigir contra ele essa confissão, num caso
determinado, chamar-vos-á apressadamente à ordem e
vos mandará calar. Se in abstracto reconhece a
possibilidade do espiritualismo, in concreto nada
quer saber sobre ele. Dir-vos-á: pelo que sabemos
e podemos saber, não existe criador nem regente do
universo; no que a nós se refere, a matéria e a
energia são tão incriáveis como indestrutíveis;
para nós o pensamento é uma forma da energia, uma
função do cérebro. Tudo o que sabemos nos leva à
conclusão de que o mundo material se acha regido
por leis imutáveis, etc. etc. Portanto, na medida
em que é um homem de ciência, na medida em que
sabe algo, o agnóstico é materialista; fora dos
confins de sua ciência, nos campos que não domina,
traduz sua ignorância para o grego, chamando-a
agnosticismo.
Em todo caso, o que se pode assegurar é
que, ainda que eu fosse agnóstico, não poderia dar
à concepção da história esboçada neste pequeno
livro o nome de "agnosticismo histórico". As
pessoas de sentimentos religiosos se ririam de mim
e os agnósticos me perguntariam, indignados, se
pretendia zombar deles. Assim, confio em que a
"respeitabilidade" britânica, que em alemão se
chama filisteísmo, não se aborrecerá demasiado
porque empregue em inglês, como em tantos outros
idiomas, o nome de "materialismo histórico" para
designar essa concepção dos roteiros da história
universal que vê a causa final e a causa
propulsora decisiva de todos os acontecimentos
históricos importantes no desenvolvimento
econômico da sociedade, nas transformações do modo
de produção e de troca, na conseqüente divisão da
sociedade em diferentes classes o nas lutas dessas
classes entre si.
Dispensar-me-ão talvez essa consideração,
sobretudo se demonstro que o materialismo
histórico pode inclusive ser útil para a
respeitabilidade do filisteu britânico. Já aludi
ao fato de que, há quarenta ou cinqüenta anos, o
estrangeiro culto que se instalasse para viver na
Inglaterra se veria desagradavelmente surpreendido
pelo que necessariamente teria que considerar
beatice e hipocrisia religiosa da respeitável
classe média inglesa. Demonstrarei agora que a
respeitável classe média inglesa, daquele tempo
não era, contudo, tão estúpida como o estrangeiro
inteligente imaginava. Suas tendências religiosas
tinham sua explicação.
Quando a Europa saiu da Idade Média, a
classe média urbana em ascensão era seu elemento
revolucionário. A posição reconhecida que
conquistara dentro do regime feudal da Idade Média
era já demasiado estreita para sua força de
expansão. O livre desenvolvimento dessa classe
média, a burguesia, já não era compatível com o
regime feudal; este tinha forçosamente de
desmoronar.
Mas o grande centro internacional do
feudalismo era a Igreja Católica Romana. Ela unia
toda a Europa ocidental feudalizada, apesar de
todas as suas guerras intestinas, numa grande
unidade política, contraposta tanto ao mundo
cismático grego como ao mundo maometano. Cercou as
instituições feudais do halo da graça divina.
Também ela havia levantado sua hierarquia segundo
o modelo feudal e era, afinal de contas, o maior
de todos os senhores feudais, pois possuía, pelo
menos, a terça parte de toda a propriedade
territorial do mundo católico. Antes de poder dar
combate, em cada país e nos diversos terrenos, ao
feudalismo secular seria necessário destruir a
organização central santificada.
Passo a passo, com o assenso da burguesia
produzia-se o grande ressurgimento da ciência.
Voltava-se a cultivar a astronomia, a mecânica, a
física, a anatomia, a fisiologia. A burguesia
necessitava, para o desenvolvimento de sua
produção industrial, de uma ciência que
investigasse as propriedades dos corpos físicos e
o funcionamento das forças naturais. Mas, até
então, a ciência não havia sido mais que a
servidora humilde da Igreja, não lhe sendo
permitido transpor as fronteiras estabelecidas
pela fé; numa palavra, havia sido qualquer coisa
menos uma ciência. Agora, a ciência se rebelava
contra a Igreja; a burguesia precisava da ciência
e se lançou com ela na rebelião.
Não toquei aqui senão em dois pontos em que
a burguesia em ascensão tinha necessariamente que
se chocar com a religião estabelecida. Mas isso
bastará para provar: primeiro, que a classe mais
empenhada na luta contra o poder da Igreja
Católica era precisamente a burguesia e, segundo,
que então toda luta contra o feudalismo tinha que
vestir-se com uma roupagem religiosa e dirigir-se
em primeira Instância contra a Igreja.
Mas o grito de guerra lançado pelas
universidades e os homens de negócios das cidades
tinha inevitavelmente de encontrar, como com
efeito encontrou, uma forte ressonância entre as
massas do campo, entre os camponeses, que em toda
parte estavam empenhados numa dura luta contra
seus senhores feudais eclesiásticos e seculares,
luta em que estava em foco a sua existência.
A grande campanha da burguesia européia
contra o feudalismo culminou em três grandes
batalhas decisivas.
A primeira foi a que chamamos Reforma
protestante alemã. Ao grito de rebelião de Lutero
contra a Igreja responderam duas Insurreições
políticas: primeiro, a da nobreza inferior,
acaudilhada por Franz von Sickingen, em 1523, e
logo a grande guerra camponesa em 1525. Ambas
foram esmagadas, por causa principalmente da falta
de decisão do partido mais Interessado na luta: a
burguesia das cidades - falta de decisão cujas
causas não podemos analisar aqui. Desde esse
Instante a luta degenerou numa rixa entre os
diversos príncipes e o poder central do Imperador,
trazendo como conseqüência o afastamento da
Alemanha por duzentos anos do concerto das nações
politicamente ativas da Europa. É certo que a
Reforma luterana conduziu a unia nova religião,
aquela justamente de que a monarquia absoluta
precisava. Mal abraçaram o luteranismo, viram-se
os camponeses do nordeste da Alemanha rebaixados
da condição de homens livres à de servos da gleba.
Mas, onde Lutero falhou triunfou Calvino. O
dogma calvinista servia aos mais intrépidos
burgueses da época. Sua doutrina da predestinação
era a expressão religiosa do fato de que no mundo
comercial, no mundo da concorrência, o êxito ou a
bancarrota não depende da atividade ou da aptidão
do indivíduo, mas de circunstâncias independentes
dele. "Ele não depende da vontade ou da fuga de
ninguém, mas da misericórdia" de forças econômicas
superiores, mas desconhecidas.
E isso era mais do que nunca uma verdade
numa época de revolução econômica, em que todos os
velhos centros e caminhos comerciais eram
substituídos por outros novos, em que se abriam ao
mundo a América e a Índia e em que vacilavam e
vinham abaixo até os artigos econômicos de fé mais
sagrados: os valores do ouro e da prata. Ademais,
o regime da Igreja calvinista era absolutamente
democrático e republicano; como podiam os reinos
deste mundo continuar sendo súditos dos reis, dos
bispos e dos senhores feudais onde o reino de Deus
se havia republicanizado? Se o luteranismo alemão
se converteu num instrumento submisso nas mãos dos
pequenos príncipes alemães, o calvinismo fundou
uma República na Holanda e fortes partidos
republicanos na Inglaterra e, sobretudo, na
Escócia.
No calvinismo a segunda grande insurreição
da burguesia encontrou, acabada, sua teoria de
luta. Essa insurreição verificou-se na Inglaterra.
Foi posta em marcha pela burguesia das cidades,
mas foram os camponeses médios (a yeomanry) dos
distritos rurais que conseguiram o triunfo. Coisa
singular: nas três grandes revoluções burguesas
são os camponeses que fornecem as tropas de
combate e são também eles.
precisamente, a classe que, depois de
alcançar o triunfo, sai arruinada infalivelmente
pelas conseqüências econômicas desse triunfo. Cem
anos depois de Cromwell, pode-se dizer que a
yeomanry da Inglaterra quase desaparecera. Em todo
caso, sem a intervenção dessa yeomanry e do
elemento plebeu das cidades, a burguesia jamais
teria podido conduzir a luta ao ,seu final
vitorioso nem levado Carlos I ao cadafalso. Para
que a burguesia embolsasse embora só os frutos
mais maduros do triunfo, foi necessário levar a
revolução muito além de sua meta; exatamente como
haveria de ocorrer na França em 1793 e na Alemanha
em 1848. Parece ser essa, com efeito, uma das leis
que presidem a evolução da sociedade burguesa.
Após esse excesso de atividade
revolucionária seguiu-se a Inevitável reação que,
por sua vez, também ultrapassou o ponto em que
devia ter-se mantido. Depois de uma série de
vacilações, conseguiu por fim fixar-se o novo
centro de gravidade, que se converteu, por sua
vez, em novo ponto de partida. O período grandioso
da história inglesa, ao qual os filisteus dão o
nome de "a grande rebelião” e as lutas que lhe
seguiram, alcançam o seu coroamento no episódio
relativamente insignificante de 1689, que os
historiadores liberais assinalam com o nome de
"revolução gloriosa".
O novo ponto de partida foi uma transação
entre a burguesia em ascensão e os antigos grandes
latifundiários feudais. Estes, embora fossem
conhecidos, então como hoje, pelo nome de
aristocracia, estavam desde há muito tempo em vias
de converter-se no que Luís Felipe havia de ser
muito depois na França: nos primeiros burgueses da
nação. Para felicidade da Inglaterra, os antigos
barões feudais se haviam destroçado entre si nas
guerras das Rosas. Seus sucessores, embora em sua
maioria descendentes das mesmas antigas famílias
procediam já de linhas colaterais tão afastadas
que formavam uma corporação completamente nova;
seus costumes e tendências tinham muito mais de
burgueses que de feudais; conheciam perfeitamente
o valor do dinheiro e se dedicaram, em seguida, a
aumentar as rendas de suas terras, delas
expulsando centenas de pequenos arrendatários e
substituindo-os por rebanhos de ovelhas. Henrique
VIII criou uma massa de novos landlords burgueses,
distribuindo e dilapidando os bens da Igreja; e a
idêntico resultado levaram as confiscações de
grandes propriedades territoriais, levadas a
efeito sem interrupção até fins do século XVII,
para logo entregá-las a indivíduos meio ou
inteiramente adventícios. Por isso é que a
"aristocracia" inglesa, desde Henrique VII, longe
de opor-se ao desenvolvimento da produção
industrial, procura tirar indiretamente proveito
dela. Ademais, uma parte dos grandes
latifundiários mostrou-se disposta a todo momento,
por motivos econômicos ou políticos, a colaborar
com os caudilhos da burguesia industrial ou
financeira. A transação de 1869 não foi, pois,
difícil de conseguir. Os troféus políticos - os
cargos, as sinecuras, os elevados ordenados das
grandes famílias da aristocracia rural foram
respeitados, com a condição de que defendessem
cabalmente os interesses econômicos da classe
média financeira, industrial e mercantil. E esses
interesses econômicos já eram, então, bastante
poderosos; eram eles que traçavam, em última
análise, os rumos da política nacional. Poderia
haver discrepâncias em torno de detalhes, mas a
oligarquia aristocrática sabia demasiado bem
quanto se achava a sua própria prosperidade
econômica inseparavelmente unida da burguesia
Industrial e comercial.
A partir desse momento a burguesia
converteu-se em parte integrante, modesta mas
reconhecida, das classes dominantes da Inglaterra.
Compartilhava com todas elas do interesse
em manter oprimida a grande massa trabalhadora do
povo. O comerciante ou fabricante mesmo ocupava,
em relação a seu subordinado, a seus operários ou
a seus criados, a posição de senhor, de seu
"superior natural", como se dizia até há pouco na
Inglaterra. Tinha que sugar deles a maior
quantidade e a melhor qualidade possível de
trabalho; para consegui-lo, tinha de educá-los
numa submissão adequada. Pessoalmente, era um
homem religioso; sua religião lhe havia fornecido
a bandeira sob a qual combateu o rei e os
senhores; descobrira também, havia pouco, os
recursos que essa religião lhe oferecia para
trabalhar o espírito de seus inferiores naturais e
torná-los submissos às ordens dos amos, que os
desígnios imprescrutáveis de Deus lhe inspiravam.
Numa palavra, o burguês da Inglaterra participava
agora na empresa de oprimir as "classes
inferiores” a grande massa produtora da nação, e
um dos meios empregados para isso era a influência
da religião.
Mas a isso vinha acrescentar-se uma nova
circunstância, que reforçava as inclinações
religiosas da burguesia: o aparecimento do
materialismo na Inglaterra. Essa nova doutrina não
só feria os sentimentos piedosos da classe média
mas, além disso, se anunciava como uma filosofia
destinada apenas aos sábios e aos homens cultos do
grande mundo; ao contrário da religião, boa para a
grande massa não ilustrada, inclusive a burguesia.
Com Hobbes, essa doutrina apareceu em cena como
defensora das prerrogativas e da onipotência reais
e convidou a monarquia absoluta a trazer em rédea
curta aquele puer robustus sed malitiosus que era
o povo. Também nos continuadores de Hobbes, em
Bolingbroke, em Shaftesbury, etc, a nova forma
deística do materialismo continuava sendo uma
doutrina aristocrática, esotérica e, portanto,
odiada pela burguesia, não só por ser uma heresia
religiosa, mas também por suas conexões políticas
antiburguesas. Por isso, frente ao materialismo e
ao deísmo da aristocracia, eram principalmente as
seitas protestantes, que haviam fornecido a
bandeira e os homens para a luta contra os Stuarts,
que davam o contingente principal às forças da
classe média progressista e que ainda formam a
medula do "grande partido liberal".
Entretanto, o materialismo transferiu-se da
Inglaterra para a França, onde se encontrou com
uma segunda escola materialista de filósofos, que
havia surgido do cartesianismo o com a qual se
refundiu. Também na França continua sendo, a
princípio, uma doutrina exclusivamente
aristocrática. Mas seu caráter revolucionário não
tardou a revelar-se. Os materialistas franceses
não limitavam sua crítica simplesmente aos
assuntos religiosos, mas a estendiam a todas as
tradições científicas e a todas as instituições
políticas do seu tempo; para demonstrar a
possibilidade de aplicação universal de sua teoria
seguiram o caminho mais curto: aplicaram-na
audazmente a todos os ramos do saber na
Encyclopédie - a obra gigantesca que lhes valeu o
nome de "enciclopedistas". Desse modo o
materialismo, sob uma forma ou outra - como
materialismo declarado ou como deísmo -,
converteu-se no credo de toda a juventude culta da
França; até tal ponto que durante a Grande
Revolução a teoria criada pelos realistas ingleses
serviu de bandeira teórica aos republicanos e
terroristas franceses, e dela saiu o texto da
Declaração dos Direitos do Homem. A grande
Revolução Francesa foi a terceira insurreição da
burguesia, mas a primeira que se despojou
totalmente do manto religioso, travando a batalha
no campo político aberto. E foi a primeira que
levou realmente o combate até à destruição de um
dos dois combatentes, a aristocracia, e o triunfo
completo do outro, a burguesia. Na Inglaterra, a
continuidade ininterrupta das instituições
pré-revolucionárias e pós-revolucionárias e a
transação selada entre os grandes latifundiários e
os capitalistas encontravam sua expressão na
continuidade dos precedentes judiciais, assim como
na respeitosa conservação das formas legais do
feudalismo. Na França, a revolução rompeu
plenamente com as tradições do passado, varreu os
últimos vestígios do feudalismo e criou, com o
Code civil, uma magistral adaptação do antigo
direito romano às relações capitalistas modernas,
daquela expressão quase perfeita das relações
jurídicas derivadas da fase econômica que Marx
chama a "produção de mercadorias"; tão magistral
que esse código francês revolucionário serve ainda
hoje em todos os países - sem excetuar a
Inglaterra - de modelo para as reformas do direito
de propriedade. Mas, nem por isso devemos perder
de vista uma coisa. Embora o direito inglês
continue expressando as relações econômicas da
sociedade capitalista numa linguagem feudal
bárbara, que guarda com a coisa exprimida a mesma
relação que a ortografia com a fonética inglesa
“vous écrivez Londres et vous prononcez
Constantinople" , dizia um francês - esse direito
inglês é o único que conservou indene através dos
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