Hegel observa em uma de suas obras que
todos os fatos e personagens de grande importância
na história do mundo ocorrem, por assim dizer,
duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a
primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.
Caussidière por Danton, Luís Blanc por Robespierre,
a Montanha de 1845-1851 pela Montanha de
1793-1795, o sobrinho pelo tio. E a mesma
caricatura ocorre nas circunstâncias que
acompanham a segunda edição do Dezoito Brumário!
Os homens fazem sua própria história, mas não a
fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias
de sua escolha e sim sob aquelas com que se
defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo
passado. A tradição de todas as gerações mortas
oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E
justamente quando parecem empenhados em
revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo
que jamais existiu, precisamente nesses períodos
de crise revolucionária, os homens conjuram
ansiosamente em seu auxilio os espíritos do
passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os
gritos de guerra e as roupagens, a fim de
apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim,
Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a
Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente
como a república romana e como o império romano, e
a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do
que parodiar ora 1789, ora a tradição
revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica,
o principiante que aprende um novo idioma, traduz
sempre as palavras deste idioma para sua língua
natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar
para o passado e esquecer sua própria língua no
emprego da nova, terá assimilado o espírito desta
última e poderá produzir livremente nela.
O exame dessas conjurações de mortos da
história do mundo revela de pronto uma diferença
marcante. Camile Desmoulins, Danton, Robespierre,
Saint-Just, Napoleão, os heróis, os partidos e as
massas da velha Revolução Francesa, desempenharam
a tarefa de sua época, a tarefa de libertar e
instaurar a moderna sociedade burguesa, em trajes
romanos e com frases romanas. Os primeiros
reduziram a pedaços a base feudal e deceparam as
cabeças feudais que sobre ela haviam crescido.
Napoleão, por seu lado, criou na França as
condições sem as quais não seria possível
desenvolver a livre concorrência, explorar a
propriedade territorial dividida e utilizar as
forcas produtivas industriais da nação que tinham
sido libertadas; além das fronteiras da França ele
varreu por toda parte as instituições feudais, na
medida em que isto era necessário para dar à
sociedade burguesa da França um ambiente adequado
e atual no continente europeu. Uma vez
estabelecida a nova formação social, os colossos
antediluvianos desapareceram, e com eles a Roma
ressurrecta - os Brutus, os Gracos, os Publícolas,
os tribunos. os senadores e o próprio César. A
sociedade burguesa, com seu sóbrio realismo, havia
gerado seus verdadeiros intérpretes e porta-vozes
nos Says, Cousins, Royer-Coilards, Benjamm
Constants e Guizots; seus verdadeiros chefes
militares sentavam-se atrás das mesas de trabalho
e o cérebro de toucinho de Luís XVIII era a sua
cabeça política.
Inteiramente absorta na produção de riqueza
e na concorrência pacífica, a sociedade burguesa
não mais se apercebia de que fantasmas dos tempos
de Roma haviam velado seu berço. Mas, por menos
heróica que se mostre hoje esta sociedade, foi não
obstante necessário heroísmo, sacrifício, terror,
guerra civil e batalhas de povos para torná-la uma
realidade. E nas tradições classicamente austeras
da república romana, seu5 gladiadores encontraram
os ideais e as formas de arte, as ilusões de que
necessitavam para esconderem de si próprios as
limitações burguesas do conteúdo de suas lutas e
manterem seu entusiasmo no alto nível da grande
tragédia histórica. Do mesmo modo, em outro
estágio de desenvolvimento, um século antes,
Cromwell e o povo inglês haviam tomado emprestado
a linguagem, as paixões e as ilusões do Velho
Testamento para sua revolução burguesa. Uma vez
alcançado o objetivo real, uma vez realizada a
transformação burguesa da sociedade inglesa, Locke
suplantou Habacuc.
A ressurreição dos mortos nessas revoluções
tinha, portanto, a finalidade de glorificar as
novas lutas e não a de parodiar as passadas; de
engrandecer na imaginação a tarefa a cumprir, e
não de fugir de sua solução na realidade; de
encontrar novamente o espírito da revolução e não
de fazer o seu espectro caminhar outra vez.
De 1848 a 1851 o fantasma da velha
revolução anda em todos os cantos: desde Marrast,
o républicain en gants jaunes(1), que se disfarça
no velho Bailly, até o aventureiro de aspecto
vulgar e repulsivo que se oculta sob a férrea
máscara mortuária de Napoleão. Todo um povo que
pensava ter comunicado a si próprio um forte
impulso para diante, por meio da revolução, se
encontra de repente trasladado a uma época morta,
e para que não possa haver sombra de dúvida quanto
ao retrocesso, surgem novamente as velhas datas, o
velho calendário, os velhos nomes, os velhos
éditos que já se haviam tornado assunto de
erudição de antiquário, e os velhos esbirros da
lei que há muito pareciam defeitos na poeira dos
tempos. A nação se sente como aquele inglês louco
de Bedlam vivendo na época dos antigos faraós e
lamentando-se diariamente do trabalho pesado que
deve executar como garimpeiro nas minas de ouro da
Etiópia, emparedado na prisão subterrânea, uma
lâmpada de luz mortiça presa à testa, o feitor dos
escravos atrás dele com um longo chicote, e nas
saídas a massa confusa de mercenários bárbaros,
que não compreendem nem aos forçados das minas e
nem se entendem entre si, pois não falam uma
língua comum. "E me impuseram tudo isto" - suspira
o louco - "a mim, um cidadão inglês livre, para
que produza ouro para os faraós!" "Para que pague
as dívidas da família Bonaparte" - suspira a nação
francesa. O inglês, enquanto esteve em seu juízo
perfeito, não podia livrar-se da idéia fixa de
conseguir ouro. Os franceses, enquanto estiveram
empenhados em uma revolução, não podiam livrar-se
da memória de Napoleão, como provaram as eleições
de 10 de dezembro. Diante dos perigos da
revolução, ansiavam por voltar à abundância do
Egito; e o 2 de Dezembro de 1851 foi a resposta.
Não só fizeram a caricatura do velho Napoleão,
como geraram o próprio velho Napoleão
caricaturado, tal como deve aparecer
necessariamente em meados do século XIX.
A revolução social do século XIX não pode
tirar sua poesia do passado, e sim do futuro. Não
pode iniciar sua tarefa enquanto não se despojar
de toda veneração supersticiosa do passado. As
revoluções anteriores tiveram que lançar mão de
recordações da história antiga para se iludirem
quanto ao próprio conteúdo. A fim de alcançar seu
próprio conteúdo, a revolução do século XIX deve
deixar que os mortos enterrem seus mortos. Antes a
frase ia além do conteúdo; agora é o conteúdo que
vai além da frase.
A Revolução de Fevereiro foi um ataque de
surpresa, apanhando desprevenida a velha
sociedade, e o povo proclamou esse golpe
inesperado como um feito de importância mundial
que introduzia uma nova época. A 2 de dezembro, a
Revolução de Fevereiro é escamoteada pelo truque
de um trapaceiro, e o que parece ter sido
derrubado já não é a monarquia e sim as concessões
liberais que lhe foram arrancadas através de
séculos de luta. Longe de ser a própria sociedade
que conquista para si mesma um novo conteúdo, é o
Estado que parece voltar à sua forma mais antiga,
ao domínio desavergonhadamente simples do sabre e
da sotaina. Esta é a resta que dá ao coup de main(2)
de fevereiro de 1848 o coup de tête(3) de dezembro
de 1851. O que se ganha facilmente se entrega
facilmente. O intervalo de tempo, porém, não
passou sem proveito. Entre os anos de 1848 e 1851
a sociedade francesa supriu - e por um método
abreviado, por ser revolucionário - estudos e
conhecimentos que em um desenvolvimento regular,
de lição em lição, por assim dizer, teriam tido
que preceder a Revolução de Fevereiro se esta
devesse constituir mais do que um estremecimento
da superfície. A sociedade parece ter agora
retrocedido para antes do seu ponto de partida; na
realidade, somente hoje ela cria o seu ponto de
partida revolucionário, isto é, a situação, as
relações, as condições sem as quais a revolução
moderna não adquire um caráter sério.
As revoluções burguesas, como as do século
XVIII, avançam rapidamente de sucesso em sucesso;
seus efeitos dramáticos excedem uns aos outros; os
homens e as coisas se destacam como gemas
fulgurantes; o êxtase é o estado permanente da
sociedade; mas estas revoluções têm vida curta;
logo atingem o auge, e uma longa modorra se
apodera da sociedade antes que esta tenha
aprendido a assimilar serenamente os resultados de
seu período de lutas e embates. Por outro lado, as
revoluções proletárias, como as do século XIX, se
criticam constantemente a si próprias, interrompem
continuamente seu curso, voltam ao que parecia
resolvido para recomeçá-lo outra vez, escarnecem
com impiedosa consciência as deficiências,
fraquezas e misérias de seus primeiros esforços,
parecem derrubar seu adversário apenas para que
este possa retirar da terra novas forças e
erguer-se novamente, agigantado, diante delas,
recuam constantemente ante a magnitude infinita de
seus próprios objetivos até que se cria uma
situação que toma impossível qualquer retrocesso e
na qual as próprias condições gritam:
Hic Rhodus, hic salta!
Aqui está Rodes, salta aqui!
Quanto ao resto, qualquer observador medianamente
competente, mesmo que não tivesse seguido passo a
passo a marcha dos acontecimentos na França, deve
ter pressentido que a revolução estava fadada a um
terrível fiasco. Bastava ouvir os jactanciosos
latidos de vitória com que os senhores democratas
se congratulavam pelas conseqüências milagrosas
que esperavam dos acontecimentos do segundo
domingo de maio de 1852. O segundo domingo de maio
de 1852 tornara-se em suas cabeças uma idéia fixa,
um dogma, como na cabeça dos quiliastas o dia em
que Cristo deveria ressurgir e que assinalaria o
começo da era milenar. Como sempre, a fraqueza se
refugiara na crença nos milagres, imaginava o
inimigo vencido, quando tinha sido afastada apenas
em imaginação, e perdia toda compreensão do
presente em uma glorificação passiva do que o
futuro reservava e dos feitos que guardava in
petto mas que não considerava oportuno revelar
ainda. Os heróis que procuram refutar sua
comprovada incapacidade oferecendo-se apoio mútuo
e reunindo-se em um bloco haviam amarrado suas
trouxas, recolhido suas coroas de louros
adquiridas a crédito e estavam nesse momento
empenhados em descontar no mercado de letras de
cambio as repúblicas in partibus para as quais já
tinham, no silêncio de suas almas modestas,
previdentemente organizado o corpo governamental.
O 2 de Dezembro os surpreendeu como um raio em céu
azul e os povos que, em períodos de depressão
pusilânime, deixam de boa vontade sua apreensão
anterior ser afogada pelos que gritam mais alto,
terão talvez se convencido de que já se foi o
tempo em que o grasnar dos gansos podia salvar o
Capitólio.
A Constituição, a Assembléia Nacional, os
partidos dinásticos, os republicanos azuis e
vermelhos, os heróis da África, o trovão vibrado
da tribuna, a cortina de relâmpagos da imprensa
diária, toda a literatura, os políticos de renome
e os intelectuais de prestígio, o código civil e o
código penal, a liberte, égalité, fraternité e o
segundo domingo de maio de 1852 - tudo
desaparecera como uma fantasmagoria diante da
magia de um homem no qual nem seus inimigos
reconhecem um mágico. O sufrágio universal parece
ter sobrevivido apenas por um momento, a fim de
fazer, de próprio punho, o seu último testamento
perante os olhos do mundo inteiro e declarar em
nome do próprio povo: Tudo o que existe merece
perecer.
Não é suficiente dizer, como fazem os
franceses, que a nação fora tomada de surpresa.
Não se perdoa a uma nação ou a uma mulher o
momento de descuido em que o primeiro aventureiro
que se apresenta as pode violar. O enigma não é
solucionado por tais jogos de palavras; é apenas
formulado de maneira diferente. Não se conseguiu
explicar ainda como uma nação de 36 milhões de
habitantes pôde ser surpreendida e entregue sem
resistência ao cativeiro por três cavalheiros de
indústria.
Recapitulemos em linhas gerais as fases que
atravessou a revolução francesa de 24 de fevereiro
de 1848 a dezembro de 1851.
Três períodos principais se destacam: o
período de fevereiro; de 4 de maio de 1848 a 28 de
maio de 1849, o período da Constituição da
República, ou da Assembléia Nacional Constituinte;
de 28 de maio de 1849 a 2 de dezembro de 1851, o
período da República Constitucional ou da
Assembléia Nacional Legislativa.
O primeiro período, de 24 de fevereiro -
data da queda de Luís Filipe - até 4 de maio de
1848 - data da instalação da Assembléia
Constituinte ou seja, o período de fevereiro
propriamente dito, pode ser chamado o prólogo da
revolução. Seu caráter foi oficialmente expressado
pelo fato de que o governo por ele improvisado
apresentou-se como um governo provisório e, assim
como o governo, tudo que era proposto, tentado ou
enunciado durante esse período era proclamado
apenas provisório. Nada e ninguém se atrevia a
reclamar para si o direito de existência ou de
ação real. Todos os elementos que haviam preparado
ou feito a revolução - a oposição dinástica, a
burguesia republicana, a pequena burguesia
democrático-republicana e os trabalhadores
social-democratas - encontram provisoriamente seu
lugar no governo de fevereiro.
Não podia ser de outra maneira. O objetivo
inicial das jornadas de fevereiro era uma reforma
eleitoral, pela qual seria alargado o círculo dos
elementos politicamente privilegiados da própria
classe possuidora e derrubado o domínio exclusivo
da aristocracia financeira. Quando estalou o
conflito de verdade, porém, quando o povo levantou
as barricadas, a Guarda Nacional manteve uma
atitude passiva, o exército não ofereceu nenhuma
resistência séria e a monarquia fugiu, a república
pareceu ser a seqüência lógica. Cada partido a
interpretava a seu modo. Tendo-a conquistado de
armas na mão, o proletariado imprimiu-lhe sua
chancela e proclamou-a uma república social.
Indicava-se, assim, o conteúdo geral da revolução
moderna, conteúdo esse que estava na mais singular
contradição com tudo que, com o material
disponível, com o grau de educação atingido pelas
massas, dadas as circunstâncias e condições
existentes, podia ser imediatamente realizado na
prática. Por outro lado, as pretensões de todos os
demais elementos que haviam colaborado na
Revolução de Fevereiro foram reconhecidas na parte
de leão que obtiveram no governo. Em nenhum
período, portanto, encontramos uma mistura mais
confusa de frases altissonantes e efetiva
incerteza e imperícia, aspirações mais entusiastas
de inovação e um domínio mais arraigado da velha
rotina, maior harmonia aparente em toda a
sociedade e mais profunda discordância entre seus
elementos. Enquanto o proletariado de Paris
deleitava-se ainda ante a visão das amplas
perspectivas que se abriam diante de si e se
entregava a discussões sérias sobre os problemas
sociais, as velhas forças da sociedade se haviam
agrupado, reunido, concertado e encontrado o apoio
inesperado da massa da nação: os camponeses e a
pequena burguesia, que se precipitaram de golpe
sobre a cena política depois que as barreiras da
monarquia de julho caíram por terra.
O segundo período, de 4 de maio de 1848 até
fins de maio de 1849, é o período da constituição,
da fundação da república burguesa.
Imediatamente após as jornadas de fevereiro
não só viu-se a oposição dinástica surpreendida
pelos republicanos, e estes pelos socialistas,
como toda a França foi surpreendida por Paris. A
Assembléia Nacional, que se reunira a 4 de maio de
1848, sendo o resultado de eleições nacionais,
representava a nação. Era um protesto vivo contra
as presunçosas pretensões das jornadas de
fevereiro e devia reduzir os resultados da
revolução à escala burguesa. O proletariado de
Paris, que compreendeu imediatamente o caráter
dessa Assembléia Nacional, tentou em vão, a 15 de
maio, poucos dias depois de sua instalação, anular
pela força a sua existência, dissolvê-la,
desintegrar novamente em suas partes componentes,
o organismo por meio do qual o ameaçava o espírito
reacionário da nação. Como se sabe, o 15 de Maio
não teve outro resultado senão o de afastar
Bianqui e seus camaradas, isto é, os verdadeiros
dirigentes do partido proletário da cena pública
durante todo o ciclo que estamos considerando.
À monarquia burguesa de Luís Filipe só pode
suceder uma república burguesa, ou seja, enquanto
um setor limitado da burguesia governou em nome do
rei, toda a burguesia governará agora em nome do
povo. As reivindicações do proletariado de Paris
são devaneios utópicos, a que se deve por um
paradeiro. A essa declaração da Assembléia
Nacional Constituinte o proletariado de Paris
respondeu com a Insurreição de junho, o
acontecimento de maior envergadura na história das
guerras civis da Europa. A república burguesa
triunfou. A seu lado alinhavam-se a aristocracia
financeira, a burguesia industrial, a classe
média, a pequena burguesia, o exército, o lúmpen
proletariado organizado em Guarda Móvel, os
intelectuais de prestígio, o clero e a população
rural. Do lado do proletariado de Paris não havia
senão ele próprio. Mais de três mil insurretos
foram massacrados depois da vitória e quinze mil
foram deportados sem julgamento. Com essa derrota
o proletariado passa para o fundo da cena
revolucionária. Tenta readquirir o terreno perdido
em todas as oportunidades que se apresentam,
sempre que o movimento parece ganhar novo impulso,
mas com uma energia cada vez menor e com
resultados sempre menores. Sempre que uma das
camadas sociais superiores entra em efervescência
revolucionária o proletariado alia-se a ela e,
consequentemente, participa de todas as derrotas
sofridas pelos diversos partidos, umas depois das
outras. Mas esses golpes sucessivos perdem sua
intensidade à medida que aumenta a superfície da
sociedade sobre a qual são distribuídos. Os
dirigentes mais importantes do proletariado na
Assembléia e na imprensa caem sucessivamente,
vítima dos tribunais, e figuras cada vez mais
equívocas assumem a sua direção. Lança-se em parte
a experiências doutrinárias, bancos de intercâmbio
e associações operárias, ou seja, a um movimento
no qual renuncia a revolucionar o velho mundo com
ajuda dos grandes recursos que lhe são próprios, e
tenta, pelo contrário, alcançar sua redenção
independentemente da sociedade, de maneira
privada, dentro de suas condições limitadas de
existência, e, portanto, tem por força que
fracassar. Parece incapaz de descobrir novamente
em si a grandeza revolucionária ou de retirar
novas energias no vínculos que criou, até que
todas as classes contra as quais lutou em junho
estão, elas próprias, prostradas ao seu lado. Mas
pelo menos sucumbe com as honras de uma grande
luta histórico-universal; não só a França mas toda
a Europa treme diante do terremoto de junho, ao
passo que as sucessivas derrotas das classes mais
altas custam tão pouco que só o exagero descarado
do partido vitorioso pode fazê-las passar por
acontecimentos, e são tanto mais ignominiosas
quanto mais longe do proletariado está o partido
derrotado.
A derrota dos insurretos de junho preparara
e aplainara, indubitavelmente, o terreno sobre a
qual a república burguesa podia ser fundada e
edificada, mas demonstrara ao mesmo tempo que na
Europa as questões em foco não eram apenas de
"república ou monarquia".
Revelara que aqui república burguesa
significava o despotismo ilimitado de uma classe
sobre as outras. Provara que em países de velha
civilização, com uma estrutura de classes
desenvolvida, com condições modernas de produção,
e com uma consciência intelectual na qual todas as
idéias tradicionais se dissolveram pelo trabalho
de séculos - a república significava geralmente
apenas a forma política da revolução da sociedade
burguesa e não sua forma conservadora de vida,
como por exemplo nos Estados Unidos da América,
onde, embora já existam classes, estas ainda não
se fixaram, trocando ou permutando continuamente
os elementos que as constituem em um fluxo
contínuo, onde os modernos meios de produção, em
vez de coincidir com uma superpopulação crônica,
compensam, pelo contrário, a relativa escassez de
cabeças e de braços, e onde, finalmente, o febril
movimento juvenil da produção material, que tem um
novo mundo para conquistar, não deixou nem tempo
nem oportunidade de abolir a velha ordem de
coisas.
Durante as jornadas de junho todas as
classes e partidos se haviam congregado no partido
da ordem, contra a classe proletária, considerada
como o partido da anarquia, do socialismo, do
comunismo. Tinham "salvo" a sociedade dos
"inimigos da sociedade". Tinham dado como senhas a
seu exércitos as palavras de ordem da velha
sociedade - "propriedade, família, religião, ordem
- e proclamado aos cruzados da contra-revolução:
"Sob este signo Vencerás" A partir desse instante,
tão logo um dos numerosos partidos que se haviam
congregado sob esse signo contra os insurretos de
junho tenta assenhorear-se do campo de batalha
revolucionário em seu próprio interesse de classe,
sucumbe ante o grito: "Propriedade, família
religião, ordem." A sociedade é salva tantas vezes
quantas se contrai o círculo de seus dominadores e
um interesse mais exclusivo se impõe ao mais
amplo. Toda reivindicação ainda que da mais
elementar reforma financeira burguesa, do
liberalismo mais corriqueiro, do republicanismo
mais formal, da democracia mais superficial, é
simultaneamente castigada como um "atentado à
sociedade" e estigmatizada como "socialismo". E,
finalmente, os próprios pontífices da "religião e
da ordem" são derrubados a pontapés de seus
trípodes píticos, arrancados de seus leitos na
calada da noite, atirados em carros celulares,
lançados em masmorras ou mandados para o exílio;
seu templo é totalmente arrasado, suas bocas
trançadas, suas penas quebradas, sua lei reduzida
a frangalhos em nome da religião, da propriedade,
da família e da ordem. Os burgueses fanáticos pela
ordem são mortos a tiros nas sacadas de suas
janelas por bandos de soldados embriagados, a
santidade dos seu lares é profanada, e suas casas
são bombardeadas como diversão em nome da
propriedade, da família, da religião e da ordem.
Finalmente, a ralé da sociedade burguesa constitui
a sagrada falange da ordem e o herói Crapulinski
se instala nas Tulherias como o "salvador da
sociedade".
Capítulo II
Retomemos o fio dos acontecimentos.
A história da Assembléia Nacional
Constituinte a partir das jornadas de junho é a
história do domínio e da desagregação da fração
republicana da burguesia, da fração conhecida
pelos nomes de republicanos tricolores,
republicanos puros, republicanos políticos,
republicanos formalistas etc.
Sob a monarquia burguesa de Luís Filipe
essa fração formara a oposição republicana oficial
e era, consequentemente, parte integrante
reconhecida do mundo político de então. Tinha seus
representantes nas Câmaras e uma considerável
esfera de ação na imprensa. Seu órgão parisiense,
o National, era considerado tão respeitável, em
seu gênero, como o Journal des Débats. Seu caráter
correspondia à posição que ocupava sob a monarquia
constitucional. Não era uma fração da burguesia
unida por grandes interesses comuns e destacadas
das outras por condições específicas de produção.
Era um grupo de burgueses de idéias republicanas -
escritores, advogados, oficiais e funcionários de
categoria que deviam sua influência às antipatias
pessoais do país contra Luís Filipe, à memória da
velha república, à fé republicana de um grupo de
entusiastas, e sobretudo ao nacionalismo francês,
cujo ódio aos acordos de Viena e à aliança com a
Inglaterra eles atiçavam constantemente.
Grande parte dos partidários com que
contava o National durante o governo de Luís
Filipe eram devidos a esse imperialismo camuflado,
que pôde consequentemente enfrentá-lo mais tarde,
durante a república, como um inimigo mortal na
pessoa de Luís Bonaparte. Combatia a aristocracia
financeira da mesma forma que todo o resto da
oposição burguesa. As polêmicas contra o
orçamento, que estavam, na França, estreitamente
ligadas à luta contra a aristocracia financeira,
proporcionavam uma popularidade demasiado barata e
material para editoriais puritanos demasiado
abundante para não ser explorado. A burguesia
industrial estava-lhe agradecida por sua servil
defesa do sistema protecionista francês, que ele
aceitava, porém, mais por razões nacionais do que
no interesse da economia nacional; a burguesia,
como um todo, estava-lhe agradecida por suas
torpes denúncias contra o comunismo e o
socialismo. Quanto ao mais, o partido do National
era puramente republicano, ou seja, exigia que a
dominação burguesa adotasse formas republicanas ao
invés de monárquicas e, principalmente, exigia a
parte do leão nesse domínio. Relativamente às
condições dessa transformação não tinha um plano
claro de ação. O que, pelo contrário, parecia-lhe
claro como a luz do dia e era publicamente
admitido nos banquetes reformistas dos últimos
tempos do reinado de Luís Filipe era a sua
impopularidade entre os democratas pequenos
burgueses e, em particular, perante o proletariado
revolucionário. Esses republicanos puros - os
republicanos puros são assim - estavam já a ponto
de se contentar no momento com a regência da
duquesa de Orléans, quando irrompeu a Revolução de
Fevereiro e seus representantes mais conhecidos
foram apontados para postos no Governo Provisório.
Desde o início contavam, naturalmente, com o apoio
da burguesia e com a maioria na Assembléia
Nacional Constituinte, elementos socialistas do
Governo Provisório foram imediatamente excluídos
da Comissão Executiva formada pela Assembléia
Nacional por ocasião de sua instalação, e o
partido do National aproveitou a deflagração da
insurreição de junho para dissolver também a
Comissão Executiva, e livrar-se assim de seus
rivais mais próximos, os republicanos pequenos
burgueses ou republicanos democratas (Ledru-Rollin
etc.). Cavaignac o general do partido republicano
burguês que comandara a batalha de junho, tomou o
lugar da Comissão Executiva, com poderes quase
ditatoriais. Marrast, ex-redator-chefe do National,
tornou-se o presidente perpétuo da Assembléia
Nacional Constituinte, e os ministérios, bem como
todos os demais postos importantes, caíram em mãos
dos republicanos puros.
A fração republicano-burguesa, que há muito
se considerava a herdeira legítima da monarquia de
julho, viu assim excedidas suas mais caras
esperanças; alcançou o poder, não, porém, como
sonhara, sob o governo de Luís Filipe, através de
uma revolta liberal da burguesia contra o trono, e
sim através de um levante do proletariado contra o
capital, levante esse que foi sufocado a tiros de
canhão. O que imaginara como o acontecimento mais
contra-revolucionário. O fruto caiu-lhe nas mãos,
mas caído da árvore do conhecimento e não da
árvore da vida.
O domínio exclusivo dos republicanos
burgueses durou apenas de 24 de junho a 10 de
dezembro de 1848. Resumiu-se na elaboração da
Constituição republicana e na proclamação do
estado de sítio em Paris.
A nova Constituição era, no fundo, apenas a
reedição, em forma republicana, da Carta
constitucional de 1830. O limitado cadastro
eleitoral da monarquia de julho, que excluía do
domínio político mesmo uma grande parte da
burguesia, era incompatível com a existência da
república burguesa. Em vez dessas restrições, a
Revolução de Fevereiro proclamara imediatamente o
sufrágio universal e direto. Os republicanos
burgueses não puderam desfazer esse ato. Tiveram
que contentar-se com acrescentar uma cláusula
instituindo a obrigatoriedade de pelo menos seis
meses de residência no distrito eleitoral. A velha
organização da administração, do sistema
municipal, do sistema jurídico, militar etc.,
permaneceu intacta ou, onde foi modificada pela
Constituição, a modificação atingia o rótulo, não
o conteúdo, o nome, não a coisa em si.
O inevitável estado-maior das liberdades de
1848, a liberdade pessoal, as liberdades de
imprensa, de palavra, de associação de reunião, de
educação, de religião etc., receberam um uniforme
constitucional que as fez invulneráveis. Com
efeito, cada uma dessas liberdades é proclamada
como direito absoluto do cidadão francês, mas
sempre acompanhada da restrição à margem, no
sentido de que é ilimitada desde que não esteja
limitada pelos "direitos iguais dos outros e pela
segurança pública" ou por "leis" destinadas a
restabelecer precisamente essa harmonia das
liberdades individuais entre si e com a segurança
pública. Por exemplo:
"Os cidadãos gozam do direito de
associação, de reunir-se pacificamente e
desarmados, de formular petições e de expressar
suas opiniões, quer pela imprensa ou por qualquer
outro modo. O gozo desses direitos não sofre
qualquer restrição, salvo as impostas pelos
direitos iguais dos outros e pela segurança
pública. (Capítulo II, § 8, da Constituição
Francesa.) "O ensino é livre. A liberdade de
ensino será exercida dentro das condições
estabelecidas pela lei e sob o supremo controle do
Estado.
" (Ibidem, § 9.) "O domicílio de todos os
cidadãos é inviolável, exceto nas condições
prescritas na lei." (Capítulo II, § 3.) Etc. etc.
A Constituição, por conseguinte, refere-se
constantemente a futuras leis orgânicas que
deverão pôr em prática aquelas restrições e
regular o gozo dessas liberdades irrestritas de
maneira que não colidam nem entre si nem com a
segurança pública. E mais tarde essas leis
orgânicas foram promulgadas pelos amigos da ordem
e todas aquelas liberdades foram regulamentadas de
tal maneira que a burguesia no gozo delas, se
encontra livre de interferência por parte dos
direitos iguais das outras classes. Onde são
vedadas inteiramente essas liberdades "aos outros"
ou permitido o seu gozo sob condições que não
passam de armadilhas policiais, isto é feito
sempre apenas no interesse da "segurança pública",
isto é, da segurança da burguesia, como prescreve
a Constituição. Como resultado, ambos os lados
invocam devidamente, e com pleno direito, a
Constituição: os amigos da ordem, que ab-rogam
todas essas liberdades, e os democratas, que as
reivindicam. Pois cada parágrafo da Constituição
encerra sua própria antítese, sua própria Câmara
Alta e Câmara Baixa, isto é, liberdade na frase
geral, ab-rogação da liberdade na nota à margem.
Assim, desde que o nome da liberdade seja
respeitado c impedida apenas a sua realização
efetiva - de acordo com a lei, naturalmente - a
existência constitucional da liberdade permanece
intacta, inviolada, por mais mortais que sejam os
golpes assestados contra sua existência na vida
real.
Esta Constituição, tornada inviolável de
maneira tão engenhosa, era, contudo, como Aquiles,
vulnerável em uni ponto; não no calcanhar, mas na
cabeça, ou por outra, nas duas cabeças em que se
constituiu: de um lado, a Assembléia Legislativa,
de outro, o Presidente. Um exame da Constituição
revelará que só os parágrafos onde é definida a
relação do Presidente com a Assembléia Legislativa
são absolutos, positivos, não contraditórios, e
sem tergiversação possível. Pois os republicanos
burgueses tratavam, aqui, de garantir sua posição.
Os parágrafos 45 a 70 da Constituição acham-se
redigidos de tal maneira que a Assembléia Nacional
tem poderes constitucionais para afastar o
Presidente, ao passo que este só
inconstitucionalmente pode dissolver a Assembléia
Nacional, suprimindo a própria Constituição. Ela
mesma provoca, portanto, a sua violenta
destruição. Não só consagra a divisão dos poderes,
tal como a Carta de 1830, como a amplia a ponto de
transformá-la em uma contradição insustentável. O
jogo dos poderes constitucionais, como Guizot
denominava as contendas parlamentares entre o
Poder Legislativo e o Executivo, é, na
Constituição de 1848, constantemente jogado
va-banquenot4. De um lado estão 750 representantes
do povo, eleitos por sufrágio universal e
reelegíveis; constituem uma Assembléia Nacional
incontrolável, indissolúvel, indivisível, uma
Assembléia Nacional que desfruta de onipotência
legislativa, decide em última instância sobre as
questões de guerra, de paz e tratados comerciais,
possui, só ela, o direito de anistia e, por seu
caráter permanente, ocupa perpetuamente o
proscênio. Do outro lado está o Presidente, com
todos os atributos do poder real, com autoridade
para nomear e exonerar seus ministros
independentemente da Assembléia Nacional, com
todos os recursos do Poder Executivo em suas mãos,
distribuindo todos os postos e dispondo, assim, na
França, da existência de pelo menos um milhão e
meio de pessoas, pois tantos são os que dependem
das 500 mil autoridades e funcionários de todas as
categorias. Tem atrás de si todo o poder das
forças armadas. Goza do privilégio de conceder
indulto individual aos criminosos, suspender a
Guarda Nacional, destruir, com o beneplácito do
Conselho de Estado, os conselhos gerais, cantonais
e municipais eleitos pelos próprios cidadãos. A
iniciativa e a direção de todos os tratados com
países estrangeiros são faculdades reservadas a
ele. Enquanto a Assembléia permanece
constantemente em cena exposta às críticas da
opinião pública, o Presidente leva uma vida oculta
nos Campos Elíseos, com o Artigo 45 da
Constituição diante dos olhos e gravado no
coração, a gritar-lhe diariamente: Frére, il faut
mourir!(5) Teu poder cessa no segundo domingo do
lindo mês de maio, no quarto ano após a tua
eleição! Tua glória terminará então, a peça não é
representada duas vezes, e se tens dívidas, cuida
a tempo de saldá-las com os 600 mil francos que a
Constituição te concede, a menos que prefiras ser
recolhido a Clichy na segunda-feira seguinte ao
segundo domingo do lindo mês de maio! - Assim,
enquanto a Constituição outorga poderes efetivos
ao Presidente, procura garantir para a Assembléia
Nacional o poder moral. À parte o fato de que é
impossível criar um poder moral mediante os
parágrafos de uma lei, a Constituição mais uma vez
se anula ao dispor que o Presidente seja eleito
por todos os franceses, através do sufrágio
direto. Enquanto os votos da França são divididos
entre os 750 membros da Assembléia Nacional, são
aqui, pelo contrário, concentrados em um único
indivíduo. Enquanto cada representante do povo
representa apenas este ou aquele partido, esta ou
aquela cidade esta ou aquela cabeça de ponte, ou
até mesmo a mera necessidade de eleger algum dos
750 candidatos, sem levar na devida consideração
nem a causa nem o homem, ele é o eleito da nação e
o ato de sua eleição é o trunfo que o povo
soberano lança uma vez em cada quatro anos. A
Assembléia Nacional eleita está em relação
metafísica com a Nação ao passo que o Presidente
eleito está em relação pessoal com ela. A
Assembléia Nacional exibe realmente, em seus
representantes individuais, os múltiplos aspectos
do espírito nacional, enquanto no Presidente esse
espírito nacional encontra a sua encarnação. Em
comparação com a Assembléia ele possui uma espécie
de direito divino; é Presidente pela graça do
povo.
Tétis, a deusa do mar, profetizara a
Aquiles que ele morreria na flor da juventude. A
Constituição que, como Aquiles, tinha seu ponto
fraco, tinha também como Aquiles o pressentimento
de que morreria cedo. Bastava que os republicanos
puros empenhados na elaboração da Constituição
baixassem o olhar do paraíso de sua república
ideal e olhassem este mundo profano, para
perceberem como a arrogância dos monarquistas, dos
bonapartistas, dos democratas, dos comunistas, bem
como seu próprio descrédito, cresciam diariamente
à medida que sua grande obra de arte legislativa
chegava ao término, sem que para isso Tétis
tivesse que sair do mar e vir comunicar-lhes o seu
se