Editorial

12 de Abril de 2013 - 15h33

O preço do tomate, a inflação e a especulação financeira


A inflação de março deste ano, que chegou a 6,59% em 12 meses, acirrou o clamor especulativo pela alta nos juros. Clamor que exagera o problema representado pela alta nos preços, que é real e concreto, e tenta colocar uma faca na garganta das autoridades monetárias exigindo uma política econômica restritiva e conservadora, bem ao gosto dos dogmas neoliberais ainda presentes.

Neste debate a disputa política, que a aparência técnica dos argumentos apresentados esconde, revela sua natureza de embate pela apropriação da riqueza nacional.

O argumento conservador repete a mesma ladainha de sempre. Com a diferença de que, agora, não se trata do mantra que no passado era usado para legitimar políticas econômicas contracionistas e antidesenvolvimentistas. A pretexto de combater a alta dos preços, aquelas políticas favoreciam os ganhos da especulação financeira, alavancavam a concentração de renda numa ponta e o arrocho salarial e a restrição ao consumo na outra, jogando o custo do combate à inflação sobre os ombros dos trabalhadores e do povo.

Nos últimos anos, com os avanços obtidos nos governos Lula e Dilma, os argumentos conservadores são usados agora para combater, e tentar reverter, as políticas de valorização do trabalho e do salário e distribuição de renda.

O diagnóstico feito por uma analista da consultoria Tendências - que tem entre seus sócios dois pesos pesados do conservadorismo e do neoliberalismo: Mailson da Nóbrega e Gustavo Loyola - é claro nesse sentido. Ela coloca entre as causas da inflação a melhoria no mercado de trabalho e no emprego, a recuperação dos salários e o aumento da renda dos trabalhadores, que fortalecem o consumo popular. Sua conclusão é óbvia: já passou da hora do Banco Central subir a taxa de juros, diz aquela analista.

Este é um exemplo didático daquilo que foi indicado pelo professor de economia Luiz Gonzaga Belluzzo em entrevista ao jornal Correio Braziliense: a “obsessão de analistas e da imprensa em cobrar uma alta de juros virou uma doença, um samba de nota só, uma visão de prazo curtíssimo”.

Outro aspecto que move o coro dos especuladres que exigem a alta dos juros - coro que usa a inflação como pretexto para isso - está na notícia, divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo, segundo a qual apenas duas opções de risco de investimento financeiro tiveram ganhos acima da inflação nos primeiros meses deste ano. Todas as demais modalidades - entre elas investimentos de curto prazo, renda fixa, CDB, poupança e ações - tiveram rendimentos inferiores à inflação.

Entre os motivos para essa situação analistas alinham a inflação e a taxa básica de juros mantida pelo Banco Central no nível de 7,25% ao ano.

O objetivo dos especuladores e seus porta-vozes é o “samba de uma nota só” apontado por Belluzzo: forçar o governo a abandonar o esforço pela queda nos juros, que afronta os interesses da especulação financeira. E voltar a uma politica de arrocho salarial, redução dos gastos públicos e contenção do consumo.

Convém frisar: não se trata de técnica ou de ciência econômica, mas de disputa política pela apropriação de fatias cada vez maiores da riqueza nacional. Aos especuladores não importa o crescimento da economia ou o bem estar dos brasileiros, mas apenas a satisfação de velhos privilégios que, pela primeira vez em décadas são contrariados pela política econômica do governo federal. Os resultados dessa política podem ser vistos no anunciado fracasso de aplicações financeiras que sempre foram o dreno que engordava as contas bancárias da especulação.

Afinal, com a dívida pública interna nas alturas dos 2,8 trilhões de reais em dezembro de 2012 e a dívida externa batendo em 441,8 bilhões de dólares na mesma data, qualquer pequena variação na taxa de juros significa montanhas de dinheiro transferidas para os bolsos dos especuladores.

Um aumento de 0,5% (meio por cento) na taxa de juros pode gerar uma transferência de 14 bilhões de reais mais 2,2 bilhões de dólares aos especuladores (cada 0,1% de variação na taxa de juros significa 2,8 bilhões de reais e 441,8 milhões de dólares em benefício da ganância financeira). Esta é a questão real e concreta que o debate sobre o preço do tomate esconde.
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