O Grito ecoou

Parecia que tudo ia dar errado! Negação do pedido da escola, redução nos materiais do encontro de grafiteiros, faixas de divulgação atrasadas, cartazes e panfletos entregues em cima da hora, nuvens trazendo chuvas periodicamente e etc. Isso tudo em um pro

Antes de começar deixo meus agradecimentos ao patrocinador oficial e também deixo minhas cobranças em presença de participação, mas se o objetivo era não mostrar a cara… Funcionou.

Não vi, morro cadeado, firmão me deixa ir, quem né visto, né lembrado! Racionais mc´s

Mãos a obra
Chega o dia. Afinal todos aguardavam o tão adiado Grito. Nois  mais ainda. Na noite anterior ainda colava cartazes e entregava panfletos com a ajuda dos manos: Marsílio, Adriano e Toni C. – esse ultimo foi convidado para palestrar, mas olha onde foi parar… Ainda no dia anterior negociamos com outra escola da comunidade para sediar as oficinas e debates. Obrigado coordenação da EMEF Laonte Gama – sem palavras – vocês são testemunhas do sucesso do Ato.

O Grito ficou dividido em três fases. A primeira  e a segunda contavam com uma inscrição prévia de pessoas e esses seriam os alunos da escola “Vitória de Santa Maria”  – local sede – que foi negada aos 45 do segundo tempo, quebrando assim todo cronograma do projeto, certo? Errado! Corremos muito pra garantir as oficinas e os debates para aquela comunidade.

Valeu aos que correram nessa empreitada. O que levou aos solicitados negar um pedido de liberação duma Escola? Afinal as escolas, hoje não são espaços para trazer alunos e comunidades nos finais de semana? E não é de hoje que escuto que o ensino público vem buscando mecanismos para aproximar-se mais dos alunos. Isso me leva crer em dois possíveis empecilhos, primeiro: o projeto é do Movimento Hip-Hop e segundo: o bairro é o Santa Maria – considerado o mais violento da cidade. É “tio” por isso devem ter negado o pedido embora ele tenha sido endossado pela instituição patrocinadora que tem suas ligações políticas.

Primeiro me deixa  antecipar umas coisas… Quando pensamos no Grito da Periferia pro bairro Santa Maria isso causou frisson! Tanto para os envolvidos internos e externos pensaram em um barril de pólvora! Mas pensamos algo que não fosse apropriação de área. Sempre o que foi oferecido naquela comunidade foram atividades pontuais com objetivos mais de tirar do que acrescentar pra comunidade. . Pensamos algo para estimular o protagonismo juvenil (né assim que ceis falam) e todo o projeto foi pensado para valorizar a escola como espaço sadio para os jovens se organizarem: valorização do ensino como ferramenta de transformação. Mas sou bobo mesmo, imagina se eles vão deixar que o hip-hop seja o fio condutor duma mudança de comportamento utilizando a escola pra isso! Esse egocentrismo só afastou “oceis” dos humildes, mas deixa quieto!

– Mano, no Santa Maria é embaçado…
– é melhor contratarmos seguranças particulares…
– não vou sem meus aliados de grupos…
– ainda é tempo de trocar de área…

Dos externos até alivio. Embora tudo caminhasse para o fracasso tínhamos alguém mais forte nos dando a mão: DEUS e num largou um só segundo.

Plano b

Pela manha, reunimos os grafiteiros para definir uma estratégia de ação na comunidade, afinal tínhamos que cumprir com o acordado. Decidimos conversar com a comunidade para liberar paredes das casas ou muros ociosos. Xeque mate!  – passa lá e vê o que e a escola perdeu. Tendo outra escola como sede tivemos que agremiar a este plano os alunos do projeto Escola Aberta. (a outra devia seguir o mesmo caminho…). Os alunos de capoeira num sentiram dificuldade alguma em dançar Break Dance com os B. boys Adriano e David e nem ficaram calados quando viram microfones plugados a uma mesa com dois toca-discos. Resultado: muito rap. Um verdadeiro workshop foi montado e não faltaram curiosos.

À tarde, das quatro mesas de debates pelo menos uma tínhamos (os organizadores) que manter, pois tratava-se dum debate muito peculiar a esses manos e manas e se isso não acontecesse me sentiria frustrado. Tratava-se da redução da maior idade penal e a esse momento agradeço especialmente a uma tia que tem um coração doce e justo: tia Fátima Lopes – Psicóloga do CREAS – que palestrou na faixa. “Somo-me a vocês nesta grande luta Nação Hip-Hop Brasil, vocês na rua é rua consciente”, disse ela.

Aproveitamos ainda para fazer uma reunião dirigida por Aliado G e Toni C sobre a construção da Nação Hip-Hop Brasil em Aracaju-SE.

E chega a noite, assim como falei antes umas pancadas de chuvas amedrontavam os organizadores (eu sou um deles), mas a chuva caiu mais ou menos até as 20h10minh e depois veio a estiada que tanto esperávamos. Começava então o dilema:
– Pronto quando o grupo tocar vai rolar briga e aí o bicho pega!
– Ô tiuzão se oce prévio isso cum mãe Diná, jow ela deu milho em oce, zé! Aqui a festa é prus manos e tal… num tem treta nessa festa!

Todos os grupos tocaram pra um publico aproximado em 3.000 pessoas sem nenhum registro de agressão se quer o que se viu foi um abraço coletivo pra tristeza do sistema que queriam corpos na cadeia ou no cemitério no outro dia. A noite foi encerrada por nada mais nada menos que o mano Aliado G do Face da Morte nas pick up’s tocando em quanto os B.boys dançavam no palco e diga-se de passagem o mano representou!

Do dia do evento pra hoje são seis dias e não recebi nenhuma pedrada na rua pelo contrário me perguntam quando faremos à segunda edição do Grito da Periferia, isso prova que a comunidade não foi violada como nos trios em épocas de eleição: o grito ecoou…

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