
Pode uma obra viária ser duramente criticada em editorial por um jornal, que a qualifica de projeto extravagante e desnecessário, e três anos depois, na sua inauguração, receber os maiores elogios deste mesmo veículo de comunicação? Se esse jornal é a Folha de S. Paulo, isso não só pode acontecer como se tornou realidade, na semana passada, na inauguração da ponte estaiada sobre o rio Pinheiros, na Zona Sul, batizada de Octávio Frias de Oliveira, nome do falecido dono do jornal.
A incoerência da Folha foi revelada pelo blogueiro Luis Favre em
post
publicado no Blog Leituras Favre (http://blogdofavre.ig.com.br/).
Há três anos, em 13 de maio de 2005, editorial da Folha (veja íntegra
no final da matéria) atacava a construção da ponte,
contratada na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, do PT. Dizia o jornal, na época,
que o então prefeito José Serra agira corretamente em deixar de lado a
construção da ponte estaiada, por ser uma obra "cara", "desnecessária" e
"extravagante". O editorial também qualificava o projeto como
"suspeito".
Saliente-se que a gestão Marta licitou a ponte por R$ 147 milhões, mas a
"competência administrativa" da gestão demo-tucana fez o custo final da
construção saltar para R$ 260 milhões. Além disso, o governo PSDB/DEM pagou
R$ 2,2 milhões de multa à empreiteira responsável, por atrasar
deliberadamente em 90 dias o início da obra. em 2005.
Não bastasse quase duplicar o custo da obra e atrasar a construção, a gestão
Serra/Kassab, bem ao estilo tucano de governar, suspendeu a parte
socialmente mais importante do projeto, que era a construção de 8.500
moradias populares para as favelas do entorno. Também não concluiu a junção com a
Rodovia dos Imigrantes, o que desafogaria a Av Bandeirantes, ponto de
grandes congestionamentos na capital paulista. Do projeto, só a ponte foi
concluída após 4 anos da atual gestão. E a justiça teve que intervir para
que os moradores da favela Real Parque não fossem despejados sem qualquer
moradia, pela administração Kassab.
Na última sexta-feira e sábado (data em que a ponte foi inaugurada), a Folha
só faltou pedir aos seus leitores para que esquecessem tudo que havia
escrito no editorial de três anos atrás. Cobriu de elogios a ponte e
destacou que "é a maior obra do governo do democrata Gilberto Kassab".
A administração Kassab/Serra
"gentilmente" batizou a ponte estaiada com o nome do dono e falecido
fundador da Folha de São Paulo, Octávio Frias de Oliveira.
A homenagem ao empresário Frias de Oliveira não tem nenhuma justificativa a
não ser o fato do jornal Folha de S. Paulo adotar uma política de
conluio com o governador José Serra. Frias, carioca nascido em 5 de agosto de 1912, se
destacou nos ramos imobiliário e financeiro antes de adquirir a empresa
Folha da Manhã, que publica, entre outros, a Folha de S. Paulo. Com ela,
construiu um império de comunicação e revolucionou o modo de produção de
notícia, industrializando-a.
Ele pregava como ideal a imparcialidade, mas tornou seu jornal um dos
porta-vozes do conservadorismo e das elites. Combateu bandeiras
progressistas e bancou políticas de privatização no país. Seu jornal, hoje,
cria factóides e planta crises por não se ver representado no governo
federal (ao contrário da situação em São Paulo, onde tem relações umbilicais
com o tucanato, especialmente com Serra, seu candidato a
tudo no poder)".
Outra homenagem suspeita
Além da ponte, para agradar os donos da Folha e retribuir todas as
gentilezas editoriais recebidas do jornal, Serra ordenou que mudassem também o nome do
Instituto Dr. Arnaldo, que passou a ser chamado de Instituto do Câncer de
São Paulo Octávio Frias de Oliveira.
Assim como a ponte estaiada, o custo da obra do Instituto também cresceu assustadoramente nas mãos da gestão tucana. A obra consumiu R$ 96 milhões entre 1990 e 1994. Outros R$ 170 milhões foram gastos para a conclusão do edifício e a compra de equipamentos hospitalares. Há várias suspeitas de desvio de verbas na construção da obra.
Da redação,
com informações dos sites do PT, Blog do Favre e Blog do Petta
Leia, abaixo, o editorial da Folha de S. Paulo de 13 de maio de 2005:
PROJETO EXTRAVAGANTE
É acertada a decisão do prefeito José Serra (PSDB) de retomar as obras que ligam as avenidas Jornalista Roberto Marinho (antiga Água Espraiada) e a marginal Pinheiros, deixando de lado a construção de duas pontes sobre o rio Pinheiros, na zona sul da cidade, previstas no projeto original aprovado pela administração da ex-prefeita Marta Suplicy. A justificativa apresentada por José Serra é que a construção dessas pontes estaiadas (suspensas por cabos de aço) encareceria desnecessariamente a obra.
A cautela e a mudança do projeto original são procedentes. Com as pontes endossadas por Marta, toda a empreitada custaria nada menos que R$ 147 milhões. Sem elas, o custo total -que inclui outras alterações na malha viária, além da construção das alças- cai para R$ 85 milhões.
É duvidoso, ademais, que a venda em leilões dos Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), títulos que dão direito de construir além dos limites estabelecidos em certas áreas da cidade, possa gerar recursos suficientes para arcar com as despesas previstas inicialmente no projeto. No ano passado, os leilões desses papéis, realizados para angariar fundos para a construção das pontes, não conseguiram amealhar mais do que R$ 35 milhões, soma muito aquém da estimada para a conclusão das obras.
Além de cara, a construção dessas pontes suspensas está longe de ser uma prioridade para aquela área da cidade. A ligação da avenida Roberto Marinho com a marginal Pinheiros pode continuar a ser feita, sem maiores transtornos, através de duas outras pontes já existentes a apenas 800 metros do local. Essa circunstância, aliás, torna ainda mais extravagante -e suspeito- o projeto deixado pela gestão petista, para o qual, até aqui, não foram apresentadas justificativas convincentes.