Por André Cintra e Priscila Lobregatte
Na
primeira parte de sua entrevista ao Vermelho, concedida em abril, na sede da
TV Record, em São Paulo (SP), PHA comentou diversos episódios que,
certamente, estarão em seu próximo livro. Caso do rompimento de contrato
imposto a ele pelo iG em março passado. A rescisão — ou “limpeza ideológica,
como Amorim prefere enunciar — subtraiu-lhe a visibilidade, a estrutura e o
salário propiciados por um grande portal.
Mas PHA não se intimidou. Além de o Conversa Afiada ter voltado ao ar em
menos de nove horas, o jornalista recuperou — através de um mandado de
segurança — o conteúdo apagado pelo iG e até elevou o tom das denúncias.
Convém aguardar o “livro do PiG”, cujo lançamento está previsto para este
ano. A entrevista a seguir, para todos os efeitos, é um aperitivo do que vem
por aí.
PHA: iG fez “limpeza ideológica”
Você disse à Revista Fórum que soube de sua demissão enquanto
participava de uma gravação na Record. Como foi que tudo ocorreu?
Eu estava gravando um programa de três blocos chamado Entrevista Record,
da Record News. No intervalo do segundo para o terceiro bloco — como trocava
de entrevistado e eu tinha um pouco mais de tempo —, liguei para o meu
editor lá no iG, o Givanildo Menezes, e disse: “O quê que há de novo aí?”.
Então ele falou: “Tenho uma má notícia para te dar: nós saímos do ar”. E eu:
“Como assim?”. “Não só saímos do ar como fomos expulsos do iG.” Então eu
disse: “Segura aí que, quando acabar o programa, vou ver o que aconteceu”.
Procurei me informar e rapidamente se configurou o quadro de que não só a
minha equipe que trabalhava lá tinha sido ejetada do prédio do iG. Também
houve um fenômeno muito interessante, que eu apelidei de “limpeza
ideológica” — por oposição ou por analogia à chamada “limpeza étnica” que se
produziu nos escombros da Iugoslávia. É o fato de você apagar a minha
existência do ar. Eu não conseguiria — ninguém conseguiria! — acessar o meu
trabalho profissional e intelectual no iG nos últimos dois anos.
Isso foi à noite, no fim da tarde — gravo aqui na Record mais ou menos a
esta hora, 16h30, 17 horas. Vim para a redação do Domingo Espetacular,
que é minha base de operações, e soube que o iG tinha tentado entregar a
carta de demissão, a notificação do rompimento do meu contrato, e utilizou
até a xerox da Record — o que configura, na minha opinião, uma tentativa de
me incompatibilizar com o patrão, que é a Record e que não tem nada a ver
com essa história. Eu faço questão de distinguir claramente: o trabalho no
meu site pessoal é uma coisa inteiramente privativa, que não se confunde com
meu trabalho na televisão.
Como o site voltou ao ar?
Saí daqui depois de cumprir as minhas tarefas. Conversei com alguns amigos e
imediatamente recebi a proteção de dois deles. Fui para o escritório de um
deles, o (jornalista) Rubens Glasberg, que disse: “Vem para cá, que
nós vamos botar você no ar logo”. O Glasberg já tinha mobilizado um outro
amigo nosso, o (empresário) Luiz Roberto Demarco, que luta há muitos
anos contra o (banqueiro) Daniel Dantas, assim como o Glasberg, que é
vitima de inúmeros processos do Dantas contra ele, na tentativa de calá-lo.
O Glasberg e mais a equipe do Demarco trabalharam durante 8 horas e 58
minutos. No final, meu site estava no ar — é este que está no ar hoje. Que é
uma forma, digamos, precária, provisória, porque ele tem mecanismos de
atualização rudimentares, enquanto a gente processa uma reforma de tal
maneira que eu possa vir a ter um site bastante competitivo e moderno.
No começo, você chegou a especular que foi o (governador de São Paulo,
José) Serra quem o demitiu...
Não é querer ser megalomaníaco, mas o José Serra, por exemplo, ligou para o presidente da Record duas vezes e pediu a minha cabeça.
Em que época?
Isso foi quando eu fazia o programa Tudo a Ver. Eu tinha um
quadro chamado "Assim não Dá", com o meu querido amigo Luciano Faccioli. Era
um programa de denúncia de mazelas municipais — a bica d’água, a falta de
vacina —, que tem em qualquer programa do mundo inteiro, não é? E o Serra
pediu a minha cabeça para o Alexandre Raposo (presidente da Record),
que achou que não valeria a pena me dispensar. Eu agradeço e fico muito
feliz (risos). A Record acabou de renovar meu contrato, me concedeu
um aumento — então eu estou muito feliz aqui, me sinto muito prestigiado,
estou muito bem, obrigado (risos).
O Serra é um suspeito. Ele tem uma relação visceral, consangüínea, com o
Caio Túlio Costa (presidente do iG), que eu passei a chamar de Caio
T. (“T” de Tartufo) Costa. O Mino (Carta) e eu instituímos o grande
troféu do Tartufo Nativo, mas encerramos a votação, e ele não venceu. Mas eu
consultei o Mino ontem, e nós já o nomeamos “observador da ética” na
apuração dos votos do Tartufo. Ele é um especialista em ética no jornalismo
(risos).
E o Serra é muito ligado a ele. O Caio foi o fundador do UOL, e o primeiro
chat do UOL foi com o Serra, não se sabe bem por quê. O Serra, naquele chat,
emitiu conceitos tão relevantes e tão profundos que foram escritos nas
pedras da Acrópole de Atenas, para a humanidade preservar aquela
contribuição dele à cultura ocidental (risos). E o Caio, desde então,
mantém uma ligação íntima, intelectual e filosófica com o Serra. Esse é um
núcleo dos problemas que eu tive lá no iG.
Há cerca de dois anos, numa palestra sua, você disse que tinha 12
advogados. Quantos tem agora, para encarar esses problemas todos?
Eu perdi a conta (risos). Agora, no episódio da minha saída do iG, eu
tive uma decisão fantástica. Poucas horas depois de eles me tirarem do ar e
fazerem a “limpeza ideológica”, eu tive um mandado de segurança e entrei lá
dentro. O juiz mandou deixar um pelotão da Polícia Militar. Se houvesse uma
resistência — se as brigadas do Caio T. resistissem —, aquilo ali seria
arrombado. Eu ia arrombar aquele predinho ali da rua Amauri, por decisão
judicial, para reaver o produto do meu trabalho intelectual.
Esse argumento oficial do iG — de que o Conversa Afiada não dava
audiência — é falso, não é?
Falsíssimo!
Ainda mais com aquele destaque diário na capa do iG...
Se não desse audiência, o iG não dava!
Depois disso, você teve contato com algum deles — com o Caio Túlio Costa,
por exemplo?
Espero não encontrá-los à noite (risos).
Mas não foi só o Serra...
O outro núcleo é evidentemente o Daniel Dantas, com quem mantenho há
algum tempo uma batalha inútil. O Daniel Dantas tem a peculiaridade,
primeiro, de ganhar todas as causas aqui no Brasil. Quando as causas são
redigidas em língua inglesa, ele perde. Foi o que aconteceu, por exemplo, na
Justiça britânica, onde ele perdeu em várias instâncias.
Nos Estados Unidos, ele come o pão que o diabo amassou porque lá também as
causas versam na língua inglesa. Não sei, deve ser uma questão etimológica —
uma questão que tem a ver com as línguas de origem indo-européia (risos).
Preciso fazer um estudo sobre isso com algum professor de Filologia: por que
ele ganha em português e perde em inglês?
Além disso, eu travei uma batalha importante com relação à “BrOi” (empresa
resultante da compra da Brasil Telecom pela Oi). A “BrOi” não é apenas a
fusão de uma empresa de telecomunicações com outra empresa de telefonia.
Para que ela possa existir, para que se materialize, a “BrOi” exige como
pré-condição fundamental esquecer os crimes do Daniel Dantas — apagar das
pedras os crimes que ele cometeu —, denunciados pela Brasil Telecom na
Justiça brasileira e na Justiça de Nova York.
Denunciados de maneira inepta, na minha modesta opinião — mas, de qualquer
maneira, denunciados. E tanto pelo Citibank quanto pela Brasil Telecom.
Quando os fundos de pensão entregaram a administração da Brasil Telecom ao
Daniel Dantas, o Dantas saqueou a empresa. E os fundos de pensão — que zelam
pelo patrimônio dos aposentados da Caixa Econômica Federal, da Petrobras, do
Banco do Brasil — vão perdoar o Dantas. Então o meu problema não é só com a
“BrOi”.
Não sei para que precisa criar essa “BrOi”. Não sei como é que a “BrOi” vai
competir, por exemplo, nos Estados Unidos, na Alemanha, na Argentina. Não
vai chegar nem na Bolívia porque está atrasada em dez anos. Mas tudo isso é
um problema técnico. E estou falando do problema político. O quê que é a “BrOi”?
A “BrOi” é o seguinte — o governo Lula vai esconder o Dantas debaixo do
tapete. Ponto, ponto! Isso é um acordo político importantíssimo. E ninguém
diz nada.
Todo mundo fica achando que sou maluco, que eu tenho mania de perseguição,
que eu tenho idéia fixa, que eu sou o Juquinha, que só penso naquilo. Não,
não, meu! O Daniel Dantas é o herói da privatização do (governo)
Fernando Henrique. E ele roubou a Brasil Telecom — isso segundo a própria
Brasil Telecom.
E o presidente Lula vai pegar dinheiro do BNDES, dinheiro do FAT, e vai dar
a dois empresários — o Carlos Jereissati e o Sérgio Andrade —, que não vão
botar um tostão. Faço uma proposta pública, eu já disse a todo mundo: vou
dar um real além do que eles derem do próprio bolso — e eu quero ser dono da
“BrOi”. E entendo muito de telefones, mais do que eles.
Por que o governo Lula...
Por que o governo Lula tem medo do Dantas? Por quê? Sabe por quê? Porque
o Dantas comprou uma parte do PT. O governo Lula não pode ir pra cima do
Dantas porque não sabe onde vai meter a mão.
Qual parte do PT o Dantas comprou?
Ah...
Qual parte?
O Delúbio (Soares, ex-tesoureiro do PT), ué! Ele cooptou o (ex-ministro)
José Dirceu. O Zé Dirceu trabalha para o Dantas. O Zé Dirceu hoje é o maior
de todos os lobistas do país, é a própria Confederação Nacional dos Lobbies.
Tem a CNI, tem a CNA e tem a CNL. Tem a Confederação Nacional das
Indústrias, a Confederação Nacional da Agricultura e a Confederação Nacional
dos Lobbies, que tem como presidente, vice-presidente, secretário-geral e
tesoureiro o Zé Dirceu. Ele trabalha para o Dantas!
Você já escreveu que o Dantas tem aliados no Senado, como o Heráclito Fortes
(DEM-PI)...
O Heráclito Fortes é o líder da bancada (pró-Dantas) no Senado. Ele
tinha uma preferência: milhagens nos aviões do Dantas. Ele estava
colecionando milhas para ir para o Piauí (risos). Quando ele viajava
de avião na empresa do Dantas, era para colecionar milhar para ir a
Teresina.
O Dantas é imbatível?
Sim, o Dantas é imbatível, e o governo Lula vai perdoar o Dantas. O
presidente de um dos fundos de pensão disse ao meu amigo Rubens Glasberg que
fazia o acordo com o Dantas da mesma maneira que a população acuada de uma
favela faz acordo com o chefe do tráfico: para poder sobreviver. Que pais é
esse? Que governo é esse? E ninguém trata disso! O Mino, eu e o Rubens
parecemos três loucos.
E como uma pessoa consegue montar essa rede?
Vamos fazer as contas de quanto ele ganhou de dinheiro — de quanto levou
para casa na Brasil Telecom, no Metrô do Rio, onde ele colecionava e tinha
acesso a notas de pequeno valor. Quem é dono do Metrô, assim como quem é
dono de empresa de ônibus, coleciona notas de pequeno valor, tá certo? É bom
registrar isso. Põe aí no portal Vermelho que o Dantas tinha acesso a
notas de pequeno valor!
Hoje a gente vê um silêncio absoluto na grande mídia sobre isso...
Não, ele é visto como um grande empresário. A (jornalista) Lilian
Witte Fibe considera ele um sujeito superdotado de inteligência.
O caso da revista Veja não tem nada a ver com admiração, mas com
negócios.
Segundo o (jornalista) Luis Nassif, ele comprou a Veja. A
Veja foi entregue a um conjunto de salteadores.
É uma coisa mais impregnada, não?
Na Veja, ele comprou no atacado e no varejo. Ele tem uma relação
especial com o Roberto Civita (presidente do Grupo Abril).
O Nassif acredita que isso tem um prazo de validade, que é o segundo
semestre deste ano.
O Luis Nassif acha que o Roberto Civita vai degolar eles todos (os
jornalistas da Veja sob influência de Dantas). Eu acho que não. Acho que
o Roberto Civita vai coroá-los.
Mas isso tem um preço. Por causa da relação Dantas-Veja, a Abril está
acumulando uma dívida enorme, milionária, decorrente de processos por danos
morais...
Não tem dívida nenhuma! Eles não perdem na justiça. O Diogo Mainardi (colunista
da Veja) acabou de ganhar em primeira instância num processo que movi
contra ele no criminal. O Mainardi disse que eu era assalariado do (ex-ministro
das Comunicações Luiz) Gushiken. Aí vem o “Gushiken do iG”, o suposto
Gushiken, e me demite do iG! Aí eu encaminho a notificação do iG para a
juíza e digo: “Excelentíssima senhora juíza, o nexo causal da acusação do
Diogo Mainardi contra mim diz que eu era assalariado do PT. Como, se eles me
mandaram embora com um pé na bunda?”.
Não deixaram meu funcionário tirar o crachá, nem a pasta de dente que estava
no banheiro, entendeu? E eu sou funcionário do PT? A Justiça deu ganho de
causa para ele nesta instância, e eu já recorri. A juíza disse que era uma
questão de estilo. Então, vou começar a dizer: “A senhora é uma juíza venal.
A senhora vende as suas decisões”. Porque, se é uma questão de estilo, eu
posso usar a palavra “venal” como quem usa a palavra “batata-doce”.
Está tudo louco! Então não tem problema — a Abril não vai cair por aí. E
acho o seguinte: o Roberto Civita sabe perfeitamente da trampa que está
montada na revista dele. O Roberto Civita tem relações profundas com Daniel
Dantas, assim como Dantas tem com a IstoÉ e com a IstoÉ Dinheiro. Profundas,
carnais!
O Leonardo Attuch (editor da IstoÉ Dinheiro) é o homem do Dantas
na IstoÉ?
Ele é o chefe de redação do Sistema Dantas de Comunicação.
O Ali Kamel (diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo) tem
alguma relação com o Daniel Dantas?
Não, não. Aí é outra coisa.
Quem é o nome do Dantas na Globo?
Ali ele se vale da omissão. Na Globo, parece que ele não existe. Parece
que ele trabalha na Ucrânia — que é um operário ucraniano, um empresário
ucraniano.
Sobre esse Márcio Chaer (diretor da revista eletrônica Consultor
Jurídico)...
Olha, sobre o Chaer eu não vou querer falar. Porque já demonstrei com
documentos extraídos da Brasil Telecom que o Chaer tem uma agência de
notícias chamada Consultor Jurídico e uma outra empresa chamada
Dublê. Os clientes da Dublê têm, no Consultor Jurídico, um tratamento
especial. Em qualquer lugar do mundo, isso se chama conflito de interesse —
se não for crime. Então ele é um desqualificado.
Você acusa o Daniel Dantas de ter grampeado a sua família.
Dantas grampeou a mim, a minha mulher e a minha filha.
Quando foi isso?
Foi na época da Kroll. Ele utilizou as relações privilegiadas que ele
tinha com a Kroll para me grampear.
E é verdade que você vai até as últimas conseqüências para...
Vou. Eu já disse uma vez que, se ele invadir o inferno, eu me alio ao
demônio para pegar ele (risos).
E será que, uma hora, você pega mesmo (risos)?
Eu espero pegar, mas não sei — aqui no Brasil tudo é possível. Eu,
francamente, tenho a impressão de que não vou pegar, mas isso não me
desanima. Ele não perde na Justiça. A Polícia Federal já moveu um inquérito
contra ele. O Dantas entregou à Veja — e a Veja disse que recebeu do Dantas
— os documentos sobre as contas na Suíça do presidente da República, do
ministro da Justiça e do chefe da Polícia Federal.
A Polícia Federal abriu um inquérito e pediu o indiciamento do Dantas na Lei
de Imprensa. É como pedir o indiciamento do Al Capone (célebre gângster
americano da primeira metade do século 20) por dirigir na contramão (risos).
A polícia de Chicago chega e diz: “Este rapaz estava embriagado e dirigia na
contramão”. Faça-me o favor!
Confira na quarta-feira (14) a segunda e última parte da entrevista de Paulo Henrique Amorim ao Vermelho