17 de Dezembro de 2010 - 16h06

Que oposição o PSDB vai fazer a Dilma Rousseff?

Ninguém pode, em sã consciência, imaginar que a presidente Dilma Rousseff governará sem oposição, ou poupada da virulência tucano-conservadora que atravessou os oito anos do governo Lula, esteve presente na campanha eleitoral, é percebida durante o período de transição para a montagem do Ministério e transferência do governo e, com certeza, vai continuar durante no período presidencial que será inaugurado em 1º de janeiro.

Mas há uma pergunta no ar: que oposição será essa? No PSDB, o intenso tiroteio interno ainda não definiu quem será o cacique que vai capitanear a legenda no próximo período. É cedo ainda para dizer se serão cardeais emplumados do núcleo paulista que gira em torno da dupla histriônica José Serra / Fernando Henrique Cardoso, ou vai derivar para uma liderança mais programática (do ponto de vista neoliberal) embora com uma taxa menor de rancor, como o mineiro Aécio Neves.

As forças são dinâmicas e estão em processo de alinhamento e algumas linhas gerais parecem ir se definindo. A reunião dos oito governadores eleitos pelo PSDB (Antônio Anastasia, de Minas Gerais; Anchieta Júnior , de Roraima; Beto Richa, do Paraná; Geraldo Alckmin, de São Paulo; Marconi Perillo, de Goiás; Simão Jatene, do Pará; Siqueira Campos, de Tocantins e Teotonio Vilela Filho, de Alagoas), realizada em Maceió dia 15 dá uma indicação nítida nesse sentido: os governadores decidiram que não farão uma oposição acirrada a Dilma Rousseff. Antes, vão procurar uma acomodação com o governo federal, como sugere a Carta de Maceió, que aprovaram na ocasião, cujo segundo item assegura: “estabelecer com o governo federal uma relação altiva de respeito mútuo, com responsabilidade e independência, na busca do entendimento para enfrentar os graves desequilíbrios regionais e sociais”.

Essa disposição foi confirmada pelo paranaense Beto Richa que resumiu o espírito predominante entre seus colegas ao dizer que os governadores tucanos terão “um relacionamento técnico e administrativo com o governo federal” e que eles vão “cooperar com a União em benefício das populações de nossos estados”, dentro daquilo que ele chamou de “uma relação republicana” com a presidente Dilma Rousseff.

Sérgio Guerra, presidente nacional do partido, passou recibo e tentou definir uma divisão de trabalhos quando disse que fazer oposição não é tarefa dos governadores mas da “bancada do partido na Câmara e no Senado”, que farão – assegurou – uma “oposição de qualidade”, sem dizer o que isso significa.

A opção indicada pelos governadores tucanos parece consolidar uma prática política que se fortaleceu desde 2003, no governo Lula. Até então era comum governadores da oposição ao governo federal serem deixados a pão e água e o governo federal dificultar o repasse de verbas, inclusive daquelas definidas constitucionalmente. Com Lula o quadro se inverteu e o que se viu foram governadores tucanos não se empenharem no desenvolvimento de projetos com base em verbas federais, como ocorreu em São Paulo quando Serra ocupou o Palácio dos Bandeirantes. Picuinhas políticas malsãs com graves consequências para a população que deixa de se beneficiar de programas do governo federal.

Um relacionamento entre as diferentes esferas do poder executivo (nacional, estadual e municipal) pautado por demandas “técnicas” é uma exigência democrática que garante a continuidade dos projetos e beneficia a população. Neste sentido, a decisão dos governadores tucanos indica a disposição de ajudar a consolidar este ganho democrático alcançado sob Lula, superando práticas políticas mesquinhas que marcaram o passado.

Mas não há ainda uma ideia do que será a “oposição de qualidade” anunciada por Sérgio Guerra, e de que qualidade ela será. Ela depende da decisão do confronto interno do PSDB e da capacidade que o partido “refundado” (ou não) terá de articular forças contrárias ao projeto liderado, a partir de 1º de janeiro, por Dilma Rousseff. Uma coisa parece certa, contudo: é possível prever que o PSDB vai se consolidar como o principal eixo da direita brasileira, posição que conquistou há muito tempo e se consolidou durante as campanhas eleitorais de 2002, 2006 e 2010.


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