As limitações do G20


A reunião do G20, que terminou ontem (19) em Los Cabos (México) foi uma espécie de retrato das mudanças – e tensões – do ambiente geopolítico mundial.

O G20, que nasceu em 1999 para reunir os ministros da Economia desses países com o objetivo de respaldar os ditames econômicos dos países dominantes, logo mudou de função e, desde 2008, passou a reunir os chefes de Estado e de governo das vinte maiores economias. Diante a gravidade da crise econômica, ganhou gradualmente maior relevância.

São mudanças que refletem as alterações no quadro mundial decorrentes da grave crise econômica e da desmoralização crescente das teses neoliberais que fundamentaram as imposições favoráveis à especulação financeira. Dogmas que estão na raiz da crise econômica e que infelicitam os povos de todos os países com a pilhagem, o desemprego, o arrocho salarial, a perda de direitos sociais, de renda e de benefícios duramente conquistados durante décadas de lutas sociais intensas.

É neste sentido que a reunião de Los Cabos reflete o quadro mundial de nossos dias. O declínio das grandes potências capitalistas não se traduziu ainda na derrocada final do imperialismo. Por outro lado, a emergência de países como o Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (os BRICS), que crescentemente se contrapõem ao poderio imperialista, não foi consolidada ainda em mudanças institucionais mundiais, como a pleiteada reforma da ONU e do FMI.

Na prática – como aquela reunião deixou claro – as chamadas nações emergentes vão se constituindo em peças fundamentais para o enfrentamento da crise e, neste sentido, chamadas a dar uma colaboração condizente com sua nova situação.

É paradoxal que estas nações sejam chamadas a “salvar” o FMI, instituição que tem sido o algoz dos povos e instrumento feroz do imperialismo e do capital financeiro para impor seus interesses aos demais países. Ao final da reunião, a direção desta agência internacional da especulação financeira comemorou a decisão dos países do BRICS em participar do aumento do capital do FMI para US$ 456 bilhões. Eles vão contribuir com US$ 75 bilhões (a China entra com US$ 43 bilhões; o Brasil com US$ 10 bilhões).

Mas o G20 é um espaço de luta entre os países ricos e os emergentes. Enquanto a francesa Christine Lagarde encara a ampliação de capital como “um guarda chuva global” contra a crise que assola os países ricos, os emergentes vinculam seu aporte de capital à concretização da reforma do FMI, já aprovada mas ainda não realizada, para aumentar seu poder de decisão naquela instituição.

Este confronto se desdobra também em múltiplos aspectos. Dois deles se destacam. Um pode ser visto no aumento das pressões sobre a chanceler alemã Ângela Merkel – o rottweiler da especulação financeira – que defende cortes de gastos (e salários e direitos sociais), para que concorde com políticas de investimento para combater a crise e gerar empregos. Um desdobramento destas pressões foi a insistência, entre os chefes de Estado, pelo abrandamento das draconianas condições impostas à Grécia e que levaram o país ao colapso econômico e social.

Outro desdobramento da luta travada internamente no G20 pode ser visto na decisão dos países do BRICS de criação de um fundo comum de reservas, envolvendo as cinco nações membros, com o objetivo de dinamizar as relações comerciais, estimulando o comércio entre si, e enfrentar as consequências da crise mundial.

Há mudanças em curso, é certo. Mas elas não podem fomentar a ilusão de que espaços internacionais, como o G20, sejam arenas democratizantes e progressistas. Não são. São cenários de uma luta encarniçada das nações ricas para, ante a falência dos costumeiros instrumentos de imposição, garantir seus interesses pela pressão diplomática. E se confrontam com a luta dos países emergentes para alargar sua participação nos espaços de decisão internacionais e defender-se contra as ações dos países ricos.