Pensar a comunicação como um sistema mais integrado e dinâmico na estrutura
partidária foi o foco dos debates que aconteceram durante o Encontro Nacional
de Comunicação do PCdoB, que aconteceu de sexta a domingo, na capital
paulista. Ao todo estiveram presentes mais de cem profissionais da área de 18
estados, entre eles secretários estaduais de comunicação, assessores de
imprensa e jornalistas ligados ao partido.
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Segundo dia do Encontro de Comunicação
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"Ao encerrar este Encontro Nacional de Comunicação do PCdoB, aproveito para
ressaltar o grande papel que todos os profissionais aqui presentes tiveram no
debate sobre o projeto de comunicação do nosso partido. Com base nas questões
colocadas por cada um de vocês, vamos dar prosseguimento às principais
propostas de melhoria de nossa secretaria", disse o secretário de Comunicação,
Altamiro Borges (Miro), no último dia do Encontro, realizado em São Paulo nos
31 de março, 1 e 2 de abril. De acordo com Miro, "temos um grande time de
jornalistas trabalhando em nossa redação central, em São Paulo, bem como
espalhados por nossos comitês estaduais e municipais, assessorias de mandatos
parlamentares e de entidades. O que precisamos é pôr em prática as medidas
necessárias para otimizar nosso trabalho".
As propostas surgidas de discussões em grupos partiram de uma proposta de
plano de trabalho da comunicação, dividido em investimento no Vermelho,
mudanças em A Classe Operária, assessoria de imprensa, programa de tevê e
rádio, campanha eleitoral, materiais publicitários e sistema de comunicação.
No domingo, os participantes puderam expor suas opiniões que, somadas ao
projeto original, serão a base para as mudanças que o partido pretende pôr em
prática a partir deste ano.
Conjuntura
O evento de comunicação também teve a preocupação de contribuir para a
formação de seus profissionais. Na abertura do evento, José Reinaldo Carvalho,
secretário de Relações Internacionais do PCdoB e Emir Sader, professor da
Universidade Estadual do Rio de Janeiro, trataram da conjuntura mundial e
nacional e a batalha de idéias. Para Carvalho, é preciso que o setor de
comunicação de um partido revolucionário esteja ligado à formação de uma
consciência socialista, especialmente após a queda da União Soviética, que
ocasionou a derrocada do pensamento socialista. Para ele, o cenário atual
indica a retomada da luta de setores progressistas em diversos países,
impulsionada principalmente pela crítica aos efeitos nocivos do neoliberalismo
e ao imperialismo estadunidense. "Com o fim da União Soviética, os anos 90
marcaram a preparação para o hegemonismo norte-americano. O que vimos a partir
da era Bush foi um aumento da agressividade do império contra países e povos
independentes, como Afeganistão e Iraque", disse.
Com a desculpa de derrotar o terrorismo, a doutrina de segurança nacional da
Casa Branca propõe uma guerra infinita, o que levará o mundo a viver, ainda
por um longo tempo, sob a égide da guerra. No entanto, Carvalho ressalta que
há sinais de desgaste desta política e de insatisfação dos povos, o que tem
contribuído para intensificar a luta contra o imperialismo e enfraquecê-lo.
Segundo Emir Sader, a maior força de sustentação da hegemonia norte-americana
não é a econômica, mas a ideológica, que acaba sendo absorvida por meio de
instrumentos diversos.
Na América Latina, outro foco das ações dos Estados Unidos, Carvalho ressaltou
que, embora diferenciadas, as experiências vividas em países como Venezuela,
Brasil, Bolívia e Argentina reforçam a posição crescente de resistência às
políticas de intervenção estadunidenses. "Hoje percebemos uma mudança
qualitativa em relação aos anos 90, ainda que estejamos caminhando para
iniciar a transição ao socialismo. Mas, a realidade atual já permite a
acumulação de forças e o revigoramento da esquerda", explicou. Neste sentido,
Emir Sader defendeu a política externa do governo Lula, independente em
relação aos Estados Unidos, fator que pode regredir se as forças conservadoras
vencerem as eleições deste ano.
No âmbito nacional, Sader salientou que o Brasil é uma das principais
ditaduras do mundo porque impõe uma das piores desigualdades sociais a uma
parte muito grande de sua população. Na análise categórica de José Reinaldo
Carvalho, ou o Brasil rompe com as estruturas e elites retrógradas ou não
conseguirá evoluir num projeto de desenvolvimento que traga prosperidade para
o país. "A sociedade vem se degradando porque as questões estruturais ainda
não foram resolvidas", explicou. E salientou que a batalha política de 2006,
assim como as demais vividas no Brasil especialmente após a redemocratização,
encerra em si um conflito entre dois campos opostos: os conservadores,
defensores do status quo, e os setores progressistas, de esquerda e
nacionalistas, ligados às questões sociais e de cunho nacional
desenvolvimentista.
Democratização dos meios
No sábado, as atividades tiveram início com um debate sobre a luta pela
democratização dos meios de comunicação, do qual participaram Hamilton Otávio
de Souza, professor de jornalismo da PUC/SP e editor da revista Sem Terra;
Manoel Rangel, diretor da Ancine e do Instituto Maurício Grabois e Graça
Rocha, presidente da Federação das Associações de Rádios Comunitárias do Rio
de Janeiro.
Em sua apresentação, Hamilton Souza classificou de nova forma de coronelismo o
uso que se faz hoje dos grandes meios de comunicação do país. "O controle dos
meios perpassa a questão econômica. É uma forma de assegurar o poder desses
grupos", disse. Ele lembrou as várias ocasiões em que a mídia teve papel
fundamental na condução da política nacional, como na eleição de Fernando
Collor, em 1989. Ele ressaltou ainda, entre outros pontos, que a participação
estrangeira nas empresas de comunicação nos transforma em colônias do
imperialismo.
Já Manoel Rangel tratou da convergência digital e salientou a importância da
produção de conteúdo independente e regional. Graça Rocha, por sua vez,
protestou contra a perseguição que as rádios comunitárias sofrem e fez um
apelo para que os profissionais da área assumam também a luta pela
democratização deste meio.
De São Paulo,
Priscila Lobregatte