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| Edvaldo
Nogueira (e.) e Déda, na posse
de 2005 |
Nesta
sexta-feira (30), o PCdoB terá
seu primeiro prefeito de capital em 84
anos de existência. Edvaldo Nogueira,
vice-prefeito de Aracaju, assume a cadeira
deixada por Marcelo Déda, do PT,
que sairá candidato ao governo
de Sergipe, numa festa onde se espera
25 mil participantes. Sua chegada à
gestão municipal não significa
apenas uma mera substituição.
Junto com o prefeito petista, Nogueira
ajudou a fazer de Aracaju a capital nordestina
com maior IDH (Índice de Direitos
Humanos); e a dobradinha PT-PCdoB alcançou
a aprovação de mais de 70%
da população. “A chegada
à prefeitura de um comunista nos
deixa num misto de expectativa, alegria
e esperança porque é a chance
de darmos continuidade a esse trabalho
que desenvolvemos nesses cinco anos. É
um momento importante na vida da cidade,
do estado e do Partido”, disse Edvaldo
Nogueira em entrevista a Priscila Lobregatte,
do portal Vermelho:
Vermelho:
Nesta sexta-feira, você assume a
prefeitura de Aracaju. O que isso significa
para a cidade e para os comunistas?
Edvaldo
Nogueira: Do ponto de vista da militância,
há um clima de muita expectativa
e diria que, pelo que pude perceber, de
alegria por parte da população
aracajuana. Isso porque a minha posse
na prefeitura de Aracaju tem duplo significado,
por ser também o lançamento
da candidatura do Marcelo Déda
(PT), a pré-candidatura ao governo
do estado. E esses dois fenômenos,
a perspectiva da eleição
de Déda para governador e a minha
chegada à prefeitura de Aracaju,
são rios que correm na mesma direção.
Depois da ditadura, não houve ainda
experiência desses setores mais
democráticos governarem Sergipe.
As elites se revezaram durante todos esses
anos. Então, pela primeira vez
surge essa oportunidade. E numa coligação
liderada por PT, PCdoB, PSB, PTB e PL,
em que o núcleo central é
PT, PCdoB e PSB. Esta possibilidade é
um avanço muito grande para o estado
desde 1962, quando o último governador
progressista, Seixas Dória, se
elegeu e foi deposto pela ditadura militar.
Miguel Arraes, em Pernambuco, e Seixas
Dória, em Sergipe, são os
dois únicos governadores depostos
pela ditadura. Portanto, é um momento
muito importante.
Vermelho:
Como foi o trabalho junto com Déda
na administração municipal?
Nogueira:
Por meio da aliança entre PT e
PCdoB, Déda e eu conseguimos realizar
um grande trabalho em todos os aspectos
da cidade. Em Aracaju é visível
a transformação, desde a
limpeza pública, a pavimentação,
até saúde, educação,
transporte, moradia. Segundo pesquisa
da Fundação Getúlio
Vargas, Aracaju é a primeira capital
do Norte e Nordeste em qualidade de vida.
E é a maior renda per capita da
região. É uma cidade que
deu um salto muito importante e se tornou
referência por isso.
O
fato de a administração
ter uma aprovação alta e
a possibilidade de derrotar as elites
por meio da candidatura de Déda
criam um clima de muita determinação
e muita esperança na população
aracajuana. E a chegada à prefeitura
de um comunista nos deixa num misto de
expectativa, alegria e esperança,
porque é a chance de darmos continuidade
ao trabalho que desenvolvemos nesses cinco
anos. É um momento importante na
vida da cidade, do estado e do Partido.
Vermelho:
Quais são os níveis de aprovação
da população à administração
Déda/Edvaldo?
Nogueira:
São níveis muito altos.
Pesquisa recente mostra que a administração
teve 77% de aprovação. Além
disso, ganhamos as últimas eleições
com 72% dos votos. Foi a maior votação
proporcional à reeleição.
Na primeira eleição, em
2000, tivemos 52% dos votos e ganhamos
no primeiro turno.
Vermelho:
Sua administração será
uma continuidade da de Marcelo Déda?
Nogueira: No meu entender, temos
de dar continuidade — porque conseguimos
fazer um projeto global na administração
de Aracaju. Foi um governo de realizações
sociais, um governo que se preocupa com
a beleza física da cidade, com
a construção de praças,
de escolas, a limpeza pública,
mas também com o social, a saúde
e a educação.
Havia
um entendimento de que a área social
só seria educação,
assistência social e saúde.
Nós mudamos um pouco esse parâmetro.
Realizamos
muitas obras de que a cidade necessitava.
Duzentos quilômetros de recapeamento
asfáltico foram feitos, um número
muito grande se comparado com o tamanho
da cidade. Nós praticamente refizemos
todo o eixo viário de Aracaju.
Melhorou sensivelmente o transporte coletivo
e o tráfego na cidade. Hoje, a
limpeza pública tem um mesmo padrão
tanto na zona mais rica como na zona mais
pobre. É um padrão de excelência
da limpeza.
Na
área da saúde fizemos uma
grande transformação: hoje
Aracaju tem 90% de cobertura de Programa
Saúde da Família. Construímos
10 novos postos de saúde e reformamos
outros 40. Aracaju foi a quarta cidade
brasileira a criar o Samu, sistema de
urgência e emergência. E agora
implantamos o projeto, pioneiro no Brasil,
do hospital horizontal: não construímos
prédios, mas estabelecemos em hospitais
filantrópicos a presença
da prefeitura. Vamos inaugurar dois pronto-socorros
nas zonas sul e norte, que vão
fechar o ciclo da saúde no município
de Aracaju. Reduzimos a mortalidade infantil
neonatal em aproximadamente 37% e melhoramos
todos os índices de saúde
na cidade.
Na
educação diminuímos
a evasão escolar, a repetência
e praticamente zeramos o déficit
educacional. Sentimos que democratizamos
a educação. Agora estamos
nos concentrando na idéia de dar
mais qualidade ao ensino. Outra mudança
que implantamos é a eleição
para o cargo de diretor nas escolas municipais.
Ou seja, já não é
mais o prefeito quem nomeia; a escolha
é feita pelos estudantes e pela
comunidade através de eleições
diretas. Temos os Conselhos Escolares
e descentralizamos os recursos para a
escola. A escola tem uma parte de recursos
que o próprio diretor administra,
para as pequenas obras, para as coisas
essenciais do dia-a-dia da escola. A merenda
é muito eficiente, inclusive utilizando
os gêneros regionais. Isso melhora
também o comércio, porque
se compra lá mesmo a comida, nas
empresas locais, gerando emprego e renda.
Na
área habitacional, em parceria
com a Caixa Econômica Federal, desenvolvemos
um programa chamado Parque de Arrendamento
Residencial, dentro do qual seis mil casas
serão entregues neste mês.
Este foi um passo muito importante para
a população, porque tínhamos
um déficit habitacional alto na
classe mais pobre. É um grande
feito. Inclusive o presidente Lula esteve
no dia 15 em Aracaju para inaugurar um
conjunto residencial com 500 unidades
habitacionais dessa parceria com a Caixa.
Investimos
também na geração
de emprego e renda, na formação
de mão-de-obra, nos bancos de emprego.
E entramos também nessa área
de convênios com os bancos federais,
de empréstimos pequenos, de até
R$ 30 mil para pequenas e médias
empresas e pequenos empreendedores.
Nesses
cinco anos, conseguimos organizar quase
dois mil vendedores ambulantes, que foram
cadastrados, profissionalizados, uniformizados
e aprenderam outros idiomas e noções
de turismo, principalmente para os que
trabalham nas praias e pontos turísticos.
Vermelho:
Como é tratada a questão
do uso do dinheiro público na administração
de Aracaju?
Nogueira:
O dinheiro público é
tratado com muita seriedade e aplicado
exclusivamente no âmbito público.
Não houve nenhuma denúncia,
nesses cinco anos, nenhum fato concreto
de corrupção. Isto mesmo
com adversários ferrenhos e uma
imprensa que basicamente é da oposição,
que controla 80% dos meios de comunicação
em Aracaju.
Um
fato importante também é
que nós conseguimos triplicar o
orçamento de Aracaju. Quando nós
chegamos à prefeitura municipal,
o orçamento de 2001 era de R$ 160
milhões. Hoje é de R$ 545
milhões. E sem aumentar os impostos.
Pelo contrário, nós reduzimos
o IPTU. Em 2001 havia quatro mil famílias
isentas do IPTU. Hoje, são mais
de 40 mil famílias. Nós
conseguimos melhorar essa situação
porque cobramos os impostos daqueles que
podiam pagar, fizemos uma política
de dureza fiscal para os que sonegam,
os que não gostam de pagar imposto,
para os ricos e os incorporadores. Conseguimos
melhorar muito a arrecadação
municipal, sem penalizar a população
mais carente, inclusive isentamos essa
população de impostos e
de taxas. Não criamos nenhum novo
imposto. Aracaju se tornou uma cidade
auto-sustentável. O dia-a-dia da
administração, a limpeza
pública, a saúde, a educação,
o funcionalismo público e obras
pequenas nós conseguimos fazer
com recursos próprios.
Vermelho:
O que foi feito no âmbito cultural?
Nogueira:
Houve a recuperação das
tradições culturais do município
de Aracaju, outra preocupação
da nossa gestão. Fizemos com que
o forró – grande carro-chefe da
cultura sergipana – ganhasse mais destaque.
O Forrocaju hoje consegue competir
com Caruaru e Campina Grande, que é
considerada o melhor São João
do Brasil. São 13 dias de festa
(de 17 a 31 de junho), com os grandes
nomes da música popular. E não
deturpamos o forró, como muitos
estados fizeram. O nosso é um forró
original, pé de serra, como chamam,
mas, ao mesmo tempo, um forró que
dialoga com outras culturas. Tem a lei
de incentivo à cultura também,
que nós revitalizamos. Vários
projetos foram colocados em prática
através dela e isso foi um passo
muito grande na área cultural em
Aracaju.
Vermelho:
Como vice-prefeito, você teve participação
efetiva na administração?
Nogueira:
Conseguimos fazer um governo em que o
prefeito Marcelo Déda dirigia politicamente,
mas nós, o PCdoB, eu como vice-prefeito
e o secretário de governo, tivemos
uma participação efetiva.
Tivemos, o que não é comum
na administração pública,
uma sincronia muito grande, um trabalho
realmente em conjunto entre PT e PCdoB
e entre Déda e eu. Portanto, o
sucesso da atual administração
tem também a força e a participação
efetiva do PCdoB. Vamos dar continuidade
ao que foi começado, mas obviamente,
colocarei minha maneira de administrar.
A idéia é de fortalecer
cada vez mais esse modelo administrativo.
Vermelho:
Como é a oposição
a vocês?
Nogueira:
Nosso principal opositor é o PFL,
o governador João Alves Filho.
Inclusive, ele é candidato à
reeleição. Já foi
o seu terceiro mandato como governador
e, agora, está querendo conquistar
o quarto. É um político
da cúpula nacional do PFL, já
foi ministro do Interior do governo Sarney.
Um político que tem uma grande
liderança, embora sempre tenha
feito governos que beneficiaram as elites.
Sergipe
é um estado que poderia estar em
melhores condições não
fosse o governo desastroso, antipopular,
reacionário e antidemocrático
de João Alves. Ele quer continuar
esse projeto para impedir o avanço
da esquerda em Aracaju e em Sergipe. Portanto,
a batalha eleitoral será grande.
É uma luta incessante contra o
PFL em Sergipe. Por isso, é importante
a vitória de Déda no governo
do estado. Com ele no governo e com a
experiência que tive na vice-prefeitura
nesses dois anos e nove meses, poderemos
fazer parcerias e projetos com os quais
tanto Aracaju quanto o estado serão
beneficiados.
Vermelho:
Aracaju é uma cidade que tende
para o conservadorismo?
Nogueira:
Não. Historicamente Aracaju é
uma cidade progressista. Em 1946, Yedo
Fiúza, candidato do Partido Comunista,
ganhou aqui as eleições
contra o general Eurico Gaspar Dutra.
Acredito que seja a única capital
brasileira em que o Partido Comunista
ganhou uma eleição. E Luis
Carlos Prestes foi o senador mais votado
em Aracaju.
É
a primeira cidade do Brasil que foi planejada
para ser capital, antes de Belo Horizonte,
Teresina e Palmas. A capital de Aracaju,
até 1855, era São Cristóvão.
O governador da época, Inácio
Barbosa, por uma série de questões
políticas e econômicas, conseguiu
transferir a capital de São Cristóvão
para Aracaju, uma cidade que tem características
muito progressistas e avançadas.
Uma cidade que, apesar de pequena, de
estar no menor estado da Federação,
tem um traço forte: depois da redemocratização,
as elites nunca ganharam a prefeitura
de Aracaju. Sempre são partidos
de oposição ao modelo conservador.
Vermelho:
Como deverá ser a sua gestão
à frente da prefeitura?
Nogueira: Penso basicamente em duas
etapas. A primeira, de transição,
vai até o final do ano. Nela, vamos
trabalhar para continuar esse projeto
que vem sendo colocado em prática
por Déda nesses cinco anos. E dela
faz parte a tarefa política de
apoiar Déda em sua candidatura
ao governo do estado. Esses elementos
vão constituir essa primeira parte.
A
segunda será a partir de janeiro
de 2007, quando se inicia um novo processo
também de gestão administrativa,
na qual a nossa marca, a nossa ação,
será mais visível. Neste
ano, temos que lutar também para
o sucesso de uma tarefa política
de envergadura: a reeleição
de Lula, sem, com isso, partidarizar a
prefeitura ou usar a máquina pública.
De
São Paulo,
Priscila Lobregatte
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