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Diego:
exposto ao moedor de carne sem
qualquer equipamento de proteção |
Cinco mil reais, o preço de uma televisão de
36 polegadas à venda no Carrefour. Este é o valor oferecido pela multinacional
francesa para indenizar seu funcionário Diego Nunes Marra, de apenas 22 anos,
pela perda total da mão direita durante um acidente de trabalho.
A mutilação ocorreu no supermercado Carrefour
de Uberlândia, quando Diego foi transferido do setor de frutas, legumes e
verduras, onde trabalhava, para o setor de açougue. Exposto ao moedor de carne
sem qualquer equipamento de proteção ou treinamento, o jovem foi lesionado no
último dia 18 de janeiro.
Após deixar o trabalhador e sua família sem qualquer assistência, acumulando
dívidas na farmácia, sobrevivendo de um salário mínimo pago pelo INSS e do
apoio de familiares, a multinacional etiquetou o aviltante preço em um cheque
enviado a Diego na última quinta-feira (23/3).
Abandono e revolta
“Estou revoltado pela assistência que tive. Ou
melhor, pela falta de assistência. Sou casado, tenho um filho de dez meses e
penso muito no que vai ser do futuro. Sempre passava aperto, mas nunca faltava
comida na mesa, nem fruta ou fralda para o meu filho. Agora... Até para
pentear o cabelo do jeito que eu gosto minha mulher tem de ajudar, para
abotoar a camisa... É um absurdo pensar que, para o Carrefour, minha mão
direita vale R$ 5 mil”, declarou Diego. Ele está participando em São Paulo do
Seminário promovido pela Secretaria de Relações Internacionais da CUT, através
do projeto Ação Frente às Multinacionais CUT/FNV e a Confederação Nacional dos
Trabalhadores no Comércio e Serviços (Contracs), organizando as redes de
trabalhadores do Walllmart e Carrefour.
Diego conta que a única preocupação real demonstrada pela empresa aconteceu no
dia do acidente. “Eu estava agonizando de dor, gritando, porque doía muito
mesmo. Aí chegou uma enfermeira do Carrefour dizendo que era para falar baixo,
pois estava assustando os clientes. Me deu um pano para cobrir a mão e só.
Como comecei a perder muito sangue e não chegava ninguém da empresa para me
socorrer, com a ajuda de dois colegas fui para o Hospital do Triângulo, onde
fui operado. De lá para cá, nenhum telefonema nem do diretor. Nem para saber
como eu fiquei. Me sinto rejeitado, como se fosse um zé mané”.
Bom funcionário
Bom funcionário, que atendia a todos sorrindo
no setor de frutas, Diego lembra que era sempre o escolhido para pôr fogo nas
promoções, alavancando as vendas. “Do setor de FLV (frutas, legumes e
verduras) me colocaram no de merchandising e dali me jogaram no açougue, sem
qualquer treinamento, mas eles sempre me falando em aumento, que nunca deram.
Aí eu retornei de um outro acidente que tive, onde já havia perdido um pedaço
do dedão da mão esquerda. Voltei a trabalhar no dia 16 de janeiro e me
colocaram de volta no açougue. No dia 18, o cliente me pediu para moer uma
carne: patinho, em três bandejas de meio quilo cada. Perguntei para o meu
colega que carne era aquela e ele disse para eu moer a mais vermelha possível.
Tudo bem. Aí travou a máquina e eu fui socar a carne. O soquete escapuliu,
bateu na parede e caiu no chão, enquanto a minha mão entrava direto dentro do
moedor. Agora não tenho previsão de retorno, estou aguardando a perícia e o
resultado da ação na Justiça. Nos primeiros dias prometeram prótese,
assistência e tudo mais... Estou participando para ajudar a que ninguém mais
passe pelo que estou passando, para que o trabalhador seja respeitado nos seus
direitos”.
Desde o acidente, o Sindicato dos Comerciários de Uberlândia está dando total
assistência e orientação a Diego em sua luta por justiça e dignidade. A
formação da rede sindical dos trabalhadores do Carrefour fortalecerá o nível
de organização e mobilização da categoria no local de trabalho e contribuirá
para que crimes desta natureza não continuem impunes.
Fonte: portal da CUT