Veja a íntegra da matéria
de capa do jornal Folha de S. Paulo
deste domingo (26), sobre a ação
da Nossa Caixa, banco estatal paulista,
em favor de aliados do governador Geraldo
Alckmin. O texto, intitulado "Nossa
Caixa beneficia aliados de Alckmin",
é assinado pelo jornalista frederico
Vasconcelos.
"O
governo Geraldo Alckmin (PSDB) direcionou
recursos da Nossa Caixa para favorecer
jornais, revistas e programas de rádio
e televisão mantidos ou indicados
por deputados da base aliada na Assembléia
Legislativa.
Documentos obtidos pela Folha confirmam
que o Palácio dos Bandeirantes
interferiu para beneficiar com anúncios
e patrocínios os deputados estaduais
Wagner Salustiano (PSDB), Geraldo "Bispo
Gê" Tenuta (PTB), Afanázio
Jazadji (PFL), Vaz de Lima (PSDB) e
Edson Ferrarini (PTB).
A cúpula palaciana pressionou
o banco oficial para patrocinar eventos
da Rede Vida e da Rede Aleluia de Rádio.
Autorizou a veiculação
de anúncios mensais na revista
"Primeira Leitura", publicação
criada por Luiz Carlos Mendonça
de Barros, ministro das Comunicações
no governo Fernando Henrique Cardoso.
Ele é cotado para assessorar
Alckmin na área econômica.
Recentemente, a Quest Investimentos,
empresa de Mendonça de Barros,
foi escolhida para gerir um novo fundo
da Nossa Caixa.
O banho de ética anunciado pelo
candidato tucano à Presidência
da República torna-se uma ducha
de água fria com o resultado
de uma auditoria na área de publicidade
da Nossa Caixa, que revela o descontrole
nas contas, e com a investigação,
pelo Ministério Público
do Estado, a partir de denúncia
anônima, sobre o uso político-partidário
do banco oficial.
Entre setembro de 2003 e julho de 2005,
as agências de propaganda Full
Jazz Comunicação e Propaganda
Ltda. e Colucci Propaganda Ltda. continuaram
prestando serviços sem amparo
legal, pois o banco não renovara
os contratos, conforme a Folha revelou
em reportagem de dezembro último.
O caso está sendo apurado pelo
promotor de Justiça da Cidadania
Sérgio Turra Sobrane.
Ao analisar 278 pagamentos às
duas agências no período
em que operaram sem contrato -no total
de R$ 25 milhões-, a auditoria
interna apontou irregularidades em 255
operações (91,73%).
Não foram localizados documentos
autorizando pagamentos que somavam R$
5,1 milhões. Em 35% dos casos,
não havia comprovantes da realização
dos serviços. Em 62,23%, os pagamentos
não respeitaram o prazo mínimo
legal de 30 dias. O patrocínio
de campanhas de marketing direto era
autorizado verbalmente.
A responsabilidade por esses pagamentos
é atribuída ao ex-gerente
de marketing Jaime de Castro Júnior,
48, ex-auditor do banco, com 28 anos
de casa. Ele admitiu ter liberado pagamentos
em valores acima dos limites que podia
autorizar e, a partir de 2002, sem ter
procuração para tal. "Reafirmo
que assumi a responsabilidade pela liberação
dos pagamentos, dados sua urgência
e os interesses da instituição",
afirmou à comissão de
sindicância.
Ele foi demitido por justa causa, em
dezembro, pelo presidente do banco,
Carlos Eduardo Monteiro, sob a acusação
de "mau procedimento", "desídia"
e "indisciplina". O ex-presidente
do banco Valdery Frota de Albuquerque
também foi responsabilizado.
Pressões
Por entender que a comissão de
sindicância poupou outros envolvidos,
inclusive o presidente do banco, o ex-gerente
preparou um relatório de 42 páginas
em que revela outras irregularidades
e as pressões que recebeu do
Palácio dos Bandeirantes. "Houve
atendimentos a solicitações
de patrocínio e mídia,
de deputados estaduais da base aliada,
nas ocasiões de votação
de projetos importantes para o governo
do Estado", afirma Castro Júnior
nessa peça.
O ex-gerente explicitou: "Por ser
um órgão do governo do
Estado, a pressão de cunho político
para liberação de anúncios,
verbas para eventos e patrocínios
sempre foi muito forte. Fosse através
da Secretaria da Comunicação,
diretamente por deputados, vereadores,
secretarias de Estado, do gabinete do
governador, para atendimentos de natureza
política, para sustentação
da base política do governo do
Estado".
Há suspeitas de que o esquema
envolve outras empresas do Estado. Consultadas,
Sabesp, Prodesp, CDHU e Dersa não
responderam questionário da Folha.
O direcionamento da publicidade pelo
Palácio dos Bandeirantes veio
à tona com a quebra de sigilo
da correspondência (e-mails) de
Castro Júnior, autorizada pela
direção do banco nas investigações.
Essa troca de mensagens indica que as
determinações para a veiculação
de interesse dos tucanos partiram do
assessor especial de Comunicação
do governo do Estado, jornalista Roger
Ferreira.
Ele atuou nas equipes de marketing das
campanhas presidenciais de Fernando
Henrique Cardoso e José Serra.
Foi chefe da Assessoria de Comunicação
da Caixa Econômica Federal, entre
1999 e 2002, na gestão de Valdery
Frota de Albuquerque, que o levou para
assessorá-lo na Nossa Caixa.
Jornada dupla
Antes de trabalhar com Alckmin no Palácio
dos Bandeirantes, Ferreira foi assessor
da presidência da Nossa Caixa,
entre março e outubro de 2003.
Recebia R$ 17 mil mensais, salário
superior ao do presidente do banco.
O jornalista foi contratado pela agência
Full Jazz, empresa cujos serviços
deveria controlar. A agência pagava
a Ferreira, que fornecia nota fiscal
da RF Produções e Editora
Ltda., com sede em São Lourenço
da Serra (SP). A agência cobrava
esses "serviços" do
banco, com acréscimo de 10% a
título de honorários.
Trata-se de forma de driblar a legislação
que veda a contratação
sem licitação de serviços
de publicidade e divulgação.
Segundo Castro Júnior, "a
partir de sua contratação,
o sr. Roger Ferreira passou a manter
estreito relacionamento com as duas
agências de propaganda, por ordem
da presidência, coordenando as
ações de marketing, notadamente
aquelas pertinentes a campanhas e anúncios
na mídia".
"Ele não poderia jamais
ser contratado pela agência. Houve
uma ilegalidade", diz o advogado
Toshio Mukai, especialista em contratos
e licitações públicas.
Com a saída de Ferreira, Monteiro
determinou a contratação
da jornalista Shirley Emerich, para
substituí-lo, no mesmo esquema
da Full Jazz e o mesmo salário.
Ela deixou a Nossa Caixa em julho de
2005, com o rompimento do contrato com
a agência. Castro Júnior
diz que não havia rubricas contábeis
específicas para os pagamentos
mensais dessas contratações."