Por Gilda Almeida*
Não
poderia ter sido mais melancólica
a novela tucana sobre quem seria o presidenciável
do campo neoliberal. Muitos foram os
jantares, almoços, cafés
da manhã e da tarde, além
de toda a sorte de convescotes, até
que a cúpula do PSDB ungisse
Geraldo Alckmin como seu preferido.
Parênteses: nem tão preferido,
já que ele ganhou na valentia
e José Serra, este sim de início
o preferido, acovardou-se.
De qualquer forma, o lançamento
de Alckmin define ainda melhor os campos
em disputa nas eleições
presidenciais. Alckmin era, desde semrpe,
o candidato preferido da banca financeira
e do grande empresariado. Pudera, a
agenda implementada pelos doze anos
de Covas/Alckmin em São Paulo
foi a neoliberal convicta. Tendo, aliás,
o então vice-governador Geraldo
Alckmin presidido o programa de privatizações
estadual.
O perfil tecnocrata, mais de gerente
que de político, também
não esconde, antes reforça,
o conservadorismo do tucano. Alckmin
não tem muito apego a ideologias,
não admite ser de direita, ao
mesmo tempo em que é clarividente
que nunca tangenciou nem a centro esquerda.
Sustenta que os problemas políticos
são resolvidos pela eficiência
administrativa. Leia-se: em hipótese
alguma atender demandas sociais. Basta
dizer que uma das marcas da gestão
Alckmin foi a truculência no trato
das reivindicações do
movimento social. O governador se esmerou
em construir para si a imagem de avesso
a negociações ainda
que aberto às negociatas -, como
se comandar o maior estado da federação
fosse como tocar uma empresa de médio
porte.
Não bastasse tudo isso, o governador
tem uma obscura e mal explicada ligação
com um setor ultraconservador da igreja
católica, conforme revelado em
recente reportagem. É um adimirador
do Opus Dei, prelazia que prega, entre
outras coisas, a mortificação
corporal como forma de aproximação
com Deus. Com todo o respeito às
crenças, algo, para dizer o mínimo,
obscurantista e medieval. Uma das primeiras
declarações do agora presidenciável
foi a pátria são
as famílias, a religião,
os costumes, a tradição.
Auto-explicativo.
O latente conservadorismo do candidato
não pode deixar margem para confusão
no campo progressista. Não que,
fosse José Serra o candidato,
teria identidade com o campo não
neoliberal. No final das contas, seria
o representante do programa tucano,
ou seja, da volta das privatizações,
da retomada da ALCA, da submissão
aos interesses americanos. De todo modo,
talvez pelo seu passado, José
Serra poderia obter algum apoio em setores
progressistas, como atestou o manifesto
em apoio a sua candidatura, subscrito
por intelectuais e economistas, quando
essa possibilidade ainda estava dada.
Já com Alckmin, não há
espaço para equívocos.
Ainda mais agora com a manutenção
da verticalização, que
deve diminuir o número de postulantes
ao Planalto e favorecer a polarização
da disputa entre PT e PSDB. O campo
progressista tem de se posicionar decididamente
contra o retrocesso e por um programa
avançado, o que traz a necessidade
da repactuação por um
projeto de desenvolvimento com soberania
e valorização do trabalho,
desafio que as forças de sustentação
de Lula estão aptas a cumprir.
O momento não abre espaço
para ultrapassagens à esquerda
nem para pretensas terceiras vias.
Exige unidade e clareza política
para derrotar o inimigo comum: o programa
neoliberal e seu candidato, que é
patologicamente conservador.
*
Secretária de Políticas
SociaIS
da CUT; fonte:
http://www.cut.org.br/