Os versos da música de Martinho
da Vila deram o “Tom Maior” às
comemorações do 84º
aniversário do PCdoB, nesta Quarta-feira
(22), no Salão Nobre das Câmara
dos Deputados. A pedido do presidente
da Casa, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), o cantor,
que se filiou ao Partido no auge da crise
política do ano passado, cantou
a música com que encerrava as reuniões
do grupo Opinião. A música
fala sobre o nascimento de uma criança,
lembrou Martinho, cantando:
“Eu
hei de ver você ninar, ele dormir/
fazer andar, falar, cantar, sorrir/
E quando ele crescer/
vai ter que ser homem de bem/
Vou ensiná-lo a viver/
onde ninguém é de ninguém/
Vai ter que amar a liberdade/
só vai cantar em tom maior/
vai ter a felicidade de ver o Brasil melhor”.
Os
aplausos à música de Martinho
se repetiram para as falas dos oradores,
que se revezaram ao microfone. Muitos
destacaram a luta atual do Partido para
romper a cláusula de barreira e
manter-se no espaço político,
“onde é uma referência para
a esquerda”, lembrou o presidente do PT,
deputado Ricardo Berzoini (SP).
O
presidente nacional do Partido, Renato
Rabelo, também definiu o tom no
discurso de abertura da solenidade, que
reuniu cerca de 200 pessoas, entre parlamentares
de diversos partidos – aliados e de oposição
—, o presidente do Senado, Renan Calheiros
(PMDB-AL), líderes sindicais e
representantes de movimentos populares.
Aos
representantes do movimento estudantil
coube puxar as palavras de ordem que são
tradição de longos anos
nas festas e eventos do Partido. Entre
um discurso e outros, eles gritavam: “1,
2, 3, 4, 5 mil e viva o Partido Comunista
do Brasil”.
Contra
a cláusula de barreira
Após
falar sobre a trajetória de 84
anos do partido mais antigo do Brasil,
Renato Rabelo fez duras críticas
ao procedimento de cláusula de
barreira de 5%. “Essa cláusula
que vem do regime militar e que conseguimos
revogar junto com o entulho autoritário,
volta a vigorar”, afirmou.
As
palavras duras de Renato ao definir a
cláusula de barreira como uma “deformação”
arrancaram aplausos da platéia.
“É uma cópia mal feita do
sistema alemão, porque lá
o sistema é parlamentarista e unicameral,
onde se decide quem vai governar o país.
No sistema brasileiro, com presidencialismo,
medir representatividade de um partido
só com número de votos para
Câmara Federal é uma deformação”,
afirmou o líder comunista.
Renato
Rabelo concluiu a fala, lembrando que
“o PCdoB nunca se deteve diante das ameaças
à sua existência. Por sua
trajetória de longa existência,
demonstra que é um partido que
tem grande capital - seus quadros, seus
militantes, seus amigos e seus aliados”,
e destacou como a causa principal do Partido
a união do Brasil, “democrático,
soberano, justo, amante da paz e solidário,
com os povos do mundo. Brasil que possa
construir condições para
nova sociedade socialista”.
O
presidente do Senado também falou
sobre o desafio das cláusulas de
barreira. Para Calheiros, o mecanismo
“não pode servir como meio para
restringir as ações de agremiações
de longo histórico de luta a serviço
do povo brasileiro como o PCdoB".
E se reafirmou o seu engajamento “nesta
luta sobre a reforma política que
ainda precisa ser feita nesse país”.
"É
possível se manter fiel aos ideais"
As
palavras de Renan, assim como as do presidente
da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo,
foram dirigidas à história
do Partido. Renan contou detalhes da criação
do Partido, fundado em uma reunião
no dia 25 de março de 1922, em
Niterói, no Rio de Janeiro, em
que participaram um operário, dois
alfaiates, um eletricista, um jornalista,
um barbeiro, um gráfico e dois
funcionários públicos oriundos
de estados com Rio Grande do Sul, Rio
de Janeiro, Pernambuco e São Paulo.
Renan
lembrou os momentos de perseguição
violenta sofrida pelo Partido. E enalteceu
a resistência dos comunistas nesses
momentos. “Eu considero que resistir ao
regime militar e lutar pela democracia
foi uma das maiores contribuições
do PCdoB à sociedade brasileira”,
afirmou.
“A
atuação do PCdoB, junto
a outros partidos políticos, se
mostrou decisiva para o restabelecimento
do regime democrático", disse
Renan, acrescentando que “o exemplo desse
partido mostra ser possível se
manter fiel aos ideais, sem deixar de
lado o compromisso com a democracia”.
Martinho:
"Grandeza se mede pela história"
Martinho
da Vila foi uma atração
á parte na festa. Mexeu com a platéia,
que reagiu com aplausos e palavras de
ordem, quando o sambista justificou a
sua opção pelo Partido.
“Quando me perguntam porque eu me filiei
ao PCdoB e não a um partido grande,
eu respondo que a grandeza se mede pela
história, pelo passado, pelo que
foi feito”, disse.
Em
seguida, explicou, como tem feito em várias
entrevistas, por que optou em se filiar
a um partido num momento de crise política.
E mais uma vez recebeu aplausos ao explicar
que “exatamente nesse momento é
que precisamos nos engajar e se filiar
ao partido, porque democracia sem partido
não existe”, afirmou.
Martinho
apresentou ainda outras razões
para ser um comunista, embora tenha admitido,
arrancando risos do público, que
a palavra ainda causa medo a muitas pessoas.
“Os jornalistas que me deram força
no começo da minha carreira são
todos comunistas; os intelectuais amigos
são todos comunistas; e quando
eu visitei a África pela primeira
vez, todos os países eram colônias
e hoje são independente por ação
da antiga União Soviética”,
explicou.
Companheiros
e camaradas
O
presidente do PT, Ricardo Berzoini, que
também falou na solenidade. Elogiou
a atuação de Renato como
presidente do Partido; de Aldo como presidente
da Casa e a "combativa bancada"
do PCdoB. Numa breve saudação
e com a cumplicidade de aliado, Berzoini
disse: “Em nome dos 800 mil filiados e
filiadas do PT, saúdo este Partido
que, ao longo de sua história –
84 anos, o que é um marco na história
da organização partidária
brasileira — sempre esteve ao lado do
povo, dos interesses nacionais e foi uma
trincheira de resistência da luta
democrática”.
Berzoini
disse que “o PT, que tem 26 anos de existência,
é herdeiro dessas lutas que o PCdoB
ajuda a organizar no nosso país”.
Acrescentou que “o PCdoB é um partido
companheiro e o PT, para o PCdoB, é
um partido camarada”.
Fidelidade
ao povo e à Nação
Aldo
Rebelo fez um paralelo entre a história
do PCdoB e a do Brasil, para destacar
que “o Partido nasceu num dos momentos
em que os clarões da luta libertária
se acenderam sobre o território
nacional”. Ele lembrou a Semana da Arte
Moderna, os 18 do Forte de Copacabana
— duas outras datas de 1922 — e o movimento
operário que se organizava nas
primeiras fábricas do Brasil.
Aldo
afirmou que “o Partido carregou em sua
trajetória a marca de fidelidade
ao país, à nação
e ao povo. Maior patrimônio é
a afirmação de suas convicções
histórias de amor à liberdade
e dedicação ao povo brasileiro,
principalmente os mais pobres e sofridos,
os que vão à margem da história
construindo, com lágrimas e sangue,
mas também com alegria da vida,
o tecido da existência nacional”.
Também
falou sobre “a necessidade de união
de outras forças políticas,
sociais, econômicas e intelectuais
para romper o cerco que impede o pleno
desenvolvimento do Brasil, a ampliação
e aprofundamento da democracia”. E aproveitou
a data festiva para manifestar gratidão
aos militantes e também aos aliados,
“todas as forças políticas
com que partilhamos hoje e ontem essa
trajetória". Para Aldo, "o
Brasil, que se apresenta como grande experiência
civilizatória, não pode
ser apenas promessa de progresso e democracia,
mas que seja realidade e usufruída
por todo o povo brasileiro”.
Trajetória
histórica
Surpreendendo
a platéia com seu conhecimento,
o presidente do Senado narrou vários
momentos de perseguição
e protagonismo na história do Partido.
Ele destacou o enfrentamento de militantes
famosos como Amazonas, Grabbois, Pomar,
Arroyo, Elza Monnerat, “que se esforçaram
para manter vivas crenças em períodos
desfavoráveis como a ditadura Vargas”.
Mas lembrou também os momentos
"de glória", como as
eleições de 1945, quando
o Partido elegeu um senador e 14 deputados
federais.
Renan
lembrou ainda quando, “considerado ilegal
e na clandestinidade, (o Partido) enfrentou
disputas internas que levaram à
sua divisão em 1962”. E acrescentou
fatos mais recentes: a legalização
em 23 de maio de 1985, no governo Sarney,
e eleição de cinco deputados
constituintes, “que tiveram brilhante
atuação na defesa do regime
democrático e dos direitos das
camadas mais desfavorecidas da população”.
Atualmente, o partido conta com 11 deputados
federais e um senador.
De
Brasília
Márcia Xavier
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