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Brasil, sexta-feira, 10 de outubro de 2008

20 de março de 2006

partido vivo
PCdoB realiza seminários pelo interior cearense
 

Os dois primeiros seminários promovidos pelo PCdoB no Ceará iniciaram uma ampla ação estratégica voltada para o desenvolvimento local e conquistaram expressiva simpatia nos diversos municípios da região norte e do extremo oeste litorâneo cearense — nas microrregiões de Sobral e do litoral de Camocim e Acaraú.

O primeiro deles, realizado em Santana do Acaraú, e o segundo, na praiana Camocim, há respectivamente 215 e 359 quilômetros de Fortaleza, atraíram lideranças populares representativas dos municípios vizinhos, transformando o acontecimento num autêntico ponto de partida para uma enérgica movimentação política em torno dos mais agudos problemas que separam as populações do interior de uma sonhada prosperidade.

Os seminários acontecerão nos municípios de Morada Nova (25 de março); Iguatu (26 de março); Juazeiro (oito de abril); e na Grande Fortaleza (29 de abril).

Novo estilo de ação política

Em Santana — município dirigido por um prefeito comunista, Antonio Arcanjo, o Totonho — o evento inaugurou um novo estilo de fazer política em um estado tradicionalmente marcado pelas práticas conservadoras e pelo clientelismo. A caravana oriunda de Fortaleza — que incluiu o presidente estadual do PCdoB, Carlos Augusto Diógenes, Patinhas; o Secretário de Organização Abel Rodrigues Avelar; o deputado federal Inácio Arruda; o deputado estadual Chico Lopes e o vice-prefeito de Sobral, Clodoveu Arruda, entre outras personalidades — confluiu no tradicional Alcione Clube com as festivas turmas de homens e mulheres, trabalhadores de todas as idades que chegaram de várias direções — Sobral, Morrinhos, Miraíma, Marco, Uruoca, Cariré, Acaraú, Senador Sá e Camocim.

Em Camocim, somaram-se os municípios de Granja, Coreaú, Tianguá e Barroquinha, entre diversos outros, e diversos membros da equipe administrativa municipal. Também nessa ocasião sucederam-se as intervenções voltadas para o diagnóstico e propostas de solução para uma infinidade de problemas que afetam as populações da área e do Estado do Ceará, sem, entretanto, tangenciar as questões políticas articuladas ao ano eleitoral de 2006.

(Como não poderia deixar de acontecer, visto que o assunto tem sido tocado com insistência pela mídia, a candidatura de Inácio Arruda ao Senado despertou grande curiosidade e a jornada terminou por ganhar uma certa marca inaugural. Reconhecido com freqüência na rua, onde estabelece a conversa fácil e fluente com os transeuntes, Inácio novamente não mostra dificuldade na conquista do voto nos mais remotos municípios do interior. Desse modo — sem que isso fosse programado —, essa primeira incursão ao interior terminou sugerindo algo como um sugestivo “balão de ensaio” de uma candidatura popular ao Senado).

A energia do desenvolvimento local

A conferência do técnico do Banco do Nordeste (BNB), Eduardo Girão Santiago, polarizou as atenções e tratou da “Desconcentração Regional e Política de Desenvolvimento Local no País e no Ceará”. A problemática do desenvolvimento local foi tratada como “um novo modo de promover o desenvolvimento que possibilita o surgimento de comunidades mais sustentáveis, capazes de suprir suas necessidades imediatas, descobrir ou despertar suas potencialidades específicas, além do fomento ao intercâmbio externo, aproveitando-se de suas vantagens locais”.

A necessidade da inauguração de uma política estadual de desenvolvimento local se estabelece desde o diagnóstico, formulado pelo IPESCE (Instituto de Pesquisa do Estado do Ceará), um organismo governamental: dez dos 184 municípios do Ceará respondem por 67% do seu PIB (Produto Interno Bruto). Destes, excluídos dois municípios do interior do Estado (Sobral e Juazeiro do Norte), restam somente os municípios da RMF (Região Metropolitana de Fortaleza), que reúnem 65% do PIB estadual — atualmente situado no patamar de R$ 24 bilhões. Nesse caso, os demais 174 municípios respondem por apenas 35% da soma das riquezas produzidas no Ceará.

Essa profundamente desigual divisão social do trabalho tem seus reflexos na distribuição produtiva entre os diversos setores econômicos. Quanto ao PIB e ao emprego, a indústria responde, respectivamente, por 36,8 e 15%; o setor de serviços reúne 57,1% e 42%; e a agropecuária, apesar de significar apenas 6,1% do PIB, contraditoriamente dá conta de 43% dos empregos.

Nesses números estão os indícios de uma concentração espetacular da renda e da riqueza e de uma formidável disseminação da miséria pelo interior, num Estado onde a “renda per capita” de R$ 3.130 oculta baixíssimos salários. Também a RMF cearense apresenta o maior Índice de GINI (0,6220) do País, que indica essa absurda concentração da renda. O Ceará está em vigésimo lugar no ranking nacional do IDH (que mede esperança de vida, nível educacional e PIB per capita).

Extrema desigualdade regional

Nesse ambiente, o desenvolvimento local brota como uma política nacional para a desconcentração do desenvolvimento e do progresso. De acordo com os economistas Ladislau Dowbor e Tânia Bacelar, nos países desenvolvidos do mundo capitalista os espaços locais gerenciam entre 40 e 60% dos recursos públicos. Na Suécia, o Estado gerencia mais de dois terços do PIB, mas comparece com 72% no nível local. Nos países em desenvolvimento, o Estado local, genericamente, gerencia entre 5% e 15% dos recursos públicos.

As seqüelas dessa herança histórica da concentração e desigualdade no Brasil faziam com que, no ano 2000, 58% do PIB se localizassem na região Sudeste, ignorando olimpicamente as demais regiões do País; proporcionando no plano nacional uma exagerada concentração da indústria, da infra-estrutura, da base de ciência e tecnologia, da renda e dos melhores níveis de escolaridade. A centralização do Estado, das políticas e recursos públicos retardou ainda um movimento descentralizador impondo a concentração sobre a diversidade.

Nesse sentido, o papel do desenvolvimento local se articula com a idéia de um melhor aproveitamento do potencial do Brasil em sua busca de um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho e, nesse caso, com destaque para o impulso dessa arrancada a partir da energia contida nos municípios. Parte-se do pressuposto de que a fantástica diversidade regional e nacional é uma das marcas do país e é melhor assimilada na escala municipal. Deve-se levar em conta inclusive que 80% dos municípios brasileiros têm menos de 30 mil habitantes, e que, nas cidades médias se encontram pólos geradores de emprego e irradiação do desenvolvimento.

Experiências locais em ebulição

O país está fervilhando de experiências positivas de promoção de desenvolvimento local, que buscam o uso de fatores subutilizados. Assim, a busca do desenvolvimento compreende o mapeamento das regiões com potenciais não aproveitados; a articulação no aproveitamento dos recursos existentes; a potencialização das iniciativas em curso (produtivas, culturais e sociais); a combinação das políticas gerais nacionais (políticas de financiamento, microcrédito, fundos especiais, políticas de educação, políticas fundiárias) com políticas específicas de desenvolvimento local (associativismo, projetos de iniciativa municipal), assegurando uma combinação descentralizadora e democratizante. Entre os instrumentos básicos para a articulação e mobilização, visando apoiar as reais demandas locais, está a organização de sistemas locais de informação e difusão de novos conhecimentos.

Para cumprir esses objetivos, os seminários do PCdoB trabalham uma metodologia que inclui o levantamento das possibilidades de cooperação, as pistas e possibilidades para o desenvolvimento local.

Atividade que mobiliza

As experiências pioneiras de Santana do Acaraú e Camocim, que envolveram os municípios do entorno, lograram êxito a partir de uma intensa atividade de mobilização das comunidades locais, voltadas para o debate das questões municipais centrado no combate à concentração da renda e à sua distribuição. Assim, as intervenções buscaram diagnosticar as dificuldades das populações locais com ênfase nos projetos que levam à melhoria da vida.

No caso de Santana do Acaraú, foi debatida a situação dos assentamentos, do precário aproveitamento das potencialidades do rio Acaraú, da água retida nos açudes públicos localizados nas grandes propriedades, na atração das indústrias que geram empregos.

Patinhas lembrou que a solução desses problemas municipais é fundamental para o desenvolvimento do Ceará, onde a agricultura e o interior do Estado como um todo foram desprezados nos últimos vinte anos. Inácio Arruda destacou a necessidade do beneficiamento da carnaúba e da criação de ovinos, entre outros exemplos de experiências desenvolvidas pela Embrapa na região. Lembrou também que o rio Acaraú possui 30 quilômetros de férteis terras de aluvião com pouco ou nenhum aproveitamento, acrescentando que é necessário que a sociedade organizada se volte para construir e formular programas de governo em todos os níveis. O prefeito Totonho destacou sua prestação de contas, que já busca a inclusão dos elementos do planejamento local.

O ex-deputado estadual e ex-prefeito de Santana, João Ananias, lembrou as iniciativas que marcaram sua presença à frente da administração municipal, que servem como ponto de partida para uma nova arrancada rumo ao desenvolvimento: uma estação de piscicultura com capacidade para a produção de três milhões de alevinos/ano desde 1989; o zoneamento do município em dez unidades assistidas por cinco agrônomos; a luta pela reforma agrária que resultou em dez assentamentos e 600 famílias; as pontes ligando sítios e distritos; as mais de 80 escolas; a municipalização da saúde; mais renda e qualidade de vida para o povo.

Ensinando a pescar

Em Camocim, um município onde a pesca é o elemento econômico fundamental, sucessivas intervenções lamentaram as condições do porto pesqueiro, a falta de insumos para a pesca; as dificuldades na agricultura, a ausência de assistência institucional aos assentamentos; a ausência de uma faculdade e do ensino técnico; as condições do comércio e do turismo e do incremento do emprego e da renda.

Silvana, secretária municipal de Infra Estrutura, destacou o município como pólo econômico e cultural da região, suas belezas naturais e vocação turística, agradecendo ao deputado Inácio Arruda a liberação de R$ 300 mil pelo Ministério do Turismo sem nenhum viés clientelista.

O secretário de Desenvolvimento Sustentável, José Maria Primo de Carvalho, fez um instigante pronunciamento acerca no qual concitou a uma retomada do desenvolvimento no município, lembrando que Camocim tem um passado de prosperidade que precisa ser resgatado, registrando que, hoje, 87% dos seus habitantes estão concentrados na sede, o porto que se conheceu definhou, do mesmo modo que as salinas e a pesca — que, comparativamente ao passado, está “no fundo do poço”. José Maria enfatizou a necessidade de uma retomada da produção, acentuando que Camocim tem vocação mesmo para a produção do biodiesel, visto que dispõe da mamona “de janeiro a dezembro”. E finalizou, numa referência à importância do seminário: “Quem ensina distribui o que é seu, mas cresce cada vez mais”.

Inácio Arruda ressaltou, entre outros aspectos, a importância da recuperação da empresa municipal de saneamento, exaltando a tradição histórica de Camocim como cidade portuária e comercial há mais de 50 anos, dotada inclusive de uma estrada de ferro pioneira que conectou o município a Sobral. Berço de uma febril atividade comunista, um autêntico celeiro de quadros e de um vigoroso Partido, Camocim foi desde aquele momento também um pólo irradiador do pensamento avançado no Ceará.


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