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Bill: Se eu fosse o general de um grande exército faria uma grande
invasão nas favelas do Brasil, com as armas da saúde, da educação, da
cultura, do conhecimento, da oportunidade, da visibilidade, do
desenvolvimento. |
O projeto “Falcão
– Meninos do Tráfico” promete ser um
soco no estômago de milhões de
brasileiros. O trabalho é resultado de uma
pesquisa iniciada em 1997 pelo rapper MV
Bill e seu produtor, Celso Athayde.
Por Nelson Breve
“Eu trafico para ajudar
minha mãe. Eu sei que ela não gosta, mas
eu trafico para ajudar ela”, conta o
pequeno Falcão para a câmera que lhe
enxerga com humanidade.
Garotos com menos de 15
anos, segurando armas pesadas para vigiar os
pontos de tráfico de drogas em favelas de
20 capitais do Brasil. Eles falam da
infância miserável, da vida marginal, dos
sofrimentos, da discriminação e da guerra
que banalizou a morte violenta na sociedade
brasileira. Falam com carinho das mães, com
revolta dos pais, dos seus sonhos e do
futuro, que sabem: será curto. Quase todos
estarão mortos dois anos depois. As imagens
de seus corpos baleados e da família
inconformada também serão mostradas no
documentário de 58 minutos que a TV Globo
exibirá hoje, domingo (19), durante o
Fantástico.
“Falcão – Meninos do
Tráfico” promete ser um soco no estômago
de 50 milhões de brasileiros. O trabalho é
resultado de uma pesquisa iniciada em 1997
pelo rapper MV Bill e seu produtor, Celso
Athayde. Durante seis anos, eles
aproveitaram o calendário de shows para
percorrer comunidades de todos os cantos do
Brasil com uma câmera digital na mão e uma
idéia na cabeça: registrar depoimentos e
imagens dos garotos que trabalham no
tráfico com o olhar de quem busca
compreendê-los e não condená-los. São
mais de 200 horas de gravação, segundo
Athayde.
Desse material, 90 horas
foram disponibilizadas para a Globo fazer
uma primeira edição. O documentário
deveria ter sido exibido em agosto de 2003.
A emissora fez uma ampla divulgação, mas,
poucos dias antes do programa, MV Bill e
Athayde suspenderam misteriosamente a
autorização, alegando motivos pessoais. A
atitude provocou especulações. Chegaram a
desconfiar de que eles tinham sido
ameaçados por chefes do tráfico. Também
se comentou na época que haveria um
interesse comercial da Columbia Pictures nas
imagens cedidas à TV Globo.
Dois anos e meio depois, a
Globo volta a investir pesado na
divulgação. Fala-se em R$ 20 milhões em
propaganda nos diversos meios de
comunicação de todo país. O objetivo da
emissora é uma incógnita, mas o dos
produtores é mostrar o outro lado de uma
realidade que a sociedade conhece pela
metade. “O projeto Falcão é uma
reflexão sobre segurança pública do ponto
de vista de quem nunca falou. Não é para
tornar os meninos do tráfico heróis, muito
menos vilões. É para torná-los mais
humanos e discutir a questão do ponto de
vista de quem é vitima e de quem é culpado”,
explica Athayde, um ex-menino de rua, que
morou na favela do Sapo, em Camará, e
descobriu no movimento hip hop um
instrumento de luta contra a discriminação
racial e a desigualdade social.
Buscando talentos nas
favelas do Rio, ele encontrou MV Bill, um
jovem rapper com idéias parecidas com as
suas. Os dois pensam que ficar só no
discurso e na denúncia não leva a nada.
Eles acreditam que o movimento tem que
partir para a ação. “Hip hop não é um
movimento musical, é um movimento de jovens
negros de periferia”, explica Athayde. “Nós
queríamos mudar a linguagem. Tinha muito
discurso e não tinha prática. Podia se
transformar em mais um indústria de
denúncia e não ter alternativa”,
acrescenta o produtor na conversa que teve
com a Carta Maior na última quinta-feira, a
caminho da Cidade de Deus para encontrar com
MV Bill.
Nessa perspectiva, eles
criaram a Central Única das Favelas (Cufa),
entidade que organiza um festival anual de
hip hop (Prêmio Hutúz), que já foi
incluído no calendário oficial da cidade
do Rio de Janeiro. Com apoio de
instituições governamentais e
não-governamentais, a Cufa está
construindo em Madureira um centro cultural
e esportivo para formação da identidade
dos jovens ligados à cultura hip hop. O
investimento inicial é de R$ 4 milhões.
Lá, eles pretendem ampliar o trabalho que
vem sendo feito há anos com jovens das
comunidades do Rio, em atividades como
basquete de rua, grafite, música e
audiovisual.
Assim surgiu o projeto
Falcão, que só recebeu esse nome muito
depois, quando eles verificaram que a
autodenominação dos garotos que servem
como soldados para proteger o tráfico nas
favelas tinha se espalhado pelas comunidades
de várias regiões do Brasil. MV Bill
descobriu também que a realidade que ele
conheceu na infância na favela da Cidade de
Deus é a mesma não só dos morros do Rio
de Janeiro, mas de todas as periferias de
Porto Alegre a Manaus. Os garotos estão
sendo aliciados pelo tráfico porque não
encontram outras perspectivas de uma vida
mais estimulante, embora mais curta. “Vimos
em todas as nossas cidades os meninos
encontrando no tráfico de drogas o caminho
para sobreviver”, conta MV Bill.
Além do documentário a
ser exibido pelo Fantástico, o projeto
Falcão tem outros lançamentos previstos.
Amanhã, segunda-feira (20), MV Bill e Celso
Athayde colocam nas livrarias o livro “Falcão
– Meninos do Tráfico”, que conta os
bastidores das filmagens misturados com
impressões que eles tiveram em outros
momentos relacionados com a discriminação
e a desigualdade. A obra já sai como
best-seller, assim como o livro anterior,
Cabeça de Porco, que também foi inspirado
no projeto e foi escrito em parceria com o
sociólogo Luiz Eduardo Soares,
ex-secretário Nacional de Segurança
Pública. Já foram impressos 100 mil
exemplares, que estão sendo distribuídos
pela Editora Objetiva.
Em 18 de maio, MV Bill
lança seu terceiro CD, “Falcão – O
Bagulho é Doido”. Assim como o disco
anterior, Declaração de Guerra, as letras
foram todas escritas no período em que os
depoimentos dos meninos foram colhidos. Em
12 de outubro, Dia da Criança, a Columbia
Pictures faz o lançamento do documentário
Falcão – O Sobrevivente, com imagens
diferentes das exibidas pela Globo. O filme,
com cerca de duas horas de duração será
exibido em circuito internacional.
O nome é uma referência
ao fato de que dos 17 garotos que seriam o
fio condutor do documentário, 16 morreram
em um espaço de dois anos. O sobrevivente
escapou da sina dos falcões porque está
preso. “O filme era para falar sobre a
vida dos meninos. Acabou falando sobre a
morte. Quando soube que o último
sobrevivente havia sido preso, agradeci a
Deus pela prisão. Era uma forma de garantir
a vida dele”, revela MV Bill na
entrevista.
Como surgir a idéia do
documentário?
MV BILL - Quando começamos nossa
pesquisa, entre 97 e 98, vi muita coisa
acontecendo com os jovens. Daí surgiu a
letra de Soldado do Morro (do CD Traficando
Informação, de 1999). Eu chamei o Celso
Athayde para fazer o videoclip e
entrevistamos vários garotos. Quando
voltamos lá algum tempo depois, 80% dos
jovens estavam mortos. Aí eu percebi que a
música e o vídeo eram importantes, mas
insuficientes para interferir na realidade.
Então, começamos a filmar os garotos das
comunidades das cidades onde íamos fazer os
shows. Fomos identificando jovens que viam
na criminalidade uma maneira de vida. A
coisa foi acontecendo. Talvez seja a única
oportunidade de retratar esses jovens de
outra maneira, com outros olhos. Falar com
eles e mostrá-los de uma maneira mais
humana.
O que mais te
impressionou?
MB - Escolhemos 17 jovens como fio
condutor do documentário. As falas deles
eram muito ricas, sobre os sonhos, a vida, a
família, o futuro. Disseram coisas que
nunca tiveram oportunidade de dizer para
outras câmeras. Percebi que, mesmo a droga,
que é a tragédia de tantas vidas, é a
sobrevivência de tantas outras. Fomos
acompanhando o que acontecia com eles.
Dezesseis morreram no espaço de dois anos.
As mães deles, na hora mais difícil,
ligavam para a gente dizendo “meu filho
morreu, venham filmar, porque ele acreditava
que o trabalho de vocês era importante”.
O filme era para falar sobre a vida dos
meninos. Acabou falando sobre a morte.
Quando soube que o último sobrevivente
havia sido preso, agradeci a Deus pela
prisão. Era uma forma de garantir a vida
dele.
Sua experiência de
infância na favela influenciou na proposta
do documentário?
MB - O fato de morar na Cidade de Deus,
ser nascido e criado lá, faz com que
enxergue as coisas diferente. Não consigo
ver como bandido quem brincou comigo quando
era criança. Todos os meus amigos de
infância estão mortos. Os que estão vivos
são cadáveres ambulantes. Tive uma
infância padrão para quem nasce em
comunidade. Estudar até onde der. Conciliar
estudo e trabalho. Uma hora tem que optar
porque fica muito difícil. Na favela tem o
que chamo de sonhos adiados. Descobri que o
tráfico, de forma trágica, dá respeito,
visibilidade. Andar com uma arma na favela
impõe respeito. Todo mundo quer ser
visível. Encontrei a música, mas ela não
é o único caminho. É um dos caminhos.
Não tem o mesmo caminho para todos.
Procurei retratar isso nas músicas. Quando
criamos a CUFA, tivemos a oportunidade de
praticar o discurso. O projeto todo pratica.
Conversar com as pessoas, mostrar a
realidade. Não só cantar. Falo e brigo por
interesses de outras pessoas. Porque,
geralmente, as pessoas que ficam famosas e
têm espaço na mídia acham difícil
defender. Nós vamos continuar fazendo o que
já fazemos há muito tempo, a inclusão da
comunidade através da CUFA. Trazendo os
problemas para discussão.
Qual a conclusão que
tiveram dessa experiência?
MB - Não é caso de polícia, de
Justiça. É caso de educação, cultura,
oportunidade, igualdade. Nas viagens dos
shows tive a sensação de que havia mais de
dois brasis. E nós estávamos lidando com
os mais descuidados. A realidade do Rio é
compartilhada no Brasil inteiro. Quando fiz
um show em Minas Gerais, teve um tiroteio
com três mortos. Dois de uma comunidade e
um de outra. O jornal sequer noticiou. Mas
os jornais noticiam um tiroteio em Ipanema
sem nenhum ferido. Esse projeto é uma
oportunidade de mostrar a vida sendo
banalizada. Vimos em todas as nossas cidades
os meninos encontrando no tráfico de drogas
o caminho para sobreviver. Isso está
acontecendo com garotos das periferias de
cidades como Porto Alegre e Curitiba.
Como mudar essa
realidade?
MB - Não devemos responsabilizar
governos. Não é algo de agora, não é
culpa do governo atual. Mas essa é a
oportunidade para brecar. Acabar é
impossível. Nem os EUA conseguiram. Temos
que combater a falta de educação, de
saúde, de cultura, de conhecimento, de
oportunidade. Esse é o momento de todos
fazerem uma reflexão para saber onde está
indo o Brasil. Se eu fosse o general de um
grande exército faria uma grande invasão
nas favelas do Brasil. Mas não da forma
tradicional. Eu invadiria com as armas da
saúde, da educação, da cultura, do
conhecimento, da oportunidade, da
visibilidade, do desenvolvimento. Essa
experiência me mostrou que essas são as
armas para combater melhor a violência.
Fonte: Agência Carta
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