Ruy Guerra é um diretor que tem mais do
que simplesmente um currículo respeitável -
fez grandes filmes do Cinema Novo (Os
Cafajestes, Os Fuzis) e depois nunca cessou
de surpreender, buscando sempre a
radicalidade em obras como a sua adaptação
de Estorvo, de Chico Buarque.
Adaptar um livro de Gabriel García
Márquez é sempre difícil porque o escritor
colombiano não atua no registro do realismo.
O Veneno da Madrugada, que estreou ontem,
baseia-se em La Mala Hora. "Ele (o escritor)
trabalha com um universo mitológico", diz o
cineasta, dando outro nome ao "realismo
mágico" de Gabo. Sob esse prisma, a magia de
Veneno consiste em criar não um sonho, mas
um pesadelo.
O primeiro desafio que Guerra se impôs
foi fazer o filme com fotografia escura,
chuva do princípio ao fim e muita lama.
Isso, obviamente, criou problemas no set,
mas ele adora os desafios. Guerra queria
lançar Veneno em cópias (e projeção)
digitais, mas aí, com o fotógrafo Walter
Carvalho, descobriu que as próprias
condições específicas da imagem poderiam
prejudicar a intenção e recuou. Foi uma das
raras coisas de que abriu mão em O Veneno da
Madrugada.
Seu desafio maior refere-se ao tempo. No
Festival de Tiradentes, homenageado pelo
conjunto da obra, Guerra mostrou seu
primeiro longa, Os Cafajestes, que provocou
escândalo pela nudez frontal de Norma
Bengell, em 1962, e o mais recente, Veneno.
Embora separados por mais de 40 anos e por
condições distintas de produção, os dois
filmes são muito próximos. Um trabalha num
universo mítico, o outro trata de cafajestes
urbanos. Ambos são esplendorosamente
filmados e atribuem uma importância imensa
ao tempo, tema essencial no cinema de
Guerra.
A estrutura temporal de Veneno leva a uma
narrativa em espiral. A história passa-se
numa cidadezinha isolada pela chuva e
dominada por um alcaide que sofre com a dor
de dente. Ele luta contra a elite
representada pela viúva Assis. Leonardo
Vieira e Juliana Carneiro da Cunha
interpretam os papéis. Há um mistério entre
eles, que fica claro mais tarde. E há um
crime, reconstituído em três diferentes
versões.
O Veneno da Madrugada (Br-Arg-Por/2004,
118 min.)
Drama
Direção Ruy Guerra
Censura 14 anos
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