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Brasil, segunda-feira, 8 de setembro de 2008

18 de março de 2006

cinema
Estréia filme de Ruy Guerra sobre obra de García Márquez

Ruy Guerra é um diretor que tem mais do que simplesmente um currículo respeitável - fez grandes filmes do Cinema Novo (Os Cafajestes, Os Fuzis) e depois nunca cessou de surpreender, buscando sempre a radicalidade em obras como a sua adaptação de Estorvo, de Chico Buarque.

Adaptar um livro de Gabriel García Márquez é sempre difícil porque o escritor colombiano não atua no registro do realismo. O Veneno da Madrugada, que estreou ontem, baseia-se em La Mala Hora. "Ele (o escritor) trabalha com um universo mitológico", diz o cineasta, dando outro nome ao "realismo mágico" de Gabo. Sob esse prisma, a magia de Veneno consiste em criar não um sonho, mas um pesadelo.

O primeiro desafio que Guerra se impôs foi fazer o filme com fotografia escura, chuva do princípio ao fim e muita lama. Isso, obviamente, criou problemas no set, mas ele adora os desafios. Guerra queria lançar Veneno em cópias (e projeção) digitais, mas aí, com o fotógrafo Walter Carvalho, descobriu que as próprias condições específicas da imagem poderiam prejudicar a intenção e recuou. Foi uma das raras coisas de que abriu mão em O Veneno da Madrugada.

Seu desafio maior refere-se ao tempo. No Festival de Tiradentes, homenageado pelo conjunto da obra, Guerra mostrou seu primeiro longa, Os Cafajestes, que provocou escândalo pela nudez frontal de Norma Bengell, em 1962, e o mais recente, Veneno. Embora separados por mais de 40 anos e por condições distintas de produção, os dois filmes são muito próximos. Um trabalha num universo mítico, o outro trata de cafajestes urbanos. Ambos são esplendorosamente filmados e atribuem uma importância imensa ao tempo, tema essencial no cinema de Guerra.

A estrutura temporal de Veneno leva a uma narrativa em espiral. A história passa-se numa cidadezinha isolada pela chuva e dominada por um alcaide que sofre com a dor de dente. Ele luta contra a elite representada pela viúva Assis. Leonardo Vieira e Juliana Carneiro da Cunha interpretam os papéis. Há um mistério entre eles, que fica claro mais tarde. E há um crime, reconstituído em três diferentes versões.

O Veneno da Madrugada (Br-Arg-Por/2004, 118 min.)
Drama
Direção Ruy Guerra
Censura 14 anos

 

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