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Brasil, sexta-feira, 10 de outubro de 2008

17 de março de 2006

editora anita garibaldi
Clássico de Otávio Brandão
é relançado na Bienal


 
Adalberto Monteiro dá início à cerimônia

A forte chuva que tomou São Paulo no final da tarde de ontem não foi suficiente para espantar o público convidado a prestigiar os lançamentos da editora Anita Garibaldi, na 19ª Bienal do Livro. Se do lado de fora a água assustava os visitantes da feira, do lado de dentro do Anhembi diferentes gerações do movimento comunista e progressista, intelectuais e dirigentes políticos se encontraram no auditório do pavilhão para saudar a reedição de uma das obras mais proeminentes de seu acervo: o livro Agrarismo e Industrialismo, de Otávio Brandão (veja resenha). A ocasião serviu também para iniciar as homenagens pelos 25 anos da revista Princípios e para estrear alguns dos novos títulos da editora para este ano.

Ao abrir a cerimônia, Adalberto Monteiro, secretário nacional de Formação, ressaltou que “qualquer processo de mudança exige a compreensão ampla da realidade do país e a sintonia fina com os anseios do povo. Este é um dos grandes méritos da obra de Otávio Brandão”.

Enfrentando o temporal, Dionysa Brandão, filha do Otávio, compareceu para prestigiar o evento. O espírito contestador de Brandão parecia de fato ser uma herança genética. Abordada sobre a obra de seu pai, Dionysa fez questão de lembrar que não deveria ser chamada de senhora, já que não tinha nem escravos, nem propriedades. Em seguida, ressaltou que “o resgate da memória dos grandes intelectuais e daqueles que estudaram o país é uma tendência ainda recente. Mas muitos nomes importantes do nordeste já foram reconhecidos, entre eles o de meu pai. Otávio Brandão conheceu o homem brasileiro através da observação do ambiente. E foi essa percepção tão singular que marcou sua obra”.

Dionysa, filha de Brandão, e Bomfim, secretário de Cultura de Alagoas

Relançado com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas e da Unicamp, o livro Agrarismo e Industrialismo é um marco na compreensão das estruturas sociais brasileiras. Durante sua apresentação, Eduardo Bomfim, secretário de Cultura, que na ocasião representou o governador alagoano Ronaldo Lessa, ressaltou que “Brandão foi um homem que se dedicou ao estudo da brasilidade, sem deixar, ao mesmo tempo, de ser internacionalista, um marxista leninista que conheceu a fundo nosso território e que tinha uma visão futurista, à frente de seu tempo”.

Nascido em 1896, em Viçosa (AL), Brandão enfrentou o conservadorismo de uma época questionando o sectarismo da direita e até mesmo de setores da esquerda. “Ele foi um homem de pensamento aberto, que entendia que para ser realmente marxista, era preciso conhecer de perto o Brasil, sua gente, a tradição popular”, lembrou Bomfim.

Em sua busca por um sistema social mais igualitário, numa época em que começavam a chegar ao Brasil correntes revolucionárias, Brandão chegou a ser anarquista. Ao ter contato com o marxismo, resolveu filiar-se ao Partido Comunista do Brasil – na época sob a sigla PCB – logo após sua fundação, em 1922. Teve posição destacada na direção da legenda e ajudou a fundar o jornal A Classe Operária em 1925, do qual foi redator.

Ruy, Bonfim, Ana Rocha, Jabbour, Magalhães, Monteiro e Sena

O farmacêutico formado pela Universidade de Recife logo se mostrou um apaixonado pelo Brasil. Foi um dos pioneiros da temática ambiental, quando o assunto ainda não despertava a atenção da sociedade, ao lançar o livro Canais e lagoas, obra em que ressalta a beleza das lagoas Mundau e Manguaba, em Maceió, e defende a preservação do meio ambiente. Com Agrarismo e Industrialismo, Brandão influenciou os pensadores de sua época e entrou de vez para o rol dos maiores intelectuais da esquerda nacional. Nela, o autor faz uma reflexão das contradições existentes na realidade brasileira, colocando de um lado o setor capitalista de caráter agrário e, de outro, o setor capitalista industrial.

“Ao relançar Agrarismo e Industrialismo estamos na verdade resgatando um dos autores mais importantes de nosso país, um homem de alma revolucionária que soube ir às entranhas de nosso povo, conheceu as regionalidades e percebeu que apesar da diversidade de povo brasileiro, há uma unidade inquebrantável daquilo que constitui nossa nação”, disse Bonfim.

Além de Adalberto Monteiro e Eduardo Bomfim, participaram da mesa José Carlos Ruy, editor de A Classe Operária, Ana Rocha, presidente do comitê estadual do PCdoB/RJ, Elias Jabbour, Davidson Magalhães e Costa Senna – autores que estrearam na noite, respectivamente, os títulos China: infra-estrutura e crescimento econômico, A globalização do capital e os estados nacionais e O casamento da Chapeuzinho Vermelho com o Pequeno Polegar mais duas histórias.

O estande da editora Anita Garibaldi pode ser visitado na Bienal do Livro, até o dia 19 de março, na Travessa Literária, rua A, no Anhembi, em São Paulo. Promovido pela Câmara Brasileira do Livro, o encontro deverá receber cerca de 800 mil pessoas até o seu término, no próximo domingo.

Veja aqui  lançamentos da Editora Anita Garibaldi desta 19ª Bienal

De São Paulo,
Priscila Lobregatte

 

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