
Por Altamiro Borges*
Após
três meses de encarniçada
disputa interna, o núcleo orgânico
do pensamento neoliberal no Brasil, o
PSDB, finalmente escolheu o seu candidato
à sucessão presidencial:
o governador de São Paulo, Geraldo
Alckmin. Notícias de bastidores
revelam que a decisão deixou profundas
cicatrizes. O outro postulante, o prefeito
José Serra, nem sequer foi ao lançamento
oficial da candidatura do seu agressivo
adversário. A “Santíssima
Trindade” do PSDB, que tentou impor um
nome de consenso, também fez cara
feia para o resultado das negociações,
atropeladas pelo arredio governador. E
o boletim eletrônico Primeira Leitura,
órgão oficioso do tucanato,
não esconde que será difícil
colar os cacos da oposição
liberal-conservadora.
Mas,
afinal, o que representa o atual governador?
Como ele conseguiu impor sua candidatura
humilhando um tucano histórico
e bem melhor posicionado nas pesquisas?
Como um administrador aparentemente tão
anódino – um “picolé de
chuchu”, segundo a famosa ironia do jornalista
José Simão – adquiriu tanta
força política e prestígio
entre as classes dominantes? Afinal, a
revista da poderosa federação
das indústrias de São Paulo
já havia antecipado o seu apoio
a Alckmin e, segundo artigo recente do
jornal Financial Times, “ele é
o preferido dos círculos financeiros
de Wall Street”. Um breve relato da política
aplicada em São Paulo ajuda a entender
o resultado da briga interna no PSDB e
a opção explícita
das elites dominantes.
Locomotiva
parada
No
século passado, São Paulo
ficou conhecido como locomotiva do Brasil.
Por distintas razões históricas,
o Estado adquiriu forte dinamismo econômico
e deu impulso ao desenvolvimento nacional.
Hoje, com 40 milhões de habitantes,
ele ainda é responsável
por 32,6% do Produto Interno Bruto (PIB),
cerca de um terço de tudo o que
se produz no país, por 32% das
exportações e por 45% das
importações. A sua receita,
provinda de tributos diretos e indiretos
de seus cidadãos, é de R$
62,2 bilhões. O Estado concentra
51,6% dos salários industriais
do país e aloja sete dos 10 maiores
bancos e oito das 10 maiores seguradoras.
Toda
essa pujança econômica, porém,
foi emperrada pelo medíocre e prolongado
reinado tucano. O peso de São Paulo
no PIB nacional, que atingiu 39,5% em
1970, no auge da sua expansão industrial,
teve uma queda abrupta. Hoje, o Estado
não tem projeto estratégico
de desenvolvimento e a locomotiva está
parada. Sem crescimento sustentado, o
território que já seduziu
brasileiros de todos os cantos se tornou
um centro de desempregados. O outrora
pólo mais dinâmico da economia
virou um cemitério das indústrias.
Sob o pretexto da crise financeira, o
tucanato promoveu o desmanche do Estado
para saciar os banqueiros.
Com
Geraldo Alckmin, antes na presidência
do Programa de Desestatização
e hoje como governador, São Paulo
foi privatizado – perdeu o Banespa como
banco de fomento, a Fepasa (ferrovias),
o Ceagesp (centro de abastecimento), a
Eletropaulo (geradora da energia), a Comgás
e a Companhia Paulista de Força
e Luz. Já a companhia de saneamento
(Sabesp), o banco Nossa Caixa e outras
instituições foram fragilizadas
com a venda irresponsável de ações
e a extensa malha rodoviária foi
entregue a preço de banana para
empresas que multiplicam pedágios
e assaltam os usuários nas tarifas
– sem qualquer controle público.
Apesar
do violento desmonte, rotulado pelos tucanos
de “reengenharia”, a crise financeira
só se agravou. Os recursos obtidos
com as privatizações, R$
32,9 bilhões, sumiram no ralo dessa
suspeita gestão. Em janeiro de
1995, no início do primeiro governo
tucano, a dívida pública
era de R$ 34 bilhões; hoje, ela
é de R$ 123 bilhões, quase
duas vezes a sua receita liquida. O Estado
está mais pobre e debilitado, sem
capacidade de investimentos, e vive aprisionado
a uma dívida que consome mais de
R$ 5 bilhões ao ano e que sugará
os seus recursos pelos próximos
30 anos. A sua decadência regional
será ainda mais intensa!
Segundo
recente estudo do economista Marcio Pochmann,
mantida a atual política de corte
neoliberal, o PIB per capita de São
Paulo cairá da terceira posição
no ranking nacional para 11º lugar
até 2012, com efeitos dramáticos
sobre o emprego e a renda dos paulistas.
Já uma minoria parasitária,
que vive dos juros dos títulos
da dívida pública, terá
maiores privilégios. O número
de famílias ricas em São
Paulo saltou de 191 mil para 674 mil nas
duas últimas décadas – pulou
de 37,8% para 58% do total de famílias
abastadas no Brasil. “Grande parte da
elite paulista encontra-se submersa no
pacto neoliberal, enquanto beneficiária
da financeirização. A riqueza
não é mais distribuída
entre os vários elos da cadeia
de produção. Ela fica concentrada
nas famílias de banqueiros e nas
pessoas que as rodeiam”, garante o renomado
economista.
Expoente
ultraliberal
Esta
breve e deprimente história revela
as duas marcas principais da orientação
econômica do governador Geraldo
Alckmin, agora candidato à presidência
da República. Por um lado, o brutal
arrocho fiscal, com a redução
dos investimentos estatais visando explicitamente
saciar a gula dos credores da dívida.
Por outro, a criminosa política
de privatização do patrimônio
público também com a obsessão
de transferir renda aos círculos
financeiros. Não é para
menos que logo no anúncio da sua
candidatura, ele fez questão de
afirmar que um dos motes da sua campanha
será o da tal “eficiência
econômica”, com a diminuição
do papel do Estado e o estimulo ao mercado.
Em síntese, ele representará
o ultraliberalismo na batalha sucessória!
No
caso de São Paulo, essa orientação
econômica teve efeitos trágicos.
O Estado virou um inferno para os trabalhadores
e um paraíso para as corporações
financeiras. A burguesia paulista é
hoje a expressão maior do rentismo
e do parasitismo. Não tem qualquer
projeto de desenvolvimento nacional; ela
vive de renda e esbanja opulência.
Isto explica porque ela ficou tão
animada com a decisão tucana. “Só
recebo elogios da administração
Alckmin”, exaltou Armando Monteiro, presidente
da Confederação Nacional
das Indústrias (CNI). “Se o programa
de governo de São Paulo for ampliado
para o Brasil será muito positivo”,
festejou o camaleão Paulo Skaf,
presidente da poderosa Fiesp. Ou seja:
os campos já estão demarcados!
* Jornalista, membro do Comitê Central
do PCdoB, editor da revista Debate
Sindical
e autor do livro “Encruzilhadas do sindicalismo”
(Editora Anita Garibaldi)
|