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Renato Rabelo *
Neste começo de ano, o Brasil e o mundo
têm passado por acontecimentos
importantes, que criam uma situação nova
no quadro internacional e nacional, com
desdobramentos significativos na
conjuntura geral em curso.
Em primeiro lugar, no plano mundial,
merece destaque o que acontece na América
Latina, sobretudo América do Sul, com a
ascensão das forças democráticas,
patrióticas e populares. Os últimos
acontecimentos que merecem registro foram
a eleição de Evo Morales na Bolívia,
significativa vitória das forças
progressistas desse país, e o processo
eleitoral no Haiti, no qual a intervenção
brasileira foi decisiva para que seus
desdobramentos, depois da descoberta de
fortes indícios de fraude, não degenerasse
numa crise mais grave. O Brasil teve um
papel dirigente na busca de uma saída para
o impasse, que resultou no acordo político
que deu a vitória a René Préval. Sua
eleição começa a criar uma situação de
normalidade na qual a presença de tropas
da ONU, comandadas pelos militares
brasileiros, será dispensável. Por isso é
preciso criar as condições para a saída
das tropas, o mais rápido possível, porque
elas vão encerrando o papel ao qual foram
incumbidas.
O fortalecimento das tendências
progressistas e avançadas no continente é
um acontecimento da mais alta importância,
com influência sobre a conjuntura
brasileira, da mesma forma como o que
acontece no Brasil se reflete sobre os
países da América Latina. Nesse sentido, o
resultado da eleição brasileira deste ano
será decisivo para os rumos que a região
vai tomando.
É preciso compreender melhor as
perspectivas e conseqüências desse
movimento no continente. Estas
experiências resultam da conjunção de dois
fatores que se desenvolvem na última
década: o crescimento da resistência
contra as políticas neoliberais e a busca
de alternativas que favoreçam aos povos
dessa região, e as tentativas de
integração dos países latinos e caribenhos
fora da égide do hegemonismo do
imperialismo norte-americano. Esse
movimento de resistência é inicial, tendo
que alcançar um período de consolidação,
desafio ainda maior, considerando-se
necessariamente a particularidade de cada
país e seus ritmos próprios de
desenvolvimento. E sua evolução é
fundamental para que possamos nos
posicionar melhor em nossa luta no Brasil.
Instabilidade e exacerbação
A situação do Oriente Médio também
apresenta fatores novos, entre eles a
eleição do Hamas na Palestina, que não
estava em cogitação para os governos dos
EUA e da Europa; a resistência iraniana
contra as investidas do imperialismo
norte-americano contra seu programa
nuclear soberano; o desenlace das eleições
no Iraque onde a manipulação não impediu o
avanço dos xiitas ligados ao Irã, criando
uma situação inesperada para as potências
imperialistas, sobretudo os EUA. Isso tudo
foge do plano e dos objetivos do
imperialismo. Simultaneamente, a Síria e o
Irã, alvos de ameaças imperialistas,
conseguem se fortalecer politicamente e
melhorar suas condições para enfrentar as
agressões e ameaças.
Tudo isso decorre num quadro de
crescente instabilidade e exacerbação,
agravadas pela provocação significada pela
publicação de caricaturas do profeta Maomé
por um jornal de direita da Dinamarca, e
repetida pela imprensa européia
conservadora. E que provocou ondas de
manifestações de protesto nos países
muçulmanos, com mortes e incêndio de
embaixadas dinamarquesas na Síria e no
Libano.
Estes são sintomas de causas mais
profundas, da indignação contra o
crescimento da agressão do imperialismo
norte americano, contra as afrontas e
discriminação que os muçulmanos sofrem nos
países ricos ocidentais. Significam
sobretudo, a resistência contra a
imposição aos países árabes, de cultura
milenar, dos ditames políticos e culturais
liberais burgueses, como ponta de lança
para a entrada e fortalecimento do domínio
norte-americano. A resistência dos povos
contra isso cresce, gerando instabilidade
na região de todo Oriente Médio que é
chave para os objetivos do imperialismo
norte-americano.
É um quadro no qual crescem as ameaças
imperialistas; esse conjunto de movimentos
e sua ebulição crescente podem ter
desdobramentos imprevisíveis, com o
agravamento da agressão norte-americana,
gerando riscos de um conflito
generalizado. É o que se pode concluir de
declarações da secretária de Estado dos
EUA, Condoleezza Rice, para quem a
situação está ficando fora do controle. E
chegou a ameaçar o Irã com uma intervenção
militar, apesar das dificuldades crescente
interna e externa, que passa o governo
Bush para se aventurar em nova escalada
guerreira.
Prestígio de Lula abala oposição
No Brasil, a mudança na conjuntura
política é registrada pela recuperação do
prestígio do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva e também pelas dificuldades
enfrentadas pela oposição, particularmente
pelo PSDB. Em relação à situação que
prevaleceu desde meados do ano passado,
hoje há um refluxo da crise. Antes, as
dificuldades estavam em nosso campo.
Agora, com as bolhas lançadas pela
oposição se desfazendo, com a fumaça e a
poeira levantadas pelas CPIs e pela mídia
conservadora baixando, os feitos do
governo começam a aparecer melhor, e os
problemas e impasses da oposição tomam
vulto. O prestígio do presidente da
República voltou aos níveis que ele exibia
antes do começo da crise, em junho de
2005. E há um fator que é preciso notar,
entre os dados apresentados pelas
pesquisas eleitorais divulgadas entre o
final de janeiro e o inicio de fevereiro.
Lula cresceu em todos os quesitos e, hoje,
venceria qualquer adversário. Essa
impressão é fortalecida pelo crescimento
do índice de rejeição dos candidatos
tucanos e do resultado da pesquisa
eleitoral espontânea. Nela, Lula tem 30%
das intenções de voto, superando a soma de
todos os outros candidatos. Este item é
importante porque ele é o que mais se
aproxima da situação real da eleição, onde
o eleitor escolhe espontaneamente seu
candidato, e não é estimulado por um
cartão ou lista apresentada por algum
pesquisador.
Apesar da característica oscilante do
curso político, esses novos fatores
apontam perspectivas alentadoras para a
conjugação dos meios e das forças
políticas que possam levar Lula a um
segundo mandato.
No campo oposicionista, a situação é de
disputa e aparente desespero. O prefeito
paulistano, José Serra, parecia o
candidato natural dos tucanos; não é mais,
e parece vacilar depois que as pesquisas
de opinião revelam que a eleição não será
o passeio rumo ao Palácio do Planalto que
a oposição previa. Serra insiste que só
será candidato se for ungido por todo o
PSDB, tarefa difícil, pois o governador
paulista Geraldo Alckmin insiste em se
manter no páreo, dividindo o principal
partido da oposição. Eles tinham várias
candidaturas, desde Fernando Henrique
Cardoso – que parece descartada devido aos
altíssimos níveis de rejeição do
ex-presidente - passando por Serra e
Alckmin, até uma candidatura mais fraca no
caso de Lula aparecer como um candidato
imbatível. Esses planos, aparentemente,
foram atropelados pela nova realidade que
se formou com a recuperação do prestígio
de Lula e seu fortalecimento como
candidato à sua própria sucessão, e torna
a batalha incerta. Isso talvez explique as
atitudes raivosas de Fernando Henrique
Cardoso, que tem se revelado como o
verdadeiro pittbull tucano, exacerbando
seu destempero verbal ao ponto de ser
levado aos tribunais por ter ofendido a
honra dos militantes petistas quando disse
que a “ética do PT é roubar”. A divisão é
tamanha que poderá deixar seqüelas entre
os tucanos.
Nova Carta aos Brasileiros
O governo, por sua vez, navega em
correntes favoráveis. O quadro econômico é
estável. E, embora o desenvolvimento ainda
seja contido, travado, é prevista uma
expansão para este ano. A dívida externa
diminuiu, o superávit comercial tem
crescido com consistência, apesar da
valorização crescente do Real e as
agências estrangeiras classificadoras do
risco país têm colocado o Brasil numa
situação favorável, com queda no risco
país.
Tudo isso tem influência direta no
quadro eleitoral. O nome de Lula firma-se
como um candidato difícil de ser batido; a
aprovação do fim da verticalização pode
firmar o núcleo de apoio à candidatura
Lula (formado por PT, PCdoB e PSB),
abrindo caminho para a formação de uma
aliança de centro esquerda, na qual o PMDB
poderá ter papel fundamental. Enquanto
isso, a oposição encontra dificuldades
para aglutinar forças em torno de seu
campo, com fissuras que se aprofundam
entre o PSDB e o PFL, partidos que
constituem o núcleo neoliberal da oposição
conservadora.
O reflexo desse quadro nos estados
poderá levar a alianças que, atendendo as
demandas regionais, e reagindo ao
crescimento ou queda do prestígio de Lula,
aponta para um cenário onde em muitas
unidades da federação poderá haver mais de
um palanque em apoio à reeleição de Lula.
São tendências que favorecem nosso campo e
dificultam o campo oposicionista.
O próprio presidente Lula apresenta um
ânimo condizente com este novo quadro,
como ficou claro na conversa que tivemos
com ele no começo de fevereiro. O
presidente está confiante, quer fortalecer
o núcleo de esquerda de seu governo, com o
PT, o PCdoB e o PSB, e pensa inclusive em
formar uma Comissão suprapartidária, que
tenha também representantes do movimento
social, para participar na condução da
campanha eleitoral deste ano.
Está convencido também da necessidade
de uma “Nova Carta aos Brasileiros”, que –
ao contrário da Carta aos Brasileiros de
2002, que assumiu compromissos com o
mercado financeiro, diante da gravidade da
crise que o país vivia nos meses finais do
governo de FHC – seja agora um compromisso
com quem produz e trabalha, com o
desenvolvimento econômico, a
universalização de direitos, integração do
continente, etc. E mostrou-se aberto para
o debate do programa que aponte nesse
sentido, que do nosso ponto de vista
supere o hibridismo da atual política
econômica do governo, representado pelo
conservadorismo macro-econômico, que de
certa forma reduziu a perigosa
vulnerabilidade externa e convive com
medidas que promovem certo progresso
social - a recuperação do poder de compra
do salário mínimo, o crédito consignado
que ajuda a movimentar a economia, a
criação de novos empregos (prevê-se que
chegará a cinco milhões de empregos em
quatro anos), o Bolsa Família (que vai
atingir mais de 11 milhões de família em
2006), as medidas que favorecem a
construção civil beneficiando o povo mais
pobre, o início de grandes obras.
É possível agora, com as condições
criadas pelo governo Lula, uma nova versão
da Carta aos Brasileiros que sinalize no
sentido de um ciclo de forte
desenvolvimento, voltado principalmente
para a produção e a valorização do
trabalho em consonância com os novos rumos
de resistência ao neoliberalismo e ao
imperialismo que a América Latina vem
tomando nos últimos tempos.
* Presidente nacional do Partido
Comunista do Brasil
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