Por
Bernardo Joffily
Na
pesquisa eleitoral do instituto Datafolha,
publicada nesta quarta-feira pela Folha
de S. Paulo, tanto José Serra
quanto Geraldo Alckmin continuam
na frente de Lula na faixa dos eleitores
mais ricos. Este elemento, que o
jornal não mostrou, mas os gráficos
ao lado mostram, indicam que o fator
social deve ter forte influência
na eleição presidencial
deste ano.
Gráficos
que falam
Observe
os gráficos. Na faixa mais pobre
mostrada pelo Datafolha (eleitores com
menos de 5 salários mínimos
de renda), Lula venceu Serra em sete
das nove últimas pesquisas do
instituto. Em contraste, na faixa mais
rica (mais de 10 mínimos), o
quadro se inverte: Serra vence em sete
das nove, sempre no primeiro turno.
Na
pesquisa de ontem (veja o terceiro gráfico),
é notável nesta faixa
mais abastada a perda de eleitores de
Serra (ele cai 14 pontos) e a recuperação
de Lula (que sobe 15 pontos). Ainda
assim, o prefeito tucano mantém
uma dianteira, se não confortável,
nítida, no limite da margem de
erro da sondagem, de 2 pontos para mais
ou para menos.
Chuchu
com caviar
O
fenômeno é ainda mais notável
no cenário onde o candidato presidencial
tucano é o governador Geraldo
Alckmin. Notável porque este
Tucano, ao contrário de Serra,
em toda a série de nove sondagens
nunca superou ou mesmo se aproximou
de Lula.
No
entanto, a partir de outubro do ano
passado, mesmo Alckmin vai marcando
uma consistente e crescente dianteira
sobre Lula na faixa mais rica. Na pesquisa
de ontem ele também recua nessa
parcela, mas menos que Serra: 9 pontos
contra 14. E mantém uma dianteira
sobre Lula levemente mais folgada que
a do seu rival tucano: 6 pontos em vez
de 4.
Anthony
Garotinho, aspirante a presidenciável
do PMDB, em ambos os cenários
mostra um eleitorado com perfil social
assemelhado ao de Lula: mais forte entre
os pobres, menos entre os ricos.
Pesquisa
eleitoral não mostra classe social
As
pesquisas disponíveis, lamentavelmente,
não segmentam a preferência
eleitoral conforme a classe social do
eleitor. Nelas fica impossível
descobrir como votam os proletários
ou os burgueses, qual a tendência
eleitoral dos metalúrgicos do
ABC, dos petroleiros da Bacia de Campos,
ou dos sem-terra, ou dos capitães
de indústria ou banqueiros. Todas
seguem os critérios quantitativos
da sociologia americana, que borra as
fronteiras de classe.
Mesmo
dentro dessa lógica quantitativa,
a maioria dos institutos não
desdobra as faixas acima dos 10 salários
mínimos, alegando que elas são
eleitoralmente pouco expressivas. Há
nisso apenas uma parcela da verdade.
Porque um ferramenteiro da Ford ou da
Volkswagen, mesmo sendo um legítimo
operário do chão da fábrica,
ganha mais de 10 mínimos e portanto
aparece na faixa do eleitorado mais
rico.
A
exceção é o instituto
Ipsos, que trabalha para a CNT, e costuma
registrar uma faixa superior, com renda
acima de 20 mínimos. Porém
como esse segmento é pouco numeroso,
os entrevistados são poucos e
o resultado fica sujeito a fortes distorções.
Por
uma pesquisa sobre o voto muito rico
Algum
dia, quem sabe ainda nesta campanha
eleitoral, alguém há de
fazer uma pesquisa consistente, com
critérios qualitativos, sobre
a intenção dos votos dos
verdadeiramente muito ricos deste país.
Não porque os seus votos tenham
tanto peso na urna, pois de fato não
têm. Mas porque eles votam, sobretudo,
com o bolso, financiando candidatos
e partidos, ou influindo sobre a mídia
com o irrecusável argumento das
contas publicitárias.
Que
resultados traria uma pesquisa assim,
com eleitores de, digamos, mais de 100
salários mínimos de renda,
e 50 vezes isto de patrimônio?
Sem dúvida, os tucanos disparados
na frente. E, possivelmente, Alckmin
melhor situado que Serra.
Seriam
números bem instrutivos. Em especial
para quem não está neste
vértice dourado da pirâmide
social, mereceriam ser levados muito
em conta, pelo que deixariam a nu sobre
as reais plataformas em disputa na contenda
presidencial.
Lula lidera no 1º e no 2º
turnos
Os dados gerais da pesquisa já
são bem conhecidos, reproduzidos
que foram pela TV e os portais de renovação
online. Lula volta a liderar a disputa.
A intenção de voto em
Lula sobe a 39%, no cenário mais
disputado. Votariam no prefeito José
Serra, 31%. Lula ganhou 6 pontos percentuais
em relação à pesquisa
anterior, realizada nos dias 1 e 2 de
fevereiro (tinha 33% das intenções
de voto na ocasião), enquanto
Serra perdeu três (tinha 34%).
A
pesquisa mostra que Lula também
se fortaleceu em relação
à intenção de voto
espontânea. Lula subiu de 23%
para 30% na espontânea; Serra
oscilou de 9% para 11% e Alckmin manteve-se
nos 4%.
No
cenário com Serra, Anthony Garotinho
(PMDB) oscilou de 10% para 8% e, Heloisa
Helena (PSOL), de 6% para 5%. Roberto
Freire (PPS) e Cristovam Buarque (PDT)
mantiveram as taxas obtidas anteriormente,
respectivamente de 2% e 1%. Eymael (PSDC)
foi citado, mas não atingiu 1%.
Votariam em branco ou anulariam o voto
hoje 8% e não saberiam em quem
votar 5%.
Lula
não atingia tal diferença
em relação a Serra desde
a eclosão do chamado escândalo
do mensalão, em junho de 2005.
Em dezembro de 2004, antes das denúncias,
a vantagem de Lula era de 13 pontos
percentuais (41% a 28%). No início
de junho ela caiu para 10 pontos (36%
a 26%), e foi a seis pontos (33% a 27%)
na segunda quinzena daquela mês,
logo após entrevista do ex-deputado
Roberto Jefferson à Folha de
S. Paulo, na qual ele revelava o suposto
pagamento de mesada feito pelo governo
a deputados.
Variação
idêntica ocorreu no cenário
em que o governador do Rio Grande do
Sul, Germano Rigotto, substitui Garotinho
como candidato do PMDB. Lula ganhou
6 pontos (foi de 36% para 42%) e Serra
perdeu 3 (passou de 35% para 32%). Heloisa
Helena oscilou de 7% para 6%; Roberto
Freire e Germano Rigotto se mantiveram
com 2%, cada, Cristovam Buarque repetiu
a taxa de 1% e Eymael, novamente, não
chegou a essa marca.
No
cenário em que Geraldo Alckmin
é o candidato do PSDB, e Garotinhoo
do PMDB, Lula ampliou ainda mais sua
vantagem. Se o primeiro turno da eleição
fosse hoje, ele teria 43% dos votos
e Alckmin 17%, 10 pontos maior do que
a verificada no começo do mês.
Em relação àquela
pesquisa, Lula ganhou sete pontos percentuais
(tinha 36% das intenções
de voto) e o governador paulista recuou
três pontos (tinha 20%). Neste
caso, Lula se reelegeria ainda no primeiro
turno.
O
presidente também se fortaleceu
nas simulações de segundo
turno. Contra Serra, hoje, Lula teria
48% e o tucano 43%. Contra Alckmin,
o resultado seria 53% a 35% (Lula subiu
5 pontos e o governador tucano recuou
4). Entre Lula e Garotinho, Lula teria
56% e Garotinho 28%.
A
pesquisa foi realizada pelo Datafolha
nos dias 20 e 21 de fevereiro. O instituto
entrevistou 2.651 brasileiros de todas
as unidades da Federação,
a partir dos 16 anos de idade. A margem
de erro é de 2 pontos percentuais,
para mais ou para menos.
Clique
aqui para ver os relatórios do
instituto Datafolha: http://www1.folha.uol.com.br/folha/datafolha/