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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

23 DE FEVEREIRO DE 2006

ELEIÇÕES 2006

Um olhar social no Datafolha: ricos
são Alckmin ou Serra, os pobres, Lula

Por Bernardo Joffily

Na pesquisa eleitoral do instituto Datafolha, publicada nesta quarta-feira pela Folha de S. Paulo, tanto José Serra quanto Geraldo Alckmin continuam na frente de Lula na faixa dos eleitores mais ricos. Este elemento, que o jornal não mostrou, mas os gráficos ao lado mostram, indicam que o fator social deve ter forte influência na eleição presidencial deste ano.

Gráficos que falam

Observe os gráficos. Na faixa mais pobre mostrada pelo Datafolha (eleitores com menos de 5 salários mínimos de renda), Lula venceu Serra em sete das nove últimas pesquisas do instituto. Em contraste, na faixa mais rica (mais de 10 mínimos), o quadro se inverte: Serra vence em sete das nove, sempre no primeiro turno.

Na pesquisa de ontem (veja o terceiro gráfico), é notável nesta faixa mais abastada a perda de eleitores de Serra (ele cai 14 pontos) e a recuperação de Lula (que sobe 15 pontos). Ainda assim, o prefeito tucano mantém uma dianteira, se não confortável, nítida, no limite da margem de erro da sondagem, de 2 pontos para mais ou para menos.

Chuchu com caviar

O fenômeno é ainda mais notável no cenário onde o candidato presidencial tucano é o governador Geraldo Alckmin. Notável porque este Tucano, ao contrário de Serra, em toda a série de nove sondagens nunca superou ou mesmo se aproximou de Lula.

No entanto, a partir de outubro do ano passado, mesmo Alckmin vai marcando uma consistente e crescente dianteira sobre Lula na faixa mais rica. Na pesquisa de ontem ele também recua nessa parcela, mas menos que Serra: 9 pontos contra 14. E mantém uma dianteira sobre Lula levemente mais folgada que a do seu rival tucano: 6 pontos em vez de 4.

Anthony Garotinho, aspirante a presidenciável do PMDB, em ambos os cenários mostra um eleitorado com perfil social assemelhado ao de Lula: mais forte entre os pobres, menos entre os ricos.

Pesquisa eleitoral não mostra classe social

As pesquisas disponíveis, lamentavelmente, não segmentam a preferência eleitoral conforme a classe social do eleitor. Nelas fica impossível descobrir como votam os proletários ou os burgueses, qual a tendência eleitoral dos metalúrgicos do ABC, dos petroleiros da Bacia de Campos, ou dos sem-terra, ou dos capitães de indústria ou banqueiros. Todas seguem os critérios quantitativos da sociologia americana, que borra as fronteiras de classe.

Mesmo dentro dessa lógica quantitativa, a maioria dos institutos não desdobra as faixas acima dos 10 salários mínimos, alegando que elas são eleitoralmente pouco expressivas. Há nisso apenas uma parcela da verdade. Porque um ferramenteiro da Ford ou da Volkswagen, mesmo sendo um legítimo operário do chão da fábrica, ganha mais de 10 mínimos e portanto aparece na faixa do eleitorado mais rico.

A exceção é o instituto Ipsos, que trabalha para a CNT, e costuma registrar uma faixa superior, com renda acima de 20 mínimos. Porém como esse segmento é pouco numeroso, os entrevistados são poucos e o resultado fica sujeito a fortes distorções.

Por uma pesquisa sobre o voto muito rico

Algum dia, quem sabe ainda nesta campanha eleitoral, alguém há de fazer uma pesquisa consistente, com critérios qualitativos, sobre a intenção dos votos dos verdadeiramente muito ricos deste país. Não porque os seus votos tenham tanto peso na urna, pois de fato não têm. Mas porque eles votam, sobretudo, com o bolso, financiando candidatos e partidos, ou influindo sobre a mídia com o irrecusável argumento das contas publicitárias.

Que resultados traria uma pesquisa assim, com eleitores de, digamos, mais de 100 salários mínimos de renda, e 50 vezes isto de patrimônio? Sem dúvida, os tucanos disparados na frente. E, possivelmente, Alckmin melhor situado que Serra.

Seriam números bem instrutivos. Em especial para quem não está neste vértice dourado da pirâmide social, mereceriam ser levados muito em conta, pelo que deixariam a nu sobre as reais plataformas em disputa na contenda presidencial.

Lula lidera no 1º e no 2º turnos

Os dados gerais da pesquisa já são bem conhecidos, reproduzidos que foram pela TV e os portais de renovação online. Lula volta a liderar a disputa. A intenção de voto em Lula sobe a 39%, no cenário mais disputado. Votariam no prefeito José Serra, 31%. Lula ganhou 6 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, realizada nos dias 1 e 2 de fevereiro (tinha 33% das intenções de voto na ocasião), enquanto Serra perdeu três (tinha 34%).

A pesquisa mostra que Lula também se fortaleceu em relação à intenção de voto espontânea. Lula subiu de 23% para 30% na espontânea; Serra oscilou de 9% para 11% e Alckmin manteve-se nos 4%.

No cenário com Serra, Anthony Garotinho (PMDB) oscilou de 10% para 8% e, Heloisa Helena (PSOL), de 6% para 5%. Roberto Freire (PPS) e Cristovam Buarque (PDT) mantiveram as taxas obtidas anteriormente, respectivamente de 2% e 1%. Eymael (PSDC) foi citado, mas não atingiu 1%. Votariam em branco ou anulariam o voto hoje 8% e não saberiam em quem votar 5%.

Lula não atingia tal diferença em relação a Serra desde a eclosão do chamado escândalo do mensalão, em junho de 2005. Em dezembro de 2004, antes das denúncias, a vantagem de Lula era de 13 pontos percentuais (41% a 28%). No início de junho ela caiu para 10 pontos (36% a 26%), e foi a seis pontos (33% a 27%) na segunda quinzena daquela mês, logo após entrevista do ex-deputado Roberto Jefferson à Folha de S. Paulo, na qual ele revelava o suposto pagamento de mesada feito pelo governo a deputados.

Variação idêntica ocorreu no cenário em que o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, substitui Garotinho como candidato do PMDB. Lula ganhou 6 pontos (foi de 36% para 42%) e Serra perdeu 3 (passou de 35% para 32%). Heloisa Helena oscilou de 7% para 6%; Roberto Freire e Germano Rigotto se mantiveram com 2%, cada, Cristovam Buarque repetiu a taxa de 1% e Eymael, novamente, não chegou a essa marca.

No cenário em que Geraldo Alckmin é o candidato do PSDB, e Garotinhoo do PMDB, Lula ampliou ainda mais sua vantagem. Se o primeiro turno da eleição fosse hoje, ele teria 43% dos votos e Alckmin 17%, 10 pontos maior do que a verificada no começo do mês. Em relação àquela pesquisa, Lula ganhou sete pontos percentuais (tinha 36% das intenções de voto) e o governador paulista recuou três pontos (tinha 20%). Neste caso, Lula se reelegeria ainda no primeiro turno.

O presidente também se fortaleceu nas simulações de segundo turno. Contra Serra, hoje, Lula teria 48% e o tucano 43%. Contra Alckmin, o resultado seria 53% a 35% (Lula subiu 5 pontos e o governador tucano recuou 4). Entre Lula e Garotinho, Lula teria 56% e Garotinho 28%.

A pesquisa foi realizada pelo Datafolha nos dias 20 e 21 de fevereiro. O instituto entrevistou 2.651 brasileiros de todas as unidades da Federação, a partir dos 16 anos de idade. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Clique aqui para ver os relatórios do instituto Datafolha: http://www1.folha.uol.com.br/folha/datafolha/

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