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Pneus
queimados nas ruas marcam veemência do protesto estudantil |
O movimento estudantil promoveu na última
segunda-feira (13/2) o sexto dia de protestos contra o reajuste da passagem de
ônibus em Juiz de Fora (MG). O grupo parou o trânsito por mais de três horas.
Alguns manifestantes picharam ônibus, queimaram um boneco caricato do prefeito
Alberto Bejani (PTB) e pneus no cruzamento das avenidas Rio Branco e
Independência. A Câmara Municipal foi invadida. No prédio do Legislativo,
alguns manifestantes soltaram rojões e picharam paredes. Na confusão, alguns
estudantes chegaram a ser agredidos. A manifestação acabou com registro de,
pelo menos, cinco ocorrências policiais.
O protesto começou por volta das 13h30 em
frente à Câmara. Cerca de 200 estudantes, conforme estimativas da Polícia
Militar (PM) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE), se dirigiram até a
Avenida Independência, pela pista central da Rio Branco, interrompendo o
tráfego de ônibus. O grupo era composto, em sua maioria, de secundaristas, que
estavam com faixas, apitos e, alguns, com sprays. No caminho, houve adesão de
mais pessoas, e as estimativas da PM e da organização eram de que o número de
participantes tenha subido para 300.
De mãos dadas, os estudantes bloquearam o
cruzamento da Rio Branco com Independência por uma hora e meia. Eles
promoveram apitaço e gritaram palavras de ordem. Os manifestantes atearam fogo
em um boneco caricato do prefeito e em seis pneus no meio da pista como forma
de protesto. Dos prédios, alguns moradores jogaram papel picado em apoio ao
movimento. Policiais acompanhavam, de perto, as movimentações e chegaram a
abordar alguns estudantes que estavam carregando garrafas de álcool. "O
objetivo é acompanhar e garantir a vida e o patrimônio", disse o
tenente-coronel da PM, Anselmo Fernandes da Silva.
Engarrafamento
Com o cruzamento bloqueado, um longo
engarrafamento se formou nas avenidas e adjacências. De lá, os estudantes
voltaram à porta da Câmara, por volta das 15h30. No retorno, alguns
integrantes se exaltaram e começaram a pichar os ônibus que estavam parados.
Um cinegrafista da "TV Panorama" chegou a ser agredido enquanto fazia imagens
do ato. Na porta da Câmara, a direção do movimento não conseguiu controlar os
manifestantes que invadiram o prédio. Aos gritos e munidos de bombinhas, do
tipo "cabeça de nego", alguns estudantes mais exaltados e sem respeitar a
orientação da direção do movimento estudantil, picharam as paredes e agrediram
verbalmente os vereadores. O plenário foi tomado pelos manifestantes, que
subiram em cadeiras. "A Casa não pode ser depredada dessa forma. A Câmara não
tem poder para resolver essa situação", disse José Sóter Figueirôa (PMDB).
Em nota oficial, o presidente da Casa, Vicente
de Paula Oliveira (Vicentão - PTB), repudiou a forma como o movimento foi
conduzido e disse ser um total desrespeito aos representantes eleitos pelo
povo. A organização do movimento também condenou os atos de vandalismo. Após
constatarem as paredes rabiscadas, organizadores tentaram limpá-las. Para o
coordenador geral do DCE, Maycon Chagas, as agressões e pichações foram atos
isolados e não fazem parte do protesto dos estudantes. "Estamos fazendo um ato
limpo, em busca de uma causa."
Uma comissão formada por representantes do movimento foi recebida por Vicentão,
no final da tarde, após negociações. A reunião foi a portas fechadas e durou
cerca de meia hora. Segundo o vereador Francisco Canalli (PMN), que também
estava presente no encontro, essa mesma comissão irá se reunir com todos os
vereadores amanhã, às 11h. "Vamos ouvi-los e buscar um consenso entre os
vereadores para tentar uma solução para o impasse."
MP pede suspensão do
reajuste por sete dias
O promotor do Patrimônio Público, Paulo
Ramalho, foi chamado pela PM para ajudar nas negociações com os estudantes, na
tentativa de conter o tumulto. Ele informou que requisitou à Prefeitura a
suspensão do aumento da passagem por sete dias. Segundo ele, neste período, a
planilha de custos seria analisada pela promotoria. "Vamos aguardar um parecer
da Prefeitura. Caso a resposta seja negativa, pretendemos entrar com uma ação
cautelar, impedindo o aumento."
Após a reunião, por volta das 18h30, os
estudantes começaram a deixar o prédio da Câmara, mas uma confusão na saída do
plenário acabou em pancadaria. De acordo com os líderes do movimento, três
homens teriam se infiltrado no protesto e agredido dois estudantes, um deles,
um jovem de 17 anos. Um manifestante teve sangramento na boca devido as
pancadas e o outro, inchaço na região dos olhos. Eles registraram ocorrência.
Repúdio
De acordo com informações da Agência de Gestão
de Transporte e Trânsito (Gettran), o tráfego nas ruas centrais ficou
interrompido por mais de três horas. Cerca 18 agentes de trânsito e 26
policiais do Grupamento de Policiamento de Trânsito (GPTran) foram deslocados
para fazer o desvio do tráfego. O congestionamento se estendeu por toda a
Avenida Rio Branco, incluindo as vias de acesso. Segundo a assessoria da
Astransp, dois veículos foram pichados durante o ato: um ônibus da Viação
Ansal, com spray de tinta, e outro da Tusmil, com pasta de dente.
Em nota oficial, a Prefeitura repudiou os atos
praticados por manifestantes por não condizerem com "a prática democrática e
ordeira que caracteriza a comunidade de Juiz de Fora ao longo de sua
história". Ainda de acordo com a nota, as agressões não podem ser apontadas
como parte de um ato lícito e participativo, como sempre foi a marca do
movimento estudantil brasileiro. "O que se viu durante os protestos foram atos
de vandalismo e depredação do patrimônio", diz o documento.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de
Juiz de Fora também divulgou nota de repúdio. Na texto, a entidade avaliou
que, ao agredirem os profissionais, no exercício de suas funções, os
manifestantes "tentaram calar aqueles que sempre são as vozes, olhos e ouvidos
de nossa sociedade."
De acordo com o coordenador de comunicação do
DCE, Giliard Gomes Tenório, mesmo com ações de segunda-feira, o movimento
continua para mobilizar a população. "Desde sábado, estamos correndo um
abaixo-assinado. Nossa intenção é levar ao prefeito e mostrar que nossa causa
é de muitos."
Fonte: Tribuna de Minas