Em editorial publicado em primeira página,
o Granma denuncia que o diretor-geral
do Conselho Eleitoral haitiano, Jaques
Bernard, cumpriu a "ordem americana
de forçar um segundo turno"
em eleições que "com
o passar dos dias caíram sob o
manto da manipulação e da
suspeita".
Faltando apurar 10% dos votos emitidos
nas eleições do último
dia 7, René Préval, ex-presidente
e ex-primeiro-ministro, tem 48,76% dos
sufrágios, sem atingir a barreira
dos 50% mais um, necessária para
evitar a realização do segundo
turno, segundo a página da internet
do Conselho Eleitoral Provisório
(CEP).
Na nota há uma referência
às denúncias do porta-voz
da Conferência Episcopal da Igreja
Católica, Pierre Richard Duchemin,
e de Patrick Requiere, membro do Conselho
Eleitoral, sobre a manipulação
e falta de transparência na apuração
dos votos.
"A comunidade internacional deve
exigir que a vontade majoritária
do povo haitiano expressada nas urnas
seja respeitada, e que essa nação
sofrida não seja novamente conduzida
ao caos e à violência, como
conseqüência dos interesses
mesquinhos dos Estados Unidos e de determinados
grupos haitianos", declara o diário.
O jornal afirma que "a violência
retornou ao país e estão
previstos novos confrontos caso a tentativa
de invalidar o resultado do pleito seja
levada adiante".
O "Granma" acusa a Casa Branca
de cinismo, por afirmar que "sempre
que uma apuração resulta
muito disputada é importante que
as partes se unam e cooperem", lembrando
que no Haiti o segundo candidato mais
votado, Leslie Manigat, "não
chegou sequer aos 12%".
O jornal considera que "o mundo
não pode permitir que um poder
imperial tente assumir as rédeas
de todo o planeta", e sustenta que
"sobre o Governo dos EUA e as tropas
ocupantes, que não vacilam em disparar
contra o povo, cairá toda a responsabilidade".
"O que está ocorrendo no
Haiti não surpreende. Não
é a primeira vez que os EUA interferem
no destino do país, e nem a primeira
vez que manipulam resultados eleitorais",
avalia.
Leia abaixo a íntegra do editorial
de ontem do Granma
Governo ianque ordenou segundo
turno, forças da paz reprimem
o povo haitiano
Após dois anos da ocupação
estrangeira, depois do golpe de Estado
contra Jean-Bertrand Aristide orquestrado
por Washington com a cooperação
de Paris, o sofrido Haiti realizou,
há uma semana, eleições
gerais para proclamar o novo presidente.
A jornada eleitoral correu bem, apesar
dalguns atos de violência e da
demora em colégios eleitorais
dos bairros mais pobres. Mais de 60%
dos eleitores foram às urnas
com a esperança de uma mudança
num país, o qual, em face das
constante invasões norte-americanas
e sucessivas ditaduras, sofreu dois
séculos de atraso.
Mais de 80% dos 8 milhões de
haitianos vivem na pobreza e uma percentagem
similar é desempregada, a taxa
de analfabetismo é elevadíssima,
a expectativa de vida beira os 50 anos
e doenças com a Aids se alastram
à disparada.
As recentes eleições
no Haiti foram consideradas pela comunidade
internacional como um passo positivo
para a estabilidade e a paz nessa nação.
Desde o primeiro instante, as enquetes
registraram o ex-presidente René
Préval como vencedor nas eleições.
Os primeiros resultados tornados públicos
pelas autoridades eleitorais confirmaram
Préval com ampla margem de 61%
dos votos, muito acima dos necessários
para vencer no primeiro turno das eleições.
A imprensa haitiana e a mídia
internacional publicaram sua esmagadora
vitória.
Contudo, após uns dias, as eleições
no Haiti, proteladas durante alguns
meses com a anuência dos EUA,
ficaram sob o manto da manipulação
e da suspeita. Sete dias depois da votação,
o Conselho Eleitotal Provisório
ainda não terminou a contagem,
ainda que devesse dar os resultados
72 horas depois de serem fechados os
colégios eleitorais.
No domingo 12, inopinadamente, o presidente
do Conselho Eleitoral anunciou à
mídia que os votos de Préval
caíram para 49%, enquanto a página
da Web dessa instituição
divulgava 52%. Na segunda-feira 13,
o Conselho Eleitoral informou que, com
90% dos votos, o ex-primeiro-ministro
e candidato do partido A Esperança,
contava agora com 48,7% dos votos.
A manipulação do escrutínio
é evidente e vergonhosa. Dois
dos membros do Conselho Eleitoral denunciaram
a manipulação dos votos.
O representante da Conferência
Episcopal da Igreja Católica,
Pierre Richard Duchemin, disse a uma
emissora haitiana que "houve manipulação
dos dados, nada é transparente".
Outro dos juízes eleitorais,
Patrick Requiere, criticou perante a
imprensa o diretor-geral do Conselho
Eleitoral, Jacques Bernard, por não
consultar os demais membros desse organismo
nem revelar donde tirou os resultados
publicados pela imprensa.
Na segunda 13, o candidato presidencial,
Jeune Chavannes, na quarta colocação
até agora no sufrágio,
reconheceu a vitória de Préval
e manifestou que a situação
atual é devida a um complô
que visa ao caos social. Chavannes fez
um apelo para garantir a soberania nacional
e não prestar-se a interesses
mesquinhos, como alguns almejam.
Todos destacam algo absolutamente evidente,
que se infiltrou por diversas vias:
o diretor-geral do Conselho Eleitoral,
sr. Bernard, está cumprindo a
ordem dos EUA de obrigar a um segundo
turno. Expertos salientaram nestes dias
que Préval não agrada
nada à Casa Branca por suas relações
anteriores com o deposto presidente
Aristide, tirado do poder pelas forças
norte-americanas e obrigado ao exílio.
O The New York Times publicou em janeiro
uma investigação que demonstra
os esforços do Instituto Internacional
Republicano, muito ligado ao governo
de Bush e alguns funcionários
do Departamento de Estado para desestabilizar
o governo de Aristide e expulsá-lo
do país.
Face ao propósito evidente de
escamotear o triunfo a René Préval,
homem de grande prestígio que
serve com esmero ao povo, seus seguidores,
a maioria dos bairros mais humildes
da capital haitiana, se lançaram
às ruas nos últimos três
dias exigindo que seja respeitado o
escrutínio. Milhares de manifestantes
protestaram na segunda-feira 13 em frente
das sedes do Conselho Eleitoral e do
governo e gritaram consignas como "Préval
é presidente" e "Larápio,
não sabe como contar", fazendo
alusão à atuação
do diretor-geral do Conselho Eleitoral.
Os manifestantes acusaram de manipulação
de votos ao CEP e se opuseram ao segundo
turno, gritando: "Não votaremos
duas vezes".
As manifestações foram
reprimidas pelas forças da paz
da ONU, instaladas no país, com
saldo de alguns feridos e um morto.
A violência retornou a essa nação
pobre, após uns dias de calma
pós-eleitoral e haverá
outros confrontos, se persistirem em
alterar o escrutínio das eleições.
Enquanto isso, em Washington, com o
maior cinismo, o porta-voz do Departamento
de Estado declarou, após um encontro
entre Bush, Condoleezza Rice e o secretário-geral
da ONU: "Quando um escrutínio
é muito disputado, é importante
que as partes se juntem e cooperem,
acima de qualquer diferença,
em interesse do país". ninguém
sabe, com certeza, a que eleições
Sean McCormack se referia, pois o segundo
candidato no Haiti nem sequer atingiu
12% dos votos.
O que está acontecendo neste
país não é surpresa.
Não é a primeira vez que
os Estados Unidos intervêm a capricho
no destino do Haiti, nem a primeira
vez que manipulam descaradamente, segundo
sua conveniência, o escrutínio
das eleições noutro país.
A comunidade internacional deve exigir
que seja respeitada a decisão
majoritária do povo haitiano,
expressa nas urnas, e que essa sofrida
nação não seja
levada a maior caos e violência,
em conseqüência dos interesses
mesquinhos dos Estados Unidos e de alguns
grupos de poder haitianos.
O mundo não deve permitir que
o império manuseie as rédeas
do planeta todo. O povo haitiano, paciente,
porém abnegado e heróico,
lutará por seus direitos. E que
ninguém duvide. O governo dos
Estados Unidos e as tropas ocupantes,
que não hesitam em disparar contra
o povo, serão os maiores responsáveis
por isso tudo.