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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

9 de fevereiro de 2006

análise

O que a mídia não mostra a sociedade não sente

 

por Julio César Campano Floriano*


Em todas as formas de conhecimento, a dualidade “aparência – essência” sempre está presente polemizando as ações e visão de mundo dos homens. Para as formas de acomodação de um determinado estado de coisas, uma visão de mundo construída com base apenas no conhecimento das aparências sempre trouxe gloriosos benefícios para a manutenção da dominação existente em uma sociedade de classes. Tanto porque não ousamos sequer questionar nossos conhecimentos por medo de que a essência também nos coloque no desespero que as atitudes tomadas por conta das aparências têm causado. E o que se diz então, é que temos perpetuado uma sociedade de cegos, imóveis, apáticos, uma sociedade construída sobre as ilusões. Mas não se trata aqui de fazer a crítica à ideologia. Tal é resultado de um processo maior e mais complexo. Importa sim, criticar as formas de manutenção das ilusões. E é isso o que os meios de comunicação tem procurado fazer: a aparência enquanto essência. A ilusão enquanto realidade. Em uma sociedade estruturada na desigualdade, os meios de comunicação têm refletido não só a desigualdade, mas perpetuado a ideologia das aparências.

É um espetáculo. Nada mais do que criar um espetáculo. A já falada “Sociedade do Espetáculo” tem criado diversos temas: desde a disputa individual e irracional por um milhão quanto a história da mãe que joga a filha no rio. E para coroar com júbilo, enquanto o espetáculo é encenado o público escuta e interage imóvel na aceitação do mesmo. Somos convencidos do espetáculo pelo silêncio ou pela troca da vaia pelos comportados aplausos às aparências. O poder que coloca parte de uma sociedade a sorte de toda miséria, necessita da contemplação silenciosa para se manter enquanto poder dominante. É o monólogo do poder que substitui a participação política, real e concreta pelas aparências dos sentimentos de indiganação,piedade ou mesquinhas emoções individualistas.

Por isso é muito mais convincente se encenar a monstruosidade da mãe que joga a filha no rio do que nos mostrar a barbárie que o poder dominante nos tem colocado ( o mesmo poder que necessita da aceitação das aparências para subjugar em todos os aspectos ). Uma barbárie onde, fora das ilusões, a vida possui um valor comercial.

O poder dominante do espetáculo vai muito além do poder dos meios de comunicação. Este é apenas um dos meios de perpetuar a dominação e domesticação dos sentimentos. Assim, a raiva disparada contra o “mostro” que joga sua prole no rio encobre o conformismo de uma situação mais ampla e degradante: a de que apenas um fato é espetacularizado para encobrir situações mais desesperadoras. Não seria necessário questionar quantas crianças e mães chegam a esta situação, mas sim no “algo mais” que leva a coletividade a ignorar as causas reais de atos desesperadores. E mais fácil criar monstros e atacá-los individualmente com sentimentos ilusórios. Que exista a solidariedade com as vítimas é louvável, mas não há só uma vítima, há uma sociedade vítima. E a solidariedade aí, deve ser construída com bases concretas e coletivas e não enquanto um espetáculo a ser assistido.

Para o poder do espetáculo, não há que questionar a essência da atitude em jogar parte de si num rio. Não há que questionar o desespero social encoberto pelas piedades individuais. Para este, há que se mostrar tudo pela aparência, para que todas as formas de luta e participação política e social sejam apenas vividas na sua mais pura ilusão ou substituídas pelo conjunto de sentimentos criados na mídia.

No mundo em que o “ter” e o “agir” são substituídos pelo “parecer”, propor novas formas de se construir uma sociedade com outros valores, conseqüentemente socialistas, passa também por compreender que a monstruosidade não é jogar os filhos no rio, mas principalmente, ter motivos para uma ação tal e qual em uma sociedade que não enxergou a desvalorização e mercantilização da vida. Ou não ter uma escolha. Mas principalmente, compreender que as possibilidades de destruição do poder do espetáculo devem ser forjadas no dia à dia, não pelo espetáculo midiático ou pelo espetáculo do conformismo despolitizante, mas sim, pela realidade social que nos impõe a luta.

*Sociólogo e Professor. Pós-graduado em Economia do Trabalho pelo IE e mestrando em Sociologia no IFCH ( UNICAMP ). Atualmente é Técnico-pesquisador e Coordenador de Programas Educacionais na Secretaria de Educação e Formação Profissional de Santo André.

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