por Julio César Campano Floriano*
Em todas as formas de conhecimento, a dualidade “aparência – essência” sempre
está presente polemizando as ações e visão de mundo dos homens. Para as formas
de acomodação de um determinado estado de coisas, uma visão de mundo
construída com base apenas no conhecimento das aparências sempre trouxe
gloriosos benefícios para a manutenção da dominação existente em uma sociedade
de classes. Tanto porque não ousamos sequer questionar nossos conhecimentos
por medo de que a essência também nos coloque no desespero que as atitudes
tomadas por conta das aparências têm causado. E o que se diz então, é que
temos perpetuado uma sociedade de cegos, imóveis, apáticos, uma sociedade
construída sobre as ilusões. Mas não se trata aqui de fazer a crítica à
ideologia. Tal é resultado de um processo maior e mais complexo. Importa sim,
criticar as formas de manutenção das ilusões. E é isso o que os meios de
comunicação tem procurado fazer: a aparência enquanto essência. A ilusão
enquanto realidade. Em uma sociedade estruturada na desigualdade, os meios de
comunicação têm refletido não só a desigualdade, mas perpetuado a ideologia
das aparências.
É um espetáculo. Nada mais do que criar um
espetáculo. A já falada “Sociedade do Espetáculo” tem criado diversos temas:
desde a disputa individual e irracional por um milhão quanto a história da mãe
que joga a filha no rio. E para coroar com júbilo, enquanto o espetáculo é
encenado o público escuta e interage imóvel na aceitação do mesmo. Somos
convencidos do espetáculo pelo silêncio ou pela troca da vaia pelos
comportados aplausos às aparências. O poder que coloca parte de uma sociedade
a sorte de toda miséria, necessita da contemplação silenciosa para se manter
enquanto poder dominante. É o monólogo do poder que substitui a participação
política, real e concreta pelas aparências dos sentimentos de indiganação,piedade
ou mesquinhas emoções individualistas.
Por isso é muito mais convincente se encenar a
monstruosidade da mãe que joga a filha no rio do que nos mostrar a barbárie
que o poder dominante nos tem colocado ( o mesmo poder que necessita da
aceitação das aparências para subjugar em todos os aspectos ). Uma barbárie
onde, fora das ilusões, a vida possui um valor comercial.
O poder dominante do espetáculo vai muito além
do poder dos meios de comunicação. Este é apenas um dos meios de perpetuar a
dominação e domesticação dos sentimentos. Assim, a raiva disparada contra o
“mostro” que joga sua prole no rio encobre o conformismo de uma situação mais
ampla e degradante: a de que apenas um fato é espetacularizado para encobrir
situações mais desesperadoras. Não seria necessário questionar quantas
crianças e mães chegam a esta situação, mas sim no “algo mais” que leva a
coletividade a ignorar as causas reais de atos desesperadores. E mais fácil
criar monstros e atacá-los individualmente com sentimentos ilusórios. Que
exista a solidariedade com as vítimas é louvável, mas não há só uma vítima, há
uma sociedade vítima. E a solidariedade aí, deve ser construída com bases
concretas e coletivas e não enquanto um espetáculo a ser assistido.
Para o poder do espetáculo, não há que
questionar a essência da atitude em jogar parte de si num rio. Não há que
questionar o desespero social encoberto pelas piedades individuais. Para este,
há que se mostrar tudo pela aparência, para que todas as formas de luta e
participação política e social sejam apenas vividas na sua mais pura ilusão ou
substituídas pelo conjunto de sentimentos criados na mídia.
No mundo em que o “ter” e o “agir” são
substituídos pelo “parecer”, propor novas formas de se construir uma sociedade
com outros valores, conseqüentemente socialistas, passa também por compreender
que a monstruosidade não é jogar os filhos no rio, mas principalmente, ter
motivos para uma ação tal e qual em uma sociedade que não enxergou a
desvalorização e mercantilização da vida. Ou não ter uma escolha. Mas
principalmente, compreender que as possibilidades de destruição do poder do
espetáculo devem ser forjadas no dia à dia, não pelo espetáculo midiático ou
pelo espetáculo do conformismo despolitizante, mas sim, pela realidade social
que nos impõe a luta.
*Sociólogo e Professor. Pós-graduado em
Economia do Trabalho pelo IE e mestrando em Sociologia no IFCH ( UNICAMP ).
Atualmente é Técnico-pesquisador e Coordenador de Programas Educacionais na
Secretaria de Educação e Formação Profissional de Santo André.