Quatro mulheres, vários sindicalistas e
intelectuais de esquerda compõem o gabinete de 16 ministros designado ontem
(23/1), em La Paz, pelo novo presidente da Bolívia, Evo Morales. A identidade da
equipe de Governo, que Morales manteve em segredo até o último instante, foi
revelada em um ato no Palácio de Governo de La Paz.
Na cerimônia, o presidente aimara levou a mão direita ao coração e levantou o
punho esquerdo no momento do juramento dos ministros, como havia feito no
domingo quando tomou posse no cargo.
Conforme tinha anunciado em seu discurso de posse, Morales escolheu as
personalidades que considera mais representativas dentre os movimentos sociais e
de povos indígenas.
Um deles é o chanceler, o aimara David Choquehuanca, que se apresentou em sua
língua nativa em um discurso preparado com palavras em quíchua e guarani.
Choquehuanca, um homem chave no Movimento ao Socialismo (MAS), o partido de
Morales, anunciou ter chegado a hora do "pachakuti", que em aimara significa o
retorno às origens da civilização andina.
A controvertida pasta de Hidrocarbonetos estará a cargo do jornalista Andrés
Soliz Rada, que deverá enfrentar uma das tarefas mais complexas do Governo: a
negociação com as companhias petrolíferas multinacionais - incluindo a Petrobras
- para adequar sua atuação no país ao plano de Morales de aumentar a presença do
Estado no setor.
Também é considerado estratégico o novo Ministério de Águas, que será chefiado
por Abel Mamani, o ex-presidente da Federação de Associações de Moradores de El
Alto, cidade nos arredores de La Paz. Em janeiro de 2005, Mamani liderou as
manifestações de milhares de moradores até fazer com que as autoridades
estaduais decidissem pela expulsão da empresa Aguas del Illimani, filial da
francesa Suez e operadora dos serviços de água em La Paz e El Alto.
Para o Ministério de Presidência Social foi designado Juan Ramón Quintana,
assessor de Morales e diretor do Observatório de Democracia e Segurança.
Quintana é um ex-capitão das Forças Armadas e conhece profundamente os
mecanismos internos militares, razão pela qual a opinião pública o situava como
ministro da Defesa ou de Governo (Interior).
As pastas da Defesa e de Governo (Interior) foram, respectivamente, para as mãos
de Walter São Miguel, ex-presidente do Colégio de Advogados de La Paz; e Alicia
Muñoz, a primeira mulher a ocupar esse cargo.
Outra mulher do gabinete de Morales é Nila Heredia, ex-chefe do Colégio de
Médicos e do Serviço Departamental de Saúde de La Paz, ativista social e exilada
durante a ditadura de Banzer (1971-1978). Heredia será ministra da Saúde e
Esportes, enquanto Casimira Rodríguez estará à frente do Ministério da Justiça.
Rodríguez é uma ex-empregada doméstica que se veste com "pollera", roupa
tradicional das mulheres andinas, e obteve, com seus protestos sindicais, a
aprovação da Lei da Trabalhadora do Lar.
A titular de Desenvolvimento Econômico será ocupada pela microempresária Celinda
Sosa Lunda, representante de organizações sociais do departamento (estado) de
Tarija, no sul do país.
O Ministério da Fazenda ficou a cargo de Luis Alberto Arce Catacora, professor
de uma universidade particular e assessor de Morales durante a campanha
eleitoral.
Walter Villarroel espera aproveitar sua experiência à frente da Federação de
Cooperativistas Mineiros da Bolívia (Fencomin) para renovar o ministério de
Mineração e Metalurgias, que volta a existir no país.
O Ministério de Assuntos Camponeses, Indígenas e Agropecuários ficou nas mãos de
Hugo Salvatierra, um assessor da Central Operária Boliviana que foi o candidato
do MAS a governador do departamento de Santa Cruz nas eleições de dezembro
passado.
O empresário Salvador Ruiz Riera é o novo ministro de Serviços e Obras Públicas
e também procede da próspera região de Santa Cruz, onde é forte o movimento
autonomista.
Cuba, Venezuela, Japão e França prometem
ajuda à Bolívia
Governos do Japão, da França e de Cuba prometeram
ontem (22/1) apoiar diversos programas da nova administração da Bolívia,
anunciou Morales, ao empossar seu gabinete de
ministros.
Morales, em um discurso antes do ato realizado no Palácio de Governo de La Paz,
disse que se reuniu com delegações dos três países para concretizar a ajuda.
O representante do Governo japonês na posse de Morales anteontem, Tatsuo Arima,
ofereceu ao novo Governo boliviano comprar açúcar mascavo e quinua (cereal
andino) através de um acordo preliminar.
"O acordo definitivo deve ser assinado por volta de 27 de janeiro", informou
Morales ao pedir aos agricultores de Santa Cruz - no leste tropical da Bolívia,
onde é produzido o açúcar mascavo - e do planalto andino, onde se cultiva a
quinua, que trabalhem para cumprir o acordo.
O chefe de Estado boliviano se reuniu também com o vice-presidente do Conselho
de Estado do Governo de Cuba, Carlos Lage. Eles ratificaram diversos convênios
de cooperação nas áreas de saúde, educação e esportes, anunciados durante a
visita de Morales a Havana, em 30 de dezembro.
Vinte e quatro especialistas cubanos começarão imediatamente a trabalhar em um
projeto para erradicar o analfabetismo no país andino, uma da promessas
eleitorais do líder do Movimento Ao Socialismo (MAS).
Morales também recebeu a visita de uma delegação do Governo da França comandada
pela ministra de Cooperação, Brigitte Girardin, com quem planejou a assinatura
de vários convênios de apoio financeiro.
"A França nos oferece fundos não reembolsáveis, mas temos de apresentar
projetos", contou Morales sobre o apoio de Paris, onde esteve em sua recente
viagem por 10 países de quatro continentes.
Antes de empossar seu primeiro gabinete de ministros, o governante agradeceu as
demonstrações de solidariedade da comunidade internacional e disse que a Bolívia
deve "aproveitar" esta ajuda.
Chávez
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ratificou ontem seu apoio à Morales, com
a assinatura de vários acordos em matéria energética, educativa, agropecuária e
de desenvolvimento social.
Em um ato no Palácio de Governo de La Paz, os dois líderes assinaram meia dúzia
de convênios, alguns dos quais já tinham sido estipulados no início deste mês em
Caracas durante a visita que Morales realizou à capital venezuelana.
Chávez anunciou, além disso, que põe às ordens de Morales a experiência da
estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) no setor petroleiro e o boliviano
confirmou o fornecimento a seu país de 200 mil barris de combustível
venezuelano.
Fonte: EFE |