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Lula e
Toledo durante abertura da cerimônia de inauguração da ponte |
O presidente do Brasil,
Luiz Inácio Lula da Silva, e o do Peru, Alejandro Toledo, participaram da
inauguração da ponte que liga Assis Brasil, no Acre, a Iñapari, no Peru. Segundo
o presidente Lula, a ponte, com 240 metros de extensão, é um grande passo "para
consolidar o caminho brasileiro em direção ao Oceano Pacífico".
Em seu discurso, Lula disse que ele, Toledo e o
presidente da Bolívia, Carlos Mesa, cumpriram uma promessa feita em agosto de
2004 de deixar de fazer discursos vazios sobre a integração latino-americana e
começar a construir uma aliança concreta entre os países da região.
"Esta ponte sobre o Rio Acre é um símbolo maior da aliança estratégica que Peru
e Brasil forjaram. Estamos tornando realidade o imenso potencial de cooperação e
parceria entre os dois países. Habilitamos nossos cidadãos e nossos produtos a
transitar livremente entre os vizinhos, que começam a se conhecer melhor",
afirmou Lula, lembrando que a obra foi construída pelo governo do Acre, com
apoio do governo federal. "Este é o primeiro passo para realização de outro
sonho antigo, a ligação sul-americana entre o Pacífico e o Atlântico", declarou.
Lula ressaltou que a ponte poderá fazer com que as economias do Brasil e do Peru
cresçam ainda mais. "É indescritível que um país que tem um potencial como o
Brasil, que tem a economia mais rica da América do Sul, que tem a indústria mais
forte da América do Sul, não tenha, há 100 anos, pensado em construir uma ponte
singela como esta para permitir que nossos povos, que nossos produtos, que nossa
cultura possam transitar livremente entre os dois países fazendo com que a
economia cresça tanto no Peru quanto no Brasil", declarou.
O governante brasileiro também afirmou que os dois países resolveram "andar com
suas próprias pernas". "O que estamos fazendo hoje ao vermos esses povos
atravessarem [a fronteira] pela ponte e depois assistirmos a esses dois
caminhões que estão ali carregados aguardando a abertura da ponte para fazer a
primeira travessia levando produtos brasileiros para Porto Maldonado é a
demonstração de que o Brasil e o Peru resolveram, depois de muitos séculos,
andar com as próprias pernas, falar com a própria boca, pensar com a própria
cabeça", disse.
Direito ao crescimento e à cidadania
Lula disse que o século 21 vai ser o século da América do Sul. "Nós temos
consciência disso. Nós, peruanos e brasileiros, queremos ter a melhor relação
com o mundo inteiro, a mais democrática, a mais respeitosa, mas também queremos
dizer ao mundo que queremos ter o mesmo direito de crescermos, de nos
desenvolvermos e de poder gerar riquezas suficientes para garantir que nesse
século o povo pobre possa ganhar a mesma cidadania que os americanos e os
europeus conquistaram séculos atrás. Queremos garantir que esse empreendimento
recupere muito rapidamente o nosso tempo perdido", disse.
Lula também falou que os governos anteriores não haviam feito uma obra como a
nova ponte porque tinham uma visão "colonizada". "Não fizeram isso porque não
sabiam que precisavam, não fizeram isso porque não sabiam a extensão do nosso
PIB, não fizeram porque tinham a cabeça colonizada mesmo depois da conquista da
independência. Eram dirigentes que acreditavam que a Europa e os Estados Unidos
permitiriam nosso desenvolvimento", afirmou.
Rodovia Interoceânica
Na solenidade, o presidente do Brasil lembrou
outra obra importante para a efetiva ligação sul-americana. "Há quatro meses,
participamos, em Porto Maldonado, no Peru, do lançamento das obras da rodovia
Interoceânica", citou Lula, dando o crédito da iniciativa à Toledo. "Com apoio
do meu governo e da iniciativa privada brasileira", completou. Com a rodovia e a
nova ponte, o Brasil terá acesso ao Oceano Pacífico por meio dos portos peruanos
de Ilo, Maratani e San Juan.
Toledo afirmou que, a partir desse portos, "
poderão sair os produtos com direção à Ásia, aos Estados Unidos e Europa, pois
já não será necessário ir pelo Atlântico."
A Interoceânica tem 2.600 quilômetros de extensão e, segundo informações do
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o custo estimado é
de US$ 700 milhões, sendo que US$ 420 milhões serão financiados pelo Programa de
Financiamento a Exportação (Proex), do governo brasileiro. O restante dos
recursos virá da Corporação Andina de Fomento (CAF) e do governo peruano.
Integração
latino-americana
"Como no futebol, onde os gols é que contam, nos
governos as obras é que contam. E na obra da ponte Assis Brasil-Iñapari estão a
alma e o coração do desejo de integração latino-americana", disse Toledo.
No final de seu discurso, Toledo assumiu o
compromisso de, antes do final do seu governo, em julho, empreender todos os
esforços para que nada impeça a construção das rodovias Intereoceânicas do sul e
do norte. "Mas isso só não basta. Temos que fazer rentáveis as estradas, e, para
isso, precisamos de investimentos privados e da construção dos corredores
econômicos, cuidando do meio ambiente e respeitando a diversidade cultural dos
povos por onde passam essas estradas", disse.
Toledo também disse que, antes de julho, pretende criar duas linhas aéreas
ligando Cuzco a Manaus e Rio Branco. "Agora que não precisamos de passaporte
para ir e vir, necessitamos de conectividade aérea."
Na cerimônia, o presidente regional de Madre de
Dios, do Peru, José de La Rosa de Maestro Rios, conduziu seu discurso em um
clima de integração latino-americana. "Esta ponte que unifica dois países irmãos
pode acabar com as fronteiras e tornar-nos uma só unidade", disse. "A América
Latina se orienta segundo a posição antiimperialista, e o apoio mútuo entre os
países deve ser a alternativa a essa conivência [com o imperialismo].
O político peruano afirmou que a obra contribuirá para o desenvolvimento
sustentável de sua região. Ele citou o líder seringueiro Chico Mendes ao lado de
figuras centrais da história da América do Sul, como Simon Bolívar e José Martí.
Amazônia: "coração do subcontinente"
Lula argumentou que, muitas vezes, a
natureza separou o Brasil e o Peru por rios e outras tantas vezes ainda "faltou
aos governantes a determinação necessária para superar esses obstáculos e forjar
caminhos capazes de um unir nossos povos".
O presidente brasileiro assinalou que o grande objetivo dos dois presidentes é
fazer da região amazônica um espaço de integração, aproximando os povos dos dois
países e promovendo uma rica convivência "no coração do subcontinente". Na
avaliação de Lula, a inauguração da ponte de integração é também o início de um
novo capítulo na história dos povos da Amazônia. "Uma história de busca por
maior participação no desenvolvimento econômico, social e político dos nossos
países", explicou.
A ponte sobre o Rio Acre tem 110 metros de vão livre, com quatro pistas de
rolamento e duas passarelas para pedestres. Foram feitos investimentos de cerca
de R$ 25 milhões com recursos do governo federal e do governo do Acre.
Segundo o Ministério dos Transportes, a ponte vai trazer mais desenvolvimento às
regiões de fronteira do país e novas oportunidades de comércio, além de
condições melhores para o escoamento de produtos da Zona Franca de Manaus.
Essa é a segunda ponte inaugurada pelo governo brasileiro no sentido de integrar
a América do Sul. A outra liga o Brasil à Bolívia e foi inaugurada em 2004.
O governador do Acre, Jorge Viana, citou em seu discurso a assinatura do Termo
de Compromisso entre a Eletronorte e o governo do Acre para as obras de
infra-estrutura elétrica, no valor de R$ 170 milhões, para implantação de 530
quilômetros de rede de energia na região, beneficiando tanto o lado peruano
quanto o brasileiro.
Mercosul
Lula afirmou que a multiplicação de missões
empresariais e a assinatura de acordos de livre comércio entre o Mercosul e o
Peru farão o intercâmbio Brasil-Peru ultrapassar o recorde de US$ 1,4 bilhão
alcançado em 2005.
Segundo ele, as relações bilaterais entre Brasil e Peru "atravessam um período
excepcional". Prova disso, exemplificou, são as ações concretas de cooperação e
a intensificação do intercâmbio em todas as áreas. "Nossa aliança estratégica
gerou compromissos fundamentais. Pela via do comércio, estamos entrelaçando as
duas economias, cada vez mais complementadas", destacou.
Também estavam entre os presentes os ministros da Fazenda, Antônio Palocci, dos
Transportes, Alfredo Nascimento, de Minas e Energia, Silas Rondau, do
Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, e do Meio Ambiente, Marina Silva.
Da redação,
Érika Finati,
Com Agência Brasil |