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Se é
verdade que a campanha eleitoral já está nas ruas, a principal demonstração
disso são os editorias, manchetes e artigos publicados na grande imprensa. A
campanha de desmoralização do governo Lula pela mídia já era intensa desde
meados de 2005. Mas ganhou tons de radicalidade neste início do ano eleitoral.
Ao que tudo indica, a ordem nas redações, quando o assunto é governo Lula, é
criticar, criticar e criticar
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Charge publicada no site Observatório da Imprensa |
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Quem achou que o tradicional marasmo de janeiro
faria diminuir o bombardeio que a grande imprensa tem dirigido contra o governo
Lula nos últimos meses se enganou redondamente. Uma rápida lida nos editoriais
e colunas publicados nos primeiros dias de 2006 nos principais jornais do país
revelam que a artilharia contra o governo e o presidente operário não só
aumentou de intensidade como mudou de tom, tornou-se agressiva e por vezes até
chula. Ao que tudo indica, a ordem é bombardear Lula e seu governo sem dó nem
piedade.
Exemplos dessa nova atitude editorial não
faltam. Já no dia 1º de janeiro, a Folha de S.Paulo estampava em sua
página dois uma provocação rasteira do jornalista Clóvis Rossi:
”Tive um pesadelo horrível a noite passada:
sonhei que estava escalado para, daqui a exatamente um ano, cobrir a posse do
novo presidente (ou do "velho" presidente, se Lula for reeleito). Aliás, por
falar em "velho", é impressionante como em meros três anos de gestão, Lula
passou de novidade a obsoleto.”
Na mesma edição da Folha, Vinicius Torres Freire
diz que "afora os efeitos visíveis da mediocridade da economia do petismo-lulismo,
adentro dos salões a imagem dos delegados econômicos de Lula terminou mal o
ano."
Sua "colega de página", Eliane Cantanhêde, não
deixou por menos. Ao se referir a declarações dadas por Lula durante uma
entrevista veiculada no dia 1º de janeiro, a jornalista dispara:
“Bem que Lula poderia ter nos poupado, na última
entrevista do ano, ao Fantástico, da TV Globo, do mesmo blablablá de que tudo o
que aconteceu no seu partido, no seu governo e com seus principais auxiliares
foi uma "facada nas costas". Nas costas de quem, presidente? De quem comandou o
PT durante décadas é o principal responsável pelo governo e era chefe de José
Dirceu? Ou nas dos 53,4 milhões de eleitores que votaram no senhor e no PT?”
Cantanhêde termina o artigo afirmando que “a
facada não foi nas suas costas de Lula, foi na esperança de toda uma nação. A
política nacional começa 2006 sangrando.”
Aliás, a entrevista de Lula ao Fantástico
serviu de pretexto para uma das mais desrespeitosas ondas de achincalhamento
midiático a que um presidente brasileiro já foi submetido. Nem Collor foi alvo
de tanto ódio e rancor por parte dos jornalistas da imprensa grande. Clovis
Rossi, por exemplo, mais parecia um líder oposicionista ao opinar, em sua coluna
do dia 3/1, que era "Difícil imaginar entrevista presidencial mais patética."
Segundo Rossi, Lula "não tem o que dizer -a não ser a catarata do lugar comum
que é seu discurso-padrão e, na crise, não tem como se defender".
Realmente, nesse último ponto Rossi tem razão.
Afinal, se depender da boa vontade da grande imprensa, Lula não terá um
centímetro de espaço para apresentar a defesa de seu mandato, já que a ordem nas
redações é transformar qualquer notícia vinda do Planalto em pretexto para
desqualificar o governo.
Foi o que fez, sem nenhum disfarce, o jornal
O Estado de S. Paulo na última quarta-feira. O tradicional jornalão da elite
paulista noticiou assim o pacote de investimentos em infra-estrutura anunciado
pelo governo essa semana: "Lula lança pacote para fazer no ano eleitoral tudo o
que não fez em três anos". Nada na matéria justifica o título escandaloso, mas
ao que parece, o Estadão já embarcou na onda de outros grandes diários e mandou
às favas seu Manual de Redação. Na cobertura das ações do governo federal o
jornalismo fica em segundo plano, o que importa é a campanha difamatória.
O jornal O Globo foi pelo mesmo caminho na sua edição de ontem ao afirmar
com destaque de página inteira que "o pacote de obras anunciado com pompa
anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode se revelar um factóide
eleitoral."
A Folha repete a estratégia e afirma em editorial que "Não é apenas por
ser tardio e eleitoreiro que o plano do governo federal para recuperar 26.000 km
da malha rodoviária brasileira suscita desconfiança. A "operação tapa-buracos",
com custo estimado em R$ 440 milhões, constitui um terreno dos mais favoráveis à
subtração de dinheiro do contribuinte”.
Preconceito sutil
No mesmo dia, editorial do Estadão diz
que “o presidente Lula pode não saber o que a palavra significa, mas, diante da
corrupção que manchou o seu partido e o seu governo, recorre invariavelmente à
escatologia - a doutrina religiosa sobre o desenlace do tempo terreno e a
consumação da história humana. Segundo ele, de fato, seria como que necessário
aguardar o Juízo Final para só então afirmar com segurança absoluta se existiu o
esquema de suborno de políticos chamado mensalão e identificar também
cabalmente, em caso positivo, os seus responsáveis”.
Neste editorial, o Estadão recorre a um
artifício que já se tornou praxe entre os editorialistas: questionar os
"conhecimentos" de Lula não só sobre as ações do governo mas também sobre as
coisas do mundo e a língua portuguesa. Uma maneira sutil porém não menos
preconceituosa de apontar a falta de formação acadêmica do presidente como uma
falha intolerável.
O jornal Correio Braziliense vai na mesma
linha. Na coluna Nas Entrelinhas, de 2 de janeiro, diz que em 2005, “o tempo
passou na janela de Lula e só ele não viu” Terminou afinal esse ano de mensalões,
mensalinhos, maletas e cuecas. Em que todos ficaram iguais. Iguais para pior. De
denúncias que vieram às enxurradas. Que nos surpreendiam e nos deixavam
perplexos a cada dia. Não só a nós, mas também ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, se acreditarmos no que ele andou declarando...”
Rubem Azevedo Lima, na coluna de Opinião do
mesmo jornal, diz que “Lula, em campanha talvez para neutralizar as
investigações das CPIs sobre atos de sua gente, pede às oposições que não
perturbem o processo econômico no ano eleitoral. Sem maiores perturbações, sua
economia levou o Brasil aos últimos lugares do mundo em termos de
desenvolvimento”.
Outro colunista, Marcelo Pimentel, escreve que
“Jamais na história republicana assistiu-se a tanta impunidade, porque a turma
do mensalão, essa história de embolsar dinheiro de origem escusa ou não
declarada para fazer política ultrapassou os limites da imoralidade política.”
Dines: trocando as bolas
Diante de tanta difamação, chega a ser risível,
para não dizer ridícula e suspeita, a insinuação feita pelo jornalista Alberto
Dines no site
Observatório da Imprensa. A começar
pelo título da matéria: “Até quando Lula vai continuar massacrando a imprensa?”
Tentando dar utilidade a este título curioso,
Dines comenta que na entrevista que o presidente Lula concedeu ao Fantástico, o
entrevistador, Pedro Bial “não fez a pergunta que angustia aqueles que se
preocupam com o futuro da nossa imprensa e da nossa democracia”.
A pergunta que Dines gostaria que Bial tivesse
feito é a seguinte: "Presidente Lula, o senhor é um autêntico fenômeno
midiático, ganhou as eleições porque conquistou a imprensa. Mas por que razão
vem massacrando a imprensa desta forma? Durante nossos intervalos democráticos,
nunca houve um presidente tão rancoroso com a imprensa."
Para quem se propõe a ser o “ombudsman geral” da
imprensa brasileira, Dines deveria dedicar um pouco mais de tempo à leitura de
jornais. Tivesse ele passado os olhos nas edições destes primeiros cinco dias de
2006, certamente iria rever sua tese sobre quem afinal é que está sendo
massacrado.
Da redação,
Cláudio Gonzalez |