A primeira
visita de George W. Bush ao Brasil foi
rápida, cercada de seguranças, mas também
produtiva. O presidente americano afirmou em
coletiva com a imprensa que ouviu, "alto e claro", o
"recado" do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva quanto aos subsídios agrícolas
praticados por países desenvolvidos. Segundo
ele, os Estados Unidos estão dispostos a
reduzir esses subsídios se receberem o mesmo
tratamento dos países europeus.
Ainda falando sobre comércio, o chefe de
Estado norte-americano disse que continuaram
no Brasil as discussões que tiveram na
Argentina, durante a 4ª Cúpula das Américas
- que terminou no último sábado (5/11). "Existe uma
oportunidade de avançar no comércio, e
concordamos em discutir como podemos
trabalhar juntos para competir com países
como China ou Índia. É do nosso interesse
construir uma agenda única de negócios - eu
chamo isso de Acordo de Livre Comércio das
Américas; vocês chamam de Alca. O presidente
Lula disse: "Veja, vamos trabalhar juntos
em Doha e ver como vai, depois vamos
continuar trabalhando no Acordo de Livre
Comércio das Américas".
O próximo passo da Rodada Doha, que é um
acordo de comércio mundial, será uma reunião
ministerial da Organização Mundial do
Comércio no mês que vem em Hong Kong. De acordo com Bush, o êxito da
Rodada Doha irá abrir mercados para os países em
desenvolvimento e retirará milhões de
pessoas da pobreza. "Precisamos levar as
negociações de Doha ao êxito. Há muito em
jogo, e todos vão ganhar", afirmou para uma
platéia de empresários, ministros e
empresários.
Bush afirmou ainda que concorda com Lula de
que é preciso reduzir os subsídios
agrícolas. De acordo com ele, os Estados
Unidos apresentaram à Organização Mundial do
Comércio uma proposta "ambiciosa" de
diminuir drasticamente os subsídios em uma
primeira fase e eliminá-los em um período de
15 anos. "Os países que adotam o comércio
livre se desenvolvem com mais facilidade que
aqueles que adotam o protecionismo".
O presidente passou o domingo em Brasília
e logo no início da manhã esteve com jovens
líderes escolhidos pela embaixada dos
Estados Unidos. Depois, se encontrou com o
presidente Lula. Após uma declaração à
imprensa, onde trocaram elogios, Bush pôde
experimentar o churrasco brasileiro na
Granja do Torto. "A presença do presidente
Bush entre nós expressa, em grau elevado, o
aprofundamento do diálogo entre nossos
governos", disse Lula.
Importante aliado
Bush também lembrou quando Lula esteve em
Washington. "Eu fiquei impressionado com o
seu comprometimento com o programa Fome
Zero". Bush também disse estar impressionado
com as reformas econômicas promovidas pelo
governo brasileiro, agradeceu o
comprometimento do Brasil com o Haiti e
espera que o governo brasileiro possa estar
presente para garantir eleições livres e
justas naquele país.
Bush destacou que o Brasil tem se
mostrado forte na luta contra o narcotráfico
e o terrorismo, mantendo as garantias
constitucionais em mente. "Nós sempre
mantivemos os direitos humanos à frente de
nossa política. Mas também sabemos que
precisamos trabalhar juntos para impedir
aqueles que pretendem matar inocentes".
A visita serviu para estreitar as
relações e nenhum acordo foi assinado. Em
comunicado conjunto, os presidentes
ressaltaram os laços mais estreitos e
profundos entre os dois países baseados em
valores e objetivos comuns, como promoção da
democracia e luta contra o terrorismo. "Eu
venho porque quero mandar um sinal de que a
relação entre Brasil e EUA é importante. O
Brasil é um amigo dos EUA. O Brasil é
importante para criar as condições para
fazer um continente de paz. É natural que
trabalhemos com o maior país dessa
vizinhança", disse durante encontro com
jovens líderes.
Subsídios agrícolas
Segundo o ministro do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior, Luiz Fernando Furlan, depois da
redução dos subsídios agrícolas nas
exportações, o tema que mais interessa ao
Brasil é o acesso ao mercado. A afirmação
foi feita após ouvir o último discurso no
Brasil do presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush, no hotel Blue Tree.
Questionado sobre a
expectativa de um discurso mais forte do
líder norte-americano, Furlan respondeu que
Bush "deixou claro" a intenção dos Estados
Unidos em reduzir os subsídios durante o
encontro privado que teve com o presidente
Lula. "Aqui ele não falou para os
brasileiros, mas para os seus concidadãos
americanos. Fez um texto mais equilibrado."
O assessor especial da
Presidência da República, Marco Aurélio
Garcia, que também esteve na palestra,
afirmou que o Brasil espera que a proposta
dos norte-americanos de reduzir os subsídios
em uma primeira fase e depois liquidá-los a
longo prazo seja uma forma de pressionar os
europeus "a fazer um gesto na mesma
direção".
Para o ministro das
Relações Exteriores, Celso Amorim, o
encontro entre os presidentes Lula e Bush
teve um clima excelente e de grande
franqueza. Ele comentou que prova disso foi
a reunião privada, onde foram tratados temas
regionais e globais, que deveria durar 30
minutos, mas se estendeu por cerca de uma
hora e meia.
Na ocasião, Lula mostrou
ao presidente dos Estados Unidos um mapa do
Brasil e apontou a área onde foi detectado
foco de aftosa.
De acordo com Amorim, a reforma das Nações
Unidas também foi tema da conversa. "Bush
reafirmou tranqüilidade por uma reforma mais
ampla da Organização das Nações Unidas, que
não fique restrita ao Conselho de
Segurança", informou. "O que disse é
encorajador para que continuemos a lutar por
essa reforma", completou. O Brasil luta por
uma vaga no Conselho de Segurança das Nações
Unidas, que hoje possui apenas cinco membros
permanentes: Estados Unidos, Reino Unido,
China, França e Rússia.
Declaração conjunta
Fortalecer os compromissos
bilaterais entre Brasil e Estados Unidos é
um dos tópicos da declaração conjunta do
governo brasileiro e norte-americano. A
declaração, que tem 13 itens, trata
das negociações na Organização Mundial do
Comércio, reforma das Nações Unidas e
Área de Livre Comércio das Américas. Veja,
abaixo, alguns pontos da declaração:
Os presidentes enfatizaram a prioridade
conferida por ambos os governos à reforma
das Nações Unidas para torná-la mais
eficiente e sintonizada com a realidade
contemporânea. Concordaram em trabalhar
juntos em temas como a reforma
administrativa, bem como a criação do
Conselho de Direitos Humanos e da Comissão
para Construção da Paz. Sobre a reforma do
Conselho de Segurança, na qual o Brasil vem
trabalhando, a declaração diz que será
estabelecida uma coordenação estreita sobre
a questão.
Os presidentes reafirmaram o compromisso
de trabalhar a fim de garantir um resultado
positivo na Conferência Ministerial da OMC,
que será realizada em Hong Kong, em dezembro
de 2005, bem como por uma conclusão bem
sucedida da Rodada Doha até o fim de 2006.
Segundo a declaração, o presidente Lula
acolheu, com satisfação, o pronunciamento
feito pelo presidente Bush na Reunião
Plenária de Alto Nível das Nações Unidas em
2005, no qual se reafirmou que os Estados
Unidos estão prontos para eliminar as
tarifas, os subsídios e outras barreiras ao
livre fluxo de bens e serviços, desde que
outras nações procedam da mesma forma.
Os presidentes observaram, com
satisfação, o crescimento do comércio
bilateral e do investimento entre os EUA e o
Brasil e comprometeram-se a incentivar os
setores público e privado de seus
respectivos países a aumentar e diversificar
os fluxos bilaterais de bens e serviços.
Para tanto, manifestaram expectativa de
incrementar substancialmente o comércio até
2010.
Concordaram em reforçar a cooperação
bilateral para combater o narcotráfico, o
tráfico de animais silvestres, o terrorismo
e a lavagem de dinheiro, com ênfase na troca
de informações entre as unidades de
inteligência financeira dos dois países e na
definição de mecanismos para recuperação de
ativos resultantes de ilícitos
transnacionais.
Os presidentes observaram a importância
de prosseguir com os esforços para promover
a liberalização do comércio, reafirmaram o
compromisso com o processo da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca), baseados no
marco de Miami (referindo-se ao acordo entre
Mercosul e Estados Unidos), e manifestaram a
expectativa pela oportuna retomada das
negociações. Notaram que a aproximação entre
os países sul-americanos contribui para os
objetivos de integração regional no âmbito
latino-americano e das Américas como um
todo.
Na área de saúde, reconheceram a
necessidade de estruturação do diálogo
bilateral e indicaram o desejo de realizar
ações conjuntas para combater o HIV/AIDS, a
malária e a tuberculose, desenvolver
estratégias para o tratamento de doenças não
contagiosas e enfrentar a ameaça da gripe
aviária.
Os presidentes afirmaram o compromisso
de assegurar que estabilidade política,
democracia e desenvolvimento se estabeleçam
de forma permanente no Haiti.
Os presidentes observaram, com
satisfação, as atividades dos Grupos de
Trabalho sobre crescimento econômico,
agricultura e energia, criados em junho de
2003. Comprometeram-se igualmente a
intensificar os diálogos e a cooperação
existentes em ciência e tecnologia,
educação, meio ambiente e promoção do
comércio e do investimento.
Panamá
O presidente dos Estados
Unidos, George W. Bush, entrou no avião
presidencial Air Force One a caminho do
Panamá ontem a noite. Bush ficou menos de 24 horas no
Brasil.
A breve passagem do norte-americano gerou
protestos em diversas cidades brasileiras.
Brasília, a única cidade onde esteve,
organizou um esquema de segurança envolvendo
mais de 2 mil pessoas, incluindo atiradores
de elite, helicópteros, cães farejadores, o
serviço secreto, o esquadrão anti-bombas e o
esquadrão contra a guerra química
norte-americanos.
Pequenas manifestações foram feitas na
cidade, com destaque para um grupo que
reuniu em frente à residência oficial do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pouco
antes de um encontro entre os dois líderes.
Na ocasião, a polícia deteve um
manifestante por desacato à autoridade.
Com informações da Agência Brasil.