Não passou e
não passará. As pressões e chantagens do
governo dos Estados Unidos sobre os 34
países membros da 4ª Cúpula das Américas não
foram suficientes para aprovar
encaminhamentos que levassem à implementação da área
de livre comércio na formatação que lhe
agrada. O evento,
que aconteceu nos últimos dois dias em Mar del Plata,
aprovou uma declaração que registra as
divergências sobre a Área de
Livre Comércio das Américas (Alca) e sugere
a possibilidade de um outro encontro
específico sobre o tema. Muito longe dos
anseios imperialistas.
A
Declaração de Mar del Plata que foi emitida contém
três pontos sobre as negociações da Alca. Um
parágrafo faz referência a "um grupo de
países que está disposto a continuar
negociando a Alca, tal como está agora".
Outro, registra a posição dos quatro países
do Mercosul e da Venezuela, "que entendem que
não há condições para continuar negociando a Alca nos termos em que está proposta",
disse. O terceiro parágrafo inclui uma
"oferta" do presidente colombiano, Álvaro Uribe, "de convocar uma reunião de
negociadores para avaliar a situação geral
da Alca, tirar conclusões e fazer
recomendações aos governos".
Na opinião
do
vice-ministro das Relações Exteriores da
Argentina, Jorge Taiana, o resultado final
foi que "houve acordo com
desacordo". Taiana e o ministro das Relações
Exteriores do país, Rafael Bielsa, foram
encarregados de explicar à imprensa o
documento final, acertado oito horas após a
volta do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva ao Brasil e seis horas depois do
embarque do presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush, à capital brasileira. Bush e
Lula se reúnem hoje em
Brasília.
"Vejam o
tamanho do PIB (Produto Interno Bruto) dos
que estão de acordo e o dos que não estão de
acordo com a Alca", disse Bielsa. O
chanceler fazia referência, específica ao
Brasil, à Argentina, ao Paraguai, ao Uruguai e
à Venezuela, ricos em agricultura, itens da
indústria e petróleo. Sem dizer nomes,
se referiu a países como o Peru e Equador, que,
no entendimento de diplomatas brasileiros,
poderiam ter sua economias fortalecidas a
partir do acordo com os Estados Unidos, além
do México e do Canadá, por exemplo.
O segundo e
último dia da 4ª Cúpula das Américas,
segundo a imprensa argentina, foi marcado
por horas de tensão. Foi considerada a
ausência de uma declaração final, já que as
divergências dominaram as discussões durante
todo o dia. O presidente Bush teria dito,
ainda de acordo com a imprensa local, que
seria "preocupante" não haver uma declaração
final assinada por todos os países. Às 14h,
marcou-se entrevista coletiva para o anúncio
das conclusões do encontro.
Mas a
declaração final foi adiada, e somente quatro horas mais tarde, Bielsa e Taiana falaram para um auditório
lotado sobre o "acordo com desacordo". Foram
tantas as perguntas sobre a Alca que o
ministro argentino disse: "A Alca não é uma
palavra religiosa. Não é dessas palavras
proibidas como belzebu ou satanás. Mas vamos
negociar para definir o que beneficie nossos povos".
O grande
derrotado
Mais tarde,
numa outra entrevista, o presidente da
Venezuela, Hugo Chávez, declarou: "Fomos
cinco mosqueteiros, com os joelhos na terra,
brigando no debate sobre essa integração". O
líder venezuelano comentou: "George W.
Bush foi derrotado. Vocês não viram a cara
dele quando foi embora?".
Chávez
disse que Bush "foi o grande derrotado" na
Cúpula das Américas, apesar da sua "forte
pressão". Ele revelou que houve "uma espécie
de chantagem" dos Estados Unidos e do Canadá
para que fosse aprovado um pronunciamento a
favor de reativar a Alca. Além disso, segundo Chávez, fracassou uma moção apresentada
pelo Panamá que estava em sintonia com os
interesses de Washington. Bush "foi embora
antes que terminassem os debates porque viu
a derrota vir: não se viu, mas o homem
levava golpes na cara", disse o presidente
venezuelano durante uma entrevista coletiva.
Mercosul
Chávez
disse que o Mercosul e a Venezuela se
comportaram durante os debates "como cinco
mosqueteiros" contra essas pressões. O
presidente venezuelano afirmou que até o
presidente da Argentina, Néstor Kirchner,
teve que pedir três separações "para dar
lugar a concílios", e as discussões chegaram
a tal ponto "se aproximaram da falta de
respeito" aos cinco países que rejeitaram a
posição dos EUA e de seus aliados. "Néstor
Kirchner disse, num determinado momento, que não
gostamos aqui de que nos venham com
prepotência", disse.
Chávez
também elogiou a firmeza com que o
presidente Lula defendeu a posição do Mercosul. Tabaré
Vázquez, presidente do Uruguai, "falou
calmo, mas firme", e o presidente paraguaio,
Nicanor Duarte, "foi firme, como um raio",
acrescentou Chávez.
O
presidente venezuelano disse que, em Mar del
Plata, houve "um debate inédito em cúpulas",
em referência a que "jamais se chegou à
intensidade, profundidade e franqueza de
hoje". Segundo Chávez, o resultado desta
cúpula mostra que "não se pode impor uma
proposta fundamentalista, como é a Alca", e
também ficou refletido que "começou a surgir
uma nova consciência no sul".
"A política
reivindica mais uma vez seu lugar no mundo,
os técnicos fazem um grande trabalho, mas os
políticos e os estadistas que têm que ter um
debate", afirmou. "Não é aceitável que se
queira impor o critério de que se apóia a
Alca está comigo, e se não aceita está
contra mim: as coisas não são assim, isso é
fundamentalismo", ressaltou. Chávez disse
que a Alca "está morta", mas "há os que
querem mantê-la viva e passeiam seu cadáver
por ali".
O presidente da Argentina, Néstor
Kirchner, também destacou a força do
Mercosul na Cúpula das Américas e a dureza
das discussões da reunião, na coletiva. O
encontro "foi duro", admitiu o presidente,
mas assegurou que "se lutou com dignidade
até o último momento". "Ficou demonstrado
que o Mercosul está forte", afirmou.
O mesmo
documento inclui declarações de
solidariedade ao Haiti, referências à
importância da manutenção da governabilidade
na Bolívia, e o destaque para a importância
da geração de trabalho, que, segundo o
vice-chanceler argentino, é a parte mais
extensa e detalhada do documento final.
Nela, ressalta-se, por exemplo, a
importância do crescimento com igualdade
social, a necessidade de apoio às pequenas e
médias empresas e a geração de postos de
trabalho como forma de combater a pobreza.
Um texto
conciliador, já que também existiam
diferenças neste item, com os governos dos
países desenvolvidos defendendo maior
flexibilização das leis trabalhistas e o
Mercosul sugerindo maior cautela e proteção
ao trabalhador. A próxima reunião da Cúpula
das Américas será em 2006 em Trinidad e
Tobago.
Com agências
internacionais.