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Brasil, sexta-feira, 10 de outubro de 2008

6 de novembro de 2005

sepultamento
Termina 4ª Cúpula das Américas sem Alca
 

Não passou e não passará. As pressões e chantagens do governo dos Estados Unidos sobre os 34 países membros da 4ª Cúpula das Américas não foram suficientes para aprovar encaminhamentos que levassem à implementação da área de livre comércio na formatação que lhe agrada. O evento, que aconteceu nos últimos dois dias em Mar del Plata, aprovou uma declaração que registra as divergências sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e sugere a possibilidade de um outro encontro específico sobre o tema. Muito longe dos anseios imperialistas.

A Declaração de Mar del Plata que foi emitida contém três pontos sobre as negociações da Alca. Um parágrafo faz referência a "um grupo de países que está disposto a continuar negociando a Alca, tal como está agora". Outro, registra a posição dos quatro países do Mercosul e da Venezuela, "que entendem que não há condições para continuar negociando a Alca nos termos em que está proposta", disse. O terceiro parágrafo inclui uma "oferta" do presidente colombiano, Álvaro Uribe, "de convocar uma reunião de negociadores para avaliar a situação geral da Alca, tirar conclusões e fazer recomendações aos governos".

Na opinião do vice-ministro das Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana, o resultado final foi que "houve acordo com desacordo". Taiana e o ministro das Relações Exteriores do país, Rafael Bielsa, foram encarregados de explicar à imprensa o documento final, acertado oito horas após a volta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Brasil e seis horas depois do embarque do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, à capital brasileira. Bush e Lula se reúnem hoje em Brasília.

"Vejam o tamanho do PIB (Produto Interno Bruto) dos que estão de acordo e o dos que não estão de acordo com a Alca", disse Bielsa. O chanceler fazia referência, específica ao Brasil, à Argentina, ao Paraguai, ao Uruguai e à Venezuela, ricos em agricultura, itens da indústria e petróleo. Sem dizer nomes, se referiu a países como o Peru e Equador, que, no entendimento de diplomatas brasileiros, poderiam ter sua economias fortalecidas a partir do acordo com os Estados Unidos, além do México e do Canadá, por exemplo.

O segundo e último dia da 4ª Cúpula das Américas, segundo a imprensa argentina, foi marcado por horas de tensão. Foi considerada a ausência de uma declaração final, já que as divergências dominaram as discussões durante todo o dia. O presidente Bush teria dito, ainda de acordo com a imprensa local, que seria "preocupante" não haver uma declaração final assinada por todos os países. Às 14h, marcou-se entrevista coletiva para o anúncio das conclusões do encontro.

Mas a declaração final foi adiada, e somente quatro horas mais tarde, Bielsa e Taiana falaram para um auditório lotado sobre o "acordo com desacordo". Foram tantas as perguntas sobre a Alca que o ministro argentino disse: "A Alca não é uma palavra religiosa. Não é dessas palavras proibidas como belzebu ou satanás. Mas vamos negociar para definir o que beneficie nossos povos".

O grande derrotado

Mais tarde, numa outra entrevista, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, declarou: "Fomos cinco mosqueteiros, com os joelhos na terra, brigando no debate sobre essa integração". O líder venezuelano comentou: "George W. Bush foi derrotado. Vocês não viram a cara dele quando foi embora?".

Chávez disse que Bush "foi o grande derrotado" na Cúpula das Américas, apesar da sua "forte pressão". Ele revelou que houve "uma espécie de chantagem" dos Estados Unidos e do Canadá para que fosse aprovado um pronunciamento a favor de reativar a Alca. Além disso, segundo Chávez, fracassou uma moção apresentada pelo Panamá que estava em sintonia com os interesses de Washington. Bush "foi embora antes que terminassem os debates porque viu a derrota vir: não se viu, mas o homem levava golpes na cara", disse o presidente venezuelano durante uma entrevista coletiva.

Mercosul

Chávez disse que o Mercosul e a Venezuela se comportaram durante os debates "como cinco mosqueteiros" contra essas pressões. O presidente venezuelano afirmou que até o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, teve que pedir três separações "para dar lugar a concílios", e as discussões chegaram a tal ponto "se aproximaram da falta de respeito" aos cinco países que rejeitaram a posição dos EUA e de seus aliados. "Néstor Kirchner disse, num determinado momento, que não gostamos aqui de que nos venham com prepotência", disse.

Chávez também elogiou a firmeza com que o presidente Lula defendeu a posição do Mercosul. Tabaré Vázquez, presidente do Uruguai, "falou calmo, mas firme", e o presidente paraguaio, Nicanor Duarte, "foi firme, como um raio", acrescentou Chávez.

O presidente venezuelano disse que, em Mar del Plata, houve "um debate inédito em cúpulas", em referência a que "jamais se chegou à intensidade, profundidade e franqueza de hoje". Segundo Chávez, o resultado desta cúpula mostra que "não se pode impor uma proposta fundamentalista, como é a Alca", e também ficou refletido que "começou a surgir uma nova consciência no sul".

"A política reivindica mais uma vez seu lugar no mundo, os técnicos fazem um grande trabalho, mas os políticos e os estadistas que têm que ter um debate", afirmou. "Não é aceitável que se queira impor o critério de que se apóia a Alca está comigo, e se não aceita está contra mim: as coisas não são assim, isso é fundamentalismo", ressaltou. Chávez disse que a Alca "está morta", mas "há os que querem mantê-la viva e passeiam seu cadáver por ali".

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, também destacou a força do Mercosul na Cúpula das Américas e a dureza das discussões da reunião, na coletiva. O encontro "foi duro", admitiu o presidente, mas assegurou que "se lutou com dignidade até o último momento". "Ficou demonstrado que o Mercosul está forte", afirmou.

O mesmo documento inclui declarações de solidariedade ao Haiti, referências à importância da manutenção da governabilidade na Bolívia, e o destaque para a importância da geração de trabalho, que, segundo o vice-chanceler argentino, é a parte mais extensa e detalhada do documento final. Nela, ressalta-se, por exemplo, a importância do crescimento com igualdade social, a necessidade de apoio às pequenas e médias empresas e a geração de postos de trabalho como forma de combater a pobreza.

Um texto conciliador, já que também existiam diferenças neste item, com os governos dos países desenvolvidos defendendo maior flexibilização das leis trabalhistas e o Mercosul sugerindo maior cautela e proteção ao trabalhador. A próxima reunião da Cúpula das Américas será em 2006 em Trinidad e Tobago.

Com agências internacionais.

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