Partido
Comunista renovado
É nesse quadro
contraditório e de grande complexidade
que o Partido Comunista do Brasil
desenvolve um esforço especial de
construção e afirmação de sua opção
revolucionária. O Partido, como força
ativa do movimento que assegurou a
importante viragem histórica que foi a
vitória de Lula em 2002, é beneficiário
das condições criadas para a
construção de um novo projeto nacional.
Assumiu maior protagonismo político e
social, adquiriu projeção com sua
participação em funções da
administração federal, aumentou seus
laços com o povo, ampliou suas fileiras,
interiorizando-se e reforçando sua
estrutura nacional. Passou a viver uma
nova fase e a enfrentar novos desafios
para a sua construção.
O período histórico
atual de defensiva - no qual predominam,
para as forças revolucionárias do
Brasil, as formas pacíficas de luta de
classes - impõe a busca de novos fatores
de acumulação para a aproximação dos
objetivos estratégicos do Partido. Essa
busca se orienta pelas lições da
prática passada e é assentada na
realidade do capitalismo contemporâneo. O
Partido Comunista é um partido para a
viragem, para as rupturas transformadoras,
para a revolução, não um partido apenas
para as reformas. Por isso, seu coletivo
necessita compreender as condições em
que atua e como construir um caminho
particular para a luta de resistência ao
neoliberalismo, visando a abrir caminho ao
socialismo. Durante esses anos, parte das
energias do movimento revolucionário foi
investida no esforço de entender as
causas da derrota e na busca de definir o
melhor caminho para a acumulação de
forças, através de novas formas de
atuação.
No centro desse esforço
colocou-se a necessidade do fortalecimento
dos partidos revolucionários, da
reafirmação do seu papel histórico,
condição primordial para a continuidade
da luta pela nova sociedade. Reafirmar a
indispensabilidade do partido
revolucionário, bem como a necessidade de
sua adequação aos novos tempos, passou a
ser um importante desafio. Colocou-se como
premente difundir a compreensão da
centralidade do partido como instrumento
articulador das exigências da luta
anticapitalista, um partido de vanguarda
do proletariado, centro estratégico
definidor da luta pelo poder político de
Estado, indispensável ao processo
transformador.
O Partido deve procurar
ser a consciência avançada do nosso
tempo, Partido da vocação política
transformadora que não recusa os embates
do cotidiano, mas os canaliza para um
projeto político global; Partido que dá
prioridade à ação política de massas,
como forma principal de luta; Partido que
busca apresentar-se à sociedade de forma
contemporânea defendendo um socialismo
renovado, marcado por seu caráter de
classe, patriótico e antiimperialista e
por ampla democracia popular; Partido que
não quer repetir as experiências
tradicionais e tem, no compromisso
militante de seus membros, seu mais
precioso patrimônio; Partido da amizade
entre os irmãos proletários do mundo,
concretizando intensa solidariedade
internacionalista.
O esforço por reafirmar
a indispensabilidade de um partido
revolucionário passa pela compreensão de
que, nas condições particulares em que
se atua no Brasil, é necessário saber
articular a ação de construção de
amplas frentes políticas atuando na
esfera institucional, governos e
parlamentos, com a luta social e intensa
luta de idéias em prol da perspectiva
transformadora. Nesse sentido, impõe-se
reforçar a compreensão do papel dos
novos setores sociais na luta social e da
centralidade do movimento dos
trabalhadores na luta contra o
neoliberalismo e pelo socialismo. A
orientação política do Partido confere
papel essencial à mobilização popular.
Uma das lições tiradas dos processos
revolucionários dos povos indica que as
massas não apreendem uma orientação
política automaticamente. Elas têm de
confrontá-la com sua própria
experiência. É necessário, no entanto,
combater a fragmentação e a
"despolitização" na ação dos
movimentos específicos, deixar claros os
limites de tendências
"movimentistas" que se
manifestam entre forças revolucionárias
no mundo. Ao mesmo tempo, um partido que
compreende, também, as novas
características dos conflitos sociais da
atualidade de onde se plasmam os sujeitos
históricos da transformação e novas
formas de consciência e luta. Um partido
que acompanha o movimento espontâneo das
massas, sobretudo a luta dos trabalhadores
contra a exploração, em cujo leito deve
se construir a consciência por um novo
projeto político antineoliberal como
aproximação para a construção da
alternativa socialista futura.
O novo patamar de maior
protagonismo do PCdoB colocou a
necessidade da construção de um partido
revolucionário grande, de ampla
militância, apoiado em quadros dirigentes
avançados. Um partido que compreende a
exigência da ruptura para um novo poder
político, o que traz a exigência de se
assumir como direção estratégica da
luta, e com unidade na ação política,
com base nos fundamentos ideológicos do
marxismo e do centralismo democrático
como princípio orientador de sua
organização e de sua vida interna.
O processo de
realização do 11o Congresso do PCdoB
buscou fincar a consciência militante
sobre os objetivos estratégicos de
reconstrução da alternativa socialista e
sobre a fase atual da luta revolucionária
no mundo e no Brasil, de resistência ao
neoliberalismo. Resultante desse esforço
e das exigências postas pelo novo momento
vivido no país, o Partido avança na
formulação de seu pensamento político,
desenvolve sua tática e sua ação
política nas condições de legalidade
que perduram já por vinte anos. Deve
reforçar sua opção de partido
revolucionário, renovado, partido extenso
em militância para responder às
necessidades da luta pela hegemonia,
voltado para o pensamento avançado, para
os trabalhadores, para a luta política e
social em curso e para a construção de
uma alternativa socialista futura. Tal é
a versão atual das defasagens da
construção partidária.
1 Partido para
as novas condições da luta
política
O novo ciclo
político, iniciado com a eleição do
presidente Lula, teve impacto positivo na
construção da corrente comunista em
nosso país. Ao mesmo tempo, impôs novas
exigências no terreno da política que
deve ter uma característica de amplitude;
no terreno ideológico, exigindo maiores
convicções dos objetivos estratégicos;
e no terreno organizativo, forjando-se um
partido mais estruturado, mais enraizado,
mais representativo. Essas exigências
entram em contradição com a situação
atual de um partido que, embora tenha se
expandido, é de militância ainda
pequena, pouco estruturada e com forte
marca de espontaneísmo na ação
política e social.
Responder a essa nova
situação, por um lado, impõe a
compreensão das condições do momento
brasileiro e de suas características
particulares. Hoje, há um nível
razoável de liberdade política, em
comparação com outros períodos da
história do Brasil. Há um número grande
de partidos, com forte fragmentação
entre aqueles que se apresentam no campo
da esquerda. A disputa pela
diferenciação junto à sociedade assume
um patamar superior. Os anos de
neoliberalismo, que limitaram o debate em
torno de alternativas para o país, não
permitiram que avançasse a elaboração
de um projeto unificador das diversas
forças políticas e sociais interessadas
na mudança. E o processo de construção
desse novo projeto enfrenta a existência
de variados centros de pensamento, ainda
não tendo surgido um pólo aglutinador
desse esforço.
Por outro, nas
condições do Brasil, a luta pela
construção e fortalecimento de um
partido revolucionário impõe uma
vigilância permanente contra as manobras
das elites políticas conservadoras que
querem limitar o espaço de
representação das forças populares. Um
país, que tem a diversidade social e a
riqueza cultural da população
brasileira, necessita muito mais ampliar e
aperfeiçoar a presença desses diferentes
segmentos nas instituições
democráticas. Ao longo desses últimos
anos, o que se vê é uma ofensiva
antidemocrática que usa o enganoso
discurso de aperfeiçoamento das
instituições para propor sucessivas
"reformas políticas" de
conteúdo restritivo. Conseguiu aprovar a
cláusula de barreira de 5% para o
funcionamento parlamentar, impedindo os
partidos que não alcançarem esse
percentual de votos de ter acesso aos
horários de rádio e TV, entre outras
restrições. Várias iniciativas para
impedir o instituto da coligação e para
implantar o voto distrital se encontram no
Congresso Nacional. São manobras que
buscam reduzir a representação
parlamentar a 4 ou 5 grandes partidos,
excluindo, do debate maior, aqueles que
têm maiores vínculos com o povo.
O PCdoB tem hoje o
desafio de buscar ser o fator de unidade
das forças progressistas e o fator de
mobilização de amplas massas sequiosas
de transformação. Ao mesmo tempo tem de
assegurar sua diferenciação na atuação
política e social para que suas idéias
alcancem um nível mais amplo de
influência na disputa pela hegemonia da
sociedade. Por isso, necessita conquistar
maior protagonismo político e social. Sua
orientação deve ter caráter propositivo
e crítico, capaz de influenciar os rumos
do governo e do Estado. Em decorrência
dessa compreensão, as exigências atuais
da construção partidária colocam a
centralidade da contribuição dos
comunistas na formulação de uma
plataforma que possa unificar as forças
interessadas num novo modelo de
desenvolvimento com valorização do
trabalho. Este não é um objetivo simples
de ser alcançado. O esforço em torno da
elaboração de um novo projeto nacional
confronta-se com tendências que vão da
inevitabilidade do caminho atual até a
ilusão de que as transformações
necessárias se farão independentemente
da correlação de forças existente no
país. Há os que, diante das dificuldades
do quadro mundial, marcado pela
intervenção do imperialismo em todos os
países, tentam limitar seus objetivos a
avanços pontuais do atual modelo. Ao
mesmo tempo, algumas correntes ou
personalidades, numa visão sectária que
desconhece a correlação de forças e a
necessidade de formulação clara de um
novo caminho, assumem uma atitude de
desencanto, partindo para o criticismo
mais exacerbado. Uns e outros tendem a
desertar das fileiras da luta
transformadora. Há, também, aqueles que
assumem uma posição principista só
vendo saída para a situação numa
atividade artificialmente radicalizada,
auto-proclamada revolucionária.
Superar a defasagem
entre a intervenção política e a
edificação do PCdoB e elevar sua
estruturação entre os trabalhadores e
trabalhadoras é hoje um dos maiores
desafios da construção partidária. A
retomada de maior participação do
proletariado no processo histórico
brasileiro é marca dos recentes avanços
de natureza progressista. A eleição de
um operário para a Presidência da
República é parte desse movimento. A
hegemonia do sistema neoliberal, marca da
época atual, vem provocando a
exacerbação da exploração capitalista
com a depreciação do trabalho e dos
valores a ele associados, o retrocesso de
direitos, o avanço do desemprego
estrutural. Esses fatores objetivos têm
impactado negativamente na resistência e
na organização do movimento operário e
sindical. Ao mesmo tempo, têm ampliado as
fileiras daqueles que, com a
precarização de suas condições de
vida, vêm percebendo que seus interesses
entram em contradição com os interesses
daqueles que exploram o seu trabalho.
Nesse processo, seus movimentos de
resistência criam condições para que
possam ampliar sua contribuição na luta
por um novo projeto nacional de
desenvolvimento. Ao realizar o seu 2º
Encontro sobre Questões de Partido, tendo
como centro sua construção junto ao
proletariado, o Partido expressa sua
compreensão de que este é o setor
estratégico para a acumulação de
forças na perspectiva socialista.
Elevar a incorporação
dos comunistas no debate político é uma
tarefa indissociável de ampliar sua
participação na luta de idéias. O
Partido precisa ser a consciência
avançada do tempo presente. Tem de
colocar a luta de idéias num patamar
superior de preocupações e ações.
Essas novas exigências de natureza
ideológica impõem maior aproximação
com a intelectualidade e a parcela
avançada da classe operária fabril. Isto
significa intensificar a relação com os
intelectuais do meio acadêmico,
científico, cultural e artístico; atuar
nos centros de formação profissional de
onde saem inúmeros quadros operários;
criar novas formas de aproximação com
esses dois setores, incluindo aí
instâncias especiais de discussão nas
organizações de base e formas de
funcionamento que estejam em consonância
com as características das atividades
desses setores.
O PCdoB compreende que o
movimento espontâneo contra a
exploração do capital, nas suas mais
variadas formas, é fonte indispensável
para impulsionar a luta pelas mudanças
estruturais de que tanto o Brasil precisa.
E sua incorporação à luta por um
projeto político nacional soberano e
democrático, com valorização do
trabalho, é a possibilidade de sua
viabilização concreta. Por isso,
acentua-se a exigência de que a
militância partidária intensifique a
ligação com o movimento real em curso no
país, contribuindo para a elevação de
sua unidade e de sua consciência
política. A necessidade de unificação e
ampliação da ação política dos
movimentos sociais enfrenta, hoje, uma
profunda fragmentação, certo grau de
institucionalização e a diminuição do
papel do PT das atuais movimentações,
força esta que anteriormente tinha
importante atuação junto a eles. Este é
um obstáculo a mais para o avanço da
luta política no país.
O fortalecimento
da Corrente Sindical Classista (CSC), que
atua no interior da CUT, deve se tornar
instrumento destacado para introduzir o
debate em torno do projeto político no
seio dos trabalhadores, tanto do campo
como da cidade. A União da Juventude
Socialista (UJS), que vem jogando papel
decisivo na elevação do debate político
nas organizações estudantis e nos
movimentos juvenis, inclusive de jovens
trabalhadores, deve ser compreendida,
pelas direções partidárias nas suas
particularidades. Os jovens têm se
destacado na luta antiimperialista e nas
mobilizações de nosso povo. A
organização juvenil vem se mostrando uma
poderosa ferramenta para ampliar a
influência e para construir o Partido. A
UJS está em nova fase, superado o
relançamento, e parte para a sua
consolidação e construção massiva.
A
Coordenação dos Movimentos Sociais, uma
proposta justa e oportuna, deve ser
reforçada como pólo aglutinador dos
movimentos populares, inclusive do
movimento comunitário, dos movimentos de
luta contra o racismo, pela paz e pelos
direitos dos indígenas, entre vários
outros. Atenção especial merece a
retomada do trabalho dos comunistas para
estruturar a corrente emancipacionista no
seio do movimento de mulheres. Necessita,
ainda, de melhor tratamento a luta contra
o racismo, que entra também em nova fase,
sob o governo Lula.
A legalidade e, em
especial, a conquista de espaços
governamentais, por parte das forças
democráticas e de esquerda, levaram o
Partido a aumentar sua atuação em
órgãos executivos e nos parlamentos.
Ele, além de eleger 11 prefeitos e 29
vices, passou a participar de governos em
mais de uma dezena de estados e capitais,
além de centenas de municípios de
regiões metropolitanas e do interior. A
ação política, nessa área, representa
importante instrumento de acumulação de
forças. Ao ocupar posições em
administrações municipais, estaduais e
em órgãos federais o Partido toma
conhecimento, a partir de um novo ponto de
vista, da precariedade em que passaram a
viver as populações, sobretudo as
urbanas, após a ofensiva neoliberal do
último período. Tem oportunidade de
discutir, diretamente com o povo,
alternativas de políticas públicas que
minimizem suas dificuldades. E busca
desenvolver, junto com as outras forças
que integram os governos, uma
articulação permanente para levar às
organizações da sociedade civil o debate
e a mobilização em defesa de um novo
projeto para o país.
Apesar da
realização recente de seminários
nacionais e locais sobre o tema, as
instâncias de direção não têm dado
atenção à sistematização da
experiência. Trata-se de formular
projetos políticos bem definidos para
nortear essa participação em cada
situação concreta, compreendendo o
exercício do poder como serviço aos
trabalhadores, ao povo, ao país, aos
objetivos estratégicos do Partido e sob
seu controle político. Nesse
desenvolvimento apreende-se a necessidade
de inovar na definição do trabalho de
direção, constituindo secretaria
própria para essa atividade. Entre outras
atribuições, esta secretaria deve atuar
para que se concretize o objetivo de
elaborar e implementar políticas
públicas que identifiquem claramente
junto ao povo a intervenção do Partido.
Essas políticas devem ser construídas
necessariamente pelos órgãos de
direção correlatos, com envolvimento dos
quadros que atuam diretamente nesta
frente.
2
Forjar um partido revolucionário
renovado, de ampla militância, apoiado
em quadros avançados
Decorrente da nova
situação criada no mundo e no país, e
de avanços no amadurecimento político e
ideológico da corrente comunista,
intensificou-se o esforço por desenvolver
o pensamento de Partido. O 10º Congresso,
a 9ª Conferência, os 1º e 2º Encontros
sobre a Questão de Partido, mais os
Encontros sobre o Partido e os movimentos
sociais, e o Partido e a frente
institucional são momentos especiais
desse esforço. Representaram a
continuidade do movimento que vinha se
realizando e agregando novas
formulações, particularmente durante a
preparação do 11º Congresso. Esta foi
uma fase em que se buscou fixar a consigna
"Cuidar mais e melhor do
Partido", tratando de forma mais
realista e dialética a relação entre
construção e estruturação nos planos
político, ideológico e organizativo,
sempre tendo a política no comando do
processo de fortalecimento do Partido. A
chave para os futuros desafios do Partido
é, agora, formar larga estrutura de
quadros, de nível superior,
intermediário e mesmo de base, assentada
numa profunda compreensão da exigência
de unidade de ação de todo o Partido.
O esforço por forjar um
partido com essas características
enfrenta alguns obstáculos que tanto
dificultam o desenvolvimento da luta
progressista e transformadora quanto
provocam certa desorientação na ação
de militantes, partidos e organizações.
Ao mesmo tempo em que se ampliaram as
possibilidades de atuação política e
social da corrente comunista tornaram-se
mais evidentes as pressões tendentes a
rebaixar o papel estratégico do Partido,
em conseqüência da situação objetiva
em que ele passou a atuar. Nas condições
de relativa defensiva do movimento
operário e de intensa
institucionalização da atividade
política, crescem as tendências ao
pragmatismo que pode levar ao oportunismo,
tanto pela direita como pela esquerda.
Distanciando-se do debate teórico sobre
os objetivos estratégicos e das
instâncias da vida partidária, o
militante começa a construir um projeto
próprio, fruto de anseios pessoais,
abandonando o projeto coletivo, às vezes
aderindo a outros que lhe dão mais
vantagens. Manifesta-se, também, a
tendência à diminuição dos vínculos
com as massas, à baixa organicidade do
trabalho militante na base, até mesmo nos
comitês, e o descompromisso com a
sustentação material do Partido.
Combater esses desvios passa por vincar
valores ideológicos fundamentais -
particularmente o de servir ao povo
desinteressadamente e o de respeitar a
inviolabilidade dos bens públicos - e
reforçar a consciência sobre a
identidade revolucionária do PCdoB no
seio do coletivo partidário. Nesta
perspectiva, a prática da crítica e da
autocrítica, elemento constitutivo da
concepção leninista de partido, é um
instrumento essencial dos comunistas.
O novo quadro político
provocou nítido crescimento das fileiras
partidárias que precisa ser levado a um
patamar superior. O Partido precisa ser
massivo em sua força orgânica, com uma
militância ampla, numerosa, extensa,
estruturada, apoiada em quadros avançados
para ser capaz de responder às novas
tarefas assumidas. Esse processo em
desenvolvimento é marcado por alguns
fenômenos que precisam ser superados. O
primeiro é o caráter espontâneo da
ampliação de suas fileiras. O Partido
precisa crescer de forma direcionada,
sobretudo entre o proletariado, a
juventude e a intelectualidade
progressista, realizando suas filiações
no curso das lutas. O segundo é a
dificuldade de a militância atual
compreender a necessidade de uma estrutura
de organizações de base diversificada
que assuma novas características. Em
certa medida, as direções
intermediárias e as organizações de
base são ainda frágeis em seu
funcionamento para planejar, absorver e
potencializar a ação dos novos filiados.
Em muitas situações, falta a
compreensão de que as organizações de
base devem ser estruturadas para a luta,
superando seu funcionamento burocrático,
discutindo questões da vida cotidiana do
povo, assegurando maior enraizamento em
seu seio. O terceiro é a inexistência de
uma política de quadros, garantia de uma
direção firme, funcionando como uma
espinha dorsal articuladora da ação
militante.
Estruturar mais e melhor
o Partido, superando as defasagens
existentes é a palavra de ordem do atual
estágio de desenvolvimento partidário.
Ainda está em desenvolvimento o debate
sobre a linha de estruturação que possa
responder às novas exigências das
transformações ocorridas. Importante
avanço, no entanto, foi a compreensão do
conceito de estruturação, como chave
para a construção partidária no plano
político, ideológico e organizativo. Por
isso, os Planos de Estruturação
Partidária continuam sendo a forma
consciente e dirigida de implementar a
linha de construção já acumulada. Eles
têm como objetivo fundamental combater o
espontaneísmo e as defasagens na esfera
ideológica e organizativa.
Colocam-se como desafios
da atual etapa de desenvolvimento
partidário: construir um Partido voltado
para a ação política, na luta e para a
luta; ampliar as fileiras partidárias de
modo direcionado; atuar efetivamente pelas
bases; assegurar as quatro atitudes
básicas na vida militante - militar,
estudar, divulgar e contribuir; consolidar
comitês do Partido nos grandes
municípios; elevar o nível teórico e
político; enfrentar a flutuação da
participação militante; garantir, em
bases políticas, a sustentação material
do partido; garantir a informação e
ampliar a comunicação do Partido com as
mais amplas parcelas do povo.
O fortalecimento
orgânico do PCdoB passa pela construção
de uma política de quadros dirigentes que
se constitui, nas condições atuais,
fator fundamental do desenvolvimento da
intervenção e da organização
partidária. A ação política e social,
a estruturação e funcionamento das
organizações de base, e a formação
ideológica dos novos militantes dependem
de uma ampla estrutura de quadros
dirigentes, sintonizados com a identidade
de um Partido Comunista, de classe,
renovado. Estes são os homens e as
mulheres que, no enfrentamento cotidiano
das lutas em curso, adquirem certo nível
teórico de consciência social,
percepção mais elevada da tática
política para o momento presente,
apreensão dos valores morais de um
militante comunista e contribuição para
o trabalho de construção e direção
partidárias.
A formulação de uma
política de quadros compreende a
necessidade de se desenvolver: a) o
conhecimento, a avaliação e o
acompanhamento dos quadros existentes; b)
diretrizes para a sua formação e
desenvolvimento; e c) definição de
responsabilidades compatíveis com a
situação e a área em que vivem e atuam.
Na construção dessa política, alguns
problemas precisam ser enfrentados. Há
certa tendência à subestimação de
quadros com real capacidade de
desenvolvimento que não conseguem maior
visibilidade nos fóruns mais gerais do
Partido. É preciso ousadia na promoção,
sobretudo dos quadros operários, forjados
no front mais avançado da luta de classe.
Com a ampliação da
intervenção partidária em diferentes
frentes, criou-se falsa polêmica em torno
dos quadros que se tornam funcionários do
Partido por exigência das tarefas
cotidianas da atividade de construção.
Algumas vezes seu aproveitamento se dá
com base na disposição pessoal ou
disponibilidade de tempo ou na
possibilidade de profissionalização em
tempo integral. É preciso compreender a
importância desse núcleo de militantes
que desempenha papel fundamental na
dinâmica da atividade partidária e, por
não terem maior visibilidade pública,
não são valorizados na dimensão da
importância de suas funções. Na
definição de responsabilidades, é
necessário estabelecer qual a tarefa
principal de cada quadro: se na direção
executiva do Partido, em determinado
movimento social ou em função
institucional - governo ou parlamento. Ao
mesmo tempo, faz-se necessário superar a
idéia de que os quadros que têm
representação pública não podem
assumir funções de direção executiva.
A nova dinâmica da luta política e
social, no país, compreende métodos
diferenciados de direção que implicam
maior intervenção direta nos processos
em curso.
Há certas
características que precisam ser
valorizadas no desenvolvimento dos quadros
dirigentes, como: capacidade de
incorporação ao trabalho coletivo;
compromisso do controle da execução e da
prestação de contas das tarefas
definidas; prática da crítica e
autocrítica, da construção da unidade
partidária e do respeito consciente à
disciplina partidária; capacidade de
iniciativa e esforço para o conhecimento
da realidade onde atuam. A experiência e
as novas condições de defensiva
estratégica em que se dá, hoje, a
atuação partidária impõem um cuidado
maior com as condições materiais e as
dificuldades pessoais por que passam os
diferentes quadros dirigentes do Partido.
É preciso ter uma política que
acompanhe, absorva e responda a certas
crises que se manifestam no terreno
subjetivo dos mesmos, bem como que
estabeleça uma normatização nas
condições financeiras e materiais dos
quadros que se transformam em
funcionários do Partido.
As tarefas ressaltadas
de formação dos filiados, militantes e
quadros e de intensa participação do
Partido na luta de idéias apontam para
que se persista no fortalecimento do
trabalho ideológico, que empreendeu
avanços. A concepção que regeu esta
frente é de um sistema único que tem
instrumentos que realizam ações para
fora e para dentro do Partido. No âmbito
da comunicação, destaca-se a criação e
consolidação do portal Vermelho
na Internet, hoje um dos principais
referenciais da esquerda no espaço da
comunicação eletrônica. Os programas de
rádio e TV, instrumentos da comunicação
para milhões, buscaram difundir com
eficácia e criatividade a política
partidária. O jornal A Classe
Operária passou a ser quinzenal, teve
sua redação reforçada que atua para
melhorar sua qualidade. Todavia, precisa
superar o gargalo da circulação via
assinaturas. No âmbito da Formação e
Propaganda, sublinha-se o relançamento da
Escola Nacional de Formação que com sua
rede realizou muitas iniciativas. Contudo,
é uma tarefa ainda inconclusa que impõe
ser consolidada. O Instituto Maurício
Grabois (IMG) que elegeu nova diretoria,
agregou intelectuais e constituiu seções
em vários Estados, está chamado,
portanto a materializar seus objetivos. A
revista teórica Princípios, que passou a
ser bimestral, persevera na busca de sua
qualidade editorial, mas seu principal
problema é a circulação ainda restrita.
Quanto à editora impõe-se enfrentar o
desafio de fortalecê-la.
3
Reforçar a unidade e desenvolver
a
legalidade partidária, renovando
os estatutos
A nova realidade em
que atuam os comunistas vem impondo um
intenso esforço para ampliar a prática
democrática na vida interna do Partido.
Nesses últimos 10 anos foram realizados
dois Congressos (9º e 10º), duas
Conferências Nacionais (8ª e 9ª), dois
Encontros Nacionais sobre questões de
Partido, além do funcionamento regular do
Comitê Central, da Comissão Política
Nacional, incluindo também as reuniões
extraordinárias para decisões
emergenciais. Esta dinâmica vem
respondendo à necessidade de construir a
unidade política e ideológica no seio do
coletivo partidário, num clima da mais
ampla liberdade de pensamento e de
opinião. Esta prática de profunda
democracia interna se dá dentro da
compreensão de que não há contradição
entre a sua realização e a existência
de uma única direção geral e um centro
único de direção. O desenvolvimento
criativo do centralismo democrático tem
como base a convicção de que a unidade
de ação do partido revolucionário é um
instrumento essencial na luta
transformadora da sociedade.
A discussão sobre o
fortalecimento e a construção da unidade
partidária passou a ter maior relevância
no desenvolvimento da vida interna do
Partido. Intensifica-se a luta política
no país com base na ofensiva da
oposição conservadora que cria
mecanismos desestabilizadores contra o
governo federal para acelerar seu retorno
ao poder central. A complexidade da
situação traz, em si, certo grau de
desorientação na militância. Mais do
que nunca se faz necessário desenvolver o
mais amplo e livre debate dos problemas
atuais, no interior do Partido para
consolidar a adesão consciente dos
militantes às suas orientações táticas
e estratégicas. Num momento como este, a
justa política do Partido só ganhará
força se for realizada de forma
unitária. O desafio é, exatamente,
fincar a consciência de que o
fortalecimento da unidade partidária é
uma das principais condições de sua
força e um requisito imprescindível para
a disputa pela hegemonia na sociedade.
Passou a ser um tema
emergente na estrutura partidária a
reafirmação da atualidade do centralismo
democrático - obrigatório para todos os
organismos, organizações e militantes do
PCdoB -, da necessidade de sua aplicação
em respeito e compromisso com as decisões
do Partido. Em primeiro lugar, pela grande
renovação ocorrida com a adesão de
novos filiados, em decorrência da
expansão do último período. Em segundo,
pela necessidade de garantir a unidade de
ação do Partido, pois este de forma
pública enfrentou a situação de quebra
do centralismo democrático, com o voto
dissidente de parte da bancada federal,
por duas vezes. O fato impactou de forma
negativa não apenas o coletivo, como a
imagem do Partido junto à sociedade que
sempre o diferenciou dos demais partidos
pela sua ação unitária. A condução
dada no período pelos organismos
dirigentes levou em conta as novas
circunstâncias políticas surgidas e a
necessidade de sua apreensão pela
militância. Passado o período, a tarefa
atual é estabelecer com mais precisão as
normas da construção da unidade
partidária às quais devem estar
submetidos todos os seus filiados, com
especial responsabilidade aqueles que têm
cargos ou funções de representação
pública.
As normas de
funcionamento, materializadas nos
estatutos e aprovadas nos fóruns
democráticos dos congressos, representam
a forma pela qual o Partido se organiza
para cumprir suas tarefas táticas e
estratégicas. A adesão ao Partido tem
como pressuposto a concordância
consciente de cada militante. Por isso, as
normas estabelecidas não se orientam por
um mero exercício de práticas
burocráticas de organização, mas pela
apreensão da concepção de um partido
revolucionário estruturado e da
experiência da luta de classe acumulada
no período de hegemonia neoliberal,
levando em conta, também, as novas formas
de resistência ao capitalismo
contemporâneo.
Decorrente dessa
orientação, o 11º Congresso tem na sua
pauta a aprovação de um novo Estatuto
que organize a atuação de um partido
revolucionário grande, que compreenda a
exigência da ruptura para um novo poder
político, atuando nas condições
presentes de acumulação de forças. O
novo Estatuto expressa a variada
experiência política realizada pelos
comunistas no recente processo brasileiro.
Por isso, ele apresenta normas inovadoras
para a ação política e social dos
militantes, incluindo a ação nas
organizações de massa e no exercício de
cargos públicos, que respondem às
profundas modificações ocorridas.
Aprimora os mecanismos de construção da
unidade partidária realizada através do
centralismo democrático, assentada em
ampla liberdade de opinião e na defesa
obrigatória das decisões partidárias. O
Estatuto atualiza a noção de militância
como um fator distintivo da prática
partidária em relação aos demais
partidos e valoriza os quadros dirigentes
como elemento fundamental, articulador da
ação militante. O novo Estatuto busca
ampliar a institucionalidade, preparando o
Partido na sua fase atual de expansão
para disputar a hegemonia do processo
político e revolucionário do Brasil.
Brasília, 22 de outubro de 2005.
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