Quadro
Nacional
A evolução da
sociedade brasileira é subordinada ao que
se convencionou chamar de neoliberalismo
como padrão mundial dominante da
reprodução capitalista. Como ficou
demonstrado na parte relativa à questão
internacional desta Resolução Política,
esse padrão de dominação imperialista e
de reprodução capitalista provocou
mudanças nas estruturas de produção e
na divisão internacional do trabalho,
imprimiu um ritmo de crescimento
econômico lento, com aumento da
capacidade ociosa de produção e
recorrência de crises financeiras.
O desenvolvimento
político no Brasil está fortemente
condicionado pelo exercício unilateral do
poder mundial pelos EUA, que se apóiam
cada vez mais no intervencionismo e na
ação militar provocando ameaças
permanentes à segurança coletiva e à
paz, lançando o mundo em grave desordem.
A compreensão dos novos
fenômenos da vida política brasileira
não está desvinculada da que o Partido
Comunista do Brasil adquiriu sobre as
mudanças operadas no quadro mundial. O
fim da União Soviética e do campo
socialista representou uma derrota
estratégica para o socialismo e as
forças revolucionárias. Este fato
resultou na abertura de uma fase de
defensiva estratégica e na prevalência
de um ciclo contra-revolucionário, de uma
ofensiva conservadora de longa duração
que ainda prossegue.
O 11º Congresso do
PCdoB está chamado a responder aos
grandes desafios do processo de
transformações revolucionárias em nosso
país. As correntes revolucionárias e
progressistas encontram-se empenhadas num
vasto esforço de conhecimento e domínio
da situação, sistematizando as lições
da experiência histórica para estarem em
condições de influir e conduzir a
resistência que objetivamente se vem
desenvolvendo em face do retrocesso
civilizatório causado pelo sistema
dominante. Crescentemente, brota entre os
povos e nações o anseio de paz,
soberania e desenvolvimento nacional, de
progresso social e integração regional
entre os países "periféricos",
de construir uma nova ordem econômica e
política mundial. A luta do povo
brasileiro por um novo Brasil não está
desligada desse contexto.
Assim é que o PCdoB
busca dar maior nitidez à sua estratégia
e tática, numa compreensão mais profunda
do período histórico atual e na visão
marxista mais acurada de que os momentos
de viragens revolucionárias ou de
rupturas profundas são produto da
acumulação de forças construída em
largos períodos de tempo e do espocar de
grandes acontecimentos que levam à
mudança no equilíbrio do sistema de
poder mundial. Além disso, é preciso o
entendimento de que as grandes massas,
para se constituírem em força-motriz do
processo revolucionário nacional,
necessitam elas mesmas vivenciar sua
experiência política, conformada
naturalmente de ascensos e descensos,
vitórias e derrotas. Neste sentido, como
assinalou Lênin, não bastam a agitação
e a propaganda, a experiência política
concreta das massas é indispensável.
Em suma, as mudanças
profundas não surgem simplesmente pela
vontade de vanguardas políticas
esclarecidas ou pelas suas proclamações
em defesa de saídas radicais. A
consciência política da vanguarda, por
mais avançada que seja, não se transmite
de forma automática ou direta para a
maioria do povo. A justa compreensão
dessas leis do desenvolvimento social,
político e revolucionário é que permite
superar ilusões e traçar uma estratégia
que justifique uma perspectiva viável e
uma tática que arme a vanguarda para
enfrentar as vicissitudes do tempo
presente.
Em função do maior
domínio dessas leis do processo
revolucionário e das experiências
recentes em curso no presente cenário
histórico, torna-se mais evidente que a
resistência neste período se traduz
mais precisamente por um modo ativo de
acumulação prolongada de forças e
aprendizado político próprio percorrido
pela maioria do povo tendo como base as
consignas centrais - democracia, soberania
nacional, progresso social -, expressas
por organizações avançadas que saibam e
consigam conquistar ampla autoridade
política unindo a maioria da nação em
torno de alargada frente política,
neutralizando importantes setores
dominantes.
Nas condições atuais,
sobretudo considerando as experiências
mais próximas, na América do Sul, numa
análise mais detida, o processo de
acumulação e construção de forças
avançadas condutoras de grandes
movimentos que envolvem a maioria da
nação tem resultado, em grande medida,
da combinação articulada de três
componentes. A luta social que assume
variado nível de radicalidade conforme a
particularidade local. Uma frente
política e social ampla que elege novos
governos, que se apresentam em maior ou
menor grau como alternativa aos projetos
neoliberais aplicados na América Latina
desde o advento do denominado Consenso de
Washington. E a participação de forças
avançadas nos órgãos institucionais
vigentes, em governos por elas eleitos
e/ou nos parlamentos.
Diante desses dados que
compõem a singularidade do período
histórico contemporâneo, das
peculiaridades do Brasil e considerando-se
a experiência brasileira é que se pode
compreender com maior nitidez onde o
Brasil está inserido, em que nível se
encontra o movimento transformador, bem
como a particularidade do processo atual
de acumulação e construção de forças
avançadas. Portanto, é dessa
temporalidade e do nível da batalha em
andamento que se pode traçar, aprimorar e
compreender justa orientação
estratégica e tática para o Partido e as
suas principais tarefas.
1 A vitória
de Lula, uma viragem política no
Brasil
A Resolução
Política da 9ª Conferência Nacional do
Partido (2003) já sublinhava que a
vitória à Presidência da República de
Luiz Inácio Lula da Silva "abre um
novo ciclo histórico e político no
Brasil". Essa vitória faz parte do
vasto movimento mudancista que se
instalou, sobretudo na América do Sul, em
resposta às crises agravadas pela
vigência das políticas neoliberais,
expressando evidentemente as
particularidades do Brasil. A existência
do governo Lula resultou do esforço
conjugado das mais avançadas forças
políticas, sociais e ideológicas -
conformado nessas últimas décadas de
redemocratização do país e das
alianças alcançadas - tendo sido
vitorioso em face do quadro de forças
estabelecido. Por conseguinte, chegam ao
governo da República correntes políticas
democráticas, patrióticas,
revolucionárias e representantes de
organizações sociais populares que nunca
tinham alcançado tal intento.
O novo patamar de
crescimento capitalista alcançado -
acentuadamente no período de vigência do
regime militar - trouxe como
conseqüência a ampliação e a
renovação da classe operária
permitindo-lhe assumir, assim, maior
protagonismo na luta econômica e
política, ensejando um processo de lutas
caracterizado pelas grandes greves de
1978-1979-1980 contra a ditadura militar.
Esse protagonismo atingiu seu ápice no
processo de redemocratização nos anos
1980, com a fundação do Partido dos
Trabalhadores (PT), a legalidade do PCdoB
e de outros partidos de esquerda, a
afirmação da liderança de Lula e de
novos sindicalistas, o fortalecimento de
movimentos sociais e a fundação da
Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Esse revolver de novas e
avançadas forças políticas atingiu seu
clímax mobilizador nas eleições
presidenciais de 1989; porém, sem
alcançar êxito, prevalecendo a saída
neoliberal a partir do começo dos anos
1990. Delineou-se desde então a
resistência às políticas
ultraliberalizantes e desnacionalizantes,
desembocando, assim, na vitória de Lula
na eleição presidencial de 2002. Essa
vitória foi gestada objetivamente pelo
agravamento dos impasses brasileiros -
dependência e vulnerabilidade externas,
disparidades e profundas desigualdades
internas - provocados pela vigência da
orientação neoliberal. Eleito no segundo
turno pela maioria dos sufrágios válidos
Lula reuniu votos das camadas empenhadas
em mudanças mais profundas, de parcelas
que queriam mudança sem rupturas e até
de setores interessados apenas em
mudanças cosméticas. Sem contar
efetivamente com o impulso de grande
movimento de massas em 2002 pesaram as
circunstâncias para que, através de
chantagem, os setores dominantes do
capital financeiro exercessem seu real
poder de veto, estruturado principalmente
nos anos 1990, diante da possibilidade de
vitória oposicionista. Isso levou o
candidato e a direção do PT a assumirem
mudanças programáticas na "Carta ao
Povo Brasileiro", comprometendo-se
com acordos anteriores estabelecidos com
os círculos financeiros predominantes.
Além disso, a vitória presidencial não
foi acompanhada de uma maioria política
de apoio ao novo governo no Congresso
Nacional e ficou restrita a uma minoria de
governadores eleitos.
Esse quadro de conjunto
moldou um governo democrático - contando
com a participação desde as forças
sociais populares até setores dominantes
-, apoiado numa base de correntes
políticas heterogêneas; comprometido
entre acordos de continuidade e uma
plataforma de mudança, fornecendo-lhe uma
feição dual como já assinalava a
Resolução da 9ª Conferência Nacional.
Mesmo em tais condições, apesar das
contradições expressas pelo governo
entre cedência e resistência, criou-se
melhor possibilidade de avançar na
difícil luta contra a concepção e o
sistema neoliberal implantado no Brasil.
Há um novo patamar na luta para alcançar
a alternativa ao neoliberalismo porque o
novo governo, por sua origem, compromissos
e composição está em meio à disjuntiva
entre "ortodoxia" e
"desenvolvimentismo", Estado e
mercado, soberania nacional e inserção
internacional subordinada, ou seja, o
desafio assumido de construir um novo
projeto de desenvolvimento com
distribuição de renda, projeto este
distinto do que foi implementado no
governo de Fernando Henrique Cardoso -
principal condutor do neoliberalismo
brasileiro e representante da confiança
do núcleo de poder financeiro.
2
Trajetória de muitas lutas
e sacrifícios
para chegar ao Brasil de nossos dias
Longo, sinuoso e
árduo tem sido o caminho para fazer do
Brasil uma nação progressista - luta que
teve um marco importante na Proclamação
da República e na Abolição da
Escravatura ainda no apagar das luzes do
século XIX, ganhando um impulso
extraordinário com a Revolução de 1930,
que se renovou a partir da
redemocratização em meados dos anos 1980
e que adquiriu uma nova perspectiva com a
vitória de Lula em 2002. Não foram
poucos nem pequenos os obstáculos
enfrentados para a consecução do
desenvolvimento nas condições de
domínio do sistema imperialista, aos
quais se soma uma série de dificuldades
internas. O processo econômico do
desenvolvimento capitalista brasileiro foi
marcado por ser tardio, desigual e
associado entre capitais nacionais e
forâneos. O processo político se deu
através de uma série de rupturas
parciais seguidas de recomposições entre
forças heterogêneas, avançadas e
atrasadas. Da década de 1940 até meados
dos anos 1980 as Forças Armadas
intervieram intensamente na cena política
- a partir do alinhamento brasileiro com
os EUA num mundo então bipolar -, a
maioria das vezes truncando a democracia.
Em pelo menos duas ocasiões, na
deposição de Vargas em 1954 e na
preparação do golpe militar de 1964,
houve clara ingerência dos EUA na vida
política brasileira. Mais recentemente o
país passou a sofrer grave ameaça de
recolonização a partir da proposta
norte-americana da Alca. Do ponto de vista
social, amplos movimentos de massas, de
âmbito nacional e caráter patriótico e
democrático, foram em momentos marcantes
a base de impulso para as maiores
transformações. A estrutura de classes
da sociedade brasileira passou por
importantes mudanças. A situação de
vida e as condições de trabalho dos
trabalhadores e do povo brasileiro foram
marcadas por crescentes disparidades com
concentração de renda e de riqueza no
pólo das tradicionais elites brasileiras.
Durante os três
primeiros quartos do século XX o Brasil
teve as mais altas taxas médias decenais
de crescimento capitalista do mundo.
Emergiu desse processo um país de
capitalismo dependente medianamente
desenvolvido, com projeção entre os
países em desenvolvimento, o que pode ser
expresso na avaliação de que no mundo o
Brasil ocupava o patamar do 8º PIB. O
Estado burguês brasileiro foi o principal
instrumento da obra levada a cabo durante
a maior parte do século passado, quer na
planificação e na regulação
econômicas quer como protagonista da
construção de empresas produtivas
estratégicas, do sistema financeiro
público - nacional e regional - e da
infra-estrutura, sobretudo energética e
de comunicações. Além disso, foram
construídos ao longo desses anos, centros
públicos de produção de ciência,
tecnologia e ensino, um aparato (agências
e órgãos) e um corpo
técnico-burocrático estatal capazes de
conduzir os assuntos brasileiros na
perspectiva do interesse nacional.
Após o fim do regime
militar foram dados passos significativos
na construção de um arcabouço
institucional, jurídico e político mais
democrático e estável, com a
promulgação da nova Constituição em
1988, que incorporou também importantes
conquistas sociais. Exatamente esse Estado
passou a ser o alvo central da alternativa
neoliberal. Obviamente, suas formas de
financiamento pela via inflacionária ou
pela via do pesado endividamento externo
davam claras mostras de esgotamento. A
predominância dos interesses de fundo e
das concepções antidemocráticas e
reacionárias da maior parte das elites
condicionou o processo de desenvolvimento
com características constrangedoras: o
crescente agravamento da situação
social, onde se deve considerar,
sobretudo, um dos índices mais altos de
concentração de renda e riqueza do
mundo. A luta do povo pela transformação
social sempre esbarrou na intolerância
conservadora e reacionária das classes
dominantes que nunca vacilaram em recorrer
ao autoritarismo para impedir as mudanças
e preservar seus interesses.
Porém, o caminho
adotado entre 1989 e 2002 levou a um alto
grau de desnacionalização do aparato
econômico brasileiro, numa situação de
quase paralisia do crescimento intercalado
por crises, com destaque para a de meados
de 2002 às vésperas do pleito
presidencial. À época, o país
encontrava-se sob maior dependência e
vulnerabilidade externas pela forma com
que foi dirigida a sua inserção no novo
contexto de globalização neoliberal
imperialista e pelos novos padrões de
financiamento adotados. Este modelo
provocou maior endividamento público e
dificuldades ainda maiores para os
trabalhadores, com desemprego,
precarização do trabalho e
marginalização de setores crescentes da
população. Além disso, o Estado teve
suas funções gravemente alteradas tendo
sido colocado a serviço da oligarquia
financeira. O sistema de defesa nacional
foi fragilizado, assim como foram feitas
investidas no sentido de limitar o grau de
democracia alcançado. Com a vigência do
neoliberalismo o Brasil perdeu espaço
relativo na cena internacional, tanto
econômica quanto politicamente.
As duas últimas
décadas do século XX legaram uma série
de impasses à construção de um Brasil
desenvolvido, soberano, democrático e de
bem-estar para seu povo - que passam a se
constituir nos grandes desafios a serem
enfrentados neste início de século. Nos
anos 1980 se condensaram os problemas do
período do nacional-desenvolvimentismo e
evidenciou-se a incapacidade da elite
burguesa de promover transformações que
pudessem superá-los. Na década de 1990,
o neoliberalismo, em nome da
modernização, ao tentar superar aqueles
impasses pela via da desregulamentação,
abertura, privatizações e
flexibilizações trabalhistas
indiscriminadas, levou o país a uma forte
regressão.
Porém, o Brasil é um
país de grande extensão territorial, com
recursos naturais abundantes e variados,
com fronteira com quase todos os países
sul-americanos e uma costa marítima de
8.698 km. No século passado, sob
inspiração do
nacional-desenvolvimentismo, cujo marco
inicial está na revolução de 1930, ele
passou por grandes transformações, entre
as quais duas se destacam. A primeira foi
a industrialização brasileira que
adquiriu dimensões importantes na
comparação internacional ao efetivar a
construção de um parque relativamente
completo e diversificado. A segunda, a
grande produção agropecuária mecanizada
que passou a jogar um papel econômico
maior e, além disso, os serviços se
desenvolveram e se industrializaram,
resultando na passagem de uma economia
agrário-exportadora baseada na
monocultura do café para um país
industrial-agrário. Destaca-se, ainda, a
interiorização, iniciada com a marcha
para o Oeste que contribuiu com a
formulação do conceito de unidade
nacional, ampliando as fronteiras
agrícolas, possibilitando a urbanização
do Centro-Oeste, que inclui a construção
de Brasília. Esta conjugação de fatores
resultou no atual estágio de
desenvolvimento da região.
No Brasil de hoje vivem
cerca de 185 milhões de pessoas - a maior
parte delas em grandes conglomerados
urbanos com enormes e carentes periferias.
Um povo único, miscigenado e original,
constituído em sua maioria por
proletários, semiproletários,
trabalhadores urbanos, aos quais se somam
os assalariados rurais, camponeses e
trabalhadores rurais que desejam terra
para nela trabalhar. A denominada classe
média, constituída sobretudo por
empresários de pequeno porte em
atividades industriais, comerciais e
agrícolas, bem como por assalariados não
operários e melhor remunerados, também
adquiriu porte e influência política. A
intelectualidade brasileira ganhou
destaque pela sua produção acadêmica em
diversos ramos da ciência, inclusive nas
ciências sociais, por sua fecunda
produção artística e cultural e também
pela sua predominante postura política
progressista. Estas classes e setores de
classe formam a base social das
transformações e a força de trabalho
capacitada, elemento essencial para a
retomada da construção do país. O
estrato financeiro-rentista da grande
burguesia brasileira, maior beneficiário
da aplicação do projeto neoliberal,
substituiu a burguesia industrial na
hegemonia de classes, condição que havia
adquirido ao cabo da revolução burguesa.
Sobrepôs-se igualmente à burguesia
agrária e à dos serviços, que se
desenvolveram mais recentemente, e se
constitui em grave entrave ao
desenvolvimento. Toda essa transformação
econômica e social teve inequivocamente
suas repercussões no terreno político. O
proletariado passou a ter uma presença
política destacada na vida nacional e se
constitui na força mais interessada na
consecução de um projeto de
desenvolvimento soberano, democrático e
com valorização do trabalho. No curso
das lutas por esse novo projeto nacional
pode assumir o seu papel histórico na
luta pela superação do capitalismo.
Dessa forma e partindo
dessa base, foram configurados
historicamente a necessidade e o desafio
da construção de um novo projeto de
nação que possa representar a
superação tanto do esgotamento dos
problemas do período
nacional-desenvolvimentista (da década de
1930 à década de 1980) quanto dos
impasses originados do modelo neoliberal.
Um projeto dirigido por forças políticas
e sociais mais avançadas que tenha o
potencial de satisfazer os interesses
nacionais, democráticos e sociais dos
trabalhadores e do povo brasileiro. Um
projeto que venha representar um caminho
próprio para a superação do
neoliberalismo que, por seus objetivos,
projetar-se-ia em dimensão estratégica,
que na visão dos comunistas tenha o
significado de uma passagem para uma
sociedade mais avançada, de transição
do capitalismo ao socialismo.
3
Elementos essenciais de um novo
projeto
nacional de desenvolvimento, soberano,
democrático,
com distribuição de riqueza
e valorização do trabalho.
A consecução de
um novo projeto nacional de
desenvolvimento que possa superar o
neoliberalismo e abrir um novo rumo para o
Brasil insere-se no contexto de uma luta
política e ideológica de grande
envergadura, cujo prazo não se pode
determinar, mas que pode demandar todo um
período histórico constituído
naturalmente por uma série de
transições e rupturas. Uma alternativa
ao hegemonismo neoliberal que os EUA
exercem sobre o país passa pela busca de
uma ampla e soberana integração
econômica e geopolítica do Brasil no
mundo. Mais focadamente pela formação de
um bloco regional sul-americano
contra-hegemônico. Uma saída à
semiestagnação e ao rentismo implica a
adoção de uma política
desenvolvimentista brasileira de
fortalecimento e modernização do sistema
produtivo, cuja fonte de financiamento
básico esteja nos recursos internos. O
vértice principal desse sistema deve
estar voltado para o mercado interno. O
seu planejamento e a sua execução
requerem participação e regulação do
Estado nacional. Demanda, ademais, a
pactuação de um largo espectro de
forças políticas, cujo núcleo central
de esquerda esteja coeso e convicto em
torno das linhas-mestra do projeto, assim
como uma ampla mobilização da sociedade
- destacadamente dos trabalhadores - a fim
de concretizar a vontade nacional para o
desenvolvimento ao tempo em que desloca
dos centros do poder os representantes e
executores da política do capital
financeiro, o que se pode tornar realidade
com a ampliação da liberdade política e
o fortalecimento do Partido Comunista e
demais forças revolucionárias. Por fim,
uma resposta às dificuldades crescentes a
que o neoliberalismo submeteu os
trabalhadores passa por uma decidida
política de promoção efetiva de
direitos sociais, pela geração de
empregos e distribuição de renda, ou,
sinteticamente, pela constante
valorização do trabalho. A alternativa
ao neoliberalismo adquire assim dimensão
histórica e caráter estratégico. A
aproximação do objetivo estratégico - a
transição do capitalismo ao socialismo -
reside, sobretudo, na direção do
processo por novas forças, influentes,
com efetivo poder político e
comprometidas com esta transição,
particularmente o Partido Comunista.
A forma de dominação a
que o Brasil foi submetido nas condições
de financeirização neoliberal e as
graves ameaças imperialistas sobre os
países que buscam um caminho próprio
colocam em novas dimensões o problema
nacional - como asseverou João Amazonas
já em 1992 no informe que prestou ao 8º
Congresso do Partido. Traçar uma
política econômica de forma autônoma,
estabelecer relações soberanas com os
organismos financeiros internacionais, com
os Estados das grandes potências
capitalistas - sobretudo os EUA - e com o
capital privado internacional,
aproximar-se e emparceirar-se com os
vizinhos e países assemelhados na forma
de um bloco regional contra-hegemônico e
estimulador da multipolaridade, diminuir o
montante e as obrigações do passivo
externo brasileiro, garantir a integridade
territorial do país e a posse brasileira
sobre a Amazônia; tudo isso ocupa a cena
central do jogo de forças, expressa a
luta entre um novo projeto ou a reedição
do projeto neoliberal, implica em
decisões de caráter estratégico em
nível de Estado. Este é o maior desafio.
A recuperação do
Estado nacional é também fundamental no
seu papel econômico, na compreensão de
que em países como o Brasil não se pode
prescindir disso, pois se trata de como
estruturar os meios para financiar o
desenvolvimento - combinando investimentos
públicos e privados, brasileiros e
estrangeiros - em consonância com os
interesses do país e de seu povo, em
contraponto tanto às limitações
próprias do mercado quanto às
restrições da moldura internacional
calcada em assimetrias, incertezas e
instabilidades, ondas especulativas e todo
tipo de ações tendo por objetivo o
reforço da hegemonia norte-americana. Por
um lado, sem a ação do Estado não há
como defender a moeda nacional, fortalecer
o sistema financeiro público, criar
condições efetivas de crédito de longo
prazo, promover parcerias entre diversos
tipos de capitais, defender o país da
especulação, executar uma política
macroeconômica voltada para o
desenvolvimento econômico e social,
planejar a atividade geral e dos setores
prioritários e assim por diante. Por
outro, o domínio de toda uma tecnologia
de ponta, suporte necessário a um novo
ciclo de desenvolvimento industrial e
agropecuário avançado, só pode se
efetivar com um grande esforço de
pesquisa científico-tecnológica e de
inovação patrocinado e dirigido pelo
Estado brasileiro. Em resumo, o Estado
nacional sob a direção de forças
progressistas poderá ter um papel
destacado na retomada do desenvolvimento
nacional.
Também a experiência
brasileira indica que, diante da extensão
da crise social, em constante agravamento,
o Estado é insubstituível no trato da
questão social quando se parte da idéia
de que o objetivo do projeto de
desenvolvimento é a elevação do padrão
de vida do povo. Quando se trata tanto de
fixar a política de remuneração da
força de trabalho, de adotar medidas
emergenciais ou profundas com a finalidade
de combater o desemprego, quanto de
elaborar e aplicar as políticas públicas
de universalização de direitos no
terreno da saúde, da educação, da
moradia, do saneamento, do transporte.
Quanto à reforma agrária, ela é uma
bandeira estratégica de luta dos
trabalhadores brasileiros, do campo e da
cidade e faz parte do novo projeto
nacional de desenvolvimento. É também
questão política, inserida no debate
sobre os rumos da nação brasileira,
sendo condição para a luta contra a
pobreza, através da democratização da
propriedade da terra. É também
condição para a consolidação da
democracia ao indicar a superação do
latifúndio tradicional e as bases sociais
do poder das oligarquias retrógradas.
Deve, por isso, fazer parte de uma agenda
produtiva no campo que contemple num pólo
a agricultura familiar e os assentamentos
e, noutro, a moderna agroindústria, com
reflexos positivos no aumento da oferta de
empregos e da seguridade social.
A busca da mais ampla
liberdade política é parte integrante
substancial de um novo projeto nacional
avançado. O recente movimento pela
redemocratização, aspiração da grande
maioria da nação brasileira, alcançou
marco vitorioso com o fim do regime
militar, em 1985. Esta vitória propiciou
a retomada das eleições em diversos
níveis. Antes, em 1979, havia sido
conquistada a anistia para os perseguidos
políticos. Com a democratização,
alcançou-se maior liberdade partidária e
sindical - inclusive com a legalização
do PCdoB -, a convocação da Assembléia
Constituinte em 1986 e a promulgação de
uma nova Constituição em 1988, com a
conquista da liberdade de imprensa, do
direito de greve e de manifestação
popular. Problemática parecida com a que
havia se colocado no Brasil em meados da
década de 1940 por ocasião do fim da 2ª
Guerra Mundial e a derrota do
nazi-fascismo. Naquela feita foram criados
partidos políticos e o Partido Comunista,
legalizado, experimentou um grande
crescimento e alcançou expressivas
vitórias na luta parlamentar. Mas a onda
democratizante de então foi vencida em
curto prazo pela ofensiva obscurantista e
anticomunista promovida pelo governo do
general Dutra.
Ainda que se considere
todo o peso dos mecanismos legais de
restrição à representação partidária
parlamentar introduzidos no governo
neoliberal de Fernando Henrique Cardoso e
que já estão em vigor, o país vive
ainda hoje sob o influxo das conquistas
democráticas da década de 1980, mais
estáveis e duradouras. Com a eleição de
Lula, em 2002, e a mudança de postura
política das Forças Armadas após o fim
da bipolaridade em nível internacional,
criaram-se melhores condições para o
aperfeiçoamento democrático; cujo centro
está em garantir, de um lado, a
existência de ampla representação
política que se configura - na
especificidade brasileira - em
diversificado espectro de partidos
políticos, grandes, médios e pequenos e,
de outro, a possibilidade de esses
partidos se aliançarem livremente no
processo eleitoral e depois dele, no
sentido de construírem maiorias e bases
para a governabilidade. Estes são os
verdadeiros fundamentos de uma reforma
política que tenha por objetivo o
fortalecimento dos partidos e da
democracia.
Sob esse mesmo prisma é
que se coloca a ampliação da liberdade
para as organizações populares e para o
movimento sindical dos trabalhadores; a
necessidade de uma relação mais
equilibrada entre os Poderes com o
estabelecimento de limites à edição de
Medidas Provisórias originadas no
Executivo; a reforma democrática do
Judiciário; a democratização da gestão
de instituições e órgãos do sistema
financeiro estatal etc. Estas são
lições fundamentais a se considerar
quando se leva em conta que nos longos
períodos autoritários e
antidemocráticos pelos quais o país
passou durante o século XX procurou-se
extinguir ou restringir os partidos
políticos, as organizações e movimentos
populares, especialmente dos trabalhadores
na contramão das aspirações da maioria
da nação e da realidade específica do
Brasil. Os desdobramentos da luta por um
novo projeto nacional de desenvolvimento
poderão colocar mais adiante a
necessidade de mecanismos de reforma mais
abrangentes e profundos que se
configurariam em uma nova Assembléia
Nacional Constituinte.
Diante do tamanho do
país e considerando-se a forma desigual
com que se deu seu desenvolvimento, um
novo projeto deve contemplar a necessidade
da superação progressiva das
desigualdades regionais, sobretudo no
Nordeste e na Amazônia. Para tanto,
deve-se partir das experiências vividas
com esse sentido,
como a ação de agências como Sudam e
Sudene; dos bancos voltados para o
fomento do desenvolvimento regional como o
Banco do Nordeste (BNB) e Banco da
Amazônia (Basa); de experiências mais
localizadas como na Zona Franca de Manaus
ou ainda no Sistema de Vigilância da
Amazônia (Sivam). Nos tempos de vigência
do neoliberalismo, passou-se a considerar
negativa toda essa trajetória. Sudene e
Sudam foram fechadas e só mais
recentemente, por decisão do governo
Lula, estão sendo reativadas. A
particularidade dos problemas sociais do
Nordeste, agravados pela seca, e a
questão geopolítica na Amazônia indicam
a necessidade de um tratamento
diferenciado em diversas frentes.
Iniciativas como a criação de Zonas
Econômicas Especiais voltadas para a
exportação, com legislação tributária
específica, poderiam ser consideradas na
busca da superação do atraso do
desenvolvimento, bem como a consolidação
de pólos de biotecnologia e
bio-indústria.
A questão da
preservação ambiental, do
desenvolvimento sustentável, é também
parte destacada de um projeto nacional
avançado.Tornou-se evidente que se o
staqus quo econômico for mantido há o
risco de uma catástrofe ecológica.
Trata-se de buscar uma nova relação
entre desenvolvimento e meio ambiente
reduzindo ao máximo os impactos
ambientais provenientes do necessário
desenvolvimento da infra-estrutura do
país. Atenção especial justifica-se à
Amazônia onde os projetos e programas
devem garantir o desenvolvimento aliado à
valorização do homem e à preservação
dos recursos naturais. Ao lado disso,
tendo em vista o futuro da humanidade, é
importante que se possa também
efetivamente reduzir a emissão de gases
poluentes, preservar e recuperar as matas
ciliares e manguezais; evitar o
assoreamento dos rios e a redução do
volume de água doce, preservar as áreas
de mananciais e nascentes; dar tratamento
correto ao problema do lixo urbano; coibir
o uso indiscriminado de agrotóxicos, os
desmatamentos ilegais etc. Tudo isso
implica aperfeiçoar e aplicar a
legislação ambiental e efetivo esforço
para, através de educação específica,
desenvolver a consciência ecológica com
base num pensamento crítico sobre a luta
ambientalista.
A luta pela afirmação
de um novo projeto nacional de
desenvolvimento enfrenta poderosa
artilharia ideológica, cuja disjunção
básica é simplificadamente
desenvolvimentismo ou neoliberalismo, ou a
quem cabe a maior responsabilidade no
processo de desenvolvimento, ao mercado ou
ao Estado nacional. A formação de um
pensamento estratégico brasileiro sobre o
desenvolvimento do país vem do período
da 2ª Guerra Mundial, na década de 1940.
Desenvolveu-se e orientou o segundo
governo Vargas, o governo Juscelino
Kubitschek, através do Plano de Metas, e
o governo de João Goulart, através do
Plano Trienal. Tiveram um papel destacado
nessa trajetória as equipes da Comissão
Econômica para a América Latina e Caribe
(Cepal), do então Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico (BNDE) e do
Instituto Superior de Estudos Brasileiros
(ISEB) na década de 1950. Mais tarde o
pensamento sobre os caminhos próprios do
desenvolvimento nacional ganhou maior
desenvoltura na Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) e na Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), assim
como no Itamaraty. Essa corrente de
pensamento que abarca amplas forças
políticas e sociais forma o campo
desenvolvimentista. A ela se opôs, e se
opõe, o campo conservador municiado mais
recentemente pelos postulados neoliberais
ortodoxos, originados sobretudo no
pensamento acadêmico e governamental dos
EUA e no FMI que no Brasil adquiriu sua
expressão política no PSDB e foram
acolhidos por intelectuais ligados à
Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro e ao sistema financeiro e cujo
programa imediato contém pontos, como:
liberalização do fluxo de capitais,
autonomia para o Banco Central (BC),
vinculação permanente com o FMI,
viabilização da Alca,
descaracterização do papel do BNDES,
plena conversibilidade do real frente ao
dólar, aumento do superávit fiscal -
tudo isso com o objetivo fundamental de
sustentar o pagamento da dívida pública
e ganhar a confiança dos chamados agentes
do mercado financeiro. O PCdoB integra o
bloco desenvolvimentista e não reivindica
para si o monopólio das idéias
avançadas. Ao contrário, procura
formular seus próprios pontos de vista em
unidade e crítica dentro do campo
progressista e em luta oposta ao campo
conservador.
No atual estágio de
desenvolvimento da sociedade o PCdoB
ressalta a importância estratégica dos
meios de comunicação de massa na
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