Se os países do continente americano
quiserem fazer uma área de livre comércio
sem o Mercosul, "é problema deles", disse
ontem (4/11) o chanceler do Brasil, Celso
Amorim. Foi uma resposta às declarações do
presidente mexicano Vicente Fox. Ele disse
que os 29 países em favor da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) poderiam
implementar a integração regional sem a
participação dos países do Mercosul (Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai), além da
Venezuela. Amorim afirmou que "às vezes há
uma excessiva ideologização do debate" e que
a Alca "é um tema comercial, e como todo
tema comercial há que pesar vantagens e
desvantagens".Ele lembrou que foram
acertadas em Miami as bases para continuar a
negociação, mas "como disse o presidente
Bush, no momento, a prioridade de todos é a OMC". Segundo o chanceler, "não há como
pensar em ter uma negociação muito profunda
sobre a Alca sem saber o que
vai acontecer na OMC, sem saber como será
acesso aos mercados em produtos agrícolas e
sem saber o que vai ocorrer com os
subsídios agrícolas, por exemplo". Amorim
destacou ainda que essa ponderação é feita
por todos os ministros negociadores,
inclusive dos EUA e do Canadá, que
defendem a Alca.
Ele opinou que "é preciso desdramatizar a
questão". "Não é uma questão nem de
enterrar, nem de ressuscitar; é uma questão
de discutir, no momento oportuno, com base
no que se avançar em Hong Kong e levar em
conta o acordo de Miami", afirmou. Em
relação à proposta do México de fixar a data
de abril de 2006 para retomar as negociações
da Alca, Amorim argumentou que os
presidentes "poderiam colocar qualquer data
porque o papel aceita qualquer coisa". Como
exemplo, ele citou que se no documento final
da Cúpula for decidida a data de janeiro e se nessa ocasião a rodada de
negociações da OMC não tiver sido concluída,
as discussões da Alca sofreriam um novo
desgaste desnecessário porque teriam que ser
adiadas.
Mercosul unido
Na verdade, Amorim expressou a opinião do
Mercosul, que está atuando unido para
rechaçar a Alca, apoiada pelos Estados
Unidos. Amorim não descartou "um possível
entendimento" sobre a fórmula da declaração,
mas manteve sua posição de rejeitar prazos
para o reinício do processo da Alca,
afirmando que prefere esperar os resultados
da reunião da OMC, que acontecerá no próximo
mês em Hong Kong. "Podemos colocar qualquer data (...); se
quiserem marcar uma reunião para janeiro,
poderemos ter uma reunião em janeiro. Mas,
se em janeiro dissermos 'ah! restaram
pendências de Hong Kong', então teremos de
adiar a reunião para setembro ou outubro",
disse Amorim.
O ministro criticou a pressão para fixar
esses prazos. "Qual é a vantagem? Os que
propõem (isto) contrariam a visão destas
cúpulas, que trabalham na base do consenso",
afirmou. "Não queremos enterrar nem
ressuscitar a Alca", mas "discutir no
momento oportuno e em função do que
conseguirmos em Hong Kong", afirmou.
O presidente venezuelano, que aplaudiu
Kirchner de pé após seu discurso de abertura
da Cúpula, disse que
as palavras do presidente argentino são um
estímulo "para que cada um que defende suas
verdades". Em seu discurso, Kirchner disse que os
organismos financeiros internacionais devem
"assumir sua cota de responsabilidade" na
"tragédia" que significou para seu país a
aplicação nos anos 90 das políticas de
ajuste estrutural.
Alca, para o inferno!
Após a sessão inaugural da cúpula, Chávez
foi dos últimos presidentes a sair do teatro
e de imediato foi rodeado por dezenas de
pessoas e uma nuvem de jornalistas e
fotógrafos. O presidente venezuelano cumprimentou
muitos dos presentes, parou para posar para
fotos com algumas pessoas e foi abraçado por
uma senhora, enquanto outros gritavam "Chávez,
amigo". Pouco antes, ele proclamou o "enterro" da Alca, e instou
uma multidão reunida em Mar del Plata "a
parir o socialismo do século 21". Chávez foi o principal orador de um ato
da Cúpula dos Povos, antagônica à das
Américas, do qual participaram hoje cerca de
40.000 pessoas em um estádio do balneário,
localizado 400 quilômetros ao sul de Buenos
Aires. "Alca, para o inferno!", exclamou o
presidente venezuelano no estádio "José María Minella".
Ele prometeu aos
presentes levar à reunião de presidentes as
"históricas conclusões" da também chamada
"contra-cúpula". As conclusões da Cúpula dos Povos, nas
quais são rejeitadas a "abertura comercial" e
a militarização da América Latina por
parte dos Estados Unidos, servirão a Chávez
"de inspiração", disse o venezuelano, para
falar aos participantes da reunião de
presidentes, entre eles o americano George
W. Bush. "Façam uma cópia, que eu entregarei a
todos eles", afirmou ao público reunido no
estádio, que também o ovacionou quando ele
falou da Alca. "Cada um de nós trouxe a pá de enterrador
da Alca, porque aqui, em Mar del Plata, fica
o túmulo da Alca", disse o presidente
venezuelano.
Líderes da independência
Chávez dividiu as ovações com o
ex-craque Diego Armando Maradona, o
candidato presidencial de esquerda
boliviano Evo Morales e os artistas Silvio
Rodríguez, cubano, e Daniel Viglietti,
uruguaio. Chávez se abraçou com todos eles e com
Hebe de Bonafini, líder da organização
Mães da Praça de Maio, entre outros
participantes, e expressou "as saudações
latino-americanas" do presidente de Cuba,
Fidel Castro, que, mesmo ausente, também foi
ovacionado. Maradona, que viajou de Buenos Aires a
Mar del Plata em um trem lotado de
militantes anti-globalização que
participaram de uma manifestação de repúdio
à presença do presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush, agradeceu o apoio popular. "Gosto muito de vocês, obrigado por estar
aqui. A Argentina é digna. Vamos expulsar o
Bush", disse ele, que tinha uma pequena
bandeira cubana amarrada ao cinto.
Chávez, vestido com jaqueta azul e camisa
vermelha, aclamou Eva Perón, o líder
guerrilheiro Ernesto Che Guevara, e Simón
Bolívar e José de San Martín, líderes da
independência de vários países da América
Latina. "Fidel, com quem falei hoje, me
encarregou de cumprimentar-lhes e, embora
fisicamente ele não esteja aqui, está
conosco", disse. Chávez disse que falou com o presidente
cubano e que este estava vendo "tudo isto
pela televisão", concretamente "pela cadeia
Telesur", que tem sede em Caracas. "Eu disse a Fidel que depois ligaria para
ele", afirmou, acrescentando que se despediu
dele com um "hasta la victoria, ¡siempre!"
(até a vitória, sempre!), uma dos lemas da
Revolução cubana de 1959.
Multidão em Caracas
Durante quase duas horas de discurso, o
presidente venezuelano lembrou também "Evita"
Perón, o Che Guevara, Rosa Luxemburgo e até
de Mao Tsé-Tung. Chávez disse que "é absolutamente
verdade" que "o imperialismo americano, em
seu desespero, está preparando um plano de
agressão contra a Venezuela". "Pretende o que tem pretendido há anos:
deter a Revolução Bolivariana. Mas assim
como fracassou na tentativa de deter a
Revolução Cubana, fracassará em deter a
bolivariana", garantiu. Chávez assegurou que, se os Estados
Unidos tentassem atacar a Venezuela,
começaria "a guerra dos cem anos".
Em Caracas, uma multidão marchou em
repúdio aos presidentes dos Estados Unidos e
do México. A manifestação teve a
participação do vice-presidente venezuelano,
José Vicente Rangel. As palavras de ordem contra Fox surgiram
ao serem divulgadas suas declarações a favor
do plano dos Estados Unidos de criar a Alca. O deputado
bolivariano Darío Vivas sustentou
que "o povo saiu às ruas para acompanhar
Chávez em sua presença na III Cúpula dos
Povos e na IV Cúpula das Américas". Ele destacou ainda que as
manifestações apóiam "políticas nacionais em
função de uma integração latino-americana
com um modelo econômico que rompa com o
esquema liberal (...), intervencionista e
bélico do Governo Bush". As transmissões de rádios e canais de
televisão das ruas por
onde passava a marcha no centro de Caracas
foram suspensas e substituídas por uma
cadeia nacional que exibiu um ato anti-Alca
no estádio na Argentina. Em Montevidéu,
Uruguai, também houve manifestação.
Pérez Roque
Em Buenos Aires, uma multidão calculada
em 60 mil pessoas protestou contra a presença de
Bush na Argentina. Sob os lemas "Fora Bush" e "Não à Alca",
representantes de organizações sindicais, de
direitos humanos, artistas e piqueteiros se
concentraram em diversos pontos da capital
argentina para protestar contra a visita do
presidente norte-americano. A organização Fedecámaras, que reúne
comerciantes e empresários, convocou para a um blecaute em toda a América Latina
para repudiar a presença d e Bush na região. Além disso, uma série de e-mails que
circulou nos últimos dias convidou os
argentinos usar alguma peça branca enquanto
dure a cúpula de Mar del Plata, também num
sinal de protesto.
Segundo o chanceler cubano, Felipe Pérez
Roque, Bush enfrenta a manifestação "que
merece". A Cúpula "está sendo
organizada pelo governo dos Estados Unidos,
e nós não achamos que ela tenha o menor
impacto nem transcendência. Ela não tem nada
que oferecer", disse o chanceler
cubano. A mobilização contra Bush, acrescentou,
"é a expressão de um sentimento
latino-americano amplamente divulgado",
porque "(o presidente) encarna o sentimento
guerrerista, ignora a responsabilidade sobre
uma guerra injusta e ilegal no Iraque e
temas difíceis de explicar como a existência
de prisões secretas onde há tortura na
Europa do Leste", disse ele. Pérez Roque participou hoje em Santa
Clara, no centro da ilha, de uma ativa
jornada para denunciar os efeitos do embargo
norte-americano contra Cuba.
Com agências
internacionais
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