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Brasil, quinta-feira, 20 de novembro de 2008

2 DE NOVEMBRO DE 2005

TIRO PELA CULATRA
Denúncia vazia de Veja causa indignação e campanhas contra a revista ganham força na internet

 

Arte de Maringoni para a campanha de boicote à revista Veja

 

por Cláudio Gonzalez

A denúncia publicada na última edição da revista Veja sobre a suposta ajuda cubana ao PT nas eleições de 2002 foi mesmo uma bomba. Só que quem armou a bomba estava com pressa e não fez o "serviço" direito. Resultado: ela acabou explodindo no colo da própria revista. Ainda que estilhaços da denúncia mal contada possam atingir o alvo verdadeiro (governo e PT), quem acabou ficando ferida de morte foi mesmo a imagem do semanário da Abril, que há muito tempo já vinha sofrendo de falta de credibilidade.

Prova disso é que nem mesmo jornalistas como Clóvis Rossi, que nos últimos meses vinha se agarrando a qualquer argumento, por mais esfarrapado que fosse, para destilar veneno contra o governo, nem mesmo ele engoliu a estória do "ouro cubano". Em sua coluna de ontem (1/11), na Folha de S. Paulo, Rossi afirma: "O mais elementar sentido comum e um tiquinho de informações básicas bastam para tornar completamente inverossímil a versão publicada pela revista Veja".

Outra oposicionista militante, a "cientista política" Lúcia Hipólito, também se recusou a passar recibo para a frágil denúncia. Em comentário na rádio CBN, Lúcia ponderou que "se tudo não passar de fantasia ou de especulação vazia, a Justiça saberá punir a Veja."

Já o blogueiro Ricardo Noblat, que ocupa 95% do espaço de seu blog com reproduções de artigos e opiniões copiados de outras fontes— preferiu fazer-se de desentendido. De sua própria lavra, quase nada escreveu sobre a "reportagem" de Veja. Num de seus raros comentários, disse que Poleto (um dos que teria feito a denúncia) não estava de porre quando conversou com o repórter Policarpo Junior. "A VEJA  - e revista alguma que se leve a sério - publica declarações de um bêbado."  Dos quase 150 leitores que comentaram esta afirmação de Noblat, mais de cem discordaram do jornalista. Boa parte deles opinou que a Veja não é uma revista que possa ser lavada a sério. 

Ou seja, a armação dos Civita não "colou" nem mesmo entre aqueles que têm como ofício diário difamar e caluniar o governo Lula.

E entre os internautas comuns a repercussão foi ainda mais desastrosa para a revista.

Mobilização via Orkut

No site de relacionamentos Orkut, a comunidade mais numerosa sobre a revista Veja é a "Leu na Veja? Azar o seu!". Até a noite de ontem, esta comunidade já reunia 24.500 participantes —a comunidade ganhou quase 2 mil novos membros desde a publicação da matéria sobre a suposta ajuda de Cuba ao PT. Há pelo menos outras 30 comunidades do Orkut criadas para aglutinar pessoas que não gostam do jornalismo tendencioso e direitista da revista Veja.

Desde sábado (30/10), quando a revista começou a circular com a matéria sobre os dólares cubanos, milhares de mensagens foram "postadas" no Orkut com comentários indignados sobre o teor da referida reportagem de capa. Boa parte destas mensagens questionava a veracidade das informações publicadas por Veja.

A partir destas mensagens, campanhas organizadas de boicote à Veja e até aos anunciantes da revista começaram a se espalhar pela internet.

A que ganhou mais adeptos até o momento é a petição online, gerada a partir de um site norte-americano que oferece este tipo de serviço público. A petição é dirigida ao Palácio do Planalto e, em que pese o texto um tanto quanto precário, propõe que "providências venham a ser tomadas, e que a revista seja responsabilizada pelas suas reportagens que não correspondem a verdade". Todo internauta interessado em assinar a Petição pode fazê-lo preenchendo um formulário simples (mas em inglês). Depois de preencher, deve clicar em "Preview your Signature". Vai abrir uma nova página pedindo para  confirmar os dados como nome e email. Se estiver tudo certo, clique em "Approve Signature".

Já o leitor Emerson Luis sugeriu à comunidade do Orkut a campanha "Tire uma assinatura da Veja". Segundo sua proposta, cada membro da comunidade deveria convencer alguém que assina a revista a terminar a assinatura. "A revista Veja sentirá um bom baque no orçamento", supõe Emerson. "Eu já convenci duas pessoas. Acho que podemos conseguir mais desistências. O momento é bom para isso, porque até em assinantes antigos estou percebendo um certo nojo do jornalismo praticado por lá", diz o leitor.

Boicotar a Editora Abril

A leitora Andresa Ballester prega um boicote ainda mais amplo, que atinja todas as publicações da editora Abril. Ela reproduz o e-mail que mandou para Abril pedindo o cancelamento da assinatura da revista Aventuras na História. "Penso que uma revista que publica matérias sem provas e visivelmente partidárias, não respeita os princípios básicos jornalísticos de ética e imparcialidade, portanto suas informações não são confiáveis. Por se tratar da mesma editora, Aventuras na História e Veja, entendo que o critério seja o mesmo.", argumenta Andresa.

Josenildo Forte de Brito, que também é membro da comunidade "Leu na Veja? Azar o seu!" concorda com Andresa e orienta: "A Editora Abril também é de mandar e-mails para ex e possíveis novos assinantes. Quando receber é só encaminhar de volta o e-mail dizendo o porquê de não querer assinar a revista que a editora está oferecendo (no caso justificar com a manipulação feita pela Veja). Talvez essa seja outra forma de chegar a eles a insatisfação geral com as matérias da Veja.", diz Josenildo.

Estressar os atendentes

Outro grupo de participantes da comunidade propôs que os leitores indignados ligassem para o serviço de atendimento ao leitor, no telefone (11) 3037-2518, para reclamar da publicação.

Elaine Torres ligou e registrou no Orkut que o atendente, de nome Eduardo, perdeu a paciência ao tentar defender o posicionamento da revista e pediu que ela "aguarde os desdobramentos da reportagem, que serão muito importantes".

Para tornar o protesto mais divertido, um leitor sugere todos aqueles que conseguirem estressar os atendentes da editora Abril relatem a conversa no Orkut.

Para Liscio Morais, "não adianta telefonar, é preciso que recorramos ao Procon, principalmente quem reside em São Paulo, é claro que não vamos ter nossa grana devolvida por propaganda enganosa, mas pelo menos vamos dar trabalho ao departamento jurídico da Veja. Quanto mais reclamações, melhor."


"Veja que mentira" e Novae

Mas apesar do frisson que as comunidades do Orkut estão vivendo por causa da matéria sobre os dólares cubanos, há iniciativas de combate à atitude anti-jornalística de Veja que são mais antigas e orgânicas. Uma delas é a campanha "Veja que mentira". Hospedada no site http://www.consciencia.net, a campanha foi lançada no dia 8 de novembro de 2003, em Belo Horizonte, durante a realização do Fórum Social Brasileiro.

O "manifesto" da campanha afirma que a iniciativa defende o posicionamento crítico "diante das mentiras e das distorções divulgadas pela revista Veja". Pede a denúncia da revista por sua falta de ética e falta de respeito com o leitor e com a cidadania e pede que se deixe de ler e de assinar a revista "até que ela mude de postura e assuma compromisso com a democracia e com a liberdade de expressão, de organização e de manifestação".

Outro site que mantém uma área especial de denúncias contra a revista Veja é a revista eletrônica Novae . Sob o chamado "Ajude um assinante da Veja a acordar. Uma campanha da Novae para o progresso do jornalismo nacional", a publicação disponibiliza um conjunto de textos que denunciam a forma tendenciosa como a revista trata diversos assuntos da pauta política nacional e enfatiza as relações obscuras da Editora Abril com o PSDB, o PFL e o mercado financeiro.

Num destes textos, o experiente jornalista Renato Rovai, editor da Novae, desabafa; "Esse jornalismo farsante e sangue-azul de Veja não atenta apenas contra os valores da democracia e da ética profissional. Ele ainda abre o caminho para que outros veículos passem a fazer o mesmo e expõe ao ridículo a imprensa enquanto instituição e o jornalismo como profissão. Os tiros do padrão Veja de jornalismo estão sendo dados enquanto o silêncio acomodado da maior parte dos jornalistas segue impávido. Parece que é assim mesmo, que faz parte do jogo. Não é. Não se pode deixar que seja. Os profissionais mais jovens ainda merecem um desconto. Os mais experientes, calados, são cúmplices. Estão ajudando a desmoralizar a profissão. E pagaremos todos por isso."  (Clique aqui para ler a íntegra)

A jovem Ferds Vin Telli, que também participa das comunidades anti-Veja do Orkut cita uma frase de Albert Einstein que representa bem o sentimento dessa "galera" que não está disposta a assistir parada o "mal acontecer". Segundo Einstein "O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer".

Leia também:
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