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Brasil, segunda-feira, 8 de setembro de 2008

28 de outubro de 2005

antiimperialismo

Cúpula dos Povos: milhares de participantes e de seguranças

 

De um a cinco de novembro, a cidade turística de Mar del Plata viverá acontecimentos e mobilizações que irão marcar sua história. À 400 quilômetros de Buenos Aires, estarão acontecendo simultaneamente a Cúpula das Américas, a Cúpula dos Povos e a Marcha contra Bush. Os números são arrepiantes: dezenas de milhares de funcionários argentinos para garantir a segurança, dois mil agentes norte-americanos a serviço da integridade do presidente dos EUA - que as autoridades insistem em negar - e dezenas de milhares de manifestantes que se concentrarão para expressar seu apoio ao presidente venezuelano Hugo Chávez e seu repúdio ao norte-americano George W. Bush.

O chefe do dispositivo encarregado pela segurança da Cúpula das Américas, Carlos Pardal, afirmou que sua equipe trabalha com a hipótese de que haverá distúrbios durante a reunião, da qual participarão 34 chefes de Estado. Ele, que é um alto cargo da Polícia Federal argentina, disse que os encarregados da segurança "não deixam de lado nenhuma hipótese" sobre choques com manifestantes contra o presidente dos Estados Unidos. "Consideramos que pode haver algumas pessoas que mostrem seu inconformismo de uma maneira não desejada", comentou em declarações à emissora local Rádio Mitre.

As medidas de segurança incluem a proibição dos vôos comerciais e o fechamento da área onde as reuniões acontecerão. Segundo o chefe, a delegação dos EUA terá proteção de 420 agentes de segurança americanos "e não 2 mil". Pardal garante que os presidentes só estarão acompanhados por três agentes de segurança próprios nos lugares das reuniões. Mas ao circular pela cidade, serão 20 veículos para protegê-lo. 

Início da pressão

As Cúpulas das Américas foram antecedidas por um encontro de 19 presidentes do continente, em julho de 1956, no Panamá sob o auspício da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em abril de 1967, novamente 19 presidentes mais um representante do Haiti se reuniram em Punta Del Este, no Uruguai. Desde aquela época, o objetivo sempre foi o mesmo: conseguir a adesão dos países latino-americanos à política dos Estados Unidos e sua inclusão na órbita econômica e política e, portanto, de seus interesses.

Apenas 27 anos depois nasceu, em Miami, a denominação da Primeira Cúpula das Américas em dezembro de 1994. Ali, os ministros de Comércio dos países americanos, com a exclusão de Cuba, acordaram em estabelecer uma zona de livre comércio “desde o Alasca até Ushuaia” que incluiria 34 países. Chamaria-se Alca - Área de Livre Comércio das Américas - o grande sonho dos EUA para que sua forte economia pudesse se apoderar dos mercados do continente. Três instituições fiéis aos EUA se encarregariam de ir pilotando o projeto: a OEA, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal).

A segunda cúpula aconteceu em Santiago do Chile, e o projeto da Alca continuou avançando. Em abril de 2001, na Terceira Cúpula das Américas aprovou, em Québec (Canadá), a Carta Democrática Interamericana, um instrumento ideal para que a OEA apostasse no formato de democracia representativa vazia de garantias nos direitos sociais e econômicos para os latino-americanos.

Terror e medo

A aparição do fenômeno terrorista em Nova York e Washington e o aumento do conflito social na América Latina por parte de grandes setores da população empobrecidos e indignados com as políticas neoliberais exigiu a convocação de uma nova cúpula extraordinária em Monterrey (México) com o objetivo de frear a alarmante crise de liderança dos Estados Unidos. O objetivo de fazer frente aos movimentos organizados que enfrentavam, indignados com a pobreza crescente da América Latina, fez os EUA anunciarem a implementação de “medidas para fortalecer a governabilidade das democracias” das regiões Centro e Sul do continente e “combinar ações conjuntas na luta antiterrorista”.

Foi então aprovada a declaração de Nuevo Leon, onde se nomeava o "uso efetivo de recursos internos e internacionais” por parte dos países mais ricos e destacava o “vínculo da interdependência entre as economias nacionais e o sistema econômico mundial” com o objetivo de blindar o neoliberalismo imperante em cada um dos países do continente. O documento final dizia “os avanços conquistados até a data para o estabelecimento de uma Alca” e apoiava “o acordo dos ministros sobre a estrutura e calendário adotado para a conclusão das negociações para a Alca nos prazos previstos”. Também o intervencionismo teve espaço garantido no documento: “reafirmamos nossa decisão de coordenar ações imediatas quando a democracia correr perigo em qualquer um de nossos países”.

Vale lembrar que neste fórum os certificados de democracia são emitidos pelos Estados Unidos. Que inclusive afirmam ter compromisso com os partidos políticos mas, somente enquanto estes “evitarem influências indevidas”. Já o governo da Venezuela expressou suas reservas se baseando em que “este processo deve considerar as especificidades culturais, sociais e políticas de cada país; a soberania e a constitucionalidade; o nível e o tamanho de suas economias para garantir um trato justo”. O motim da dignidade começou a ser posto em marcha.

E assim chegamos a novembro deste ano, com os Estados Unidos em uma de suas piores popularidades na América Latina, com governos hasteando a bandeira da “pátria grande” de Simón Bolívar e José de San Martín, e elegendo como país anfitrião para a o evento a Argentina, provavelmente o lugar onde o neoliberalismo deixou mais em evidência sua capacidade de gerar pobreza e desigualdade. A tudo isso, se soma um presidente norte-americano cujas políticas estão levando a guerra a todos os rincões do mundo com o pretexto da luta contra o terrorismo.

Cúpula dos Povos

O povo argentino reagiu do único modo que lhe era esperado. Dezenas de organizações sociais, sindicatos e intelectuais estão convocando para Mar Del Plata a 3ª Cúpula dos Povos como resposta à Cúpula das Américas. No último dia 2 de agosto, sob a liderança do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, em uma coletiva de imprensa internacional, os organizadores se negaram a chamar o evento de “contracúpula” e destacaram sua independência de qualquer governo, além de propor sua própria agenda de discussão e negaram qualquer possibilidade de violência nas ações e mobilizações que preparam.

O objetivo é “aprofundar o debate e a discussão sobre a construção de alternativas e o fortalecimento das resistências frente a Alca e os demais tratados de livre comércio, o pagamento da dívida externa, a militarização, a pobreza e mobilizar todo continente contra a presença de Bush e suas políticas a nível mundial”.

150 atividades

A Cúpula dos Povos da América é convocada pela Aliança Social Continental (ASC), uma coalizão de organizações sindicais, religiosas, camponesas, de direitos humanos, de mulheres e outros movimentos sociais, com presença em todos os países do hemisfério, incluindo dos EUA, Canadá e Cuba. Desde 1997, a organização tem protagonizado a luta para impedir a ratificação do projeto da Alca e a imposição dos Tratados de Livre Comércio (TLC).

O formato da 3ª Cúpula dos Povos é similar a do Fórum Social Mundial, com atividades centrais organizadas pela Aliança Social Continental e pela Autoconvocação Argentina Não a Alca, e atividades auto-gestionadas (oficinas, mobilizações e atividades culturais). Estão inscritas mais de 500 organizações e movimentos nacionais e internacionais que realizarão cerca de 150 atividades.

Na programação estão incluídos os debates: “Situação da Juventude na América Latina” (dia 2); “A juventude e as diferentes experiências de construção de forças alternativas e de desenvolvimento do poder popular” (dia 3) e “A juventude e a construção do socialismo do século 21” (dia 3). Mas será no último dia (4) que acontecerá o ato contra Bush, com a presença do presidente venezuelano Hugo Chávez, no Estádio Mundialista.

Bush: persona non grata

Mas não será a Cúpula dos Povos a única agenda que os argentinos e os homens e mulheres do mundo terão para rechaçar as políticas neoliberais dos Estados Unidos. A presença do presidente norte-americano e o que representa - sua militarização da região, política de segurança e de apropriação dos recursos naturais do mundo, pela via da guerra se necessário -, provocou indignação generalizada na Argentina que culminará na Marcha contra Bush que será realizada na sexta-feira, dia 4, data de sua chegada à Cúpula das Américas.

Convocados pela indignação massiva à presença das bases militares norte-americanas na região, o desumano bloqueio a Cuba, as tentativas de desestabilização na Venezuela, o apoio à intervenção militar através do Plano Colômbia ou as tentativas de apropriação da maior reserva de água do planeta, p Aqüífero Guarani da Tríplice Fronteira, dezenas de milhares de pessoas irão repudiar o presidente do Império.

Mar Del Plata será o lugar do mundo em que se confrontarão os povos que reivindicam a paz, a soberania e a justiça social com o presidente norte-americano que leva ao mundo mais guerra, imperialismo e injustiça.

Da Redação
Com agências.

Mais informações: www.cumbredelospueblos.org



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