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De um a cinco de novembro, a cidade
turística de Mar del Plata viverá
acontecimentos e mobilizações que irão
marcar sua história. À 400 quilômetros de
Buenos Aires, estarão acontecendo
simultaneamente a Cúpula das Américas, a
Cúpula dos Povos e a Marcha contra Bush. Os
números são arrepiantes: dezenas de milhares
de funcionários argentinos para garantir a
segurança, dois mil agentes norte-americanos
a serviço da integridade do presidente dos
EUA - que as autoridades insistem em negar -
e dezenas de milhares de manifestantes que
se concentrarão para expressar seu apoio ao
presidente venezuelano Hugo Chávez e seu
repúdio ao norte-americano George W. Bush.
O chefe do dispositivo encarregado pela
segurança da Cúpula das Américas, Carlos
Pardal, afirmou que sua equipe trabalha com
a hipótese de que haverá distúrbios durante
a reunião, da qual participarão 34 chefes de
Estado. Ele, que é um alto cargo da Polícia
Federal argentina, disse que os encarregados
da segurança "não deixam de lado nenhuma
hipótese" sobre choques com manifestantes
contra o presidente dos Estados Unidos.
"Consideramos que pode haver algumas pessoas
que mostrem seu inconformismo de uma maneira
não desejada", comentou em declarações à
emissora local Rádio Mitre.
As medidas de segurança incluem a
proibição dos vôos comerciais e o fechamento
da área onde as reuniões acontecerão.
Segundo o chefe, a delegação dos EUA terá
proteção de 420 agentes de segurança
americanos "e não 2 mil". Pardal garante que
os presidentes só estarão acompanhados por
três agentes de segurança próprios nos
lugares das reuniões. Mas ao circular pela
cidade, serão 20 veículos para protegê-lo.
Início da pressão
As Cúpulas das Américas foram antecedidas
por um encontro de 19 presidentes do
continente, em julho de 1956, no Panamá sob
o auspício da Organização dos Estados
Americanos (OEA). Em abril de 1967,
novamente 19 presidentes mais um
representante do Haiti se reuniram em Punta
Del Este, no Uruguai. Desde aquela época, o
objetivo sempre foi o mesmo: conseguir a
adesão dos países latino-americanos à
política dos Estados Unidos e sua inclusão
na órbita econômica e política e, portanto,
de seus interesses.
Apenas 27 anos depois nasceu, em Miami, a
denominação da Primeira Cúpula das Américas
em dezembro de 1994. Ali, os ministros de
Comércio dos países americanos, com a
exclusão de Cuba, acordaram em estabelecer
uma zona de livre comércio “desde o Alasca
até Ushuaia” que incluiria 34 países.
Chamaria-se Alca - Área de Livre Comércio
das Américas - o grande sonho dos EUA para
que sua forte economia pudesse se apoderar
dos mercados do continente. Três
instituições fiéis aos EUA se encarregariam
de ir pilotando o projeto: a OEA, o Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a
Comissão Econômica para América Latina e o
Caribe (Cepal).
A segunda cúpula aconteceu em Santiago do
Chile, e o projeto da Alca continuou
avançando. Em abril de 2001, na Terceira
Cúpula das Américas aprovou, em Québec
(Canadá), a Carta Democrática
Interamericana, um instrumento ideal para
que a OEA apostasse no formato de democracia
representativa vazia de garantias nos
direitos sociais e econômicos para os
latino-americanos.
Terror e medo
A aparição do fenômeno terrorista em Nova
York e Washington e o aumento do conflito
social na América Latina por parte de
grandes setores da população empobrecidos e
indignados com as políticas neoliberais
exigiu a convocação de uma nova cúpula
extraordinária em Monterrey (México) com o
objetivo de frear a alarmante crise de
liderança dos Estados Unidos. O objetivo de
fazer frente aos movimentos organizados que
enfrentavam, indignados com a pobreza
crescente da América Latina, fez os EUA
anunciarem a implementação de “medidas para
fortalecer a governabilidade das
democracias” das regiões Centro e Sul do
continente e “combinar ações conjuntas na
luta antiterrorista”.
Foi então aprovada a declaração de Nuevo
Leon, onde se nomeava o "uso efetivo de
recursos internos e internacionais” por
parte dos países mais ricos e destacava o
“vínculo da interdependência entre as
economias nacionais e o sistema econômico
mundial” com o objetivo de blindar o
neoliberalismo imperante em cada um dos
países do continente. O documento final
dizia “os avanços conquistados até a data
para o estabelecimento de uma Alca” e
apoiava “o acordo dos ministros sobre a
estrutura e calendário adotado para a
conclusão das negociações para a Alca nos
prazos previstos”. Também o intervencionismo
teve espaço garantido no documento:
“reafirmamos nossa decisão de coordenar
ações imediatas quando a democracia correr
perigo em qualquer um de nossos países”.
Vale lembrar que neste fórum os
certificados de democracia são emitidos
pelos Estados Unidos. Que inclusive afirmam
ter compromisso com os partidos políticos
mas, somente enquanto estes “evitarem
influências indevidas”. Já o governo da
Venezuela expressou suas reservas se
baseando em que “este processo deve
considerar as especificidades culturais,
sociais e políticas de cada país; a
soberania e a constitucionalidade; o nível e
o tamanho de suas economias para garantir um
trato justo”. O motim da dignidade começou a
ser posto em marcha.
E assim chegamos a novembro deste ano,
com os Estados Unidos em uma de suas piores
popularidades na América Latina, com
governos hasteando a bandeira da “pátria
grande” de Simón Bolívar e José de San
Martín, e elegendo como país anfitrião para
a o evento a Argentina, provavelmente o
lugar onde o neoliberalismo deixou mais em
evidência sua capacidade de gerar pobreza e
desigualdade. A tudo isso, se soma um
presidente norte-americano cujas políticas
estão levando a guerra a todos os rincões do
mundo com o pretexto da luta contra o
terrorismo.
Cúpula dos Povos
O povo argentino reagiu do único modo que
lhe era esperado. Dezenas de organizações
sociais, sindicatos e intelectuais estão
convocando para Mar Del Plata a 3ª Cúpula
dos Povos como resposta à Cúpula das
Américas. No último dia 2 de agosto, sob a
liderança do Prêmio Nobel da Paz Adolfo
Pérez Esquivel, em uma coletiva de imprensa
internacional, os organizadores se negaram a
chamar o evento de “contracúpula” e
destacaram sua independência de qualquer
governo, além de propor sua própria agenda
de discussão e negaram qualquer
possibilidade de violência nas ações e
mobilizações que preparam.
O objetivo é “aprofundar o debate e a
discussão sobre a construção de alternativas
e o fortalecimento das resistências frente a
Alca e os demais tratados de livre comércio,
o pagamento da dívida externa, a
militarização, a pobreza e mobilizar todo
continente contra a presença de Bush e suas
políticas a nível mundial”.
150 atividades
A Cúpula dos Povos da América é convocada
pela Aliança Social Continental (ASC), uma
coalizão de organizações sindicais,
religiosas, camponesas, de direitos humanos,
de mulheres e outros movimentos sociais, com
presença em todos os países do hemisfério,
incluindo dos EUA, Canadá e Cuba. Desde
1997, a organização tem protagonizado a luta
para impedir a ratificação do projeto da
Alca e a imposição dos Tratados de Livre
Comércio (TLC).
O formato da 3ª Cúpula dos Povos é
similar a do Fórum Social Mundial, com
atividades centrais organizadas pela Aliança
Social Continental e pela Autoconvocação
Argentina Não a Alca, e atividades
auto-gestionadas (oficinas, mobilizações e
atividades culturais). Estão inscritas mais
de 500 organizações e movimentos nacionais e
internacionais que realizarão cerca de 150
atividades.
Na programação estão incluídos os
debates: “Situação da Juventude na América
Latina” (dia 2); “A juventude e as
diferentes experiências de construção de
forças alternativas e de desenvolvimento do
poder popular” (dia 3) e “A juventude e a
construção do socialismo do século 21” (dia
3). Mas será no último dia (4) que
acontecerá o ato contra Bush, com a presença
do presidente venezuelano Hugo Chávez, no
Estádio Mundialista.
Bush: persona non grata
Mas não será a Cúpula dos Povos a única
agenda que os argentinos e os homens e
mulheres do mundo terão para rechaçar as
políticas neoliberais dos Estados Unidos. A
presença do presidente norte-americano e o
que representa - sua militarização da
região, política de segurança e de
apropriação dos recursos naturais do mundo,
pela via da guerra se necessário -, provocou
indignação generalizada na Argentina que
culminará na Marcha contra Bush que será
realizada na sexta-feira, dia 4, data de sua
chegada à Cúpula das Américas.
Convocados pela indignação massiva à
presença das bases militares
norte-americanas na região, o desumano
bloqueio a Cuba, as tentativas de
desestabilização na Venezuela, o apoio à
intervenção militar através do Plano
Colômbia ou as tentativas de apropriação da
maior reserva de água do planeta, p Aqüífero
Guarani da Tríplice Fronteira, dezenas de
milhares de pessoas irão repudiar o
presidente do Império.
Mar Del Plata será o lugar do mundo em
que se confrontarão os povos que reivindicam
a paz, a soberania e a justiça social com o
presidente norte-americano que leva ao mundo
mais guerra, imperialismo e injustiça.
Da Redação
Com agências.
Mais informações:
www.cumbredelospueblos.org
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