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Por Walter Sorrentino
I –
Desde o Congresso Extraordinário de
1962, que reorganizou o PCdoB, e desde que
se conquistou a legalidade em 1985, as
atuais gerações militantes não construíram
um Estatuto em Congresso, como o fazemos
agora. Durante 21 anos de ditadura militar,
prevaleceu o antigo Estatuto de 1962,
marcado por forte conotação de atuação
clandestina, de um Partido essencialmente
de quadros e não de extensas fileiras
militantes. Com ele resistimos na luta
pela democracia política no país, até com
armas nas mãos quando foi necessário, na
Guerrilha do Araguaia. Depois, novo
Estatuto foi aprovado no 7º Congresso em
1988, e modificado topicamente em três
ocasiões até hoje.
Ao se completaram agora 20 anos de atuação
legal, neste que é o mais longo período
ininterrupto de legalidade, carecia-se de
recolher as experiências dessa trajetória
para um Estatuto renovado. Foram duas
décadas de rica e variada experiência
política para o povo brasileiro e para o
Partido. Foram igualmente anos de
profundas opções ideológicas, postas à
prova com a queda do Muro e a poderosa
ofensiva anticomunista, ainda remanescente
no plano das perspectivas. O PCdoB
resistiu, com base nas opções feitas desde
62 e renovadas no 8º Congresso em 1992.
Persistiu na defesa da identidade
comunista e com disposição para um esforço
anti-dogmático, refletindo as exigências
da luta política de classes nas condições
próprias do país, no contexto da
correlação de forças do mundo atual.
O fortalecimento do Partido nesses anos
foi fruto dessas opções. Firmou-se como a
legenda comunista do país. Alcançou o
patamar inédito de mais de 200 mil
filiados e 69 mil militantes organizados
em todo o país (não obstante suas
dimensões ainda pequenas perante as
dimensões do país). Cresceu 70% entre o 9º
e 10º congressos, e outros 105% nos
últimos quatro anos. Aproveitou bem as
novas condições criadas no país. A 9ª.
Conferência Nacional, o 1º e 2º Encontro
sobre Questões de Partido, reafirmaram a
vocação por um partido militante, bem
estruturado e voltado prioritariamente
para a representação política e social do
proletariado brasileiro, preparado para as
novas responsabilidades que assumiu
perante a nação.
O novo Estatuto consolida, aprimora e
inova com base na experiência percorrida.
Nele se combina o sentido de permanência
de uma corrente transformadora classista,
marxista e militante, com o sentido de
renovação, que é a chave para sinalizar a
sociedade mais amplamente sobre o projeto
político e impulsionar o fortalecimento do
PCdoB.
Permanência porque o PCdoB segue sendo
tributário da genial resposta leninista em
renovação do marxismo em seu tempo, e da
grande experiência revolucionária
socialista do século XX. Mas distinguindo
leninismo de bolchevismo enquanto uma de
suas manifestações históricas concretas na
forma de conceber o Partido, codificado
pela 3ª. Internacional. Por isso, ao mesmo
tempo, renovação, significando que se quer
trilhar caminhos originais, sem modelo
organizativo único e imutável de Partido,
renovando concepções e práticas para
atender aos problemas de nosso tempo, do
povo brasileiro, de sua cultura e tradição
de lutas. Não é tempo de re-invenção do
tipo de Partido necessário para as
viragens revolucionárias; é, entretanto,
tempo de atualizar a teoria e prática de
Partido Comunista, pois este não tem
pressupostos a-históricos, responde aos
desafios singulares da luta de classes em
cada situação, à estratégia dada do
movimento transformador.
O projeto apresentado significa uma
síntese avançada do que se alcançou
enquanto saber e labor coletivo durante
todos esses anos. Três enfoques
complementares estão presentes em seu
debate.
II –
O Estatuto busca responder antes de
tudo ao projeto estratégico do Partido.
Organização serve sempre à política, e o
Partido é um instrumento, não fim em si
mesmo. Por isso deve ser funcional à
consecução do projeto estratégico do PCdoB.
O Projeto de Resolução Política invoca a
questão de um partido revolucionário para
o tempo presente, tempo de acumulação
estratégica de forças para renovar e
reconstruir a alternativa socialista. Um
Partido Comunista de reafirmação da
perspectiva revolucionária. Partido de
firme unidade de suas fileiras, tenaz no
combate às pressões tendentes a rebaixar
seu papel estratégico, notadamente as
pressões pragmáticas e liberalizantes. Ao
mesmo tempo, Partido com ousadia e
abertura para acumular forças articulando
a intervenção na luta política e eleitoral,
na luta social e na luta de idéias.
Trata-se do caminho para construir
laboriosamente a hegemonia – tema tão caro
aos marxistas-leninistas – por um novo
projeto nacional para o país e pelo
socialismo. Por isso, também, aponta para
um PCdoB de amplas fileiras, organizado
com compromissos militantes desde a base,
com influência de massas entre os
trabalhadores e o povo, e uma sólida
estrutura de quadros.
Manifesta-se inteira consciência da
contradição própria de nosso tempo:
conceber um Partido Comunista para
viragens revolucionárias, num tempo onde
isso não está colocado como possibilidade
imediata, o que condiciona o processo de
construção e estruturação do Partido. Por
isso a exigência de uma sólida e extensa
rede de quadros, com convicções e
compromissos, educados no marxismo e
disciplinados na prática militante,
motivados e desprendidos para servir aos
trabalhadores e ao povo. O Estatuto dedica
um capítulo inteiro e inovador a esse tema.
Sem homens e mulheres assim, de maior
compromisso, dos quais se possa exigir o
cumprimento exemplar dos deveres
militantes, não há como atravessar tão
difícil quadra da luta de classes no
Brasil e no mundo sem descaracterizar-se.
Aos que temem os desafios presentes da
construção partidária, as pressões
representadas pela filiação extensa ou
pela autonomização de grupos de interesses
no interior do Partido, se afirma: são
preocupações procedentes. Mas seu antídoto
está precisamente aqui: quadros
compromissados e firmes. Quadros de base,
intermédios e de direção, selecionados
democraticamente, com forte interação com
a base partidária e social. É antes e
acima de tudo aí que reside a garantia de
não se perder nessa caminhada longa e
cheia de vicissitudes que percorremos.
Mas não se pode recusar os desafios. É
necessário um Partido de extensas fileiras
militantes, isto é parte do processo de
acumulação de forças e da luta pela
hegemonia. Firmou-se a noção do Partido
enquanto uma comunidade de filiados,
militantes e quadros, associados em bases
conscientes e livres, concebendo o Partido
enquanto instrumento de constituição de
compromissos militantes, estruturado como
um sistema de organizações de alto a baixo.
Militância é e será cada vez mais uma
marca distintiva para os partidos
conseqüentes de esquerda e por isso
queremos valorizá-la. Isso é explicitado
com a clara distinção de responsabilidades
– militar, estudar, divulgar e contribuir,
esta última aprimorada com a instituição
da Carteira do Militante. Institui-se uma
nova compreensão dialética da relação
entre filiados, militantes e quadros,
segundo direitos e deveres diferenciados e
graus crescentes de responsabilidades, que
se vão constituindo progressivamente.
Queremos assumir especificidade própria de
nossa tradição política, que reconhece os
filiados como parte do patrimônio
partidário, sem renunciar ao critério
essencial de um partido de militância. E
não se fala apenas dos filiados de base,
mas também de filiados líderes políticos e
sociais, gente de expressão, que se juntam
ao PCdoB em condições claramente definidas
no Estatuto. Constituirão o celeiro
permanente de novos militantes, e estarão
igualmente sujeitos à disciplina
partidária nos marcos dos direitos e
deveres de que usufruem. É uma inovação
importante do novo Estatuto, em íntima
ligação com as exigências de nosso projeto
político. Com isso, se busca aproximar
mais a atividade partidária das exigências
da vida real do país e do Partido.
III –
Estatuto envolve concepção de Partido.
No caso dos comunistas essas concepções
são explícitas e não camufladas.
Concentradamente, ele é a expressão da
independência política, ideológica e
organizativa do Partido. Por isso o seu
debate tem muito a dizer sobre tema tão
momentoso para a esquerda mundial,
inclusive no tocante à noção de crise
orgânica ou de superação da forma-partido
em face dos novos movimentos sociais.
O Estatuto proposto explicita o caráter e
natureza mais essencial do PCdoB e seu
programa máximo. O saber coletivo nos
indicou o melhor caminho: fixar isso na
forma de artigo 1º do Estatuto, e não como
preâmbulo; e sintetizá-lo de modo a
afirmar o programa máximo do Partido, que
é o comunismo. O novo Estatuto é, portanto,
o documento fundamental do Partido onde se
fixa esse objetivo máximo que é o
comunismo.
Segue afirmando sermos um partido do
proletariado, que luta pela representação
política e social dos trabalhadores
brasileiros, sujeito histórico insuperado
da transformação social anti-capitalista.
Não se trata de algo simbólico, mas opção
política consciente, cujo arsenal teórico
e político foi renovado no 2º Encontro
partidário sobre o proletariado brasileiro.
Reafirma-se o caráter de vanguarda da
organização política dos comunistas. O
socialismo visando o comunismo é a
primeira formação social humana construída
conscientemente, e por isso não pode
prescindir de fundamentos teóricos e
ideológicos provados para dirigir essa
luta. Esse o sentido mais essencial de
vanguarda – o de se assentar numa teoria
avançada –, e não a auto-proclamação
estéril que muitas vezes foi utilizada
pelos comunistas. O Estatuto distingue o
PCdoB dos que pregam a noção de partido de
massa em oposição a partido de vanguarda.
Há aqui uma polêmica de caráter
histórico-estratégica, em curso no mundo e
notadamente no Brasil, cujo desfecho só a
práxis poderá deslindar.
Não se renuncia à função de fundir o
movimento consciente com o movimento
espontâneo. Na luta social, explicita-se
que segue sendo imprescindível um partido
político, para infundir a cada luta, a
cada movimento social, os conteúdos e
valores do projeto político transformador.
Ao mesmo tempo afirma-se que ‘a ação
política de massas, em ligação com a ação
nas diversas esferas institucionais, é o
elemento central da intervenção e
estruturação do Partido’, incluindo de
modo bastante inovador normas e preceitos
para atuação entre trabalhadores, mulheres,
jovens e negros.
E, ainda no terreno das concepções, a
questão fundamental, a do centralismo
democrático. Os debates do 11º Congresso
mostram inteiro convencimento da
necessária unidade das fileiras comunistas,
sob um único centro dirigente e uma única
orientação geral, válida para todos. Este
é o maior tesouro do PCdoB, é a alma do
Estatuto, e um dos maiores feitos deste
Congresso foi ter discutido a norma do
centralismo democrático sem sequer uma
emenda apresentada! O mesmo quanto ao
capítulo da disciplina partidária. É
mérito da militância, que merece parabéns
pela consciência aguda e coesão
demonstrada nessa matéria nevrálgica para
a natureza do Partido! Mais ainda porque o
país conheceu, nos últimos meses, um claro
contraste entre as forças de esquerda. Há
aqui uma polêmica político-estratégica e o
paradigma dos comunistas se demonstra
superior com respeito à unidade necessária
e aos meios democráticos de construí-la.
Dizendo-o abertamente: o PCdoB é o partido
com vida interna mais rica e coesa do país,
e o 11º Congresso foi mais uma
demonstração disso. Só à base de uma
integral democracia pode ser compreendida
essa coesão.
A norma do centralismo democrático
inscrita no novo Estatuto aprimorou e
inovou sua concepção e prática, assentando-o
na liberdade de opinião e expressão
pessoal, e não na unidade de pensamento –
porque esta compreende mais precisamente a
questão de uma única base
teórico-ideológica como fator fundante do
Partido. Liberdade pessoal que é estímulo
ao debate, mas que não prescinde da
obrigação de difundir e defender as
opiniões partidárias construídas pela
maioria. O Partido convive com diferenças
de opinião, mas não faz delas o estímulo
para a fragmentação, e sim para a
obrigação de construir um único centro e
uma única orientação política, segundo um
contrato político livre e conscientemente
assumido por cada um. Esse contrato é o
centralismo democrático.
IV –
O novo Estatuto e seu debate
responderam, ainda, à polêmica política
inesperada que se instaurou no país, com a
crise do governo e seu principal partido
de sustentação, o PT. O tema, entretanto,
não está presente apenas no Brasil. Em
verdade, ele diz respeito à crise da
política e dos partidos políticos. Tem a
ver, no sentido geral, com o crescente
esvaziamento da democracia representativa,
ou seja, a sua deslegitimação progressiva
perante o efetivo poder que exercem as
finanças, os monopólios, os meios de
comunicação, inteiramente infensos a
qualquer controle social democrático. No
sentido mais estrito, tem a ver com a
desmoralização da política e repulsa aos
seus modos de financiamento, notadamente
num país de tradições patrimonialistas
como o Brasil. Mas vistos de conjunto,
referem-se aos processos de burocratização
que acometem parcelas da esquerda.
Foi, por isso, um debate politizado e pode-se
dizer que os comunistas tiveram o quê
dizer a esse respeito de modo muito
saliente. Primeiro, pela orientação de
caráter transformador, que não é centrista,
do ponto de vista político, nem
terceirista, do ponto de vista ideológico.
Isso já é um poderoso antídoto à
burocratização. Somam-se a isso os valores
éticos e morais ligados a esse projeto
transformador, entre os quais o integral
respeito à coisa pública. Mas também, e de
forma muito concreta, pelos modos de
financiamento da atividade política muito
transparentes, assentados nas
contribuições militantes e na influência
política de sua atuação. A isso se dedicou
um capítulo inteiramente inovador, como
instrumento para concretizar a norma
indispensável da contribuição militante e
regulamentar isso em toda a estrutura
partidária. No mesmo sentido, regulou-se o
papel dos comunistas no exercício de
cargos públicos, com obrigações
diferenciadas; adotou-se licença
preventiva de militantes e intervenção
preventiva sobre organismos partidários,
quando afrontada a ética, com repercussão
negativa para o Partido, mantido o
integral respeito aos direitos de cada um;
instituiu-se a obrigatoriedade das
Comissões de Controle, com o papel de
zelar pela ética, a disciplina e a
fiscalização das contas partidárias.
O tema da burocratização é amplo e
complexo. Abarca as manifestações de
descolamento da representação dos
trabalhadores e das massas – a distorção
dos fins do Partido –, ou da autonomização
que tende a considerar o aparato de
Partido como fim em si mesmo – o triunfo
da organização sobre suas finalidades.
Ambas conduzem à separação entre as
esferas dirigentes e a massa de militantes
e representados. Abarca também os
fenômenos de projetos e ambições pessoais,
ou aparatos de poder, sobrepostos aos
interesses do coletivo, ou, ainda, o
enrijecimento do pensamento que leva a
rotinas e práticas estereotipadas sobre os
problemas.
Os comunistas não consideram – como o
fazem certos ex-marxistas – que é
inevitável a degenerescência burocrática
do Partido, mas tampouco que estejam
imunes aos seus fenômenos, tão correntes
hoje na esquerda. Por isso, não subestimam
a pressão pragmática e liberalizante
singular de tempos como este na luta de
classes, de acumulação prolongada de
forças no contexto do Estado e
instituições vigentes.
Essa luta vai reforçada com o novo
Estatuto, que propõe seu enfrentamento
dentro de uma mais eficiente
institucionalização democrática da vida
partidária, sem sectarismos. Ao lado de
uma linha política justa, as normas
estatutárias tratam de promover maior
aderência à realidade social e adotar um
conjunto de mecanismos de preservação do
Partido, com maior estímulo à participação
e vigilância do coletivo sobre a atividade
partidária.
V –
Foram essas as múltiplas determinações
que se procurou atender ao elaborar o novo
Estatuto: o projeto estratégico do Partido,
as questões de concepção teórica e a
polêmica política sobre os partidos de
esquerda na atualidade.
Quanto à normatividade propriamente dita,
se fez a opção de que deveria expressar
como é pensada e praticada a vida interna
do Partido. Algo cuja leitura não seja
árida e cujo estudo designe com
objetividade como se estrutura e funciona
o PCdoB. O Estatuto deixa, assim, de ser
peça referida basicamente à esfera
ideológica, irredutível. Poderá ser
passível de alterações a cada Congresso,
aprimorando experiências e respondendo a
novos fenômenos.
Não se abriu mão de nenhum princípio. Não
obstante, recusa-se transformar em
cláusulas pétreas questões historicamente
determinadas na experiência do movimento
comunista. Não se encaram os princípios à
margem de sua aplicação política concreta
em condições dadas de tempo e lugar,
segundo o grau de amadurecimento da
corrente comunista no Brasil e de seu
projeto político estratégico.
Buscou-se conferir ao Partido feições
modernas, conectadas ao movimento real e
suas características contemporâneas,
particularmente nas originalidades
brasileiras, entre as quais as tradições
movimentistas e o papel saliente da
juventude brasileira, de que a UJS
constitui um dos maiores orgulhos do PCdoB.
O tema do sistema de organização e
funcionamento foi o que motivou maior
debate nas fileiras partidárias, e o maior
número de emendas. O debate avolumou-se
por ocasião das conferências estaduais e
produziu quase uma centena de emendas, das
quais 39 foram acatadas, aprimorando muito
o texto final que ora vai a votação.
O eixo geral do sistema organizativo foi
flexibilizar as formas organizativas desde
a base, em correlação com o perfil e
caráter mais largo de sua militância,
segundo o que melhor faculte sua ação e
participação na elaboração da linha
partidária. Como decorrência, o sistema
foi aprimorado, visando diversificar o
repertório organizativo para atender às
características da atividade política e
social no país. O papel das instâncias,
organismos e órgãos fica mais bem
regulamentado e se inovam os mecanismos de
consulta horizontais – Conferências,
Encontros e Fóruns - que estimulam a
participação militante na elaboração da
linha partidária. Pretendeu-se, por assim
dizer, modificar ‘relações de produção’
para melhor favorecer o desenvolvimento
das ‘forças produtivas’ do Partido.
Os três tópicos que mais motivaram emendas
foram as relativas aos comitês distritais,
aos coletivos, e ao voto secreto.
Ampliaram-se as formas organizativas de
comitês auxiliares como instrumentos dos
Comitês Municipais, em consonância com a
multiplicidade de tipos de organizações de
base. Os Comitês auxiliares deixam de se
remeter única e exclusivamente ao critério
territorial-administrativo, que são os
Comitês Distritais, e estes passam a
conviver com outras formas. Pretendeu-se
potenciar, particularmente, o trabalho
junto ao proletariado, constituindo OBs e
comitês a partir das relações de trabalho
como critério principal. Manteve-se a
possibilidade de conferências desses
comitês auxiliares, para eleger suas
direções, entretanto não são obrigatórias
em processos de Congresso, devido a seu
caráter de comitês auxiliares.
Outra polêmica foi sobre a forma
organizativa para situações excepcionais e
temporárias, que são os coletivos. A
intenção foi a de ampliar o leque de
formas para acolher o saber e experiência
de militantes em áreas afins. Aqui houve
celeuma: o modo como estava redigido o
preceito permitiu que o debate
transgredisse da esfera estritamente
organizativa a que pertence, para a esfera
ideológica, no tocante a religiosos e
empresários.
Chegou-se a nova redação do item, mantendo
a forma de coletivos sem especificar sua
tipologia. Pretendeu-se ressaltar seu
caráter excepcional como forma
organizativa. É preciso dizer que cidadãos
e cidadãs que concordem com o Programa e
Estatuto do Partido podem nele ingressar,
sem distinção de origem social, profissão,
renda, credo, cor ou raça. Há religiosos
no Partido, nenhum deles infenso ao
caráter e propósitos do PCdoB. A questão
religiosa está onde sempre esteve para o
PCdoB: é questão de foro íntimo e não se
milita no Partido em função da condição de
religioso. O Partido defende a liberdade
de culto no país e a separação entre
Estado e religião. Quanto a empresários,
também os há no Partido. O Partido defende
um novo projeto nacional de
desenvolvimento com valorização do
trabalho, e isso interessa a um
contingente variado da sociedade
brasileira, onde de resto está presente
uma forte característica de
empreendedorismo, grande quantidade de
empresários pequenos e médios, autônomos,
empresas familiares, cooperativizados
etc., classificados nas estatísticas
econômicas como ‘empresários’. Eles têm
lugar no Partido, sujeitos de igual modo a
seu Programa e Estatutos.
Por fim a questão do voto secreto. Foi,
sem dúvida, a maior polêmica. Todos
afirmam não se tratar de uma questão de
princípio, mas acabou mobilizando
sentimentos. Das 27 Conferências Estaduais,
4 votaram contra sua instituição, por
margem reduzida de votos. Enfim, houve
polarização na matéria.
Alguns a trataram como espécie de cláusula
pétrea. Não é justo. O Estatuto de 1985 e
o atual não prescrevem voto aberto para
eleição de seus órgãos. Também nos estudos
comparativos que fizemos de Estatutos de
12 partidos comunistas, todos adotam o
voto secreto nesse quesito. Aqui se faz
presente, talvez, uma sobrevivência de
cultura política baseada em costumes, não
escrita, própria de um partido de quadros,
em condições de clandestinidade. Não é o
caso atual.
No geral, os argumentos a favor do voto
aberto partiram de sentimento sadio: a
necessidade de franqueza nas relações
militantes. Outros agregaram que o voto
secreto não permite essa sinceridade, ou
reforça o individualismo e o lobismo, ou
ainda, que organizações revolucionárias
perderam-se no caminho por adotar tal tipo
de conduta, por abrir canal ao oportunismo.
Separemos as coisas, para evitar
argumentos forçados. Não é justo dizer que
voto secreto ‘relativiza’ o dever do
comunista de defender abertamente seu
ponto de vista. O processo de construção
unitária dos órgãos de direção foi
aprimorado, inclusive inscrito em norma
estatutária. Ele compreende um processo
consciente e dirigido, de consultas
multilaterais, com debates abertos em
plenário. A frontalidade e franqueza
seguem asseguradas, como parte do trabalho
de construção das opções coletivas por
intermédio de discussão aberta dentro do
Partido. O voto secreto, como fase final,
não está relativizando isso, não está
anulando o fator consciente, mas o
aprimora. Porque vai exigir maior
discernimento pessoal, maior compromisso
de consciência de cada um. Permitirá maior
sinalização de questões da vida e relações
internas do Partido, e combate a
manifestações de mandonismo, tão presentes
em qualquer organização humana. É mais
livre de constrangimentos objetivos e
subjetivos na votação. Enfim, considera-se
que mantido o processo consciente de
construção dos órgãos do Partido, os
militantes votam com a própria consciência,
democraticamente, com a subjetividade que
é própria a cada um. O voto secreto
aprimora isso.
O Comitê Central cessante decidiu por
unanimidade manter a proposição. Está
convencido de que se trata de um
aprimoramento democrático, que vem
fortalecer o Partido, não enfraquecê-lo. A
democracia não é valor universal, senão
histórico e relativo a interesses de
classe. Entretanto, em sua jornada de
séculos, constituiu mecanismos que foram
se aprimorando, entre eles o do voto
secreto. Não se deve temê-lo, pois está
conforme à melhor tradição democrática.
Não se deve tampouco idealizar o nível de
consciência das relações humanas nesta
etapa histórica, inclusive as relações da
vida interna partidária. O nível de
consciência avança de modo desigual, mesmo
dentro do Partido, nível que é muito
diferenciado hoje. Não se quer esconder
nada com o voto secreto, mas fazer aflorar
o nível de consciência real existente no
Partido, pois conhecê-lo é forma para a
melhor educação das fileiras comunistas.
Ele mantém o sadio empenho na explicitação
das opiniões, mas dá melhor expressão à
consciência individual. O Partido confia
em sua militância! Enfim, considerou-se
que o voto secreto aprimora o preceito do
centralismo democrático, é mais um passo
no sentido de um Partido aberto, sem
preconceitos, com liberdade de opinião
individual.
* * *
Companheiras e companheiras
A construção de uma força política de
vanguarda do proletariado, independente do
ponto de vista político, ideológico e
organizativo, segue sendo a grande proeza
deste tempo histórico. Diante da barbárie
capitalista, nada de mais elevado existe
como perspectiva. Por isso, é missão das
mais complexas, porque perene, prolongada
e cheia de vicissitudes, e porque lida com
as motivações humanas, além da
insubstituível consciência teórica.
O Partido Comunista é indispensável
historicamente. O PCdoB é igualmente
indispensável no cenário político
brasileiro. Não haveremos de nos perder
nesta longa jornada. O novo Estatuto está
a serviço disso. A escravidão assalariada
não é eterna, mas sua derrocada precisa de
direção consciente e experimentada. Hoje
nem se fala mais do fim da história – ela
está aí, na mais escancarada luta de
classes. Aqui estão os comunistas, que
lutam por um mundo novo, de iguais em
direitos. Esse dia chegará, lembrarão de
nós. Homenageamos os militantes, que
dedicam seu tempo à construção do Partido.
Por menos que isso não vale a pena lutar.
Ele é a prefiguração da sociedade pela
qual lutamos, como o disse Gramsci, sem
idealizações nem dogmatismo. Homenageamos
não só a lucidez da razão, mas também as
motivações e o ânimo dos militantes
comunistas.
Por isso tudo propomos a aprovação do novo
Estatuto do PCdoB.
Obrigado
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