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Maná:
ao participar do seu primeiro
Congresso avalia que índios comunistas
deveriam participar mais |
Por Mônica Simioni (De Brasília)
O acreano
Maná Kaxinawa, também conhecido como
Manuel, é filiado há vinte anos no PCdoB,
mas esta é a primeira vez que participa de
um Congresso do Partido. Recém eleito
diretor dos Povos Indígenas do Acre, Sul
do Amazonas e Noroeste de Rondônia (a
eleição aconteceu há cerca de cinco meses)
ele representa a comunidade indígena da
região. Pra se ter uma idéia do que isso
significa, só no estado do Acre, são cerca
de 7.120 índios, que integram 66 aldeias
em 12 terras indígenas. Ao todo, ele
representa 16 povos.
Orgulhoso,
ele bate no peito para dizer que "sou o
primeiro índio a participar de um
Congresso". Mas faz um pedido, que cumpre
mais a função de um aviso: "seria
importante nos próximos congressos mais
índios serem convidados a participar, pelo
menos de três estados". A presença do
partido em comunidades indígenas também é
grande nos estados do Amazonas, Pará e
Roraima.
Ele
confessa que achava que era o único líder
indígena organizado no partido até um
tempo atrás. "Mas existem muitos! As
lideranças mais expressivas da Amazônia
são filiadas ao PCdoB. Principalmente no
Acre, onde as pessoas que estão
na linha de frente, estão todas ligadas ao
PCdoB".
Contribuição comunista
O que faz com
que tantos índios se aproximem e organizem
no Partido? "O respeito", responde. "Tem
índios filiados no PPS, PSDB, PV, PT, na
esquerda e na direita. Só que esses não
têm a organização que o Partido Comunista
tem". Segundo Maná, o partido compreende
melhor a realidade das comunidades
indígenas, respeitando sua diversidade
cultural, sua própria identidade, além de
estabelecer mecanismos para fortalecer e
viabilizar sua luta.
Membro da
direção estadual, ele conta que em todas
atividades a questão indígena tem sempre
espaço. "Assim a gente tem podido ajudar
na discussão sobre os direitos indígenas
no país. Pra nós é um orgulho estar num
estado tão pequeno, mas que parece ser o
maior do Brasil, porque é aonde nós temos
uma participação tão grande". "Por mais
que tenha seu direito constituído, são
sempre outras pessoas que discutem. Seria
bom que nós não fossemos pessoas de
segunda, de terceira".
Maná tem 14
anos de movimento indígena e diz que sente
que o PCdoB tem dado uma contribuição
muito importante. "Com o PCdoB é
diferente. Tem muitos partidos que acham
que a política é a base da troca, de
favores ou objetos. O PCdoB dá orientações
e mostra como realmente a população pode
se defender a si mesma. Por isso eu estou
no Partido".
Movimento
No
movimento indígena do Acre, Maná conta que
"a gente tem batalhado muito para que a
gente não fosse usado apenas como índio
folclórico, aquele que só vive de pintura
e de dança. Hoje, é obrigatório, é um
direito nosso. Hoje a gente não pode mais
viver disso porque nós estamos rodeados de
políticas, relacionadas com os direitos
indígenas e também com relação a riqueza
do lugar onde a gente vive, que é a
Amazônia".
"Na
verdade, nós somos riquíssimos, não de
materiais realmente sofisticados. Mas
somos na nossa cultura, na nossa história,
na riqueza do rio, da floresta, e isso nós
temos tentado discutir e defender". E é aí
que o Partido ajuda muito.
"Mesmo antes
do PCdoB, eu já era comum, porque eu vivia
de comunidade. E defender o comum de cada
um significa defender os direitos
realmente diferenciados", destaca. Apesar
disso, Maná explica que é difícil para os
líderes indígenas levarem os seus partidos
para a comunidade porque existe muito
preconceito e o que ele chama de
"ciumeira". "Eu vejo os representantes do
Partido com muita coragem e garra. Não tem
medo de preconceito, não tem medo de
discriminação, nem de enfrentar aquilo que
é real. Por isso eu me sinto corajoso e
encorajado também por ele para estar no
partido".
Carta ao João
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Maná
entregou sua tiara à camarada Andréia Diniz, sindicalista de Betim (MG), que
a recebeu em nome de Renato Rabelo |
Um dos
primeiros líderes indígenas comunistas,
Maná contou que ao iniciar sua militância
junto ao movimento, em 1986, enviou uma
carta para o então presidente nacional do
PCdoB, João Amazonas, pedindo uma
orientação para sua missão. "Eu escrevi
uma carta para o João Amazonas, na nossa
língua, perguntando como era que a gente
poderia se integrar mais para defender os
direitos indígenas".
Ele conta com
emoção a resposta: "Um mês depois eu
recebi a mensagem dele dizendo:
companheiro Manuel Kaxinawá, pra ir em
frente, para defender o seu povo, tem uma
luta muito grande. Pra defender o seu
direito você tem que sofrer muito. Não
baixe a cabeça! Só se consegue ser
liderança com muito sofrimento. Mas vá
enfrentando, não tenha medo. Porque só
assim você poderá chegar naquilo que você
tem vontade. É ser um povo diferente, com
respeito e que merece respeito. Assim, é
lutando que se consegue".
Segundo
ele, seus cuidados com a carta não foram
os adequados. "Até dez anos atrás ele
ainda tinha essa carta de resposta, mas as
baratinhas foram comendo".
Ele afirma
que se sente orgulhoso de estar conhecendo
o presidente Renato Rabelo. "E vou
presenteá-lo, em nome dos índios
comunistas do Acre, com esta tiara [que
ele está usando] que é o primeiro trabalho
de pintura em tecelagem da minha filha, de
16 anos".
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