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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

21 de OUTUbro DE 2005

CONGRESSO AO VIVO
Maná Kaxinawa, o líder indígena comunista do Acre
 
Maná: ao participar do seu primeiro Congresso avalia que índios comunistas deveriam participar mais

Por Mônica Simioni (De Brasília)

O acreano Maná Kaxinawa, também conhecido como Manuel, é filiado há vinte anos no PCdoB, mas esta é a primeira vez que participa de um Congresso do Partido. Recém eleito diretor dos Povos Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (a eleição aconteceu há cerca de cinco meses) ele representa a comunidade indígena da região. Pra se ter uma idéia do que isso significa, só no estado do Acre, são cerca de 7.120 índios, que integram 66 aldeias em 12 terras indígenas. Ao todo, ele representa 16 povos.

Orgulhoso, ele bate no peito para dizer que "sou o primeiro índio a participar de um Congresso". Mas faz um pedido, que cumpre mais a função de um aviso: "seria importante nos próximos congressos mais índios serem convidados a participar, pelo menos de três estados". A presença do partido em comunidades indígenas também é grande nos estados do Amazonas, Pará e Roraima.

Ele confessa que achava que era o único líder indígena organizado no partido até um tempo atrás. "Mas existem muitos! As lideranças mais expressivas da Amazônia são filiadas ao PCdoB. Principalmente no Acre, onde as pessoas que estão na linha de frente, estão todas ligadas ao PCdoB".

Contribuição comunista

O que faz com que tantos índios se aproximem e organizem no Partido? "O respeito", responde. "Tem índios filiados no PPS, PSDB, PV, PT, na esquerda e na direita. Só que esses não têm a organização que o Partido Comunista tem". Segundo Maná, o partido compreende melhor a realidade das comunidades indígenas, respeitando sua diversidade cultural, sua própria identidade, além de estabelecer mecanismos para fortalecer e viabilizar sua luta. 

Membro da direção estadual, ele conta que em todas atividades a questão indígena tem sempre espaço. "Assim a gente tem podido ajudar na discussão sobre os direitos indígenas no país. Pra nós é um orgulho estar num estado tão pequeno, mas que parece ser o maior do Brasil, porque é aonde nós temos uma participação tão grande". "Por mais que tenha seu direito constituído, são sempre outras pessoas que discutem. Seria bom que nós não fossemos pessoas de segunda, de terceira".

Maná tem 14 anos de movimento indígena e diz que sente que o PCdoB tem dado uma contribuição muito importante. "Com o PCdoB é diferente. Tem muitos partidos que acham que a política é a base da troca, de favores ou objetos. O PCdoB dá orientações e mostra como realmente a população pode se defender a si mesma. Por isso eu estou no Partido".

Movimento

No movimento indígena do Acre, Maná conta que "a gente tem batalhado muito para que a gente não fosse usado apenas como índio folclórico, aquele que só vive de pintura e de dança. Hoje, é obrigatório, é um direito nosso. Hoje a gente não pode mais viver disso porque nós estamos rodeados de políticas, relacionadas com os direitos indígenas e também com relação a riqueza do lugar onde a gente vive, que é a Amazônia".

"Na verdade, nós somos riquíssimos, não de materiais realmente sofisticados. Mas somos na nossa cultura, na nossa história, na riqueza do rio, da floresta, e isso nós temos tentado discutir e defender". E é aí que o Partido ajuda muito.

"Mesmo antes do PCdoB, eu já era comum, porque eu vivia de comunidade. E defender o comum de cada um significa defender os direitos realmente diferenciados", destaca. Apesar disso, Maná explica que é difícil para os líderes indígenas levarem os seus partidos para a comunidade porque existe muito preconceito e o que ele chama de "ciumeira". "Eu vejo os representantes do Partido com muita coragem e garra. Não tem medo de preconceito, não tem medo de discriminação, nem de enfrentar aquilo que é real. Por isso eu me sinto corajoso e encorajado também por ele para estar no partido".

Carta ao João

 
 
Maná entregou sua tiara à camarada Andréia Diniz, sindicalista de Betim (MG), que a recebeu em nome de Renato Rabelo

Um dos primeiros líderes indígenas comunistas, Maná contou que ao iniciar sua militância junto ao movimento, em 1986, enviou uma carta para o então presidente nacional do PCdoB, João Amazonas, pedindo uma orientação para sua missão. "Eu escrevi uma carta para o João Amazonas, na nossa língua, perguntando como era que a gente poderia se integrar mais para defender os direitos indígenas".

Ele conta com emoção a resposta: "Um mês depois eu recebi a mensagem dele dizendo: companheiro Manuel Kaxinawá, pra ir em frente, para defender o seu povo, tem uma luta muito grande. Pra defender o seu direito você tem que sofrer muito. Não baixe a cabeça! Só se consegue ser liderança com muito sofrimento. Mas vá enfrentando, não tenha medo. Porque só assim você poderá chegar naquilo que você tem vontade. É ser um povo diferente, com respeito e que merece respeito. Assim, é lutando que se consegue".

Segundo ele, seus cuidados com a carta não foram os adequados. "Até dez anos atrás ele ainda tinha essa carta de resposta, mas as baratinhas foram comendo".

Ele afirma que se sente orgulhoso de estar conhecendo o presidente Renato Rabelo. "E vou presenteá-lo, em nome dos índios comunistas do Acre, com esta tiara [que ele está usando] que é o primeiro trabalho de pintura em tecelagem da minha filha, de 16 anos".

 

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