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Abaixo, intervenção escrita de
Adalberto Monteiro, secretário nacional de
Formação e Propaganda, para o 11º
Congresso do PCdoB
De início, vale ressaltar que o
trabalho teórico-ideológico refere-se a um
conjunto de concepções, instrumentos e
atividades que apetrecham o Partido
Comunista para desempenhar seu papel de
fomentador de uma consciência social
avançada tanto entre seus militantes
quanto no âmbito das grandes massas do
povo. Esta formulação vem de um texto de
João Amazonas em que ele destaca que a
revolução não é um processo histórico
automático, e dessa maneira depende, “de
um gigantesco trabalho de disseminação da
consciência social, da teoria
revolucionária” e de um grande esforço do
Partido para organizar o povo”. Escreveu
ele: “Não se conquista facilmente a
consciência das pessoas. É fundamental que
o grande desenvolvimento da ciência social
e da teoria revolucionária, além de ganhar
as fileiras do Partido Comunista, abarque
as grandes massas da população. (...) Quer
dizer, sem a formação de uma consciência
revolucionária não há revolução que se
concretize e se sustente. (...) Portanto é
tarefa fundamental do Partido elevar sua
formação teórico-ideológica e promover a
conseqüente disseminação da teoria na
sociedade”.
Para Amazonas, a passagem do capitalismo
ao socialismo é um processo difícil e o
Partido Comunista ao fomentar e disseminar
a consciência social revolucionária entre
os seus integrantes e as massas, o faz com
a percepção de que esta atividade é um
fator que tem como resultante a
possibilidade “de acelerar, de apressar o
processo” de superação do capitalismo.
Após esta recapitulação – digamos
conceitual – passamos ao balanço do
trabalho teórico-ideológico no último
quadriênio e perspectivas. Uma concepção
sistêmica do trabalho teórico-ideológico
Comecemos por uma apreciação acerca da
concepção que passou a reger esta frente
de trabalho a partir do 10o Congresso. O
trabalho teórico-ideológico abarca a
formação teórica e política do coletivo, a
difusão e cultivo de valores éticos
elevados no seio do Partido; a
participação no trabalho da direção e do
coletivo partidário para se ter um domínio
teórico e político maior da realidade
mundial e, em especial, brasileira, o
labor intelectual pertinaz para se
enriquecer e desenvolver a teoria
revolucionária, a participação ativa na
luta de idéias, o diálogo e o
relacionamento com a intelectualidade
avançada e o mundo da ciência e da
cultura, o esforço de difusão para
milhares e milhões das idéias e
proposições políticas dos comunistas.
O trabalho teórico-ideológico com esta
vastidão concebida perpassa o conjunto das
frentes de trabalho, mas, centralmente, é
implementado por uma ação conjugada e
articulada entre a secretaria de Formação
e Propaganda e a de Comunicação. Através
desses dois pólos que interagem entre si o
Partido busca elevar a consciência
socialista de suas fileiras e empreende
sua participação na luta de idéias em
curso na sociedade e procura vincar no
âmbito do movimento transformador a
corrente revolucionária proletária,
patriótica e internacionalista dos
comunistas.
Esta concepção do trabalho
teórico-ideológico como um sistema
constituído por um conjunto de atribuições
e instrumentos que se interagem e se
complementam e cuja ação direciona-se
tanto para o interior do Partido quanto
para fora, revelou-se acertada e,
conseqüentemente, continuará regendo este
trabalho. “Mais marxismo, mais Brasil”
Questão importante para uma frente de
trabalho dessa natureza é o conteúdo a ser
desenvolvido e disseminado e em que
circunstâncias históricas e políticas isto
se realiza. O que norteou esta frente e
continuará a ser sua diretriz é o lema,
“mais marxismo, mais Brasil”. Assimilar,
difundir, desenvolver e enriquecer o
marxismo, participar com denodo do
trabalho que o movimento transformador
realiza para superar a crise da teoria
revolucionária; empreender essa tarefa,
entre outros caminhos, no curso do labor
para se compreender mais e melhor a
singularidade do capitalismo contemporâneo
e, ascendentemente, alargarmos nosso
domínio sobre a realidade econômica,
social, política e cultural do Brasil.
No curso das atividades que se realizam,
temos de dar passos novos para dar mais
materialidade a esse lema. Desenvolver e
difundir a teoria revolucionária, tê-la
como instrumental de análise concreta da
realidade concreta, fomentar e disseminar
consciência social avançada num período
histórico em que ainda se propaga uma
corrosiva onda reacionária que emergiu do
triênio 1989-91, quando houve a dissolução
da União Soviética e a queda dos governos
do Leste. O imperialismo avança sobre os
povos com base na força bruta e no seu
aparato ideológico que exerce vertiginosa
pressão em corações e mentes. Esta pressão
dissemina o irracionalismo, o
individualismo exacerbado, cria uma teia
ideológica que cerceia a divulgação de
idéias avançadas e inculca nas
consciências a imutabilidade da história,
a eternidade do capitalismo e a
inviabilidade dos projetos de
transformação social. É nadando contra
esta corrente que estamos chamados a
cumprir papel de fomentador da consciência
social transformadora. Isso é parte
destacada do processo de acumulação de
forças do movimento revolucionário visando
fortalecer o que o camarada Renato Rabelo
denomina “uma nova luta pelo socialismo”.
Superação do neoliberalismo, núcleo da
luta de idéias, o trabalho se desenvolve
no curso de uma intensa luta de idéias,
circunstanciada, no plano mundial, por uma
correlação de forças desfavorável ao campo
revolucionário, e, no plano interno, pelos
novos desafios e oportunidades que
emergiram com a posse do governo Lula.
Desde então, instaurou-se um debate
teórico e político no âmbito da sociedade
e dentro do próprio governo acerca dos
caminhos, limites e possibilidades do
governo para desvendar alternativas ao
neoliberalismo com a implementação de um
novo projeto nacional. Dois campos básicos
se forjaram: o da mudança e o do
continuísmo. Na luta de idéias em
andamento, o PCdoB tem feito e fará
permanente combate ao continuísmo,
explicitando, sobretudo suas críticas à
política macroeconômica monetarista e
ortodoxa, que restringe o crescimento e
provoca concentração de renda. Além da
crítica que tem sido e deve ser exercida
com desenvoltura, o PCdoB procura oferecer
contribuições políticas e teóricas
referentes aos dilemas da esquerda
brasileira e de seu governo. Entre o
fatalismo que apregoa a capitulação, a
cedência permanente aos fundamentos
neoliberais, a imprensa partidária, as
atividades do Instituto, da Escola,
sustentam com argumentos, com formulações
políticas e teóricas que é possível,
empreender a resistência e dar passos à
superação do neoliberalismo.
Por outro lado, na luta de idéias tem sido
e continua ser prioridade combater a
oposição conservadora e desmascarar seus
planos de retorno ao governo da República.
A partir de flagrantes da contenda
política, atua-se, também, para demonstrar
os equívocos da pretensa ultra-esquerda
que acaba, objetivamente, em muitos
episódios desempenhando o papel de linha
auxiliar da direita.
Camaradas, a edificação de um partido
comunista, grande e influente, enraizado
nas massas trabalhadoras, dotado de
elevada consciência socialista, capaz de
difundir para milhões suas abordagens
táticas, suas soluções para curso pulsante
dos confrontos políticos e disseminar
progressivamente o seu programa de
transição do capitalismo ao socialismo,
requer do Comitê Central, dos comitês
estaduais e municipais, do conjunto das
organizações partidárias, que se persista
no reforço crescente do trabalho
teórico-ideológico. Avançamos, é verdade,
contudo as conquistas ainda estão por ser
consolidadas, e o êxito ante o papel
político saliente e a amplitude e extensão
que adquiriu o Partido, levam-nos a
rejeitar qualquer acomodação e nos
desafiam a fazer avançar nosso trabalho. A
comunicação partidária é cada vez mais
chamada a cumprir o papel de disseminar
nossa política para o conjunto de filiados
e militantes e as amplas camadas do povo.
Seus instrumentos e o conteúdo que publica
são fatores importantes para garantir a
unidade de ação política dos comunistas,
sobretudo, num país de dimensões
continentais como o nosso e no qual a
mídia cerceia, difama e hostiliza as
forças políticas avançadas.
Neste contexto, destaca-se a criação e a
consolidação do portal na internet que é
hoje um dos principais referenciais da
esquerda no espaço da comunicação
eletrônica. Trata-se de um relevante
feito. O portal saltou de 38 mil visitas
mensais, em abril de 2002, para mais de
400 mil visitas, em setembro último.
Obviamente, precisa galgar novos estágios
de expansão e outros aperfeiçoamentos. Os
programas periódicos de rádio e TV e os
programas das campanhas eleitorais,
instrumentos da comunicação para milhões,
buscaram difundir com eficácia e
criatividade a política partidária. É uma
matéria de alta exigência e risco, o que
demanda crescente eficácia. Não é à toa
que um dos objetivos da cláusula de
barreira é diminuir drasticamente o tempo
para este tipo de propaganda. O jornal A
Classe Operária passou a ser quinzenal e
teve sua redação reforçada. É um
instrumento insubstituível para informar e
formar a militância, sobretudo, as dezenas
de milhares que não têm acesso à internet.
A Classe precisa superar o gargalo da
circulação e seguir o esforço que realiza
para melhorar sua qualidade. Noutro plano,
impõe-se constituir um trabalho de
assessoria de imprensa da direção nacional
e de outras instâncias que potencialize a
divulgação de nossas idéias nos veículos
de comunicação da mídia nacional e
regional. Questões de maior fôlego
continuam a desafiar não somente o
Partido, mas a esquerda e o campo
progressista como um todo: a luta para
democratizar os meios de comunicação sem o
que as idéias avançadas terão dificuldade
para chegar ao grande público. A renhida
luta política que se vivencia ressalta que
a consecução de um novo projeto nacional
requer que as forças progressistas tenham
acesso aos veículos de comunicação de
massa. No que se refere à Formação e
Propaganda, sublinha-se o relançamento da
Escola Nacional de Formação a partir de
uma ação conjunta do Comitê Central e dos
Comitês Estaduais.
A Escola progressivamente vai adquirindo
concretude a partir da convicção de que
ela é um instrumento imprescindível para
elevar a consciência socialista de um
partido de 70 mil militantes e mais 200
mil filiados. A Escola já tem um corpo
docente inicial, núcleos de ensino e
pesquisa constituídos, avança na
elaboração de seu currículo, e realiza com
suas seções estaduais e regionais
atividades de formação para quadros,
filiados e militantes. Contudo, a Escola é
uma tarefa ainda inconclusa que impõe ser
consolidada. No próximo período, a par de
implementar a formação nos diferentes
níveis, a Escola desenvolverá um plano
para formação marxista dos quadros, a
começar dos integrantes do Comitê Central.
O Instituto Maurício Grabois elegeu nova
diretoria, agregou intelectuais militantes
e não filiados ao Partido e constituiu
seções em vários Estados. Já realizou
importantes iniciativas como as efetivadas
no Fórum Social Mundial. Foram criadas as
condições básicas para o Instituto
materializar perseguir o objetivo de vir a
ser um espaço de encontro, de confluência
do pensamento marxista e progressista.
Entre as linhas de pesquisa e elaboração
destacam-se: aprofundar o domínio teórico
e político acerca do neoliberalismo, isto
é, sobre a singularidade do capitalismo
atual; dar seguimento aos estudos sobre o
proletariado brasileiro na atualidade e
retomar o trabalho sistematizado de
redação da história do Partido. A revista
teórica passou a ser bimestral, persevera
na busca de sua qualidade editorial. Está
engajada nos esforços da esquerda
brasileira para desvendar caminhos de
resistência e superação do neoliberalismo,
com a publicação de artigos de autores
membros do Partido e do campo
progressista. Seu principal problema é a
circulação ainda restrita. As perspectivas
para o trabalho da revista implicam:
atingir a meta de 4 mil assinaturas, e
constante busca de melhoria e acerto na
linha editorial, com a publicação de um
leque amplo de colaboradores de prestígio.
Quanto à editora, autocriticamente,
reconhece-se que não recebeu tratamento
necessário para modernizá-la e
revitalizá-la. De qualquer modo, no último
quadriênio lançou 33 novos títulos e 18
edições da revista teórica, além do que
marcou presença em mais de uma centena de
eventos, inclusive, em importantes feiras
de livros. Para o próximo período impõe
fortalecê-la. Camaradas, metaforicamente,
tendo o Partido como uma nau, o trabalho
teórico-ideológico não se refere à casa de
máquinas, ele se refere à casa das idéias,
da teoria revolucionária, dos valores
éticos, dos sentimentos, em suma da
consciência avançada que nos alimenta e
nos orienta à jornada transformadora.
Cuidemos mais e melhor do trabalho
ideológico. Muitos são os desafios. Mas
haveremos de vencê-los com o engajamento e
o empenho das organizações e do coletivo
partidário.
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