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Brasil, sábado, 4 de julho de 2009

20 de outubro de 2005

entrevista pela vida

Marcelo Yuka : ''Eu não acredito em paz armada"

 
 
O músico se tornou militante contra violência

Leia a seguir entrevista que o jornal cearense O povo com o músico e compositor Marcelo Yuka, ex-baterista do Grupo Rappa. Ele ficou paraplégico depois de ter sido vítima de seis tiros em um assalto em 1991. Na última segunda-feira ele participou do programa Roda Viva da TV Cultura onde defendeu o voto no sim no referendo, pela vida e pela paz.

Você acredita que algumas pessoas se sensibilizam hoje com o seu trabalho, com a sua determinação, pela sua condição física?

Marcelo Yuka - Ah, com certeza. Boa parte da mídia também. Mas isso não me interessa (pausa, emocionado). Não quero ser visto pela cadeira de rodas, nem como um artista. Mas como alguém que se expressa. Daí dentro dessa possibilidade acho que posso me chamar de artista, porque é o que faço. Porém, não quero um tratamento especial. Existe um golpe da indústria cultural que é falar assim: ''porra, você é foda, é o cara!''. E se você realmente começa a acreditar nisso, passa a não pisar mais no chão. Hoje não posso pisar fisicamente, mas tenho os pés lá ainda, em outro sentido.

Depois do acidente essa compreensão de mundo ficou mais clara?

Marcelo Yuka - De mundo, não. É lógico que hoje me falta o básico do básico. Tenho problemas que as pessoas mais pobres não têm, que as mais velhas não têm, que muitas pessoas que são portadoras de uma doença grave não têm ainda. Tenho menos de 40% do meu corpo funcionando. Mas... (emociona-se) posso trabalhar de novo, mostrar que sou útil ainda. Isso a maioria das pessoas que chegam ao fundo do poço igual a mim, às vezes não tem chance de mostrar. Essa sociedade não reconhece (pausa, reflexivo). Um dia desses, um garoto veio tirar uma foto minha e ele nunca me viu em pé. Não sabe se eu tocava bem ou não... Nunca teve o impacto de mídia que é um show, com luzes, som alto. Nem tampouco nunca fiz nada na minha carreira baseado no meu rostinho bonito (irônico). De alguma maneira, tenho uma semente plantada que é a que mais me interessa. Não é em cima da minha condição, mas de quem eu sou. As pessoas respeitam quem sou, de fato. Uma vez, conversando com um fã, o cara me falou: ''pô, mas você é tão simples''. Eu respondi: ''bicho, isso não é virtude. Quem não faz isso é que está errado. Não me agradeça''. Às vezes algumas coisas que falo são bem interpretadas pela mídia, mas pela exceção! Porém, isso não quer dizer que eu seja um virtuoso.

Mas o nome 'Marcelo Yuka' te ajudou a se reerguer?

Marcelo Yuka - Boa pergunta. Acho que tinha muita gente interessada no que eu ia fazer. Em virtude da carreira que tive. Mas, por outro lado, não dei facilidade para as pessoas me receberem. Não é um disco fácil. Eu não estou nas festinhas certas (sorri). Nos lugares certos para as pessoas acontecerem. A única coisa que tenho é uma postura, uma imagem que ficou. E estou levando uma coisa - que espero que seja positiva - adiante.

Na entrevista para a Bizz, você toca na questão do ''rancor social'' que se alimenta contra a elite. De que forma pode-se tentar derrubar preconceitos dessas elites no que diz respeito ao modo que elas vêem posturas engajadas socialmente?

Marcelo Yuka - Sim, claro. Ter uma rampa para eu chegar até o palco já é um modo de peitar isso. Se não fosse eu e o Herbert (Vianna), mas tivesse alguma banda desconhecida com um deficiente físico, com certeza não teria isso. Agora, sou um militante da causa do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), escrevi uma música, que é a maior do disco, com um longo discurso do Stédile (João Pedro Stédile, líder do movimento). Hoje, o agrobusiness está mantendo a economia nacional. Em conseqüência disso, os shows em freiras agropecuárias movimentam bastante o mercado. É muita ingenuidade minha achar que eu seria contratado por esse mercado, que é o maior de entretenimento hoje. Mas prefiro isso, do que virar as costas para essa verdade. Me dá um conforto muito grande, não ter que tocar pra neguim que trepa no boi e esmaga culhão.

Como você vê a iniciativa do referendo de 23 de outubro?

Marcelo Yuka - É uma atitude única no mundo. Irresistivelmente democrática. Porque não vai precisar de ter representante pra dizer o que a gente quer. Nós mesmos vamos lá dizer. Faz uns três, quatro anos, que ando dando palestras pelo Brasil todo. Em relação ao referendo, tenho sentido que os lugares mais abonados são os mais conservadores também. E ficam resistentes a uma idéia - ao meu ver - mais inteligente e pacífica, que é dizer ''sim'' à proibição de armas de fogo. A polícia nesse país foi criada para manter a ordem. Mas a ordem do dono da fazenda em relação aos escravos. E temos mais de 500 anos em que essa polícia mantém o status quo. Ela não protege o cidadão, mas quem pode pagar por isso. Só que a maioria de nós fica no meio do fogo cruzado e a solução da arma não adiantou até agora. Então é uma oportunidade pra gente mostrar um perfil cultural do brasileiro que é ser gentil, receptivo. Caso o ''sim'' ganhe, a gente vai estar mostrando essa faceta que é nossa. E que a elite não tem isso: ela é rancorosa, quer se vingar. Acho a arma de fogo um instrumento medieval. Antes do meu acidente, eu já tinha feito uma música falando que ''também morre quem atira'' (a versão para o clássico ''Hey Joe''). Então, não é uma coisa que estou advogando em causa própria. O Brasil precisa finalmente dar passos inteligentes. Mais espertos. Já que a gente é campeão mundial em desigualdade social e a arma até agora foi apresentada como poder de repressão. Mostrar definitivamente que a mola propulsora da violência é a desigualdade. A gente não pode esperar que esse país tenha uma economia mais justa, para só depois ter uma justiça que entenda também os mais humildes.

Pensando de forma mais concreta, você crê que caso seja aprovado o ''Sim'', haverá uma redução significativa nos índices de homicídios no País a médio ou longo prazo?

Marcelo Yuka - Não. Porque o ''sim'' não é a solução da violência no País. Mas é o maior passo que se pode dar desde que o Brasil foi fundado. Desde a criação da República. Se o ''não'' vencer, vai reforçar uma idéia de que um objeto letal te traz proteção. Não está mostrando que as pessoas precisam ter mais oportunidades, para conseguir ir em frente com uma qualidade de vida decente. O cara está confiando em um objeto letal (enfático) que não tem obrigação, não tem outra função. Se levei nove tiros e não morri, foi sorte. Se alguém tomou um tiro de raspão, foi sorte. Agora, não é azar alguém ser morto por uma bala perdida. Isso é conseqüência de um País em que a gente vive lado a lado com a banalização das armas de fogo. A indústria bélica norte-americana é uma das mais lucrativas do mundo. É mais lucrativa que a droga, que o entretenimento. Como toda guerra, essa (a propaganda a favor do ''não'') não assumida aqui no Brasil tem uma intenção econômica muito mais profunda e às vezes oficial do que a coisa do narcotráfico. O narcotráfico está mantendo uma outra indústria muito mais lucrativa. Até porque, produz claramente. Então quando a gente se mata aqui, principalmente as camadas mais pobres, estamos gerando lucro através do nosso próprio sangue. E é lógico que a bancada pelo ''não'' está envolvida economicamente com interesses tão grandes quanto a perpetuação das indústrias bélicas americanas. E olha, acredito que mesmo se o Brasil fosse um grande exportador de armas de fogo, não queria ter uma economia fundada em cima de algo tão nefasto. Acredito também que a gente está perdendo a liberdade. Algumas pessoas querem a liberdade de uma coisa que elas nem se utilizam. Sempre pergunto ''você usa arma de fogo?'', para quem reivindica isso. Daqui a 50 anos, a gente vai olhar para a história atual e ver que a banalização da arma de fogo é uma peste, uma praga. Igual a peste dos ratos, da varíola, febre amarela. Sendo que isso, ao invés de vim de um vírus, vem de uma coisa muito maior. Que é a hipocrisia, a incoerência. A noção da igualdade entre as pessoas.

Como você vê a esperança lulista? Ainda pode se ter fé no PT à frente da presidência?

Marcelo Yuka - Não sei se me faço essa pergunta ou uma outra: qual será nossa alternativa?

Você votará no Lula em 2006?

Marcelo Yuka - Não sei. Realmente fiquei muito chocado com tudo que ocorreu. E também com o fato da corrente majoritária ter ganhado as eleições do PT. Então acho que se a gente está tendo a possibilidade de ver tudo errado, por um lado nunca tivemos a oportunidade de ver tantas pessoas de poder sendo presas. Ou sendo processadas. Mas é claro que isso não ameniza a relação petista com a corrupção.

Então você tem acreditado mais na justiça nesse ponto?

Marcelo Yuka - Tenho acreditado em um homem que está dentro do PT que se chama Waldir Pires (ministro-chefe da Controladoria Geral da União). Ele tem uma história muito longa de honestidade e está por trás das prisões da Polícia Federal. Pouca gente fala nesse cara. Tive a oportunidade de conhecê-lo. Para você ter idéia, viajei com ele uma vez de Salvador para o Rio. Quando cheguei em casa, tive uma crise de choro. Falei para ele: ''pô, o senhor não tem dificuldade para encarar toda essa nojeira da política?''. Ele respondeu: ''não é caso de eu ter ou não estômago. É o que nasci pra fazer''. Todos os momentos cruciais da vida nesse País, esse homem esteve lá pela parte mais coerente nos últimos 50 anos. Desde ter escrito a carta do João Goulart, até ser o homem que defendeu o País contra as intenções norte-americanas do governo Fernando Henrique de fazer a Base de Alcântara (MA) se tornar uma base americana. E hoje, não é à toa, que somos uma geração que está podendo ver Paulo Maluf na cadeia. Tenho 39 anos e há muito tempo ouço que o Maluf é ladrão, incoerente. Mas só agora estou vendo ele preso. Isso não foi por coincidência.

Falta mídia para refletir isso?

Marcelo Yuka - Acho que sim. Mas muitas vezes é o governo que está dando um tiro no próprio pé. Depois de tudo isso (da seqüência de escândalos de corrupção), insistir com a permanência de José Dirceu, Delúbio Soares e ainda a corrente majoritária vencer, é não dar uma explicação clara à população. Então acho que o governo tem essa incoerência. Mas, vivi vários governos militares e, mesmo depois da abertura, continuou aquela gente poderosa que não era popular. É muito bom ter um presidente que se chama pelo apelido, que perdeu um dedo, infelizmente, como trabalhador. Que mesmo sem ter um terceiro grau, chegou à presidência. Tudo isso é lindo.

Na sua opinião, o presidente está envolvido diretamente com essa seqüência de escândalos?

Marcelo Yuka - Eu espero que não. Mas ele também não teve pulso forte, e isso já virou uma decepção histórica. O problema é que tudo está em processo, em vias disso. Porque não é só punir os corruptos, é importante se fazer duas perguntas: de onde vem esse dinheiro e para onde foi? Não me interessa só saber de Delúbio, Roberto Jefferson, Dirceu... Quando a gente vai poder saber quem cedeu? Quem realmente manda nessa porra? Se a opinião pública não cair somente nos shows que estão sendo armados nas CPIs, pode-se ter uma resposta. Shows de visibilidade que promovem mais os deputados do que a própria causa.

Fonte: Jornal O Povo


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