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Por Renato Rabelo*
O
11º Congresso é o maior da história do
Partido Comunista do Brasil. Ocorreram 1.372
conferências municipais e as conferências
estaduais realizadas em todos os estados da
Federação elegeram 1.097 delegados.
Aqui
estão também presentes 77 convidados,
militantes destacados do Partido, e estamos
recebendo 45 partidos comunistas e organizações
revolucionárias e progressistas de todos os
continentes. O 11º Congresso transcorre num
período de grandes exigências, em que o
Partido assumiu importante participação na
vida política nacional e protagonizou
destacados acontecimentos, ao mesmo tempo em
que conseguiu realizar rico debate interno
de temas teóricos, políticos e partidários
nas instâncias congressuais e na
tradicional Tribuna de Debates, que pela
primeira vez apareceu também na Internet. A
resposta do Partido, exigida pela prática
política, articulou-se com o debate dos
temas desfilados nas fases preparatórias do
Congresso, enriquecendo e cimentando a
orientação do Projeto de Resolução em
discussão.
O
11º Congresso do PCdoB
ocorre nos marcos de um quadro mundial de
ofensiva imperialista, predomínio de uma finança
mundializada,
centrada nos Estados Unidos, e intensificação
da resistência dos povos e das nações; um
cenário de acirramento da luta pelo poder
no Brasil, em que as forças
liberal-conservadoras urdem a sua volta ao
centro do poder e as forças de esquerda e
progressistas começam a se rearticular; além
de um momento de renovação e expansão de
nosso Partido.
Segue
a ofensiva imperialista e se intensifica a
resistência
O
cenário internacional demonstra a validade,
de modo geral, da linha apresentada pelo
Projeto de Resolução Política ao 11º
Congresso. Os EUA, no exercício da
hegemonia unipolar, seguem sua estratégia
de “guerra global infinita”, cuja aplicação
só funciona dentro da lógica do unilateralismo.
Por isso mesmo, precisam romper com
as leis vigentes do Direito Internacional e
desconhecer as decisões dos organismos e fóruns
multilaterais internacionais, sempre que
seus interesses estejam em jogo.
Na
ocupação do Iraque, impotentes para
conseguir o pleno controle do território,
proliferam bombardeios maciços de pequenas
cidades e aldeias, supostas bases da resistência.
O referendum sobre a nova constituição
imposta aprofundou as divisões étnicas do
país. Na América Latina, aprofunda-se o
aumento das tensões em função das
constantes ameaças do governo estadunidense
à Venezuela bolivariana.
Chama a nossa atenção as gestões para
instalar uma base militar norte-americana no
Paraguai que, efetivada, irá se somar a
vinte outras existentes na América Latina,
a maioria no nosso subcontinente. Estas
bases são fatores de instabilidade e
preocupação crescente em relação à paz
na região. No âmbito econômico e
comercial, os Estados Unidos persistem na
sabotagem ao Mercosul e tentam impor um
desigual Tratado de Livre Comércio na região
andina, semelhante ao modelo do CAFTA,
firmado na América Central. No plano
mundial, a pretexto de “Não Proliferação
das Armas Nucleares”, estão no centro da
agenda norte-americana as maquinações de
todo tipo contra o aparecimento de novas potências
nucleares, sendo este um fator de forte tensão.
Os EUA tentam vetar até mesmo a utilização
da energia atômica para fins pacíficos,
como o sucedido no caso do desenvolvimento
do Programa Nuclear Brasileiro.
Para
além desta situação, registra-se um
quadro de resistência que se aprofunda. Tem
sido fator de fortes desgastes do governo
Bush as mortes de soldados no Iraque, que
estimulam grandiosas manifestações pela
paz e contra a guerra em grandes cidades dos
Estados Unidos, ao mesmo tempo em que esse
governo sofre fortes abalos internos após o
caos provocado pela passagem do furacão Katrina,
o qual afetou
principalmente pobres e negros. Na
frente da resistência, devemos também
assinalar a tentativa de sentido estratégico,
na qual o Brasil, dentre outros, tem um
papel protagonista, na luta pela integração
regional concretizada na recente realização
da Cúpula da Comunidade Sul-americana das
Nações (CASA), em Brasília, com avanços
progressivos. No curso das grandes movimentações
do quadro mundial, ressaltam-se as contradições
geopolíticas manifestadas pelo
aprofundamento de tensões entre as potências
imperialistas (EUA e União Européia) e a
China, que podem se tornar uma linha
marcante do século XXI. E assumem papel
importante na contratendência neoliberal as
recentes greves gerais na França e na Bélgica.
Crescimento,
contradições e desequilíbrio da economia
mundial
No
plano econômico, ressalta-se a manifestação
de uma relevante contradição de nosso
tempo, resultante do modo atual da divisão
internacional do trabalho, que se expressa
no âmbito da Organização Mundial do Comércio
(OMC). A rodada de Doha
caminha para uma definição. As grandes potências
capitalistas acenam com hipotéticas reduções
nos subsídios agrícolas para forçar uma
ampla abertura das tarifas industriais e em
outros setores dos países em vias de
desenvolvimento. Em contraposição, o G-20
permanece atuante, constituindo-se em
importante e novo elemento de defesa dos países
e povos ao desenvolvimento no âmbito da OMC.
Outra
questão saliente: O elevado crescimento da
economia mundial em 2004, e ainda este ano,
não garante que se possa descartar uma deterioração
do quadro econômico internacional, em prazo
que pode variar, por causa dos crescentes
riscos de desequilíbrio estrutural
provocados pela tendência a uma crise energética,
que se acentua nos Estados Unidos e no
mundo, com graves repercussões sobre o
crescimento global. O agravamento dessa
crise estrutural pode pesar na sustentabilidade
do financiamento dos grandes déficits da
economia norte-americana, que se soma à
ameaça do estouro de enorme “bolha”
especulativa dos ativos do mercado imobiliário
desse país, previsão registrada nos
informes financeiros atuais.
PCdoB
diante da nova luta pelo socialismo
A
razão de ser do PCdoB,
a sua identidade, distinta dos demais
partidos em nosso país, é a luta pelo seu
grande ideal socialista e comunista. O nosso
desafio central, como afirma o Projeto de
Resolução Política ao 11º Congresso, está
na construção de condições que permitam
abrir nova etapa de ascenso
da luta transformadora, revolucionária, a
fim de que se possa alcançar
a superação do capitalismo com o predomínio
de uma sociedade superior – o socialismo.
Essa determinação para tornar realidade o
ideal socialista não é uma utopia, mas uma
necessidade vital para humanidade, já
fundamentada com categorias cientificas
desde Marx, a partir do século XIX. Mas a
nossa convicção, forjada nos últimos
congressos do nosso Partido, é de que a
teoria revolucionária não está pronta
para qualquer período histórico, requer
constante renovação e sua aplicação
varia conforme a singularidade de cada país.
Desse modo, temos o grande desafio de
atualizar e desenvolver a teoria revolucionária
no bojo do pensamento avançado da nossa época
e no curso do movimento transformador das
massas trabalhadoras e populares,
conformando um projeto político atual, nas
condições peculiares do Brasil, capaz de
alcançar o socialismo.
A
nossa compreensão é de que esse grande
desafio se avultou, em conseqüência do
impacto da derrota histórica do socialismo,
que teve seu ápice nos começos dos anos
90, produzindo assim uma brusca mudança da
correlação de forças, condicionando uma
situação desfavorável na atualidade para
luta dos trabalhadores e dos povos pela
emancipação nacional e o socialismo. Esse
desequilíbrio, que pende em favor do lado
contra-revolucionário, marca o atual período
histórico longo, difícil e sinuoso de
acumulação estratégica de forças no
sentido revolucionário. Pois bem, do nosso
ponto de vista, o centro da questão é como
extrair as conseqüências para nosso
movimento da repercussão desse período de
longa acumulação, na orientação tática
e estratégica, nas políticas de alianças,
nas formas de luta, na linha de construção
partidária. A acumulação não se confunde
com passividade ou possibilismo.
O procedimento do processo cumulativo, nas
condições impostas de uma defensiva estratégica
para as forças revolucionárias, não
significa que o nível do movimento tático
de resistência será sempre defensivo. A
resistência ativa se concretiza por meio de
uma tática ampla e flexível, que busca
avançar, ser ofensiva, sendo esse o justo
procedimento para se alcançar as condições
para a contra-ofensiva geral, revertendo o
quadro de defensiva estratégica. O nosso
Partido tem procurado dominar a
singularidade do atual período histórico
e, ao mesmo tempo, feito um grande esforço
construtivo de sua linha política e da
edificação partidária nas condições
concretas do Brasil, definindo um justo
caminho de acumulação de forças. É
mais profunda a nossa convicção de que,
nos marcos do sistema
imperialista-capitalista, não se alcançará
a justiça social. Ao contrário, a
humanidade vive hoje um retrocesso civilizacional.
É mais atual do que nunca a assertiva de
que humanidade está diante de uma
encruzilhada histórica: ou socialismo, ou
barbárie.
Nível
da luta de resistência ao neoliberilalismo
no Brasil
O
curso histórico dos acontecimentos no
Brasil tem suas contradições próprias,
resultantes dos impasses estruturais e da
forma dependente de inserção mundial do país.
No atual período histórico, a nação está
incluída nos marcos do padrão de dominação
imperialista-capitalista que se convencionou
chamar de neoliberalismo e está sujeita às
implicações políticas do exercício
unilateral de poder mundial pelos EUA. No
plano nacional, ressalta-se como uma
peculiaridade da recente história política
brasileira a instalação do governo Lula, a
partir de 2003, porque significou a vitória
de novas forças políticas e sociais avançadas,
sempre dominadas politicamente e contidas
pela repressão reacionária da oligarquia
dominante - forças que nunca tinham alcançado
o governo da República.
O
novo governo, eleito dentro dos limites
institucionais vigentes, teve diante de si
um Estado de aparato antidemocrático e uma
realidade política na qual
as forças de esquerda que o elegeram
são minoritárias no Parlamento, entre os
governos dos Estados e prefeituras
municipais. Em contrapartida a esse quadro
adverso de correlação de forças e a
marca, desde a origem, do governo de
dualidade entre mudança e continuidade,
Lula foi eleito por expressiva maioria de
votos e com respaldo de quase a totalidade
dos movimentos sociais e das correntes
progressistas do país. Desse modo, por sua
origem social e política, compromissos e
composição, o governo representou novo
patamar na luta contra o neoliberalismo,
assumindo uma postura democrática mais avançada,
em meio à disjuntiva entre “desenvolvimentismo”
e “ortodoxia”, Estado e
“mercado”, situação distinta da do
governo Fernando Henrique, condutor do
neoliberalismo brasileiro.
Na
situação particular do Brasil, do ponto de
vista estrutural, apesar da avalanche
neoliberal, o capitalismo de Estado não foi
completamente destruído. Mantiveram-se
preservados, sob controle estatal, setores
de peso na economia, com capacidade de
investimento em outras áreas, como a
Petrobras, Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), Banco do
Brasil, Caixa Econômica Federal e Eletrobras,
estratégica holding estatal do sistema
hidroelétrico brasileiro, estando fora dos
recorrentes cortes do Orçamento para
atingir os exorbitantes superávits fiscais.
Além disso, hoje o Estado mantém certo
controle sobre o crédito, focando um volume
significativo de recursos fora da alçada da
financeirização.
Esta situação peculiar é a base objetiva
para que as novas correntes progressistas
componentes do governo Lula possam forçar,
de certo modo, uma política voltada para o
desenvolvimento. Tal política tem sido
sistematicamente atacada pelos setores
conservadores, tendo o pólo contrário, no
centro do governo, na predominância da política
macroeconômica ortodoxo-liberal.
Ao
cabo de quase três anos de governo Lula, as
forças mais conseqüentes, democráticas e
populares, ainda se encontram diante do
desafio da construção de um novo projeto
nacional, de um caminho próprio, que supere
a fase esgotada do período conhecido como
nacional-desenvolvimentismo e, sobretudo, os
impasses históricos agravados pela vigência
do neoliberalismo na década de 90.
A
tentativa de transição, realizada através
de políticas e medidas governamentais
significativas de contenção da investida
neoliberal e de outras não-condizentes com
a linha liberalizante, como as relacionadas
no item 118 do Projeto de Resolução Política,
demonstra um esforço de progresso, de mudanças
importantes, porém contido até agora pelo
compromisso, na prática do governo, com forças
hegemônicas que constituem o “mercado da finança
mundializada”,
dentro e fora do país, mesmo considerando a
virtude da recente decisão oficial de não
renovar acordo com o FMI, que se mantinha
desde 1998.
Em
decorrência dessa situação, o governo,
apesar do empenho em não se afastar da sua
origem, não conseguiu definir e aplicar,
lançando suas bases, um projeto mudancista
nítido, apoiado em ampla mobilização
democrática e nas camadas populares e
progressistas, submetido que está pelo
enclave no seu interior do trinômio
liberal-conservador – linha e estrutura
conservadoras do Mistério da Fazenda,
composição homogênea, ortodoxa, do
Conselho Monetário Nacional, dependência
do Banco Central às exigências da finança
globalizada.
Na
batalha em curso, o PCdoB luta para que o
governo Lula resista de várias formas ao hegemonismo
neoliberal, mesmo que não alcance ainda a
sua suplantação, mas que sustente e
concretize os moldes centrais de novo
projeto de desenvolvimento nacional, democrático,
de integração regional.
A
montagem desse novo projeto requer
uma contenda contra os postulados
liberalizantes, sem concessão a estes,
podendo-se inicialmente alcançar vitórias
parciais, como indica a própria experiência
da construção da nova política externa,
até agora exitosa
para os interesses nacionais. Quanto à luta
pela superação do novo padrão de dominação
imperialista e acumulação capitalista, que
se convencionou chamar de neoliberalismo,
por seu sentido antiimperialista e anticapitalista,
já havia no PCdoB a percepção de que o
novo governo não reunia convicção nem forças
suficientes para enfrentá-la. O alcance
deste objetivo pleno exige uma alternativa
política radical, comparada com a situação
presente, que já nos aproximaria daquilo
que sinalizamos no Programa do Partido como
uma etapa de transição ao socialismo.
Posição
do Partido na relação com o governo Lula
A
nova condição política inaugurada com a
posse do presidente Lula tornou imprescindível
o apoio e participação do nosso Partido
neste governo, em decorrência da relação
frentista de sentido democrático e
progressista, entre o PCdoB,
Lula e o PT, desenvolvida desde 1989. O
Partido assumiu, assim, o compromisso com
uma frente, de ampla aliança, dirigida pelo
PT, para governar o país. As razões políticas
desse importante compromisso estão
assentadas nos fundamentos de que, no atual
período, a construção ascendente da luta
transformadora no Brasil requer acumulação
de forças, o que se distingue até o
momento em três atividades fundamentais
inter-relacionadas, que exigem condutas e métodos
diferenciados, a saber: apoio e participação
no governo, impulsionando-o a transitar para
uma alternativa democrática, patriótica e
progressista; participação na luta de idéias,
reforçando as tendências revolucionárias
e progressistas, tendo em vista a elevação
dos fundamentos ao projeto substitutivo do
neoliberalismo; intervenção incessante na
organização e mobilização do movimento
social, sobretudo nas camadas trabalhadoras,
a fim de que exerça seu papel de força-motriz
da luta transformadora, fundamental para a
realização das principais mudanças. A
justa condução nessa inter-relação política
é que pode prevenir o desvio para uma via seguidista,
possibilista, ou
para o voluntarismo, primarismo.
A
continuidade da relação de apoio e
participação do PCdoB
no governo não é uma premissa imutável,
mas está sujeita à evolução do curso político
e, mais especificamente, ao “rumo
predominante que assuma o governo e possíveis
vias alternativas que venham a se impor”,
como afirma o Projeto de Resolução Política.
Nosso apoio e sustentação ao governo
expressam a unidade que ainda prevalece na
relação frentista, numa aliança que tem a
responsabilidade de governar. Essa unidade não
tem impedido a nossa crítica, como as que têm
sido expostas em inúmeras resoluções,
publicações e divulgações partidárias;
as nossas proposições diferenciadas, como
no importante episodio que contribuiu para
barrar o projeto de reforma sindical do
Ministério do Trabalho; ou nossa demarcação
de posições, como nos casos recentes da
votação da Lei das Falências e da MP 242,
porque estava em jogo a manutenção de
direitos trabalhistas.
Crise
política revelou os limites do governo e do
PT
A
crise política que se desenvolveu a partir
do começo de 2004, com o surgimento do
rumoroso caso Waldomiro, envolvendo o então
chefe da Casa Civil do governo federal, José
Dirceu, teve seus desdobramentos, despontou
novos acontecimentos, até atingir seu ápice
em meados deste ano, com as denúncias
contra o PT, ampliadas ao governo e ao
presidente Lula. Apesar dos erros cometidos
pelo principal partido do governo, estopim
dos acontecimentos recentes, o móvel que
levou à intensificação e ampliação da
crise está na exacerbação da luta
revanchista das forças conservadoras
objetivando a volta ao centro do poder.
Aproveitando-se da situação favorável a
eles, os partidos de oposição da direita,
suas forças auxiliares de “esquerda”, a
grande mídia e elites econômicas poderosas
tomaram a iniciativa política e
desencadearam vasta campanha inquisitória,
concentrada no PT, em Lula e aliados. Até
mesmo uma espécie de “golpe branco”,
pacífico, foi tentado
contra o presidente da Republica. Em
curto espaço de tempo, o núcleo político
principal do governo foi substituído, o
mesmo acontecendo com o núcleo dirigente do
PT.
A
crise política, apesar da sua intensidade,
não abalou a economia e nem esta foi a
causa imediata da convulsão política. Toda
a trama conservadora concentrou seu ataque
no PT e no presidente Lula, agindo, de uma
certa forma, para “blindar” a economia e
mantendo em pé as instituições políticas.
Em termos sucintos, a economia do país vive
uma situação de relativa estabilidade, de
crescimento, embora insuficiente,
beneficiando-se de uma situação
internacional favorável.
A
marcha da crise política expôs os
desacertos e limites do governo em conformar
uma efetiva coalizão política para sua
sustentação, em função de uma plataforma
mudancista.
Prevaleceu, na prática, uma inter-relação
política que se confunde com uma forma de
“coabitação” – convivência para
governabilidade com forças díspares,
heterogêneas, e até mesmo com objetivos
contrastantes. Revelou, também, a pouca
capacidade do PT, como dirigente principal
da aliança de governo, para a condução
política da transição a um novo projeto
de mudança, chegando a ser fomentado, até
mesmo por setores dirigentes importantes
desse Partido, um pacto de aliança política
com o PSDB. Por outro lado, o desenrolar dos
acontecimentos desnudou a ação de um
arcabouço poderoso, articulado, das forças
conservadoras de direita, composto pela
aliança política central entre o PSDB e o
PFL, sustentado pelas elites econômicas
dominantes e pela ação ostensiva da grande
mídia do país, postado em posições políticas
fundamentais e enraizado no aparato estatal.
Crise
política aguçou a luta pelo poder
Diante
da crise política em evolução, o PCdoB
procurou se orientar extraindo lições dos
graves acontecimentos, não subestimando os
erros cometidos no âmbito do governo e da
frente, mas, sobretudo, distinguindo o que
estava em questão nesse embate político
– a preparação ativa das forças
conservadoras para sua volta ao centro do
poder, versus a luta do governo para
concluir o mandato e abrir caminho para
continuar. Pela responsabilidade política
do Partido e do seu caráter forjado em
longa história de duras lutas, perante o
povo e o governo não se admitia, de nossa
parte, nesta hora, nenhuma posição demissionista
ou muito menos de auxiliar do coro
revanchista da direita. Nesse embate, o
Partido, de imediato, não se confundiu de
lado. Em face de um ataque concentrado das
forças conservadoras tradicionais e
“modernas”, contra o nosso aliado e o
governo no qual temos nossa
responsabilidade, e apesar de existirem
divergências importantes que vicejaram na
experiência frentista em curso, não cabiam
devaneios, tibieza, perplexidade, hesitação.
A história do Brasil e da América Latina
está cheia de grandes manobras políticas
das classes e dos partidos conservadores
para subjugar, render, derrubar governos e
forças progressistas que alcançaram o
centro do poder nacional. Em situações
como essas, a posição assumida por forças
defensoras da revolução, seja pela omissão
ou pela oposição, que tacitamente reforça
a investida conservadora, pode marginalizá-las
do curso político e histórico. Foi justa e
digna a posição do PCdoB
ao se colocar de pronto na trincheira de
defesa do presidente Lula e incentivar a rápida
recuperação do PT. Na verdade, a onda
conservadora tem o fito de atingir toda a
esquerda, desqualificá-la, mostrá-la
incapaz de governar o país.
Orientação
do Partido tem sido vitoriosa
Em
função da linha já traçada no Projeto de
Resolução Política deste 11º Congresso e
em face do aguçamento da luta política, o
Partido procurou estabelecer uma orientação
em dois planos articulados: um plano da ação
imediata e um plano da perspectiva.
A
ação imediata teve em vista responder à
investida conservadora para detê-la,
levantar a linha de resistência, a fim de
paralisar a instabilidade gerada pela crise
e possibilitar a retomada da iniciativa política.
Seguimos um conjunto de tarefas que se
resume nas seguintes medidas, que vêm sendo
aplicadas: mobilizar amplas forças políticas
e de massas para a defesa do mandato do
presidente da Republica; exigir justa apuração
e tratamento exemplar no caso dos ilícitos
cometidos, desmascarando a farsa moralista
da direita; defender e se empenhar pela
aplicação de uma agenda positiva, que
responda às exigências populares imediatas
econômicas, sociais e políticas mais
sentidas; buscar formas e desenvolver
iniciativas para recomposição do campo da
esquerda e da base de apoio do governo;
impulsionar o movimento social, elevando a
sua mobilização em torno da cobrança dos
compromissos de mudança e ao mesmo tempo na
defesa do mandato de Lula.
O
curso atual da luta política demonstra que
alcançamos importantes êxitos quanto ao
objetivo imediato de levantar o que chamamos
de “linha de resistência” e criar as
condições para uma contra-investida. De início,
a mobilização do movimento social pelas
mudanças, pela punição dos corruptos e
contra a desestabilização do governo Lula,
patrocinada pela Coordenação dos
Movimentos Sociais (CMS), reagrupou o
movimento sindical, estudantil, sem terras e
popular paralisando a direita, que se sentia
livre, desimpedida para sustentar seu
desiderato do impedimento do presidente da
República. No curso dessa mobilização, o
Partido lançou a consigna do “Fica
Lula”, que se opôs frontalmente ao
“Fora Lula” puxado pela ultra-esquerda
com o ostensivo apoio da direita. Outro
passo significativo tem sido a reaproximação
dos três partidos de esquerda – PT, PSB, PCdoB
–, que vêm recompondo sua unidade em
torno de objetivos comuns, com um plano de ação
política estabelecido para construção de
uma agenda positiva com o presidente da República,
da Câmara e do Senado e discussão para
reapresentação de um projeto nacional de
desenvolvimento. Compõe também esses
marcos de avanços a conclusão do processo
de eleições diretas do PT, reconstruindo
todas as suas direções, elegendo nova direção
nacional aceita por todo Partido, dando uma
demonstração de ativa resistência e rápida
recuperação num momento delicado, sendo
este um fator significativo para inflexão
na marcha da crise.
Além
disso, a eleição do deputado federal Aldo
Rebelo, do PCdoB,
para a Presidência da Câmara, terceiro
cargo mais importante na hierarquia da República,
adquiriu extensa repercussão. Foi o ponto
mais elevado, que expressa uma primeira
grande derrota da investida do conjunto das
forças conservadoras e da grande mídia.
Esse acontecimento, inusitado na historia
política brasileira, barrou a arremetida
conservadora que preparava verdadeiro
assalto a esse posto chave do poder
nacional, que poderia colocar o presidente
da Republica numa situação de rendição
permanente diante da oposição – porque
cabe ao presidente da Câmara a decisão de
arquivar ou dar prosseguimento ao processo
de impeachment do presidente da República.
A
vitória de Aldo Rebelo sinalizou uma viragem
de uma tendência defensiva que predominava
no lado do governo, do PT e aliados, em um
momento decisivo do presente embate político,
instando a aglutinação das forças de
apoio ao governo, que se encontravam
dispersas, reaproximando as forças de
esquerda – Aldo Rebelo foi lançado como
candidato do PT, PCdoB
e PSB –, abrindo novo horizonte à
perspectiva de esquerda e progressista e
influindo em setores políticos intermediários
que pendiam para a oposição.
Porém,
quero enfatizar diante desta plenária de
delegados e convidados do nosso 11º
Congresso, sem ufanismos, mas com a
responsabilidade própria de um Partido como
o nosso, calejado em difíceis períodos de
ditaduras e clandestinidade, que o resultado
da luta pela Presidência da Câmara dos
Deputados demonstrou uma significativa vitória
da orientação traçada pelo PCdoB,
do elevado empenho de seus quadros e
militantes, do destacado papel de nosso
camarada Aldo Rebelo no cenário político
nacional, colocando nosso Partido no centro
da grande movimentação política perante a
nação e elevando o seu papel protagonista
para melhor contribuir por uma solução
avançada para os maiores embates futuros.
Perspectiva
política
Mas,
como dizia, a nossa orientação se estende,
partindo do plano imediato, num plano em
perspectiva, no qual se trata em persistir
no desafio de construir o projeto da mudança,
aspiração maior dos que defendem e votaram
em Lula.
Por
isso, em primeiro lugar, temos insistido em
que, no estágio político atual, é preciso
concentrar esforços conjuntos pela repactuação
do projeto nacional, relançando o impulso
de mudança, resgatando a expectativa para
tanto, contrapondo-nos aos postulados
neoliberais dominantes, delineando e reforçando
a alternativa desenvolvimentista, democrática,
integradora dos países do continente. Agora
mesmo, no empenho para consecução de uma
agenda positiva, desenvolvido pelos três
partidos de esquerda, PT, PCdoB,
PSB, procuramos acentuar uma política de
valorização constante do salário mínimo,
cumprimento integral das metas de
assentamento do plano de reforma agrária e,
sobretudo, uma posição comum de rejeição
de qualquer proposta para o Orçamento de
2006 que não priorize e eleve os
investimentos públicos na infra-estrutura
nacional, na estrutura social e em programas
afins.
No
Projeto de Resolução Política, no item
140, o Partido propõe, como contribuição
ao debate do projeto, elementos de uma
plataforma mínima atualizada. No debate
crescente, na sociedade e dentro do próprio
governo, sobre o rumo do projeto de
desenvolvimento nacional, democrático,
soberano, o PCdoB considera essencial
redirecionar a política macroeconômica. A
questão nodal está em que a orientação
vigente, de base ortodoxo-liberal,
garantidora dos ganhos dos grandes credores,
rentistas e
especuladores, aumenta a já acentuada
concentração de riquezas da sociedade
brasileira, transferindo enorme soma de
rendas para um punhado de beneficiários que
vivem principalmente da acumulação
financeira gerada – num conceito de Marx
– pelo “capital portador de juros”.
Ademais, apesar de ultimamente se ter alcançado
o crescimento econômico, a aplicação
acentuadamente ortodoxa da política oficial
tem reprimido o desenvolvimento,
considerando-o inflacionário. Tal conduta
é criticada até mesmo por setores e
economistas do próprio sistema financeiro.
Neste
importante debate acerca do projeto de
desenvolvimento nacional, não podemos nos
confundir com as contradições no nosso
meio e as contradições antagônicas com os
nossos inimigos. As forças
liberal-conservadoras confiáveis do
imperialismo norte-americano, que já gritam
o “basta de Lula” e tecem a sua volta ao
centro o poder, do ponto de vista programático
pretendem retomar o processo das grandes
privatizações, insistem nas “reformas”
que aprofundam o sistema liberalizante e,
através de seus porta-vozes e editorialistas,
repicam na tese da autonomia do Banco
Central, da mudança do papel do BNDES,
privatizando ou até fechando-o e, num
crescendo de agitação, tocam num objetivo
estratégico: pedem a efetivação da Alca,
afirmando que ela “não sai porque o
Brasil, sob Lula, não quer a Alca”. Não
podemos subestimar estas forças.
Em
segundo lugar, como decorrência do trabalho
pela repactuação
do projeto, avulta a importância da
reorganização da aliança política, que
sustente o pacto programático. Em conseqüência
do nível da nossa luta mudancista,
mais especificamente da relação entre o
campo de esquerda e progressista e o campo de
direita e afins, este esforço se
destina à recomposição da alternativa
frentista de centro-esquerda
– a esquerda sozinha, nas condições
presentes, teria maiores dificuldades para
vencer a batalha sucessória de 2006 e
governar o país. Nesta recomposição,
fator chave reside na formação do núcleo
de esquerda que comporia a coalizão política
e na nossa capacidade de ampliação com as
forças que possam se comprometer com o
anseio mudancista.
Torna-se decisivo para o êxito da reconstrução
frentista e formação de uma efetiva coalizão
eleitoral e para governar a reaproximação
entre os partidos de esquerda e o papel que
venha a desempenhar, nas eleições gerais
de 2006, o PMDB, partido grande, que ocupa
um lugar de centro no espectro político
brasileiro.
Em
terceiro lugar, temos opinado que as
candidaturas e, sobretudo, o candidato
presidencial deveria resultar desse amplo
esforço de repactuação
e recomposição e, evidentemente, da
particularidade da marcha política em
desenvolvimento.
Em
quarto lugar, o impulso e o deslanche da
transição para o novo projeto de
desenvolvimento nacional depende, em grande
medida, da ampliação da consciência pela
mudança, da elevação do nível
organizativo e da mobilização ampla e unitária
do movimento social, que possa resistir e
avançar diante dos entraves à liberdade
política, ao progresso social e à
soberania nacional. Esse – movimento
social de massas – é o ator que precisa
ocupar seu papel protagonista, o lugar de
força-motriz principal no processo
transformador atual. O Partido tem
persistido em realizar várias tarefas para
expandir e aprimorar seu trabalho junto ao
movimento social, principalmente entre as
camadas dos trabalhadores, através de
estudo e ações dirigidas, procurando elevá-lo
ao nível de extenso movimento político de
massas. Conseguimos efetuar dois encontros
nacionais, com a
mobilização de todo Partido, para
conhecer a realidade do contingente proletário
no Brasil, a relação e as novas tarefas do
Partido com essa classe social fundamental.
O PCdoB reforçou seu trabalho entre a
juventude, ampliando sua influência, fez
avanços importantes na relação com o
movimento de bairros, deu passos
significativos na compreensão e unificação
de uma linha de atuação no movimento
anti-racista, mantém seu prestígio e
ampliou sua atividade no variado movimento
das mulheres. O Partido tem insistido,
dedicando atenção constante, à afirmação
da Coordenação dos Movimentos Sociais, que
reúne os movimentos nacionais mais
representativos, sendo essa uma forma atual,
nas novas condições políticas, para a
organização unitária do movimento social
em plano nacional.
Partido
revolucionário renovado
Diante
da nova situação criada no mundo no começo
da década de 90 e das mudanças do Brasil
nesse período, o PCdoB
percorreu rica trajetória, onde passou por
fecundo revolvimento político e ideológico.
Concentrou esforços para desenvolver seu
pensamento de Partido, no espaço de mais de
20 anos de legalidade partidária, o mais
longo de sua historia, principalmente desde
o 8º Congresso, realizado em 1992, passando
pelos dois últimos congressos, a 9ª
Conferencia Nacional, o I e II Encontros
sobre Questões de Partido e os vários
encontros sobre Partido e os movimentos
sociais, Partido e a frente institucional,
culminando no atual 11º Congresso, que
sintetiza este pensamento na concretização
do Projeto de novo Estatuto do Partido.
Nesse
périplo, a questão central girou em
reafirmar a indispensabilidade do partido
revolucionário, numa torrente que negava o
papel desse partido, bem como a necessidade
de sua adequação aos novos tempos, em
condições de maiores exigências – atenção
– nas quais o
Partido assumiu protagonismo
político nunca antes exercido, adquiriu
expressão com sua participação em funções
do governo federal, ampliou seus laços com
o povo, estendeu suas fileiras, reforçou
sua estrutura nacional, penetrando em
cidades médias e pequenas do interior.
Estes foram os desafios e as
particularidades de nossa trajetória atual.
Nas
condições particulares em que transcorre a
nossa experiência no Brasil, em primeiro
lugar, tornou-se imprescindível articular a
iniciativa de construção de amplas frentes
políticas, atuando na esfera institucional,
governos e parlamentos, com a orientação
que confere papel
essencial à mobilização social, fonte
principal de crescimento do Partido, e a
constante luta de idéias que fundamenta e
reaviva a perspectiva transformadora.
Em
segundo lugar, o novo patamar de maiores
exigências e responsabilidades políticas
perante os trabalhadores e o povo, assumidas
pelo PCdoB,
colocou a necessidade da construção de um
partido revolucionário grande, de extensa
militância, dirigido por quadros avançados
e compromissados com nossos princípios e
nosso Programa. Por isso, tornou-se
imprescindível todo Partido compreender as
condições peculiares em que atua e o como
construir o caminho, nas condições do
Brasil, para a luta de resistência ao
neoliberalismo, tendo como norte abrir
caminho ao socialismo. Em suma, nas condições
atuais, por nossa orientação e conduta,
coube ao nosso Partido o lugar de estar mais
bem posicionado para ser um fator de unidade
das forças de esquerda e progressista e, ao
mesmo tempo, intervir, por injunção de sua
política, na mobilização das massas
sequiosas de transformação. Situação que
deve ser desenvolvida e aprimorada.
Os
grandes males: pragmatismo e burocratismo
No
Partido cresce a consciência de que o período
de larga acumulação de forças, nos períodos
de “paz”, sem os grandes choques das viragens
radicais, em condições especificas de
relativa defensiva do movimento operário e
popular e de plena institucionalização da
atividade política compõe um ambiente em
que podem florescer as tendências ao
pragmatismo, que se inclinam ao oportunismo,
tanto pela direita como pela “esquerda”.
Pela profunda desigualdade de poder e de ação
dos meios de comunicação, a ideologia
dominante “penetra por todos os poros”,
os meios aliciadores da ordem capitalista se
tornam mais sofisticados e envolventes,
pressionando, sobretudo, as lideranças
populares mais influentes, tentando submetê-las
ou cooptá-las. Através da prática
estimulada pelo senso comum predominante, o
partido revolucionário não está imune aos
arrivistas e provocadores e, principalmente,
às idéias que consagram os anseios de
projetos próprios, que trazem mais
vantagens pessoais, em detrimento do projeto
coletivo, do programa partidário. A rendição
ao pragmatismo é o caminho para a liqüidação
da unidade do Partido e rebaixamento do seu
objetivo estratégico.
Outro
desvio, que se comunga com o pragmatismo nas
condições de largos períodos “pacíficos”,
é a tendência à burocratização,
isolando o partido dos anseios das massas e
dos reais problemas da nação, que também
pode levá-lo à liqüidação. Isso porque
a atuação política se faz através da
utilização do próprio aparato da
democracia burguesa estabelecida, com todos
os seus meandros e escaninhos que permeiam,
por meio da institucionalidade
vigente, a estrutura sindical, a rede de ONGs
e associações da chamada sociedade civil;
ou seja, uma intricada teia que tende a
desviar os militantes engajados no rumo
programático do Partido, originários dos
anseios de base, para se adaptar à ordem
dominante, com os métodos elitistas e cupulistas,
afastando-os dos verdadeiros anseios das
massas trabalhadoras, populares e da própria
nação. Soma-se a isso a pressão direta
sobre a estrutura partidária, à medida que
essa possa se envolver sem limites com a institucionalidade
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