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Por João Batista Lemos*
A
crescente oposição da classe trabalhadora
e dos povos da América Latina às políticas
neoliberais ditadas pelo fracassado
“Consenso de Washington” é um dos fenômenos
mais significativos deste momento da nossa
história. Indica que a direção dos ventos
da luta de classes, até agora determinada
pela ofensiva reacionária dos neoliberais,
pode mudar. Embora com diferentes ênfases,
e de um modo mais revolucionário na
Venezuela, um processo de mudanças parece
estar em curso na região. Este processo vem
também se manifestando nos países centrais
a partir da resistência da classe
trabalhadora contra as medidas que visam
reduzir os direitos sociais conquistados.
A vitória de Lula em 2002 foi uma
expressão deste movimento mais geral de
oposição popular ao neoliberalismo.
De
outro lado, fortalecidas pela crise política,
as forças conservadoras e de direita,
lideradas pelo PSDB, se articulam visando
reconquistar o Palácio do Planalto em 2006
e aprofundar a orientação neoliberal. Ao
mesmo tempo, continuam a pressionar pela
blindagem da política monetária (ampliando
a autonomia do Banco Central) e um maior
arrocho fiscal.
A
luta contra o neoliberalismo e por mudanças
sociais não se esgotou no governo Lula.
Adquiriu antes novas características e
maior complexidade. Tende a se desdobrar em
confrontos de classes ainda mais radicais no
futuro. É neste contexto que devemos
analisar o trabalho e a perspectiva dos
comunistas na classe operária
e no movimento sindical brasileiro,
tendo em vista que o PCdoB, no apoio ao
governo Lula, vive um período de
acumulação de forças.
Como
anda a situação dos trabalhadores?
Durante
os últimos 25 anos o Brasil tem vivido uma
crise econômica estrutural, que colocou em
questão as perspectivas de desenvolvimento
e em certa medida a própria soberania.
Tivemos duas décadas perdidas. A estagnação
da renda per
capta, que cresceu em média apenas
0,33% ao ano desde 1981, acirrou os
conflitos em torno da distribuição da
renda e agravou os problemas sociais,
prejudicando principalmente os
trabalhadores.
O
quadro piorou com a hegemonia das idéias
neoliberais e aplicação das políticas
correspondentes a partir dos anos 90 do século
passado. Orientado para a depreciação da
força de trabalho e a intensificação do
domínio e da espoliação imperialista, o
neoliberalismo deixou uma herança perversa
de dependência econômica e degradação
das relações sociais.
Embora
com uma economia de porte respeitável (a
oitava do mundo quando medida pela Paridade
de Poder de Compra), o Brasil ostenta o
vergonhoso título de vice-campeão mundial
da desigualdade social, exibindo o segundo
pior perfil de distribuição da renda entre
as nações, à frente apenas de Serra Leoa.
Os
10% mais ricos abocanham 46,9% da renda.
A parte do produto apropriada pela classe
trabalhadora sofreu um apreciável declínio.
Equivalia a cerca de 50% do PIB em meados
dos anos 1980. Despencou para 36% em 2002,
segundo dados do IBGE.
O
desemprego subiu de modo extraordinário. Em
1982, 2,8% da população trabalhadora (1
milhão e oitocentos mil ) não tinham ocupação.
Em 2000 o percentual de desocupados ascendia
a 15%, o que em números absolutos
significava 12 milhões. Além disto, 25%
estavam empregados em ocupações precárias.
O
desemprego impulsionou a informalidade e a
precarização das relações entre capital
e trabalho, de forma que hoje mais de 50% da
mão-de-obra assalariada não tem carteira
assinada e trabalha à margem da legislação,
sem desfrutar direitos e benefícios sociais
elementares como férias, 13o,
FGTS, entre outros. O excesso de oferta
sobre a demanda no mercado de trabalho, a
inflação que atravessou os anos 1980 e
persistiu até meados da década passada,
assim como as políticas neoliberais
convergiram para um forte arrocho dos salários.
O
salário mínimo atual possui apenas um terço
do seu valor real verificado em 1959. Os
poucos postos de trabalho criados nas duas
últimas décadas (bem menos que o número
de jovens incorporados à População
Economicamente Ativa) foram em geral precários
e de baixa remuneração. Em 2003, nada
menos que 10% dos ocupados ganhavam menos de
meio salário mínimo, 17, 8% recebiam entre
meio e um salário mínimo, sendo que no
Nordeste 46% dos trabalhadores e
trabalhadoras tinham remuneração inferior
ao mínimo, de acordo com o IBGE. O total de
assalariados com carteira assinada em 2003
era ainda menor do que em 1989 e entre os
integrantes deste mercado formal a maioria
(64,2%) ganhava até três salários (mínimos)
e tinha um baixo grau de escolaridade.
Por
detrás destes números revela-se uma
realidade social dramática e violenta, um
quadro de grandes dificuldades e sofrimentos
do povo brasileiro. São sinais de uma dívida
social imensa, que fazem da luta por mudanças
um imperativo político das forças
progressistas e em especial do nosso Partido
Comunista do Brasil. Mudar significa
reverter esta situação, redistribuir a
renda em favor da maioria do povo,
revalorizar a força de trabalho, satisfazer
as justas demandas dos movimentos sociais,
obter o crescimento sustentado do PIB a
taxas compatíveis com as potencialidades
das forças produtivas nacionais.
Confrontado
com a pesada herança neoliberal, o governo
Lula promoveu avanços relevantes no campo
da política externa, no relacionamento com
os movimentos sociais (pautado pelo respeito
e a democracia), em alguns programas de
cunho assistencialista, assim como na
recuperação do papel desenvolvimentista do
BNDES. Mas revela-se tímido e muito tem
deixado a desejar na solução de problemas
como o desemprego em massa, valorização do
salário mínimo, democratização da
propriedade rural e outros, além de
priorizar uma agenda de reformas que às
vezes se choca frontalmente com os
interesses da classe trabalhadora, como foi
o caso da reforma previdenciária.
O
crescimento da economia em 2004 e 2005,
embora abaixo do potencial nacional e
contido pelas políticas monetária e
fiscal, aliviou a situação. Mas não
alterou substancialmente o quadro de crise
nem resgatou a dívida social, como se pode
deduzir pelas taxas de desemprego nas
principais regiões metropolitanas do País,
estimadas em mais de 17% pelo DIEESE.
A
política econômica conservadora rebaixa o
potencial de crescimento da economia
nacional e constitui hoje o maior obstáculo
ao atendimento das demandas, anseios e
necessidades do povo brasileiro. Por isto,
é com absoluta razão que a CUT, o conjunto
do movimento sindical e a CMS exigem uma
mudança de rumos neste campo.
A
solução política progressista para os
impasses que foram criados começa pelo
enfrentamento da centralidade da questão
nacional.
Entretanto,
é preciso observar o fato de que a revolta
contra o neoliberalismo emergiu na América
Latina das contradições e conflitos
sociais e que somente as massas populares, e
não mais setores das classes dominantes,
podem liderar e levar a um resultado exitoso
a luta pela soberania. Seria falso e errado
interpor uma muralha da China entre as questões
nacional e social, pois ambas estão
estreitamente interligadas.
Por
quê desenvolvimento com valorização do
trabalho?
A
depreciação do trabalho tem dado a tônica
da economia política das classes dominantes
(sob a hegemonia do capital financeiro) em
todo o mundo. Recentemente, constou das
manobras em curso na Organização
Internacional do Trabalho (OIT) para
viabilizar a flexibilização de uma das
conquistas mais antigas do proletariado: a
jornada diária de 8 horas de trabalho.
Apesar dos resultados deploráveis colhidos
até o momento, o neoliberalismo tende a
aprofundar tal orientação, insistindo no
nosso caso, por exemplo, em impor uma
reforma trabalhista que reduz ou flexibiliza
direitos sociais arrancados na luta de
classes ao longo do século XX. A verdade
desta nossa história, que tem a prática
por critério, vem demonstrando com fartura
de provas que a depreciação do trabalho não
é uma boa conselheira do desenvolvimento. A
degradação das relações sociais
promovidas pelo neoliberalismo anda de mãos
dadas com o baixo crescimento e a estagnação
da renda per capta.
O
crescimento econômico não deve ser o único
objetivo de um novo projeto de
desenvolvimento, mas a vida acabou
estabelecendo uma associação estreita
entre o crescimento, emprego e a distribuição
de renda, conforme já tinha sido notado
pelo economista Celso Furtado. A recuperação
e o fortalecimento do mercado interno são
condições indeclináveis para o
crescimento sustentado do PIB. A via para
isto passa necessariamente
pela
valorização do trabalho.
Bandeiras
classistas como geração emprego, redução
da jornada, valorização dos salários,
manutenção e ampliação dos direitos
trabalhistas, reforma agrária, universalização
das políticas públicas, capazes de
estimular o mercado interno, se
transformaram nas novas condições em
bandeiras do desenvolvimento nacional.
Desfraldar a bandeira do desenvolvimento com
soberania e valorização do trabalho
significa conferir ao proletariado
brasileiro o papel de protagonista na luta
política em curso contra o neoliberalismo e
pelas mudanças sociais.
Diante
desta realidade, o que fazer?
Reconhecer
a centralidade do trabalho e do proletariado
na luta política da atualidade não nos
autoriza a ignorar a crise que se abateu
sobre o movimento sindical, os partidos
comunistas e progressistas e o proletariado.
Para que tenha êxito, a luta por mudanças
pressupõe grandes mobilizações políticas
de massas e o fortalecimento das organizações
sociais e elevação do seu nível de
intervenção nas batalhas políticas, bem
como e destacadamente da presença e influência
do PCdoB entre os trabalhadores.
A
verdade é que, hoje, o movimento sindical
está desarticulado e dividido, enfrentando
uma forte crise ideológica que resulta na
perda de perspectiva, induzindo à conciliação
de classe. A classe operária ainda não se
recuperou dos golpes objetivos e subjetivos
que sofreu com a chamada reestruturação
produtiva, desemprego massivo e precarização,
assim como pela derrota histórica do
socialismo.
Em
contrapartida, é também verdade que cresce
a resistência ativa da classe trabalhadora
e dos povos ao neoliberalismo,
destacadamente na América Latina. Também
no Brasil há sinais de recuperação das
lutas dos trabalhadores e das trabalhadoras:
além das mobilizações nacionais, 302
greves foram realizadas em 2004 pela ampliação
dos direitos adquiridos e por novos
direitos, o que reforça a tendência de
avanço e retomada das lutas populares.
Para
fazer frente a esta realidade, os comunistas
sindicalistas precisam adotar iniciativas no
movimento sindical visando elevar o nível da luta e consciência política
dos trabalhadores e das trabalhadoras. Com
as mudanças ocorridas nos processos
produtivos e no mercado de trabalho se faz
necessário repensar os sindicatos:
1)
Para
que possam representar o conjunto dos
trabalhadores empregados formais e
informais, terceirizados e também os
desempregados do mesmo ramo de atividade, em
suas diversidades de gênero, raça, crenças
e orientação
sexual.
2)
Para
que aprofundem a organização nos locais de
trabalho, onde devem ser construídas as
principais trincheiras de luta da classe,
organizar na prática os Comitês Sindicais
Unitários de Base até que sejam
conquistados por lei.
3)
Para
que possam desempenhar o papel de expressão
dos interesses da classe trabalhadora no
plano mais geral da sociedade. Além das
lutas em torno dos problemas relacionados a
salários, jornadas e condição de trabalho
(que inspiraram sua criação no passado), o
movimento sindical tem que abordar as questões
associadas à política econômica, papel e
dimensão do Estado Nacional, políticas públicas,
cultura, educação, meio ambiente, entre
outras.
Do ponto de vista tático e no esforço
para melhor influenciar na atual relação
de
forças, devemos realizar dois
movimentos concretos:
1)
Aprofundar
a autonomia sindical e construir a unidade
na ação do movimento sindical e deste com
a Coordenação dos Movimentos Sociais,
aproximando-os
do
movimento político em curso, de
defesa do governo Lula e pressão no sentido
das mudanças, abrindo perspectivas para uma
repactuação programática em torno de
bandeiras comuns e mobilizadoras dos
trabalhadores e do povo.
2)
Globalizar
as lutas, especialmente na América Latina
através da ação solidária dos movimentos
sindicais classistas e dos Fóruns Sociais
Mundiais.
Assim
os trabalhadores e as trabalhadoras terão
melhores condições de cumprir seu papel
protagonista na luta por um novo projeto de
desenvolvimento com base na soberania e
valorização do trabalho.
Como
relacionar nossa tática com a estratégia
socialista no movimento sindical?
Como
fortalecer o partido entre os trabalhadores?
A
presença, organização e influência dos
comunistas no proletariado têm uma importância
estratégica e devemos harmonizar nossa tática
política com este objetivo. No 2o
Encontro
resgatamos o conceito amplo formulado
originalmente por Engels sobre o
proletariado. Reforçamos a identidade do
partido com a classe trabalhadora e demos
alguns passos no sentido de uma análise
mais concreta sobre sua configuração na
atualidade em
nosso país, tendo em vista as mudanças
operadas no chamado mundo do trabalho ao
longo das últimas décadas.
O encontro de Belo Horizonte recordou
históricas debilidades e concluiu que o
pano de fundo dos problemas é a subestimação
do papel do proletariado nas batalhas políticas
em curso e no projeto do nosso Partido
Comunista. Creio que cabe ao 11o
Congresso iniciar uma abordagem nova e
revolucionária do tema. São três as
premissas que devemos satisfazer para
enfrentar com êxito tal desafio:
1-
Não devemos contrapor a intervenção política
à necessidade de fortalecer a organização
do Partido entre os trabalhadores e
trabalhadoras, pois intervenção política
e estruturação partidária têm uma relação
dialética.
2-
A centralidade do trabalho junto ao
proletariado deve ser assumida pelas direções
em todas as instâncias e frentes partidárias
3-
As direções (nacional, estaduais e
municipais) precisam providenciar os
recursos necessários para realizar um
paciente e cuidadoso planejamento do
trabalho junto ao proletariado,
identificando os principais ramos, empresas
e categorias para a organização partidária,
numa perspectiva de médio prazo, evitando o
imediatismo e o atropelo dos calendários
eleitorais .
Como
organizar na luta e fortalecer a CSC?
O
desenvolvimento da CSC e a valorização de
seu projeto político possuem um papel
estratégico no fortalecimento do PCdoB. O
encontro de Belo Horizonte apontou
diretrizes importantes sobre o tema, que
também está contemplado na nova proposta
de estatuto, cujo Capítulo VII dispõe
sobre a atuação dos comunistas nas
entidades e movimentos sociais e orienta o
trabalhador filiado ou militante (parágrafo
único do capítulo 50) a se vincular à CSC.
No
10° Congresso do partido apontamos como
tarefa o relançamento nacional da Corrente
Sindical Classista . O balanço é
vitorioso! Agora, para o próximo período,
impõe-se o fortalecimento da CSC nos
Estados, tarefa que exige um acompanhamento
atencioso por parte das direções partidárias
e deve estar combinada com a elaboração de
um plano estratégico de construção no
proletariado, visando formar militantes,
estimular a luta social, fortalecer o
Partido e consolidar sua identidade de
classe .
A
abordagem dialética do debate sobre a
reforma sindical foi um exemplo de conduta
autônoma e independente, orientada pela
direção do partido. Soubemos articular a
luta de massa com a frente institucional e
estabelecer corretamente o princípio de
unidade e luta, enxergando a necessidade de
uma reforma sindical democrática e
progressista e ao mesmo tempo não
negligenciando a necessidade de combater as
concepções pluralistas e social-democratas
de organização sindical. As lideranças do
sindicalismo classista tomaram várias
iniciativas para intervir no debate,
apresentaram propostas, encabeçaram a luta
vitoriosa contra a PEC 369 e lograram a
aprovação pela 11a Plenária
Nacional da CUT de uma “plataforma democrática”
que traduz as idéias mais avançadas sobre
o tema.
Em
outro plano, experiências concretas
dirigidas por lideranças classistas – que
com base na nossa política concretizam
através da luta a valorização do
trabalho, recuperação da economia e do
mercado interno - devem ser valorizadas,
como por exemplo:
ü
A
batalha pela recuperação do setor naval,
dirigida pelo Sindicato dos Metalúrgicos do
Rio de Janeiro e Metalúrgicos de
Angra dos Reis, juntamente com os Marítimos,
propiciou o desenvolvimento da economia no
estado. Resgatou e reafirmou a luta pela
soberania nacional no setor.
ü
A
conquista da redução da jornada de
trabalho, sem redução dos salários, através
da greve dos metalúrgicos da Ford na Bahia,
de 44 horas para 42 horas semanais,
estendida para todo parque industrial do
complexo automotivo. Conseguiu-se a
elevação do nível de emprego,
contribuindo também para o não agravamento
das doenças ocupacionais,
ü
Experiências
de ocupações de terras dos trabalhadores
rurais, dirigidas pela Fetag-BA que, além
de gerar empregos, desenvolveram a produção
de alimentos e contribuíram para o
desenvolvimento regional no estado.
CAMARADAS,
Será
nas mobilizações políticas nacionais e
nas lutas concretas, com independência e
fisionomia própria (como foi demonstrado na
manifestação em Brasília no dia 16 de
agosto), educando as bases em uma
perspectiva revolucionária, anticapitalista
e socialista, que
a C.S.C pode e deve se constituir como uma
alternativa classista para o movimento
sindical brasileiro.
A estruturação do PCdoB no
proletariado está intimamente associada aos
êxitos que obtivermos neste sentido.
VAMOS
À LUTA! VENCEREMOS!
Secretário
Sindical Nacional do PCdoB
Coordenador
Nacional da CSC
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